Che Guevara e Fidel Castro: imagens e influência na política latino-americana. Entrevista especial com Jean Rodrigues Sales

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07 Junho 2007

A forte influência que Cuba exerce sobre a política latino-americana, a crise no PT e a oposição aos Estados Unidos e ao projeto neoliberal são algumas das questões discutidas na entrevista produzida pela IHU On-Line, por telefone, com o historiador Jean Rodrigues Sales. Focado no estudo da história das esquerdas no Brasil, Jean comenta, nesta entrevista, sobre os setores inspirados pela luta liderada por Che Guevara e Fidel Castro, em Cuba, nas décadas passadas, e sobre o atual cenário político latino-americano. Além disso, Jean descreve a crise do PT e a influência marxista dos líderes do governo brasileiro. “A América Latina não vive uma situação muito acalentadora, por causa de toda concentração de renda e de todos os problemas que sofre”, diz.

Jean Rodrigues Sales é graduado em história pela UNESP. Possui mestrado em história realizado na UNICAMP. É doutor em história, também pela UNICAMP, em História Contemporânea, pela Universidade de Borgonha, na França. Seu pós-doutorado foi realizado na USP. É autor de A luta armada contra a ditadura militar: a esquerda brasileira e a influência da Revolução Cubana (São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais foram os setores, além da luta armada, que foram inspirados pelas figuras de Che Guevara e Fidel Castro?

Jean Rodrigues Sales – Antes de responder a esta pergunta, precisamos lembrar do contexto político da época. Cuba vivia, um pouco antes da Revolução, sob a ditadura militar do general Fulgêncio Batista (1). Isso resultou numa série de lutas populares em Cuba, as quais, a partir da segunda metade dos anos 1950, acabaram sendo lideradas por Fidel Castro. O Che Guevara é uma figura que entra um pouco depois. A Revolução Cubana não foi uma revolução socialista nem comunista. Quando aconteceu, foi uma revolução democrática, porque derrubava uma ditadura, e nacional, porque se propunha a resolver problemas crônicos de Cuba e da América Latina, como o da Reforma Agrária, por exemplo.

Precisamos lembrar que o primeiro impacto da Revolução Cubana foi a idéia da Reforma Agrária. Além disso, também conseguiu diminuir o preço dos aluguéis e o custo de vida em Cuba. E esse primeiro impacto acontece sob um setor amplo da sociedade que podemos chamar de um setor democrático ou progressista. Vários setores da sociedade brasileira, de 1959 a 1961, vão apontar para essa Cuba, ainda não socialista, como uma dos caminhos possíveis para se resolver os problemas do Brasil. Nesse sentido, é possível dizer que, tirando o setor ligado ao exército, todo o restante da sociedade política e social organizada se deixou influenciar pela Revolução Cubana. Para reforçar isso, mesmo os Estados Unidos, que vieram a combater fortemente a Revolução Cubana, viram com bons olhos a transformação de Cuba. Não diretamente, mas indiretamente, enxergaram positivamente que os jovens liderados por Fidel haviam derrubado uma ditadura. Alguns setores aqui do Brasil também gostaram do que aconteceu, tomando como exemplo o que aconteceu em Cuba. Essa foi, num primeiro momento, a influência da Revolução Cubana no Brasil.

IHU On-Line - A política atual da América Latina ainda possui influência dessas duas figuras?

Jean Rodrigues Sales – Para responder a esta pergunta, é necessário olhar de uma forma mais geral e dentro de um outro contexto, pois aí já não são mais os anos 1960, mas sim os anos 1990 e 2000. Para isso, é preciso fazer um parêntese importante: nos anos 1960, as figuras do Che e do Fidel são muito emblemáticas, simbolizando e encarnando muita coisa. Principalmente a figura do primeiro, à medida que a Revolução Cubana aconteceu, derrubou o general Fulgêncio e a partir daí a revolução teve todo um histórico de dificuldades e avanços. Em resumo, o que se pode dizer é que em toda essa história da Revolução Cubana, desde 1959 até hoje, a figura do Fidel Castro que acompanha desde o princípio, e que ainda dirige o Estado Cubano, sofreu um desgaste. Por outro lado, a figura do Che Guevara é identificada exatamente com o que há de mais bonito no processo revolucionário cubano. Che Guevara, que já era conhecido desde 1959, é respeitado por amplos setores, tanto que veio ao Brasil durante o governo de Jânio e foi condecorado (2). Quando ele morreu, em 1977, na Bolívia, tornou-se um verdadeiro mártir, porque não precisou lidar com os problemas da realidade prática da história de Cuba, como foi o caso de Fidel. Essas duas figuras são muito emblemáticas, sendo que no caso do Fidel a figura sofreu desgaste pela própria realidade que se via em Cuba. O que ficou do Che Guevara no imaginário coletivo foi um exemplo de doação, de acreditar nos seus ideais e ir até o fim, dando a própria vida por tudo aquilo em que ele acreditava.

Quando falamos o que essas duas figuras representam, a resposta envolve diretamente esse simbolismo que está em torno deles. Atualmente, quando falamos “hoje”, estamos nos referindo aos anos 1990 e 2000. Como todos sabem, não só na América Latina, mas no mundo inteiro, houve um avanço muito grande do neoliberalismo e de certas idéias que se dizem hegemônicas. O historiador e sociólogo estadunidense Francis Fukuyama (3) chegou a dizer que era o fim da história, pois o socialismo havia sendo vencido e que a partir daí o que a humanidade viveria sob aspectos característicos do capitalismo. Então, essas idéias capitalistas tiveram muita força nos anos 1990, e se traduziram numa política econômica bastante ortodoxa, que acabou sendo aplicada não só no Brasil, mas em outros países da América Latina. No final das contas, o resultado, em termos sociais e econômicos, foi ruim. Um bom exemplo foi o da grande crise que a Argentina passou nesse período, indicando que os resultados não foram os melhores. Nos anos 2000, essa política dos anos 1990 começou a ser criticada em toda a América Latina e daí começaram a surgir governos de orientação esquerda. Pode-se até discutir se alguns deles são de esquerda ou não, mas, enfim, surgiram governos que se diferenciavam daqueles com orientação claramente neoliberal. Nesse exemplo, encaixam-se o Brasil, a Venezuela, o Uruguai e o Equador (4).

O que eu posso dizer é que a influência da Revolução Cubana sobre o Brasil e a América Latina está naquilo que ela representou de luta contra o imperialismo norte-americano e de um sonho de se fazer uma sociedade mais justa. É esse significado da Revolução Cubana que é retomado no continente. O que é completamente diferente do tipo de relação que havia nos anos 1960, propriamente dito, entre Cuba e a esquerda brasileira, por exemplo.

IHU On-Line - Como o senhor vê a crise atual no governo e no PT? A influência de Che e Fidel está em decadência no Brasil?

Jean Rodrigues Sales – Essa questão da influência da Revolução Cubana sobre o PT é muito relativa. Eu acho que, enquanto significado de um sonho ou de uma tentativa de se constituir uma sociedade mais justa no continente, os ideais são parecidos. Claro que isso está completamente fora do caso de uma análise histórica concreta, porque todos sabem que Cuba vive numa situação bastante difícil, econômica e politicamente falando. Agora, por outro lado, e isso é um simbolismo que corre pela América Latina, ela representa também o que acontece no mundo inteiro: uma espécie de resistência. Até porque não dá para negar que uma parte do povo cubano, apesar de querer a liberdade política, não pretende voltar ao que existia antes ou se tornar igual ao que existe hoje na América Latina, que não é uma situação muito acalentadora, por causa de toda concentração de renda e de todos os problemas que sofre.

Quanto à questão da crise do PT, ela não tem uma ligação com a crise cubana, até porque é de se ressaltar que essa crise é relativa, diante do fato de que o Presidente da República foi reeleito. Então, essa questão da crise dificilmente poderia ser relacionada com Cuba.

IHU On-Line - E quanto da influência marxista está presente no governo de Lula como um todo?

Jean Rodrigues Sales – O que acontece é o seguinte: existem alguns ministros ou ex-ministros do Governo Lula, como nos casos de José Dirceu e de Dilma Roussef, que nos anos 1960 e 1970 participaram da luta armada contra a ditadura militar, uma luta claramente influenciada pelo marxismo. Essa esquerda, nos anos 1970, ainda no exílio, começou um processo de discussão e autocrítica que acabou, no final das contas, no início dos anos 1980, resultando na formação do Partido dos Trabalhadores. Mas é preciso lembrar que o PT não é fruto só dessas pessoas, pois havia ainda o setor operário, de onde saiu Lula, e a Igreja Católica, que também ajudaram na formação do partido. Mas, como podemos perceber, é um partido que tanto em suas estruturas quanto em suas propostas se afasta muito da política e da estrutura das organizações marxistas dos anos 1960 e 1970.

IHU On-Line – Qual é a perspectiva que o senhor vê na esquerda quando o Governo Lula acabar? Partidos como o PSOL e PC do B terão forças como o PT têm/tinha para defender aos interesses dos mais pobres?

Jean Rodrigues Sales – Eu, pessoalmente, tenho a impressão de que partidos mais à esquerda que o PT não consigam ocupar seu espaço. Acredito que, no final do governo Lula, a polarização estará entre o PT e os partidos do centro-direita ou de direita. Aí depende de como se dará a designação do PSDB e do PMDB, pois não sabemos se a aliança continuará até o final do mandato de Lula.

IHU On-Line - Como o senhor vê a comercialização da imagem de Che e de Fidel? Por exemplo, muitos jovens vestem camisetas com imagem de Che Guevara...

Jean Rodrigues Sales – É curioso, porque essa questão retoma a primeira, quando eu falei do significado das figuras do Che Guevara e do Fidel. Você não vê, em geral, pessoas com camisetas do Fidel Castro. A imagem que existe hoje, muito forte entre a juventude, é a de Che. Claro que há uma comercialização, mas isso é o menos importante. O que eu acho mais significativo é o tipo de apropriação que essas pessoas, esses jovens, estão fazendo da imagem dele. Eles a usam pelo que ela simboliza de rebeldia e contestação, de sonho e de acreditar em suas idéias. Enfim, há uma série de mensagens contestatórias que se fundem nessa imagem do Che Guevara. Essa escolha não se dá por acaso. Não é só o capitalismo que justifica a compra de uma camiseta do Che. Eu acho que é algo simbólico no inconsciente coletivo do mundo inteiro.

Notas:

(1) Foi presidente de Cuba de 1940 a 1944 novamente de 1952 a 1959, como ditador. Foi deposto por Fidel Castro em 1959 e obteve exílio permanente na Ilha da Madeira e em Estoril, em Portugal, e depois na Espanha, morrendo em Guadalmina, Espanha.

(2) Che esteve oficialmente no Brasil em abril de 1961, quando foi condecorado pelo então Presidente Jânio Quadros com a Ordem do Cruzeiro do Sul.

(3) É um filósofo e economista político nipo-estadunidense.

(4) O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva é co-fundador, presidente de honra e filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT). Em 1990, foi um dos organizadores do Foro de São Paulo, que congrega a maior parte dos movimentos políticos de esquerda da América Latina e do Caribe. O presidente da Venezuela é Hugo Chávez. Tabaré Ramón Vázquez Rosas, atual presidente da República Oriental do Uruguai, de tendência socialista, é líder da principal coalizão de esquerda do país, a Frente Amplio. Rafael Vicente Correa Delgado é economista, político e o atual presidente do Equador. Durante sua gestão, propôs uma postura nacionalista, oposta aos organismos multilaterais como o Banco Mundial e o FMI, e a favor de uma maior participação do Estado na exploração do petróleo.

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