Torcidas Queer e a homofobia nos estádios de futebol. Entrevista especial com Gustavo Andrada Bandeira

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02 Maio 2013

"Não apenas as torcidas, mas também as produções do futebol gaúcho como um todo valorizam a masculinidade, virilidade, machismo... Essas narrativas acabam produzindo uma heteronormatividade que inclui a homofobia", constata o pedagogo.

Confira a entrevista.

Foto: Zero Hora

“Há homofobia nos estádios de futebol. Ela é tão marcada que a própria imprensa esportiva nem mesmo a entende como algo violento ou como um acontecimento digno de ser narrado”, diz Gustavo Andrada Bandeira à IHU On-Line. Autor da dissertação intitulada Eu canto, bebo e brigo... alegria do meu coração: currículo de masculinidades nos estádios de futebol, o pedagogo analisa o comportamento masculino nos estádios de futebol, onde a sexualidade “aparece o tempo todo em diferentes expressões das torcidas, dos atletas e, eventualmente, até da imprensa”. Segundo ele, existe uma constante “necessidade de manifestação da heterossexualidade que se dá, especialmente a partir dos xingamentos homofóbicos que podem ser ditos contra todo e qualquer ator do espetáculo: jogadores adversários, jogadores da própria equipe, árbitros, profissionais da imprensa e, o alvo principal, o torcedor adversário”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Bandeira comenta o surgimento das torcidas queer nos estádios de futebol, a exemplo das gaúchas QUEERlorado e Grêmio Queer. Para o entrevistado, elas estão vinculadas a “uma série de ações, especialmente as afirmativas, dos movimentos sociais e, claro, a potencialidade das redes sociais que alteram os lugares tradicionais de autoria e permitem uma exposição de correntes distintas de pensamento”. Apesar de repercutirem nas redes sociais, “ainda não é possível saber como os torcedores nos estádios se manifestarão em relação às chamadas torcidas queer, uma vez que as curtas experiências de torcidas que pregavam a diversidade sexual datam da década de 1970 e foram todas extintas”, pondera.

Gustavo Andrada Bandeira (foto abaixo) possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e mestrado em Educação pela mesma universidade. É Técnico em Assuntos Educacionais da Escola de Administração da UFRGS, onde leciona no curso de Especialização em Jornalismo Esportivo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como a sexualidade é manifestada nos estádios de futebol?

Foto: http://www.ufrgs.br

Gustavo Andrada Bandeira - Meu pressuposto inicial é de que os estádios de futebol são espaços de produção e circulação de significados que ensinam formas de comportamentos adequados para os sujeitos que quiserem fazer parte deste espaço. Um dos "conteúdos" mais importantes desses ensinamentos se refere ao gênero. Os estádios de futebol no Brasil são um importante local da cultura para a formação de meninos e homens. Evidentemente, as meninas/mulheres também participam deste espaço. Porém, tenho a impressão de que suas feminilidades não estão em jogo nesse local (ao menos não com a mesma intensidade das masculinidades). Um dos mais importantes conteúdos das construções de gênero em nossa cultura é a sexualidade. Nos estádios ela aparece o tempo todo em diferentes expressões das torcidas, dos atletas e, eventualmente, até da imprensa. Existe uma constante necessidade de manifestação da heterossexualidade que se dá especialmente a partir dos xingamentos homofóbicos que podem ser ditos contra todo e qualquer ator do espetáculo: jogadores adversários, jogadores da própria equipe, árbitros, profissionais da imprensa e, o alvo principal, o torcedor adversário.

IHU On-Line - Sua dissertação de mestrado trata sobre as manifestações de masculinidade nas torcidas da dupla Grenal. Como ela se manifesta?

Gustavo Andrada Bandeira - Na dissertação encontrei o que chamei de "currículo de masculinidade dos torcedores de estádio". Dividi esse currículo em quatro tópicos: o primeiro deles intitulado "Raça, garra e luta" apontava para a necessidade dos atletas e dos torcedores em mostrarem algo a mais. Um jogador de futebol não tem sucesso na Dupla Grenal apenas com habilidade futebolística. Ele precisa se doar em campo e mostrar uma grande entrega e esforço. Em alguma medida, essa discursividade chega até os torcedores (mais especialmente os que iniciam os cânticos nos estádios) que precisam gritar mais, ficar em pé e incentivar o time o tempo todo.

No segundo tópico, "Violência como forma de socialização?", apontei para a existência de uma permissividade para diferentes manifestações de violência e preconceito nas torcidas, existindo apenas a condenação das agressões físicas. Espera-se que os atletas sejam viris e utilizem alguns recursos violentos para auxiliar na vitória. O mesmo não é permitido para os jogadores dos times adversários.

O terceiro item do currículo era a "Afetividade: um amor de macho" e mostrava como, nesse ambiente bastante masculino, machista e heteronormativo, as expressões de afetividade apareciam. Os homens se abraçam mais em estádios de futebol do que em outros lugares da cultura. Porém, isso só acontece porque existe um permanente exercício de garantia da heterossexualidade. Os torcedores se abraçam em momentos restritos da partida e isso só pode acontecer dentro da "nossa torcida" que já garantiu por diferentes exercícios sua "condição de virilidade".

Por fim, apareceu o item "A masculinidade subalterna da torcida rival". Todo o investimento das "garantias" da heterossexualidade acontece na construção do torcedor adversário. Os torcedores adversários são transformados em homossexuais, desviantes e inferiores. É esse exercício que define a heterossexualidade da "nossa torcida". Para exemplificar, um torcedor do Grêmio não gritará "Gremista é heterossexual", ele grita "Colorado é homossexual" (Os termos são, evidentemente, mais depreciativos.) O mesmo acontece na torcida do Internacional.

IHU On-Line - Como explicar o fenômeno das torcidas queer, como a Galo Queer, do Atlético-MG, e as gaúchas QUEERlorado e Grêmio Queer?

Gustavo Andrada Bandeira - Esse movimento é muito interessante e muito recente. Ele rompe com as tradicionais vinculações esportivas. A bandeira da tolerância atravessa as diferentes torcidas. Torcedores do Grêmio e do Internacional, por exemplo, defendem juntos um mesmo "projeto de torcer". Em outros casos, mesmo que as torcidas tenham manifestações muito parecidas, elas afirmam, sempre que possível, suas diferenças. Acredito que esse aparecimento esteja vinculado com uma série de ações, especialmente as afirmativas, dos movimentos sociais e, claro, a potencialidade das redes sociais que alteram os lugares tradicionais de autoria e permitem uma exposição de correntes distintas de pensamento.

IHU On-Line - O senhor concorda que há homofobia nos estádios de futebol? Como os torcedores se manifestam diante das torcidas queer? Essas torcidas sofrem preconceito?

Gustavo Andrada Bandeira - Sim. Há homofobia nos estádios de futebol. Ela é tão marcada que a própria imprensa esportiva nem mesmo a entende como algo violento ou como um acontecimento digno de ser narrado. Ainda não é possível saber como os torcedores nos estádios se manifestarão em relação às chamadas torcidas queer, uma vez que as curtas experiências de torcidas que pregavam a diversidade sexual datam da década de 1970 e foram todas extintas. Nas redes sociais, porém, existe uma grande afirmação da intolerância contra esses torcedores incluindo ameaças, provocações e a afirmação de valores conservadores.

IHU On-Line - Com a presença das torcidas queer, que mudança de postura é possível esperar no comportamento das torcidas em relação aos homossexuais?

Gustavo Andrada Bandeira - É preciso aguardar para verificarmos se estas torcidas conseguirão (espero que consigam) realizar suas manifestações nos estádios. Espero estar enganado, mas acredito que o ambiente seria muito hostil contra essas manifestações. Mudanças certamente aparecerão, mas não é possível saber se essas mudanças levariam os torcedores a serem mais tolerantes ou reacionários.

IHU On-Line - Qual é o perfil das torcidas gaúchas? Em que medida tal perfil tende a aceitar ou rejeitar as torcidas queer?

Gustavo Andrada Bandeira - Não apenas as torcidas, mas também as produções do futebol gaúcho como um todo valorizam a masculinidade, a virilidade, o machismo... Essas narrativas acabam produzindo uma heteronormatividade que inclui a homofobia. Neste momento, infelizmente, estou mais inclinado a apostar que essas torcidas seriam rejeitadas, especialmente nos estádios.

IHU On-Line - O senhor declarou recentemente que o processo de elitização dos estádios brasileiros pode barrar o movimento das torcidas queer. Isso já está acontecendo?

Gustavo Andrada Bandeira - Ainda não é possível perceber todas as transformações que as novas arenas trarão para os comportamentos dos diferentes torcedores. Existe uma tendência à restrição de comportamentos coletivos como um todo. De alguma forma, isso incluiria as torcidas queer. Historicamente, movimentos de elitização não garantem expressões de comportamentos mais plurais. Ao contrário, movimentos de elitização, geralmente, carregam consigo um movimento mais conservador.

IHU On-Line - Como avalia as manifestações das torcidas queer nas redes sociais e no mundo real?

Gustavo Andrada Bandeira - Sou muito simpático a essas manifestações. Acredito que elas já trouxeram um ganho importante que é colocar essas discussões em pauta. Em alguma medida, esta já é uma discussão do "mundo real". Ainda não visualizei manifestações neste sentido nos estádios.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Gustavo Andrada Bandeira - Os esportes constituem uma área de conhecimento que ainda se vale de definições claras e distintivas entre os gêneros. Não temos como negar que a associação entre gênero, sexualidade e desejo heterossexual são facilmente associados em nossa cultura. Para aumentarmos as possibilidades de resistência, talvez seja necessário borrar os gêneros e começar a duvidar um pouco mais do que é ou seria masculinidade, feminilidade, sexualidade...

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