Ética, compromisso e qualidade. O Congresso Mundial das Universidades Católicas. Entrevista especial com Paulo Roberto de Sousa

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01 Mai 2013

“Ética, compromisso e qualidade" é o que buscam sinalizar as Instituições de Ensino Superior católicas", diz o presidente da comissão organizadora do Congresso Mundial das Universidades Católicas – CMUC a ser realizado em Belo Horizonte.

Confira a entrevista.

 Foto: http://profissaomestreegestaoeducacional.blogspot.com.br

"Buscamos propiciar a discussão sobre os desafios que os novos tempos e os novos sentidos aportam às universidades católicas e às pastorais universitárias, sobretudo no que tange à construção de sentido e a fé; ao papel humanizador da educação católica diante dos novos tempos; à educação para a vida familiar, os relacionamentos e o cuidado; e ao protagonismo juvenil na sociedade e na Igreja em vistas da construção de uma cultura da paz", diz Paulo Roberto de Sousa à IHU On-Line, ao apresentar o Congresso Mundial das Universidades Católicas - CMUC, a ser realizado em julho, em Belo Horizonte.

Para ele, apesar de as universidades viverem “um momento de intensa inquietação”, devem “preservar na essência seus valores a despeito dos propósitos discutíveis de uma sociedade que nos impele a toda hora a provarmos nossos valores e nossa qualidade na formação dos jovens”. E continua: “Particularmente entendo que a discussão deva principiar-se pelo entendimento pleno dos documentos da Igreja que regem a educação. Refiro-me primordialmente à Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae e às demais reflexões e orientações acerca da temática”.

Congresso Mundial das Universidades Católicas – CMUC irá reunir universitários, professores, funcionários e gestores de universidades católicas na PUC Minas, em Belo Horizonte, entre os dias 18 e 21-07-2013. No evento serão discutidos os “desafios que os novos tempos e os novos sentidos aportam às universidades católicas e às pastorais universitárias”. Quatro eixos irão nortear as discussões sobre a missão das universidades católicas na atualidade, “sobretudo no que tange à construção de sentido e a fé; ao papel humanizador da educação católica diante dos novos tempos; à educação para a vida familiar, os relacionamentos e o cuidado; e ao protagonismo juvenil na sociedade e na Igreja em vistas da construção de uma cultura da paz”, assinala Paulo Roberto de Sousa na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Graduado em Administração e Ciências Contábeis pela PUC Minas, especialista em Planejamento Estratégico e Sistemas de informação e mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMS, Paulo Roberto de Sousa leciona na PUC Minas e é o atual chefe de gabinete da reitoria da universidade.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a identidade e a missão de uma universidade católica?

 
 

Paulo Roberto de Sousa – Uma universidade católica hoje, apesar de todos os seus desafios, e justamente por causa deles, não pode se afastar de seus princípios. Lembremo-nos que devemos à sociedade a manutenção de um compromisso com uma formação humanística, ética, crítica, socialmente equilibrada, quanto a todos os jovens que estão sob nossos cuidados.

A reflexão acerca da temática “identidade e missão das universidades católicas” tem feito parte da discussão de fóruns ligados à educação católica, em diferentes níveis de participação. Seja por meio de dirigentes, professores, alunos e/ou funcionários administrativos, esta pauta deve ser constantemente referenciada.

Particularmente entendo que a discussão deva principiar-se pelo entendimento pleno dos documentos da Igreja que regem a educação. Refiro-me primordialmente à Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae e às demais reflexões e orientações acerca da temática. Observadas estas considerações, pode-se depreender que identidade e missão devam ser entendidas em um contexto de exigências diversas, sem se perder o eixo central de todo o processo: a missão de formar jovens comprometidos com os valores evangélicos defendidos pela Igreja. Tal exercício, hoje, nos é muito caro e desafiador.

Missão, em contexto mais amplo, significa colocar-se a caminhar, estar em movimento. Ir ao encontro da sociedade. Antecipar-se sempre que possível às demandas da sociedade. Mais que formar profissionais, nossa missão é, e continuará sendo, formar pessoas. E pessoas diferentes para a sociedade, diferenciadas para as organizações que delas necessitam.

HU On-Line – Qual é a proposta do Congresso Mundial de Universidades Católicas, que antecede a 28ª Jornada Mundial da Juventude?

Paulo Roberto de Sousa – Como objetivo geral, buscamos propiciar a discussão sobre os desafios que os novos tempos e os novos sentidos aportam às universidades católicas e às pastorais universitárias, sobretudo no que tange à construção de sentido e a fé; ao papel humanizador da educação católica diante dos novos tempos; à educação para a vida familiar, os relacionamentos e o cuidado; e ao protagonismo juvenil na sociedade e na Igreja em vistas da construção de uma cultura da paz.

Como objetivos específicos, temos:

a) Favorecer o protagonismo da comunidade universitária na sociedade, por meio da discussão de importantes questões contemporâneas.

b) Favorecer a reunião de universidades católicas, suas respectivas comunidades acadêmicas e as pastorais universitárias, propiciando um espaço de congraçamento, interação, diálogo, troca de ideias e partilha.

c) Proporcionar um espaço de debate e encontro entre os vários setores que compõem uma universidade católica: o ensino, a extensão, a pesquisa e a pastoral, em diálogo com as várias áreas do saber nelas presentes: as ciências exatas, naturais, humanas, sociais e aplicadas, a filosofia, a teologia e as artes.

IHU On-Line – Que temas serão abordados no encontro?

Paulo Roberto de Sousa – A Comissão Organizadora do Congresso escolheu como tema principal: Novos tempos, Novos Sentidos. Segundo o Documento de Aparecida, vivemos “hoje uma realidade marcada por grandes mudanças que afetam profundamente” (DA, 33) a vida das pessoas e das sociedades. Urge um espaço de reflexão acerca dessa realidade que nos afeta de forma direta e objetiva, notadamente em nossos propósitos de educadores cristãos. O Congresso abordará o tema acima sob a forma de tratamento de quatro eixos norteadores, quais sejam:


Eixo 1 – Fé e crise de sentido

Este eixo se encontra em consonância com o desejo da Igreja, que decidiu “proclamar um Ano da Fé. Este terá início a 11-10-2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, a 24-11-2013”. A vivência da fé em nossa cultura tem se tornado um desafio para muitos.

Neste contexto é que se procurará refletir sobre a fé em seu aspecto hermenêutico (aquele em que se procura conhecer o projeto salvífico de Deus e interpretá-lo em diálogo com a realidade em que se vive), em seu aspecto existencial, pois a fé implica em um elemento existencial de acolhida da interpelação divina, em “dar o coração” a alguém (do latim: cor + dare = credere), em seu aspecto práxico, pois a fé busca uma ação transformadora no dia a dia por meio da caridade e, por fim, em seu aspecto escatológico, uma vez que a fé já é introdução na vida plena e definitiva do amor Trinitário.

Eixo 2 – Espiritualidade e comunicação: locus de construção do humano

Neste eixo, será discutido o papel humanizador das universidades, pois, em nosso contexto, cada vez mais se afirma a necessidade de uma educação que se oriente para a formação integral do ser humano, que aborde e favoreça a integração de todas as suas dimensões. No caso das universidades católicas, esta necessidade é compreendida como uma missão no campo da educação universitária, pois “nascida no coração da Igreja [...] revelou-se como um centro incomparável de criatividade e de irradiação do saber para o bem da humanidade” (Ex Cordis Ecclesiae, 1), visando consentir e favorecer “aos homens alcançar a medida plena da sua humanidade” (ibidem, 5).

Neste eixo também se encontram temáticas tais como: a universidade e a formação integral do ser humano; ética, qualidade acadêmica e formação profissional; humanização e relacionamentos no seio da comunidade acadêmica; as universidades católicas a serviço da justiça social e da libertação dos pobres e excluídos; o acesso a uma educação de qualidade.

Eixo 3 – Família, amizade, afetividade e sexualidade: desafios para um amor integral

Uma vez que “só a caridade pode transformar completamente o homem” (Novo Millenio Ineunte, 49-51), neste eixo a grande preocupação diz respeito à formação para a prática do amor nos relacionamentos interpessoais, na vida familiar, na vida comunitária e na sociedade, pois nesta temática será abordada também a sexualidade, visto que ela é “um dom de Deus [...] uma dimensão constitutiva da pessoa humana, que nos impulsiona para a realização afetiva no relacionamento com o outro” (Evangelização da Juventude, 103) e que exige uma formação “que integre a sexualidade em um projeto mais amplo de crescimento e maturidade no qual ela seja baseada na liberdade e não no medo; leve em conta as exigências da ética cristã; leve ao amor e à responsabilidade; desperte para a autoestima, principalmente no cuidado com o corpo; tenha Deus, criador da vida, da sexualidade e da alegria, como sua fonte de inspiração” (ibidem, 103).

Eixo 4 – Universidade, cultura da paz e protagonismo juvenil

Este eixo busca o protagonismo juvenil, seja no âmbito do exercício da profissão ou no exercício dialogal numa sociedade marcada pela diversidade cultural, seja no mundo da política ou na busca da construção de uma sociedade mais sustentável, seja ainda participando ativamente da vida eclesial por meio de sua inserção em alguma pastoral. Os jovens devem se sentir encorajados a continuar a investigação da verdade e do seu significado durante toda a vida “e de se tornarem capazes de formar um juízo pessoal e de cultivar o sentido religioso, moral e social” (Gaudiu et Spes, 59; Ex Cordis Ecclesiae, 23), desenvolvendo a “responsabilidade de contribuir concretamente para o progresso da sociedade” (Ex Cordis Ecclesiae, 34) e “assumir lugares de responsabilidade na Igreja” (ibidem, 31).

IHU On-Line – As universidades católicas recebem críticas por terem uma preocupação em transmitir valores éticos, morais e religiosos a seus alunos. Como o senhor vê essa crítica? Ela é fundamentada?

Paulo Roberto de Sousa – Em primeiro lugar, temos que entender que estamos inseridos em uma sociedade plural, multicultural, na qual as visões e percepções se multiplicam. Com a intensificação da tecnologia da informação e sua transformação em algo comoditizado, o acesso a dados se amplia.

A formatação das informações se complexifica paradoxalmente. Uma tendência à superficialidade se manifesta em virtude de exigências de tempo, de aceleração da vida, da procura de mais “conhecimento” num sistema cumulativo e acrítico, muitas vezes de forma automática e imperceptível em cada um de nós.

Diante desse quadro estamos cotidianamente sujeitos a críticas. Ainda mais se observarmos os preceitos evangélicos que devem nos reger. Sabemos que os caminhos dessa formação são tortuosos. Acredito que a crítica pura em algum momento não se sustenta, pois não seria, ao menos para nosso construto cognitivo, a princípio inteligível para a formação de jovens, quem não os deseja ética e moralmente preparados.

De nossa parte julgamo-nos sempre em processo de aprendizagem e de construção para formarmos cidadãos, pautando-nos pelo que acreditamos e no que, por conseguinte, aprimoramos em nossas pesquisas e trabalhos junto à sociedade.

IHU On-Line – Quais os principais desafios às universidades católicas?

Paulo Roberto de Sousa – Serem católicas. Expressarem por sua forma de atuação os ideais evangélicos, coordenados com os documentos da Igreja que regem o ensino em nossa tradição. Preservar na essência seus valores a despeito dos propósitos discutíveis de uma sociedade que nos impele a toda hora a provarmos nossos valores e nossa qualidade na formação dos jovens.

IHU On-Line – Como vê as relações estabelecidas entre universidades, Estado e as multinacionais na produção do conhecimento?

Paulo Roberto de Sousa – Ainda há muito que se construir. É inegável que em tempos recentes universidades, Estado e empresas têm se aproximado. Mas ainda esta proximidade é pouco geradora de benefícios concretos à sociedade. São três entes sociais que podem se complementar naquilo que a expertise de cada um pode oferecer, mas, que às vezes, nos dão a impressão de ainda estarem andando em linhas paralelas e de razoável distância entre si.

É necessário que se estimule a ação de órgãos agregadores, catalizadores de uma reação que está pronta para se apresentar. Talvez os órgãos possam ser encontrados dentre aqueles com os quais as nossas instituições de ensino superior (ou IES simplesmente) se relacionam no dia a dia. No entanto, é preciso que se quebrem paradigmas entre estes três organismos para que, questionando seu próprio status quo, possam entender que a sociedade precisa de todos e que a sinergia entre eles é primordial no construto social desse novo milênio.

IHU On-Line – Como avalia as universidades católicas brasileiras?

Paulo Roberto de Sousa – Entendo que nossas universidades vivem um momento de intensa inquietação. Além de todos os aspectos ligados ao processo formativo de nossos jovens, os tempos hoje requerem um aprofundamento nas questões organizacionais, uma reflexão sobre o que quer de nós a sociedade e um olhar focado nas exigências de nossa sobrevivência enquanto IES. Percebo também uma ideia de rede, seja no estreitamento das relações, seja na troca de experiências da vivência de cada uma, para o enriquecimento de todas.

O segmento superior de educação católica tem uma marca forte, própria e inconfundível no cenário educacional. Devemos consentir e não apenas acenar à sinergia, tornando-a concreta. Urge que façamos um exercício diuturno para que nossos objetivos e valores sejam conservados, às vezes resgatados e prevaleçam. Temos capacidade, qualidade e certamente competência para enfrentar estes novos tempos. O que se percebe, e que talvez careça de uma qualificação mais científica, é que a marca de nossas IES é forte e representativa. Sinaliza ética, compromisso e qualidade. O que nos falta hoje, em tese, e que seguramente temos buscado, é fazer mais para que sejamos reconhecidos pelo diferencial que representamos.

IHU On-Line – Como conciliar a formação humanística e social de orientação cristã em uma universidade/empresa?

Paulo Roberto de Sousa – Esta aí a essência do desafio ao qual nos referimos na resposta anterior. Não podemos abandonar as questões ligadas à sustentabilidade e a um só tempo, não podemos abrir mão de nossos valores e princípios. Para nós a formação e o ensino não são uma “mercadoria”, embora devamos reconhecer que se trata de uma prestação de serviço à comunidade. Para garantirmos qualidade, temos que assegurar nossa capacidade de honrar compromissos. Responder às exigências de respostas ágeis e de conteúdo claro, às demandas. Não se faz isso sem um corpo de profissionais preparado para os desafios de competividade aos quais estão expostas nossas organizações e, por conseguinte, aqueles que estamos formando, preparando para servir à sociedade.

No entanto, esta condição objetiva não nos pode afastar da verdadeira missão de IES cristãs, sobre a qual já discorremos anteriormente. Termos como planejamento, estratégia, metas, cenários, previsão orçamentária, começam a ganhar espaço entre nossas IES. A pari passo as discussões sobre educação, formação humanística, valores éticos, religiosos e reflexões sobre nosso papel na sociedade também caminham.

Portanto, nossas agendas devem pautar a um só tempo, estes dois desafios. Não nos é permitido relegar o cuidado com a gestão, ignorar ferramentas para a qualidade e uma produtividade que respeite às pessoas e valorize um ambiente saudável e cristão. Em paralelo, um olhar crítico e sempre atual sobre as demandas da sociedade. Um olhar que deve estimular sempre nossos jovens a entenderem os objetivos e compromissos de cada um com os preceitos evangélicos, e entre eles estar o de ser “sal da terra e luz do mundo”.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Paulo Roberto de Sousa – Sim. Em primeiro lugar, agradecer a gentileza do convite para registrar essas impressões em um veículo e em uma instituição de tanta representatividade.
Ainda aproveitar para reiterar o convite no sentido de que todos estejam conosco durante o Congresso Mundial de Universidades Católicas – CMUC. Temos certeza que teremos um excelente congresso e uma oportunidade ímpar de nos encontrarmos e discutirmos nossos desafios comuns, além de estreitarmos nossos laços de irmãos na fé e no compromisso com a educação. Serão todos muito bem vindos a estas terras das minas gerais.

Nota: A imagem acima que ilustra a entrevista é a PUC-MG, local do Congresso. Fonte: www.pucminas.br

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