Pecuária e vegetarianismo no RS. Entrevista especial com Valério de Patta Pillar e Eliane Carmanin Lima

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04 Julho 2010

Campanhas como a “Segunda-feira sem carne” têm se propagado e gerado muitas discussões em torno da pecuária no mundo. O metano, gás liberado principalmente pelo gado, é um dos principais causadores do fenômeno do aquecimento global, e a diminuição do consumo da carne, segundo alguns especialistas, traria muitos benefícios para o meio ambiente. A IHU On-line realizou uma entrevista, por telefone, com o ecólogo Valério de Patta Pillar e com a psicóloga e vegetariana Eliane Carmanin Lima sobre este tema. O professor da UFRGS falou sobre a situação da pecuária no RS e sua influência para o bioma do pampa gaúcho. Já Eliane falou de sua experiência como vegetariana no RS, onde a ligação com a carne é muito forte.

Valério de Patta Pillar é graduado em Agronomia pela Universidade Federal de Santa Maria. É mestre em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fez doutorado em Plant Sciences pela University of Western Ontário (Canadá). Atualmente, é professor da UFRGS.

Eliane Carmanin Lima é psicóloga e mestre em sociologia pela UFRGS. Como pesquisadora, vem estudando o vegetarianismo num enfoque sociológico. Idealizou o Cadastro-Veg, um cadastro de vegetarianos, que se originou conjuntamente com uma pesquisa sobre os vegetarianos no Brasil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a situação atual da pecuária no RS?

Valério de Patta Pillar – A pecuária é uma atividade tradicional na América do Sul, desde que o gado foi introduzido, no século XVII, pelos jesuítas. Há campos propícios à atividade, tanto que o gado logo se espalhou naturalmente por uma vasta região, até o Uruguai, sem cuidado. A pecuária foi evoluindo, modificando-se. Entretanto, de algumas décadas para cá, não conseguiu, em termos de ciência, competir com outras atividades econômicas, como a agricultura. Campos localizados em solos mais favoráveis foram perdidos e transformados em lavouras. No Planalto Médio do Rio Grande do Sul, adequado para mecanização, por exemplo, há poucos remanescentes campestres. Em outras regiões, não tão favoráveis para agricultura intensiva, como a fronteira oeste, com solos mais rasos e clima não tão favorável à agricultura intensiva, foram mantidos os campos. Recentemente, também surgiu a silvicultura, propagandeada como alternativa mais interessante aos proprietários, em comparação com a pecuária, justamente nestas áreas remanescentes campestres da metade sul do Rio Grande do Sul. Os campos são mal manejados, poderiam produzir mais, em termos de ganho de peso ou produção de terneiros. Poderia produzir muito mais simplesmente alterando o manejo, sem agregar insumos. A produção aqui não consegue competir com outras atividades econômicas, e nós estamos consumindo carne do centro-oeste e do norte do país. Há espaço para ganhos de produtividade e conservação da biodiversidade com melhoria do manejo do pastoreio.

IHU On-Line – De que forma a expansão de atividade agrícola ameaça o Bioma do Pampa?

Valério de Patta Pillar – Para que se possa ter lavoura numa área de terra, a vegetação natural tem de ser transformada. Há uma conversão daquele tipo de cobertura vegetal natural. É incompatível a conservação da biodiversidade do campo naquele local onde a lavoura se instala. Isso vale também para a silvicultura. O plantio de eucalipto e pinos em áreas campestres significa a conversão desses locais. As espécies da fauna e da flora adaptadas àqueles ambientes não se mantêm na área da silvicultura e de lavoura. É uma perda de habitats e ocorre, concomitantemente, a fragmentação dos remanescentes de campo. Essa é uma das maiores causas de extinção de espécies. A expansão da agricultura, da forma como aconteceu em algumas regiões do estado, é uma ameaça à diversidade dos campos.

IHU On-Line – Que estratégias a pecuária deve pensar com vistas à sustentabilidade ecológica e conservação da biodiversidade gaúcha?

Valério de Patta Pillar – A pecuária é uma das poucas atividades econômicas compatível com a conservação da biodiversidade. Utiliza-se um recurso natural, que é a forragem provida pelas áreas de campo. A vegetação campestre produz a forragem utilizada na atividade pecuária, oferecendo um serviço ambiental. Nas áreas nas quais já temos a atividade agrícola, precisaria haver o retorno da pecuária, no sentido de que as áreas de campo sejam restauradas. O Código Florestal permite a exploração econômica sustentável das áreas de reserva legal com vegetação de campo através da pecuária. A demarcação das reservas legais em áreas originalmente de campo possibilitaria a restauração da vegetação campestre e a reintrodução da atividade pecuária nas propriedades agrícolas. Teríamos vários benefícios com o manejo mais adequado. A pecuária se tornaria mais econômica, beneficiando a biodiversidade e mantendo a competitividade em relação às demais atividades econômicas.

IHU On-Line – A campanha “Carne Legal” alerta o consumidor sobre a importância de saber a origem de produtos bovinos. A pecuária gaúcha já se adaptou a este processo?

Valério de Patta Pillar – Temos, no Brasil, o paradoxo de estar transformando campos em plantações de eucalipto e pinos no Sul, e, ao mesmo tempo, desmatar parte da Amazônia para transformá-la em pasto. No centro-oeste, também tivemos uma transformação brutal da vegetação do Cerrado em áreas de pastagens cultivadas. Sou favorável e participo como consumidor deste tipo de campanha, questionando sempre sobre a origem da carne. Devemos incentivar o consumo de carne produzida em vegetações naturais, que é compatível com a conservação da biodiversidade.

IHU On-Line – Qual sua opinião sobre campanhas, como a da ONU, que pedem para que a população coma menos carne?

Valério de Patta Pillar – O documento da FAO-ONU (Food and Agriculture Organization – ONU), avaliando a situação pecuária mundialmente, não considera situações particulares, como nesta parte da América do Sul, em que a atividade cumpre um papel importante na conservação da biodiversidade. Se esses campos não fossem utilizados com pecuária, haveria um acúmulo de biomassa altamente inflamável, e nós teríamos grandes incêndios. A ONU generaliza, avaliando que a pecuária, do ponto de vista do consumo de energia, é bastante ineficiente e contribui significamente na emissão de gases estufa. Mas qual seria a alternativa para essas terras e pradarias, no mundo todo, que são usadas na pecuária? A conversão dessas terras em cultivo resultaria em mais emissões. Os solos desses campos são reservatórios de carbono. No momento em que o solo é cultivado, a matéria orgânica se decompõe e há emissões de gás carbônico para a atmosfera. A ONU desconsidera isso na sua avaliação. Todas as alternativas econômicas significariam um aumento de emissões. A emissão de metano e gás carbônico pelos bovinos é recompensada pelo sequestro de carbono no solo. Obviamente que a atividade pecuária que depende de confinamento, de produção de grãos e de usos intensos de energia fóssil deveria ser responsabilizada pelas emissões, mas não a atividade em geral.

IHU On-Line – Porque e quando a senhora se tornou vegetariana?

Eliane Lima – Faz mais de 20 anos. Eu li uma reportagem na época que falava dos animais e aí me dei conta de que eu estava comendo animais. Como eu realmente me importava e amava eles eu decidi, naquele momento, que eu não mais os comeria. E, desde então, eu não como mais carne. Foi muito mais fácil do que eu pensava.

IHU On-Line – É difícil ser vegetariano no Rio Grande do Sul e no Brasil?

Eliane Lima – Atualmente, aqui no RS, é facílimo. São muitos restaurantes vegetarianos, e esse número vem crescendo vertiginosamente. Há 20 anos, não era assim tão fácil. Havia apenas um restaurante macrobiótico, onde os vegetarianos se encontravam e se conheciam, formando ali uma nova cultura, uma identidade. Ser vegetariano não é apenas um hábito. Antes de tudo, é um hábito cultural.

IHU On-Line – Só o fato de diminuirmos a quantidade de carne em nossos pratos vai trazer que tipo de mudanças para o clima do planeta?

Eliane Lima – Existe uma campanha chamada “Segunda-feira sem carne”, que começou na Inglaterra. A campanha foi viabilizada depois que um estudo apontou que, se a população da Inglaterra deixasse de comer carne apenas um dia na semana, isso traria um impacto muito grande para combater o aquecimento global. Isso porque a pecuária é a atividade que mais traz consequências ruins para o meio ambiente do planeta. Existe uma preocupação muito grande das consequências do gás carbônico na atmosfera. No entanto, nos últimos dez anos, a emissão de gás carbônico na atmosfera aumentou em 33%, e o metano, que é emitido pelos rebanhos bovinos, aumentou 130%. Portanto, diminuir o consumo de carne tem sim grandes impactos em relação às consequências das mudanças climáticas.

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