Para Paixão Côrtes, gaúcho não precisa aderir a uma representação estancieira, congelada e reacionária. Entrevista especial com Luís Augusto Fischer

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Por: Vitor Necchi | 20 Setembro 2018

Um dos nomes mais celebrados no Rio Grande do Sul, João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes faleceu recentemente, no dia 27 de agosto passado, aos 91 anos. Neste 20 de setembro, data em que temas relacionados à cultura gaúcha ficam em maior evidência pela celebração da Guerra dos Farrapos, o professor Luís Augusto Fischer avalia o legado e a trajetória do folclorista, compositor, radialista, agrônomo e pesquisador Paixão Côrtes.

Fischer, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, entende que Paixão Côrtes, nascido em Santana do Livramento no dia 12 de julho de 1927, não tinha um projeto intelectual consciente, “mas é certo que se pode deduzir algum projeto, no sentido de um fio condutor, mesmo que seja pouco ligado a conceitos e a planos”. No seu entendimento, o que define o trabalho dele “é um genuíno empenho colecionista do que se chamava, na época, de folclore”.

Paixão Côrtes colecionou “elementos da cultura popular e/ou não-letrada e/ou não-urbana”, e isso foi um “serviço de salvamento”, pois a cultura massiva norte-americana “tinha visível ascendência sobre as culturas da periferia americana, incluindo o Brasil, e ameaçava simplesmente sufocar as manifestações culturais populares. O folclorista entra nessa perspectiva “por instinto”, pois “sua geração, vinda do interior, chegava às cidades maiores, como Porto Alegre, e sentia vivamente a força do cinema, da Coca-Cola, dos hábitos ditados pela indústria cultural estadunidense”. Nesse sentido, o seu projeto intelectual era “salvar do esquecimento” e “descrever hábitos” como danças, festas, cantigas etc., o que “converge claramente com um esforço ocidental”, e isso, para Fischer, não é pouca coisa.

Em março de 2004, Fischer entrevistou Paixão Côrtes, que “dizia claramente ser contrário ao engessamento das práticas culturais cetegistas, que estavam regradas em grau extremo, enfatizando que se tratava de um movimento tradicionalista, quer dizer, algo dinâmico e vivo”.

O trabalho de Paixão Côrtes é tão pioneiro e importante que, para Fischer, “seria um belo serviço alguém ajuntar tudo e nos dar um volume consolidado”. Arrisca dizer que o trabalho do folclorista, "no sentido do registro de práticas culturais populares tem valor documental ímpar”.

Para além do seu legado como pesquisador e tradicionalista, Paixão Côrtes tem sua imagem inscrita com alto grau de materialidade no imaginário dos gaúchos. A estátua do Laçador, erigida na entrada de Porto Alegre, foi esculpida por Antônio Caringi em 1954 e teve o folclorista como modelo. Fischer o descreve como “um sujeito agradável, inteligente, agudo, aberto ao diálogo e ao outro em sentido muito amplo, e carregava consigo uma vasta história de trabalhos no campo cultural sulino”.

O professor acredita que o legado de Paixão Côrtes “tem a ver com essa abertura, essa vontade de registrar o mundo, especialmente o mundo dos de baixo”. O tradicionalismo é um movimento sempre tão ortodoxo e normatizador. Em sentindo contrário, um de seus fundadores, Paixão Côrtes, se mostrava mais aberto aos movimentos próprios da cultura. “Nunca o vi exaltando conservadorismo, muito menos o vi considerando que para ser gaúcho era preciso aderir a um tipo de representação estancieira, saudosista, congelada, hierárquica, no fim das contas reacionária”, afirma.

Luís Augusto Fischer | Foto: João Vitor Santos - IHU

 

Luís Augusto Fischer é doutor, mestre e graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, onde leciona. É autor de vários livros, entre eles Dicionário de porto-alegrês (Porto Alegre: L&PM Editores), Literatura gaúcha – História, formação e atualidade (Porto Alegre: Leitura XXI) e Inteligência com dor – Nelson Rodrigues ensaísta (Porto Alegre: Arquipélago Editorial). Fez a edição anotada de Contos gauchescos e Lendas do Sul (Porto Alegre: L&PM Editores), de Simões Lopes Neto, e de Antônio Chimango (Caxias do Sul: Editora Belas Letras), de Amaro Juvenal.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Paixão Côrtes é um dos nomes mais celebrados no Rio Grande do Sul, em particular no que se refere a temas ligados ao folclore, ao tradicionalismo e à identidade gaúcha. Por quê?

Luís Augusto Fischer – Porque foi pioneiro e porque foi referência como formulador. Pioneiro, porque foi um pequeno grupo de jovens, incluindo ele com destaque, que em 1946 teve a iniciativa de expor publicamente o desejo de retomar, refazer, reposicionar culturalmente o passado e aquele presente. Começando com um gesto de civismo – coisa naquela época forte no sentimento público, dada por exemplo a longa doutrinação getulista e a comoção da Segunda Guerra (para a qual o Brasil, e apenas o Brasil em toda a América do Sul, enviou tropas) –, que procurou engatar o nacionalismo brasileiro com o nativismo sul-rio-grandense, a iniciativa logo desbordou desse marco limitado para um grande apetite por pesquisas de folclore, que Paixão desempenhou muitas vezes em companhia de seu amigo Barbosa Lessa. Dessas pesquisas resultou para ele, embora mais para Lessa, uma posição como formulador, como alguém capaz de apontar caminhos para o forte movimento que eles ajudaram a colocar em marcha, a partir do primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o 35 CTG.

IHU On-Line – Qual era o propósito, o projeto intelectual de Paixão Côrtes?

Luís Augusto Fischer – Acho que não havia um projeto intelectual consciente, da parte dele (talvez houvesse da parte do Barbosa Lessa), mas é certo que se pode deduzir algum projeto, no sentido de um fio condutor, mesmo que seja pouco ligado a conceitos e a planos. Creio que o que define o trabalho de Paixão Côrtes nesse sentido é um genuíno empenho colecionista do que se chamava, na época, de folclore. A palavra, como se sabe, passou por muitos apertos e alterações, desde sua invenção intelectual, em meados do século 19; na altura da Segunda Guerra, quando os departamentos e/ou as carreiras de História, Sociologia e Antropologia mal e mal começavam a se desenhar (na UFRGS, por exemplo, a graduação em Ciências Sociais começou em 1958, apenas, bem depois do começo dos trabalhos de Paixão e Lessa), fazer folclore era ainda uma atividade largamente intuitiva, sem clara delimitação de objeto, método e tudo o mais. Em sentido amplo, se pode dizer que o trabalho de colecionar elementos da cultura popular e/ou não-letrada e/ou não-urbana, naquela conjuntura, foi um serviço de salvamento: a cultura massiva norte-americana, já comandada pela indústria cultural (cinema, discos, agentes do show-business etc.), tinha visível ascendência sobre as culturas da periferia americana, incluindo o Brasil, e ameaçava simplesmente sufocar as manifestações culturais populares.

Esse foi um sentimento vivo por parte de muita gente, não apenas do Paixão e do Lessa, mas de gente de sul a norte do país. A própria ONU [Organização das Nações Unidas], criada em 1945, através da Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura], criada no ano seguinte, expediu uma recomendação para que os países tomassem o cuidado de preservar tradições populares, iletradas, espontâneas, comunitárias, enfim, essas tradições que na época pareciam suficiente e claramente abrangidas pelo termo “folclore”. (Hoje em dia se fala, academicamente, de etnografia, etnomusicologia etc., seções das ciências humanas com grande sofisticação conceitual e procedimental, coisas ambas muito distantes do que estava disponível naquele contexto.)

Paixão entra nisso não por uma determinação política explícita, nem por ser agente da Unesco, mas por instinto, já que sua geração, vinda do interior, chegava às cidades maiores, como Porto Alegre, e sentia vivamente a força do cinema, da Coca-Cola, dos hábitos ditados pela indústria cultural estadunidense. Em suma, se pode dizer que seu projeto intelectual, de salvar do esquecimento (às vezes literalmente, como ele fez com prensas de discos da primeira gravadora do sul do Brasil e segunda do Brasil, a Casa A Elétrica, prensas que ele catou num galinheiro e recolheu porque sabia que ali estava um testemunho do passado) e de descrever hábitos (danças, festas, cantigas etc.), converge claramente com um esforço ocidental. E isso não é pouca coisa.

IHU On-Line – Onde ele mais se destacou? Qual a originalidade e a importância do seu trabalho?

Luís Augusto Fischer – Não conheço a íntegra das publicações que o Paixão foi fazendo ao longo da vida, e aliás seria um belo serviço alguém ajuntar tudo e nos dar um volume consolidado, mas arrisco dizer que o trabalho dele no sentido do registro de práticas culturais populares tem valor documental ímpar. Não se trata de considerar tudo o que ele fez como intocável ou definitivo, mas, nas condições reais do que se fez no estado, é um trabalho de grande valor, de inestimável valor para as futuras pesquisas no setor.

IHU On-Line – Que noção Paixão Côrtes tinha de tradição?

Luís Augusto Fischer – Igualmente não me parece que ele tivesse um conceito claro, fechado, ilustrado. Mas, tomando em conta suas práticas e declarações, é visível que ele tinha clara consciência de que o presente, em sua pesquisa, ao mesmo tempo resgatava e recriava o material que estava descrevendo e recolhendo. Não chegaria a dizer que ele tinha total afinidade com a ideia de “invenção das tradições”, tal como se popularizou no campo das ciências humanas, mas não estava longe disso. Lembro que o entrevistei, para a Zero Hora, em março de 2004, e ele dizia claramente ser contrário ao engessamento das práticas culturais cetegistas, que estavam regradas em grau extremo, enfatizando que se tratava de um movimento tradicionalista, quer dizer, algo dinâmico e vivo. Em outras entrevistas e manifestações, ele reiterou essa mesma visada, acentuando o aspecto dinâmico contra o congelamento das regras.

IHU On-Line – O tradicionalismo, e os CTGs em particular, operam a partir da reprodução de um passado épico e idealizado. Os galpões emulam a vida pastoril, o universo da estância. Há um projeto político no tradicionalismo, um projeto de poder?

Luís Augusto Fischer – No tradicionalismo em geral, sim, há uma ideia de poder, uma rede conceitual ligada a preservar o poder de certas hierarquias, certa visão do mundo etc., e mesmo creio que há, ainda que de modo sutil, um desejo de acercar-se do poder de estado, o que de resto se vê na escalada da presença do tradicionalismo em instâncias de poder, seja com cargos, como havia no Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, seja com intervenção na gestão da educação, como se vê em vários episódios em que o MTG quer pautar e regrar o ensino do que considera correto em aulas de crianças, em escolas públicas e privadas, se substituindo a uma orientação mais aberta que pense a cultura popular de modo abrangente, variado, plural. Sem ir mais longe, veja-se o lugar da cultura afro-brasileira nesse universo, como se viu agora no lamentável equívoco da representação de uma suposta senzala na edição 2018 do Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre. É dever da sociedade civil resistir à ideia de uniformizar o ensino e a prática do que se chamava de folclore, ou de cultura popular (culturas populares, talvez mais justamente), venha essa ideia do MTG ou de qualquer outra fonte.

IHU On-Line – Qual é o legado de Paixão Côrtes?

Luís Augusto Fischer – Não tive muitos contatos com ele, mas tive alguns episódios de bastante proximidade, como a entrevista de 2004 e como a ocasião em que ele foi Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, momento em que ele me convidou para conversar com ele e sobre sua obra em público. Foi uma grande conversa, porque ele era um sujeito agradável, inteligente, agudo, aberto ao diálogo e ao outro em sentido muito amplo, e carregava consigo uma vasta história de trabalhos no campo cultural sulino. Eu acho que seu legado tem a ver com essa abertura, essa vontade de registrar o mundo, especialmente o mundo dos de baixo. Nunca o vi exaltando conservadorismo, muito menos o vi considerando que para ser gaúcho era preciso aderir a um tipo de representação estancieira, saudosista, congelada, hierárquica, no fim das contas reacionária.

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