A nova classe trabalhadora, seu imaginário e a reprodução de valores liberais. Entrevista especial com Jordana Dias Pereira

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Por: Patricia Fachin | 27 Abril 2017

Parte dos partidos e da intelectualidade brasileira gosta de enquadrar “as pessoas em ‘caixinhas’” e trabalhar com “categorias totalizantes”, como “direita X esquerda”, mas não percebe que “essas categorias não fazem sentido no imaginário da população”, diz a socióloga Jordana Dias Pereira à IHU On-Line, na entrevista concedida por e-mail, ao comentar os resultados da recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo, sobre a visão política e os valores dos moradores da periferia paulista. Ao invés de rotular esse estrato da população, a pesquisadora frisa que é necessário compreender a multiplicidade de valores aos quais eles aderem. “Por exemplo: elas criminalizam a política institucional, mas têm na democracia um valor; estabelecem redes de solidariedade potentes, mas reforçam a importância da individualidade; querem ser reconhecidas pelo mérito, mas valorizam as políticas públicas quando eficientes; aderem às igrejas, mas não, necessariamente, aos discursos conservadores que elas pregam”. Esses, explica, são “aparentes dualidades ou contradições que coexistem no imaginário político e social dessas pessoas”.

Na avaliação dela, a pesquisa demonstra que “os entrevistados querem ter sua individualidade reconhecida e valorizada” e, portanto, “políticas que não consideram o esforço individual no processo de ascensão tendem a ser desvalorizadas”. Diante desse cenário, pontua, o “desafio” é formular “políticas que considerem essa dimensão”.

Para a esquerda ou setores progressistas, o resultado da pesquisa lança algumas questões que ainda precisam de respostas: “Por quais meios vamos nos reconectar com a classe trabalhadora? Aliás, antes, quem é a nova classe trabalhadora brasileira? Ela não é mais a fabril, sindicalizada no início dos anos 80. Como construir, com ela, um projeto que responda aos seus anseios mais básicos e elementares de ‘viver melhor’? Porque, afinal, é disso também que se trata um projeto democrático-popular: como melhorar a vida das pessoas”.


Jordana  Pereira | Foto: Arquivo pessoal

Jordana Dias Pereira é graduada em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp e colaborou com a pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como você interpreta, de modo geral, o resultado da pesquisa “Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo”, realizada pela Fundação Perseu Abramo?

Jordana Dias Pereira - A Pesquisa fez 63 entrevistas em profundidade e cinco grupos focais com pessoas da periferia com histórico de voto no Partido dos Trabalhadores - PT, mas que deixaram de votar nas últimas duas eleições (2014 e 2016). Encontramos pessoas com percepções de mundo e da política muito complexas. Os partidos e parte da intelectualidade gostam de tentar colocar as pessoas em ‘caixinhas’ ou trabalhar com categorias totalizantes: direita X esquerda; coxinha X mortadela. Essas categorias não fazem sentido no imaginário desta população. Por exemplo: elas criminalizam a política institucional, mas tem na democracia um valor; estabelecem redes de solidariedade potentes, mas reforçam a importância da individualidade; querem ser reconhecidas pelo mérito, mas valorizam as políticas públicas quando eficientes; aderem às igrejas, mas não, necessariamente, aos discursos conservadores que elas pregam. Aparentes dualidades/contradições que coexistem no imaginário político e social destas pessoas.

IHU On-Line - A partir dos resultados da pesquisa, alguns têm avaliado que os moradores da periferia se identificam com valores liberais. O que tem se entendido pelo termo “liberal” ao avaliar os resultados da pesquisa?

Jordana Dias Pereira - Essa conceitualização gerou polêmica. Primeiro é importante elucidar que, como a pesquisa bem traz, o ‘liberalismo’ mesmo que muito presente no discurso num primeiro momento da entrevista, passa a ser questionado quando passamos para a dimensão da vida real e prática do cotidiano. Nesta segunda etapa da entrevista, fica evidente que as pessoas valorizam a presença do Estado e demandam políticas públicas de qualidade. Neste sentido, pode-se dizer que há menos a presença de um neoliberalismo enraizado dos anos 90, que pretendia desconstruir toda e qualquer política pública, e mais de um liberalismo mais clássico, que garantiria serviços básicos de qualidade, mas que estimula o livre comércio e baixo intervencionismo do Estado. Um liberalismo clássico que é ressignificado pelas classes populares e que, obviamente, precisa ser melhor compreendido. Agora, é inegável que há sim uma reprodução de valores liberais e é inegável também que a mídia tem um papel importante nesse processo. Isso me parece bem elementar e razoável e não há grandes novidades. É a ideologia dominante. É o capitalismo.

IHU On-Line - A pesquisa parte da premissa de que as camadas populares passaram a se identificar com a ideologia liberal a partir da expansão econômica que houve no governo Lula. Antes, diria que elas não aderiam a “valores liberais” ou aos valores identificados na pesquisa? Por quê?

Como os serviços públicos não atendem às expectativas de qualidade, as pessoas – que agora podem pagar por esses serviços - passam a buscar por serviços privados

Jordana Dias Pereira - Por óbvio que o ‘liberalismo’ não foi inaugurado no governo Lula. Mas é certo que novas dinâmicas sociais surgem a partir de um momento único no Brasil. Os governos petistas - com políticas de ampliação do crédito, do mercado de trabalho e do aumento do salário mínimo - possibilitaram que a nova classe trabalhadora que se constituía acessasse pela primeira vez bens antes restritos a uma elite. Isso deve ser visto como uma conquista importante da classe trabalhadora. Porém, outro efeito aparece: como os serviços públicos não atendem às expectativas de qualidade, as pessoas – que agora podem pagar por esses serviços - passam a buscar por serviços privados (principalmente de educação e saúde). O ‘boom’ de faculdades particulares e de convênios médicos se dá nesse período não por acaso, mas porque havia público consumidor em potencial. O efeito do que chamamos de ‘inclusão pelo consumo’ é que reforça uma já tradicional distorção na construção da noção de cidadania brasileira: parte dos serviços essenciais é percebida como privilégio de alguns ou como mercadoria, e não como direito universal.

IHU On-Line - Um dos resultados da pesquisa aponta que a polarização política ou não é bem definida ou é inexistente no público estudado. Como interpreta esse resultado? Isso significa que as pessoas entrevistadas não se autoidentificam, nem são adeptas de projetos de esquerda ou de direita ou do partido A, B ou C?

Jordana Dias Pereira - Esse também não é um elemento novo na cultura política brasileira. Mesmo o auge de aprovação do governo petista se tratava menos de uma adesão ao ideário de esquerda (tal qual a intelectualidade o concebe) e mais de uma boa avaliação de um governo que estava, de fato, melhorando o dia a dia das pessoas, oferecendo perspectiva de ascensão social. Como a pesquisa mostra, estas pessoas têm um cotidiano atarefado e, muitas vezes, lhes resta pouco tempo para reflexão da política mais ‘abstrata’. A avaliação delas perpassa muito mais pelo que é tangível, real, concreto - "estou colocando mistura na mesa ou não? A escola do meu filho está garantindo material escolar de qualidade ou não? O atendimento do posto de saúde melhorou ou piorou? Vou conseguir fazer faculdade e me colocar no mercado de trabalho?" - do que por uma discussão e adesão ideológica em abstrato. Somado a isso, há hoje uma crise de representatividade e de descrédito na política – que não é exclusiva do Brasil – que embaralha ainda mais o jogo.

IHU On-Line - Um dos aspectos que chama atenção na pesquisa é a crítica que os moradores da periferia fazem ao Estado. Como está interpretando essa crítica? Você tem dito que, embora haja uma crítica, de outro lado a presença do Estado é desejada. Como esses dois aspectos foram expressos entre os entrevistados e como podem ser conciliados?

Aí está o nó: como desmistificar a meritocracia enganosa e mentirosa ao mesmo tempo em que formulamos políticas e discursos que considerem o mérito e valorizem a individualidade?

Jordana Dias Pereira - Ora, me parece bem natural que as pessoas critiquem o Estado – ao qual elas se referem como ‘governo’, muitas vezes com dificuldade de identificação das esferas municipal, estadual e federal e também entre os poderes Legislativo, Executivo, Judiciário. Outras pesquisas quantitativas de avaliação dos serviços públicos já indicavam a insatisfação das pessoas em relação a eles: muita fila no posto de saúde, escola com violência e com baixa capacidade de ensino, transporte público ruim etc. Muitas vezes, as periferias sentem o Estado só via sua dimensão mais cruel e autoritária, a Polícia Militar. O Estado violenta estas pessoas quando não garante a efetivação de seus direitos. Somado a isso que elas sentem na pele diariamente, há uma forte exposição a notícias e estímulos publicitários que reforçam a ideia de um Estado corrupto, que só rouba e pouco entrega.

Como não ser contra este Estado? É natural que os discursos caminhem neste sentido. No entanto, quando a entrevista perpassa pela dimensão da vida real e prática, é perceptível como estas pessoas valorizam e demandam a presença do Estado. Os Centros Educacionais Unificados - CEUs da gestão petista são um ótimo exemplo disso. Os corredores de ônibus também, assim como a carteira assinada e o Bolsa Família: as pessoas valorizam políticas eficazes. Este resultado é muito consistente a partir dos grupos e entrevistas independentemente de faixa de idade, renda, sexo, raça/cor.

IHU On-Line - De que modo, particularmente, o discurso do mérito aparece nas falas dos entrevistados?

Jordana Dias Pereira - Os entrevistados querem ter sua individualidade reconhecida e valorizada. Políticas que não consideram o esforço individual no processo de ascensão tendem a ser desvalorizadas. Isso é razoável. Fica o desafio de formularmos mais políticas que considerem essa dimensão. O problema é que a ideologia do mérito tem também uma face muito cruel que recai sobre os próprios indivíduos em forma de uma forte autocrítica. No discurso, as pessoas atribuem o sucesso ou não sucesso apenas ao esforço individual, desprezando a dimensão do 'público' neste processo. Uma entrevistada, por exemplo, queria ter concluído o ensino superior. Quando questionamos as razões pelo aparente ‘não sucesso’ ela elencou várias justificativas de ordem material e prática: nunca poderia deixar de trabalhar, a faculdade era longe, oferta de transporte público era escassa, não tinha dinheiro para os trajetos, o circuito casa-trabalho-faculdade-casa lhe tomava muito tempo, acabou engravidando e tinha a responsabilidade de cuidar do filho. Mas, ao final, ela concluía: ‘mas apesar de tudo isso, se eu tivesse me esforçado um pouquinho mais, talvez estivesse num lugar melhor agora...’.

A ideologia do mérito é muito explorada pela direita. Sobre a própria campanha do João Doria Junior à Prefeitura de São Paulo: sabemos que o prefeito é de família de elite, mas o discurso de que ele é um trabalhador que ascendeu pelo próprio esforço ganhou adesão e é muito consistente nas falas dos entrevistados. Aí está nosso nó: como desmistificar a meritocracia enganosa e mentirosa ao mesmo tempo em que formulamos políticas e discursos que considerem o mérito e valorizem a individualidade?

IHU On-Line - Outro aspecto que chama atenção na pesquisa é a relação dos entrevistados com a religião. Como compreende esse dado?

O Estado violenta as pessoas quando não garante a efetivação de seus direitos

Jordana Dias Pereira - As igrejas e a religião desempenham um papel fundamental nas periferias de São Paulo. Em bairros carentes de políticas públicas e com poucas opções de lazer e de espaços de encontro, as igrejas passam a ser importantes espaços de sociabilidade e acolhimento. Nas igrejas neopetencostais essas conexões são ainda potencializadas, pois se estabelecem relações ainda mais próximas, menos mediadas do que nas igrejas católicas, por exemplo. Essas igrejas possuem uma rede de pastores e obreiros que tentam se colocar próximos e disponíveis para dar apoio aos fiéis e, com isso, adentram na casa e na vida das pessoas. Uma entrevistada se disse mais tranquila porque a pastora a ajudava a ‘controlar’ o Facebook da filha. Os líderes religiosos têm participação ativa no dia a dia dos fiéis. Um papel que os núcleos eclesiais de base exerciam no momento da fundação do PT. Assim, parece que a adesão a uma religião se dá muito mais por razões organizacionais que por uma adesão ao discurso em si. O voto religioso nessas periferias pode ser mais um voto de confiança em alguém que o pastor indicou do que por uma concordância a um discurso ultraconservador que o candidato propaga.

IHU On-Line - Considerando a pesquisa de modo geral, que desafios diria que ela lança para a esquerda, que, desde sempre, tem seu discurso vinculado às classes populares?

Jordana Dias Pereira - A esquerda como um todo ou o campo progressista levou a um golpe em 2016 e saiu derrotada das urnas no processo eleitoral de outubro. A pesquisa não espera fazer uma avaliação conjuntural totalizante dos elementos que possibilitaram este cenário, mas elenca alguns pontos que merecem mais escutas e reflexões. Uma direita agressiva avança não só no Brasil, mas no mundo. Por quais meios vamos nos reconectar com a classe trabalhadora? Aliás, antes, quem é a nova classe trabalhadora brasileira? Ela não é mais a fabril, sindicalizada no início dos anos 80. Como construir, com ela, um projeto que responda aos seus anseios mais básicos e elementares de ‘viver melhor’? Porque, afinal, é disso também que se trata um projeto democrático-popular: como melhorar a vida das pessoas.

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