"A campanha da Marina foi sustentada pela grande imprensa’. Entrevista especial com Mario Maestri

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24 Outubro 2010

Para compreender o resultado das eleições deste ano e para onde vai o segundo turno, Mario Maestri parte do contexto local e analisa sobre o que levou Tarso ao governo ainda no primeiro turno. Assim, primeiramente, ele contextualiza o cenário político do Rio Grande do Sul, passando pela tradição política do estado até chegar aos últimos governos e seus fracassos. “O povo depositou sua esperança no PT de Tarso, pois as outras opções eram, realmente, patéticas. Então, acho que esse governo não é nem mesmo uma retomada do projeto inicial, mas o resultado das situações conjunturais”, explicou ele na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line.

Na segunda parte da entrevista, Maestri reflete sobre a campanha, os candidatos e os resultados da eleição presidencial. “Essa campanha presidencial se dá com uma virulência e violência que nos lembra a campanha na disputa entre Collor e Lula, em 1989”, compara.

Mário Maestri é graduado em Ciências Históricas, pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica, onde também realizou mestrado e doutorado na mesma área. Atualmente, é professor da Universidade de Passo Fundo. É autor de Uma história do Rio Grande do Sul: a ocupação do território (Passo Fundo: UPF Editora, 2006), O escravo no Rio Grande do Sul: trabalho, resistência, sociedade (Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006) e Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário (São Paulo: Expressão Popular, 2007), entre outros.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O Rio Grande do Sul não tem tradição histórica de eleição petista. O que explica a eleição de Tarso Genro (PT) como governador em primeiro turno?

Mario Maestri – O Rio Grande do Sul possui uma antiguíssima tradição política que aponta para setores delimitados do mundo político e como projeto político. Podemos ver que a fundação do RS moderno, a fundação republicana do estado, diverge significativamente do resto do Brasil. Nós tivemos aqui um projeto vitorioso dos republicanos históricos castilhistas-borgistas de orientação positivista que apontavam para um projeto de refundação da economia e da sociedade rio-grandenses num sentido autonômico, pró-capitalista e pró-mercantil. Isso em clara oposição aos setores liberais latifundiários que haviam hegemonizado o mundo político-econômico rio-grandense praticamente através de todo o século XIX. Essa é a fundação do RS que vai se desdobrar numa nova tradição de cunho trabalhista muito forte. O RS foi uma das grandes capitais do trabalhismo de uma posição mais organizada, centrada sobre os projetos nacional-desenvolvimentistas, com alguma diferença no mundo do trabalho.

A direita tradicional nunca teve muita força no RS. A União Democrática Nacional - UDN praticamente inexistiu no RS e setores ligados à direita só venceram, geralmente, por lapsos ou dificuldades desse bloco burguês-desenvolvimentista com os trabalhadores de implementar seu projeto. A tradição castilhista e trabalhista termina desembocando numa tradição petista. Na verdade, o PT ganhou apenas na campanha de Olívio Dutra, mas nas eleições anteriores havia alcançado uma hegemonia muito grande, ao menos no mundo do trabalho. Olívio foi derrotado porque resolveu jogar não a carta do mundo do trabalho, mas de uma administração competente do capitalismo. Ele praticamente traiu o bloco social que o levou ao governo. Lembre-se que o ataque feito contra os professores, as necessidades de greve dos insatisfeitos, o não cumprimento das promessas de melhoria dos trabalhadores públicos para terminar com a carta de elogio do Banco Mundial pelo comportamento rigoroso nas contas. Assim, terminou abrindo um momento de depressão do mundo político rio-grandense com, primeiro, um governo amorfo e, agora, com esse governo que estamos encerrando de uma forma patética, envolvido em denúncias de corrupção assim como esse governo começou.

Agora, a eleição de Tarso é a ressaca de tudo isso aí. É, mais uma vez, um reflexo desses últimos anos de expansão do capitalismo mundial, que aqui no Brasil teve também suas repercussões, que leva a população a esquecer o fracasso que foi o projeto de Olívio. Assim, o povo depositou sua esperança no PT de Tarso, pois as outras opções eram, realmente, patéticas. Então, acho que esse governo não é nem mesmo uma retomada do projeto inicial, mas o resultado das situações conjunturais.

IHU On-Line – O resultado o surpreendeu?

Mario Maestri – Não. A Yeda recebeu o voto que a população rio-grandense estava dando há muito tempo. Ela naufragou nesse exame eleitoral como poucos políticos conseguiram no RS. Ela só chegou em terceiro lugar porque não havia um quarto candidato que lhe tomasse o lugar. O Fogaça reflete uma administração absolutamente pífia em Porto Alegre. Mostrou-se sem capacidade, sem dinamismo e sem projeto político. Então, nesse vazio político subiu Tarso que teve uma candidatura preparada há bastante tempo pelo governo federal. Ele trabalhou em diversos ministérios, alguns com pouco sucesso e outros com visibilidade bastante grande, com medidas de bastante repercussão, o que acabou criando uma condição para essa vitória.

Agora, chamo a atenção de que o Tarso se elege praticamente sem programa, ele não retoma nenhuma das grandes reivindicações do RS. Nem o fim dos pedágios é retomado, assim como questões de investimento em educação, saúde, de um projeto industrial centralizado pelo estado, que foi um dos grandes instrumentos que alavancaram o desenvolvimento do RS. Tarso volta devido à debilidade e rechaço de seus oponentes num verdadeiro carrossel eleitoral, no qual se mudou tudo para que tudo fique igual.

IHU On-Line – O PMDB é o principal aliado do PT nas eleições para presidente. No RS, essa relação era completamente amistosa. Para o segundo turno, houve, inclusive, uma ruptura entre peemedebistas. Como o senhor vê isso?

Mario Maestri – Na realidade, essa campanha presidencial se dá com uma virulência e violência que nos lembra a campanha na disputa entre Collor e Lula, em 1989. Entretanto, naquela disputa, havia projetos radicalmente divergentes. O projeto de Lula não chegava a apontar para uma mudança estrutural na sociedade brasileira, mas indicava uma mudança substantiva necessária para o desenvolvimento social, econômico e nacional. Essa campanha não. Na realidade, não há diferença entre o projeto de Lula/Dilma e seus aliados e o projeto do PSDB e José Serra. Entretanto, a disputa assume um caráter de uma virulência impressionante. É certo que por trás do governo Lula se encontra um bloco social hegemonizado pelo capital financeiro nacional e internacional. Temos que ter muito claro que os banqueiros estão de fila atrás da candidatura de Dilma. Não é por nada que Meirelles sai desse governo de Lula, e se quiser continua no governo de Dilma, como um interventor do capital financeiro na economia brasileira.

O projeto de Serra organiza, sobretudo, o capital industrial, mas centrado em São Paulo. O PSDB nasceu como um partido social-democrata de São Paulo, dos grandes interesses paulistas e que se aliava à oligarquia reacionária desses setores, que compreendem que estão num processo de desaparecimento se tivermos um governo Dilma por quatro ou oito anos com hegemonia social. Há também, nesse jogo, uma grande preocupação com as riquezas permitidas pelo pré-sal. Isso tudo está em jogo nessa campanha virulenta que, precisamente, devido à falta absoluta de projetos terminou nessa baixaria que termina no direito da mulher em interromper a gestação. Um direito, aliás, democrático reconhecido pelos maiores países civilizados e semicivilizados do mundo. Além disso, terminou ainda nas discussões sobre direitos indiscutíveis como o casamento civil dos homossexuais e isso se transformou no coração da disputa.

Com isso, estamos reconhecimento um rebaixamento cultural político verdadeiramente barbarizante. Então, me horroriza pensar no que vai ser desse Brasil se o mundo do trabalho e o mundo da democracia não for organizado por uma pauta social de nação alternativa.

IHU On-Line – A imprensa tem tratado os votos de Marina Silva (PV) como a grande novidade dessa eleição. Como o senhor analisa a “onda verde” no RS?

Mario Maestri – Não tem onda verde alguma. Marina é como a Heloísa Helena, que foi, fundamentalmente, uma construção da oposição para chegar ao segundo turno. Houve, indiscutivelmente, uma transferência de voto de Serra para Marina. A campanha da Marina foi sustentada pela grande imprensa, o espaço que deram para Marina foi exatamente em cima disso. Se a grande imprensa tratasse Marina como tratou Plínio, Ivan e Zé Maria, ela não teria passado de 2% dos votos. Marina e a onda verde são uma invenção e vão desaparecer nos próximos meses sem deixar traços.

IHU On-Line – No Sul do país, Dilma ganhou apenas no RS. No entanto, pesquisas mais recentes a respeito do resultado do segundo turno colocam Serra em primeiro lugar aqui no estado. A que se deve essa mudança?

Mario Maestri – Eu diria que, neste momento, temos que ter muito cuidado com as pesquisas que, agora, têm um efeito performativo. As pesquisas ligadas ao PSDB e à grande mídia precisam apontar uma recuperação forte de Serra. Agora, não há dúvida que o fato, como analista político, de Dilma não ter ganhado no primeiro turno estabelece uma possibilidade de vitória de Serra no segundo turno. E isso por diversos fatores, como a despolitização, desqualificação eleitoral em que o aborto toma uma dimensão muito grande. O fato agora de se ter descoberto que a mulher do Serra teria interrompido uma gravidez também pode crescer. Mas também é muito difícil uma mulher da geração do Serra sexualmente ativa que não tivesse interrompido a gravidez uma ou duas vezes. Era uma época que se iniciava a cultura da pílula, o que muitas vezes fracassava. Foi um elemento dentro de toda dificuldade e angustia que pesa sobre a mulher. Porém, esse fato não vai ser divulgado do mesmo modo caso a mulher em questão fosse Dilma.

Por outro lado, Dilma não é uma candidata fácil, ela não tem o carisma e a experiência populista que tem Serra. Dilma tem a trajetória da resistência, a ditadura dela foi mais ativa e muito mais comprometida. Em todo caso, eu diria que não se acredite que os grandes levantamentos agora relativos à votação terão o objetivo de criar a realidade.

IHU On-Line – Que fatores explicam o fato de Lula não ter conseguido transferir sua popularidade para Dilma?

Mario Maestri – O que é a popularidade? Não é a constatação de apoio a um projeto político, mas a avaliação positiva de um administrador. Na há nem uma necessária correspondência entre o projeto e essa avaliação. Lula tem uma avaliação avassaladora, sobretudo nos setores populares. Primeiro, Lula expressou o maior esforço conhecido na história do Brasil de um movimento autônomo dos trabalhadores. Ele é um líder sindical acostumado a uma comunicação com a grande população. Essa ojeriza e ridicularização que as chamadas elites faziam da oratória lulista era uma rejeição às  formas de expressão da nossa população. O Lula fala e a população compreende. Esse não é o caso da Dilma. Nem de Tarso, que é um belo orador, mas de classe A. Quando ele fala a maioria da classe B e C não compreende. Lula está identificado também por um crescimento tímido da economia nacional, porém, significa também a despolitização do país.

IHU On-Line – E como será o seu voto?

Mario Maestri – Eu vou votar nulo, porque tenho consciência que os dois projetos são de facções do mundo do capital e que liquidam ainda mais a autonomia necessária do mundo do trabalho imprescindível para a construção de um Brasil civilizado e um futuro mais esperançoso. É uma posição isolada e minoritária, mas o desastre que estamos vivendo é porque posições como essa são minoritárias. O maior desastre que vivemos é o da consciência. Meu voto é um voto de consciência, portanto.

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