Expectativas para o desenvolvimento brasileiro. Entrevista especial com William Vella Nozaki

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19 Novembro 2010

Ao comentar o projeto de desenvolvimento mais adequado para o Brasil, William Vella Nozaki enfatiza que o melhor caminho para o país “é a integração” da atividade industrial com a exportação de commodities, “de forma que a industrialização tome a dianteira em face da exportação de commodities”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele enfatiza que o “fundamental e decisivo para os próximos anos é que as divisas e reservas atraídas via exportação de commodities sejam utilizadas a fim de melhorar as condições macroeconômicas para que o Estado volte a rearticular sua capacidade de coordenar e planejar o desenvolvimento da indústria nacional, de modo que se possa aprofundar a diferenciação da estrutura produtiva para os setores  de alta tecnologia”.

Para que se possa criar alternativas de desenvolvimento mais inclusivas e sustentáveis é preciso “a ampliação de uma política de financiamento de longo prazo para a indústria. Nesse sentido, os bancos públicos são peças decisivas nesse tabuleiro, talvez as mais importantes hoje, com destaque para o BNDES e sua política ‘pick the winner’”.

Segundo Nozaki, o pré-sal traz a possibilidade de o país “desfrutar, simultaneamente, de moeda conversível e indústria de alta tecnologia”. Na opinião dele, “o ideal seria que o país utilizasse os recursos da venda interna do petróleo dentro do país e que investisse no exterior os recursos oriundos das exportações, a fim de controlar uma valorização excessiva da moeda nacional”.

William Vella Nozaki é formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo - USP, mestre e doutorando em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Atualmente é pesquisador do PNPD-IPEA no projeto Arquitetura Financeira Internacional.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que modelo de desenvolvimento o Brasil deve investir nos próximos anos?  Industrialização e exportação de commodities ainda são relevantes para garantir o crescimento e desenvolvimento?

William Vella Nozaki - É importante notar que a industrialização e a exportação de commodities não são modelos que se excluem mutuamente.

A exportação de bens primários do século XIX não se confunde com a exportação de commodities do século XXI. O avanço da cultura de grãos em direção ao centro-oeste e o avanço da exploração de petróleo em águas profundas mobilizam a indústria, já que exigem uso intenso de tecnologia. A questão é que na maior parte das vezes essa tecnologia não é nacional. Por isso, é evidente que a exploração de commodities por si só não garante o desenvolvimento.

O fundamental e decisivo para os próximos anos é que as divisas e reservas atraídas via exportação de commodities sejam utilizadas a fim de melhorar as condições macroeconômicas para que o Estado volte a rearticular sua capacidade de coordenar e planejar o desenvolvimento da indústria nacional, de modo que se possa aprofundar a diferenciação da estrutura produtiva para os setores  de alta tecnologia.

O dinamismo industrial com geração de emprego e renda, somado à capacidade de as commodities atraírem reservas e divisas para dentro do país são os pressupostos para que possamos discutir alternativas de desenvolvimento mais inclusivas e sustentáveis.   

IHU On-Line - No caso brasileiro, como conciliar exportação de commodities e industrialização? Que caminho é melhor para o país hoje?

William Vella Nozaki - O melhor caminho para o país é a integração dessas duas atividades, mas de forma que a industrialização tome a dianteira em face da exportação de commodities. Na prática, a integração já existe; nos últimos anos a Petrobrás foi responsável pela ressurreição da indústria naval brasileira, enquanto a Vale do Rio Doce foi fundamental para a recriação da indústria ferroviária. Uso esses dois exemplos não por acaso, pois eles revelam uma virtude e um vício do nosso padrão de integração indústria/commodities. A virtude: o papel fundamental exercido pela grande empresa nacional com destaque para a empresa estatal; o vício: a prioridade das commodities sobre os setores industriais que, a propósito, não são aqueles que utilizam as grandes tecnologias da terceira revolução industrial.
O passo decisivo para que essa conciliação se torne integralmente virtuosa é a ampliação de uma política de financiamento de longo prazo para a indústria. Nesse sentido, os bancos públicos são peças decisivas nesse tabuleiro, talvez as mais importantes hoje, com destaque para o BNDES e sua política “pick the winner”.
 
IHU On-Line - Quais as implicações da guerra cambial para o processo de industrialização brasileiro?

William Vella Nozaki - A indústria no Brasil está caminhando, ainda que não seja a indústria ideal: nacional, tecnológica e exportadora. É evidente que a recente guerra cambial está tendo um impacto sobre esse processo. Entre nós, o avanço acelerado das importações em comparação com as exportações e o encolhimento das manufaturas na pauta exportadora já começam a revelar seus efeitos. Mas a sustentação dos altos níveis de reservas internacionais tem, ao menos por enquanto, evitado maiores riscos de financiamento das contas externas.

Considerando esses fatores, se, por um lado, a guerra cambial não deve promover a desindustrialização brasileira, por outro lado ela também não ajuda no avanço da industrialização, ela não favorece o aprofundamento tecnológico e o adensamento das cadeias produtivas.

O cenário é complexo, e a questão depende de respostas que ultrapassam as fronteiras brasileiras. Os EUA necessitam da desvalorização do dólar para minimizar seus déficits comerciais, enquanto a China não abre mão da desvalorização do yuan para maximizar seus superávits comerciais. Diante desse cabo de guerra, países em desenvolvimento como o Brasil segue recebendo capitais estrangeiros desmesuradamente.

Essa guerra cambial, provavelmente, terá desdobramentos políticos e econômicos complexos que fogem do controle deste ou daquele país individualmente. Isso não significa, entretanto, que os países não devam tomar medidas contra esse problema. No nosso caso, a redução da taxa de juros e a implementação de medidas para o controle da entrada e da saída de capitais seriam bastante oportunas para filtrar os capitais que aportam no país contendo assim parcela da valorização cambial do real.

IHU On-Line – O Brasil tem um projeto de desenvolvimento social, atento para a diminuição da pobreza e incremento da igualdade? De que maneira as políticas econômicas estão articuladas em função de um projeto de desenvolvimento social?

William Vella Nozaki - O governo Lula protagonizou o avanço de dois processos notáveis no que se refere à questão social: a melhora na distribuição de renda e a redução da pobreza extrema. Mas em muitas ocasiões esses objetivos foram obstaculizados pela própria política macroeconômica. Isso fez com que o governo conduzisse seu projeto de desenvolvimento social pelas linhas de menor resistência diante dos grandes interesses econômicos.

Sendo assim, o conservadorismo na política monetária com os juros muito elevados foi minimizado pelo avanço da política de crédito dos bancos públicos federais, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e BNDES. Do mesmo modo, a timidez na política fiscal foi contornada pela expansão da política salarial, com aumento real do salário mínimo, e pela expansão da política social, com o avanço do programa Bolsa Família.

IHU On-Line - Qual o impacto do aumento progressivo do salário mínimo e dos programas de transferência de renda na eliminação da miséria e das desigualdades sociais?

William Vella Nozaki - Do ponto de vista econômico, essas medidas tiveram um impacto bastante positivo, convocando parte importante da população para o mundo do consumo, estimulando a demanda tanto em âmbito nacional quanto em níveis regional e local. Do ponto de vista político os dividendos foram igualmente positivos, como evidenciam os níveis de popularidade do governo e as disputas pela paternidade de programas como o Bolsa Família.

Mas desse relativo sucesso surgem questões que ultrapassam o debate econômico. Enquanto os setores mais próximos da direita se incomodaram com a ascensão da nova classe média já que isso significou uma afronta aos seus padrões de consumo conspícuo e aos seus desejos de diferenciação nobiliárquica, os setores da extrema esquerda se incomodaram com a chegada dos trabalhadores subaltenos ao mundo do consumo, pois, isso, na opinião deles, foi expressão da cooptação e da alienação promovida por um governo supostamente populista.

É assustador como no Brasil ainda há amplos setores despreparados, política e intelectualmente, para lhe dar com a melhora na distribuição de renda e com a ampliação no consumo de massa. Esses setores subestimam a autonomia e a inteligência de parte significativa da população brasileira.

IHU On-Line - Qual deve ser a posição do país diante das reservas do pré-sal? Essas reservas podem impulsionar o país para um novo momento econômico e social?

William Vella Nozaki - Um dos problemas crônicos dos países periféricos é a impossibilidade de desfrutar, simultaneamente, de moeda conversível e de indústria de alta tecnologia. O pré-sal traz ao Brasil a possibilidade de conquistar essa combinação. A venda de petróleo trará dólares que valorizarão a moeda nacional e a exploração em águas profundas pode irradiar um complexo tecnológico a partir do setor de hidrocarbonetos. Mas essa é apenas uma possibilidade e por trás dela há riscos que precisam ser bem gerenciados.

Em primeiro lugar, o ideal seria que o país utilizasse os recursos da venda interna do petróleo dentro do país e que investisse no exterior os recursos oriundos das exportações, a fim de controlar uma valorização excessiva da moeda nacional.

Em segundo lugar, os ganhos com impostos e royalties podem servir para beneficiar as gerações presentes, enquanto os ganhos com a rentabilidade das aplicações e investimentos podem servir para contemplar as gerações futuras.

Em terceiro lugar, é importante que as riquezas do petróleo sejam compartilhadas por todos os entes federativos – união, estados e municípios – para que haja efetivamente uma socialização dos ganhos.
Essas operações podem ser realizadas através do Fundo Soberano, de modo que o país crie uma poupança de longo prazo para sanar problemas crônicos relacionados ao desenvolvimento social, educacional e tecnológico, como tem pretendido o governo, ao mesmo tempo em que evita os riscos de desindustrialização e reprimarização da economia.

O pré-sal pode, sim, impulsionar um novo momento econômico e social, mas precisa ser bem administrado, com responsabilidade e de acordo com os interesses públicos e nacionais. 
 
IHU On-Line - O senhor disse que entre 2008 e 2010, em função da falta de liquidez, a regulação, a fiscalização e o crédito estatal foram fundamentais na economia. Considerando o atual contexto internacional, essas medidas deverão ser mantidas no governo Dilma?

William Vella Nozaki - A atuação do Banco Central e do Ministério da Fazenda foram fundamentais ao longo da crise, mas as medidas tomadas pelos bancos públicos merecem destaque especial. As instituições financeiras públicas tiveram um papel anticíclico muito importante ao longo da crise financeira. O BNDES garantiu financiamentos de longo prazo para a indústria e para os setores de infraestrutura e logística, o Banco do Brasil sustentou o crédito agrícola e a Caixa Econômica Federal ampliou o crédito habitacional em níveis bastante elevados através do programa Minha Casa, Minha Vida. Além disso, com o aval do Banco Central, Banco do Brasil e Caixa Econômica fortaleceram suas posições de mercado com a compra de carteiras de bancos menores em dificuldade.

Essas instituições, atuando em conjunto, têm o poder de aquecer o crédito, o investimento e o financiamento nacional. Além disso, elas podem contornar os efeitos contracionistas dos juros altos e os efeitos restritivos dos spreads bancários elevados.

A crise financeira explicitou o fato de que a política monetária de manutenção da estabilização pode ser acompanhada e contrabalanceada por uma política creditícia que favoreça o crescimento. Espero que essa lição não se perca e que nos próximos anos os bancos públicos sejam utilizados de forma ativa como parte da política macroeconômica de desenvolvimento.

IHU On-Line – Ao que tudo indica, Dilma governará em um contexto econômico internacional mais crítico. Quais os desafios nesse sentido?

William Vella Nozaki - No curto prazo, o cenário internacional dificilmente retomará as taxas de crescimento das últimas décadas. Isso se deve à natureza e à extensão da crise de 2008, que a partir do circuito financeiro impôs volumosas perdas à praticamente todos os países importantes e a todos os grandes players globais.

Diante da desaceleração dos países desenvolvidos a demanda internacional via comércio deve continuar se desaquecendo, o que provavelmente aumentará a importância do mercado interno para países em desenvolvimento como o Brasil.

Para que o potencial do nosso mercado interno seja utilizado de forma adequada, é fundamental que se aprofunde o investimento. Daí a importância do gasto público em infraestrutura, e é imprescindível que continue se ampliando o poder de consumo. Daí a relevância da distribuição de renda e da ampliação do crédito.

Mas para que isso se concretize, é necessária uma revisão da elevada taxa de juros e que o próximo governo comece a pensar maneiras para contornar o entrave fiscal. É importante ampliar investimentos públicos e gastos sociais sem aumentar os impostos e a dívida pública. E, diante desse, cenário a única certeza é que o Brasil não pode se dar ao luxo de parar de crescer.

IHu On-Line - Em que consiste, na sua opinião, o projeto de desenvolvimento da nova presidente eleita, Dilma Rousseff?

William Vella Nozaki - Com relação ao próximo governo, tenho mais expectativas do que certezas. Acredito que a maior parte da população aprovou e elegeu um projeto de crescimento econômico com distribuição de renda e consumo de massa. Espero que esse projeto avance, buscando resolver certos entraves: o patamar elevado da taxa de juros, a sobrevalorização do câmbio, os gargalos de infraestrutura e tecnologia e a falta de fontes de financiamento de longo prazo. Dessa forma, poderemos voltar a repensar o sentido e o significado do desenvolvimento brasileiro.

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