Internet das coisas: ''Os benefícios são inúmeros''. Entrevista especial com Luiz Adolfo

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14 Janeiro 2010

Internet das coisas - ou objetos inteligentes - pode ser definida como um conjunto de tecnologias que conferem a objetos comuns a funcionalidade que reconhece sua localização física e se conecta a outros objetos ou informações. Descrevendo desta maneira, parece uma tecnologia interessante, mas não palpável. Mas é. A internet das coisas está aplicada em celulares, cartões, códigos de barras, sensores de movimento, entre outros. Não é, portanto, uma tecnologia nova, mas certamente está no rol das tecnologias que vão mudar nossa maneira de ver e agir no mundo de hoje. “A tendência é que essas tecnologias facilitem a vida de seus usuários. Muitas tarefas, como comprar passagens, entradas a eventos, fazer transações bancárias, encontrar lugares nas cidades, comprar presentes, chegar a um restaurante etc. se tornarão mais fáceis, afinal poderão ser feitas em qualquer hora e de qualquer lugar”, relatou o professor Luiz Adolfo durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line por e-mail.

Luiz Adolfo de Paiva Andrade é graduado em Jornalismo pela Universidade Gama Filho e mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense. Cursa o doutorado em Comunicação e Cultura Contemporânea na Universidade Federal da Bahia. Atualmente, trabalha na Engenho Novo Comunicação e na Raccord Produções Artísticas e Cinematográficas e atua como pesquisador na UFBA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como funcionam os objetos inteligentes aplicados aos serviços disponibilizados na Internet?

Luiz Adolfo – Estes “objetos inteligentes” são representantes legítimos da computação ubíqua, termo proposto no início da última década de 1990. A ideia é de, em um futuro bem próximo, as máquinas estar incorporadas aos objetos, imperceptíveis aos nossos olhos, e seus serviços disponíveis 24 horas por dia, auxiliando o homem na execução de suas tarefas diárias. Os computadores estariam integrados em rede e seriam capazes de detectar a presença de usuários e outros dispositivos, interagindo automaticamente entre eles e configurando um contexto inteligente para sua melhor utilização.

Estamos assistindo a ascensão da Ubicomp (Computação ubíqua) [1] agora, na primeira década do século XXI, através da computação senciente e pervasiva. A primeira refere-se à possibilidade de interconexão de computadores, corpos e objetos que passam a ser reconhecidos de maneira autônoma. Neste caso, os exemplos mais comuns são as luzes automáticas, as portas que abrem e fecham quando nos aproximamos ou afastamos delas, como as portas dos aeroportos, e ainda os sensores Radio-Frequency IDentification (RFID) [2] e Bluetooth [3]. Já a computação pervasiva (pervasive computing) refere-se aos objetos que contém microchips internos e seus principais exemplos, atualmente, são os smartphones, que oferecem inúmeras funções, além de telefone e permitem que seus usuários acessem a Internet em mobilidade.

IHU On-Line – Socialmente falando, quais são os pontos positivos e negativos do uso de objetos com essas características?

Luiz Adolfo – Os benefícios são inúmeros. Como já disse, a ascensão da Ubicomp, da computação pervasiva e senciente, marca o surgimento dos “objetos inteligentes”, e a disseminação destas tecnologias pode tornar o ambiente do homem também mais “inteligente”, facilitando a vida de seus usuários. Coincidentemente, uso este termo – ambientes inteligentes – nas pesquisas que desenvolvo aqui na UFBA, referência às possibilidades de aplicação de técnicas de Inteligência Artificial no ambiente humano. Neste caso, a ideia é que o ambiente humano possa ser “programado” com base nos fundamentos da Ubicomp, facilitando a vida e o acesso à Internet. Costumo usar como exemplo este vídeo da Microsoft! Dá uma boa ideia do que vem por aí...

Sobre os aspectos negativos, algumas pessoas alertam para a função de controle que estas tecnologias podem desempenhar. Por exemplo, permitir que o governo monitore e controle os movimentos dos usuários no espaço urbano sem que eles saibam informações do lugar em se encontram, facilita a tarefa de monitorar o que as pessoas estão fazendo nesse espaço “virtual”. Outro ponto negativo é o contexto das grandes cidades brasileiras, onde ainda é um tanto perigoso usar estes aparelhos livremente pelo espaço público. Diferente de algumas cidades no exterior, onde as pessoas estão acostumadas ao uso constante destas ferramentas, no Brasil, infelizmente, é um tanto arriscado consultar dispositivos GPS, manipular Iphones, dentre outros procedimentos, nas ruas das grandes cidades, por causa da possibilidade de roubos e furtos.     

IHU On-Line – Que tipos de aplicações da tecnologia RFID (Radio Frequency Identification) o senhor destacaria e por quê?

Luiz Adolfo – Atualmente, existem diversas aplicações destas etiquetas que facilitam muito a vida de pessoas e empresas. Por exemplo, li, há algum tempo, que as Casas Bahia estavam utilizando as etiquetas RFID para controle de estoque: registrar e contabilizar as cargas automaticamente, compartilhar dados mais fácil, minimizar erros decorrentes da comunicação feita por outros meios, controlar os prazos de validade de produtos e diminuir a possibilidade de furto. Pode-se ainda aumentar o contato da empresa com o cliente, facilitando a identificação das suas preferências e fornecendo um recall mais ativo.

O mesmo texto que me refiro destacava outro exemplo, o do Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos (SINIAV), projeto que visa implantar as RFID nas ruas e nos veículos de todas as cidades brasileiras. Esta forma de aplicação permite monitorar o fluxo e tráfego de veículos nas cidades. Bancos como o Bradesco estão projetando usar o RFID em cartões sem contato com as máquinas, para facilitar o pagamento de valores pequenos, permitindo que as pessoas usem o cartão sem digitar a senhas.

Por fim, da mesma forma que os veículos, as RFIDs permitem o monitoramento de objetos, pessoas e até mesmo de animais, como já é feito na Europa, onde cada bicho de estimação recebe um microchip.

IHU On-Line – Na Europa, há uma grande movimentação na transição para Web 3.0 e na produção de objetos inteligentes. Já existem previsões que as primeiras soluções estarão no mercado em cinco anos. No Brasil, ocorre alguma movimentação significativa?

Luiz Adolfo – Soube que algumas clínicas veterinárias no Brasil já estão seguindo os padrões da Europa,

Tim Bernes-lee, o pai
da internet

descritos acima, em relação aos animais de estimação. Contudo, esta é uma possibilidade bem pequena se considerarmos todo potencial que estas tecnologias oferecem. No final do ano passado, foi anunciado que a Europa estava se articulando para liderar a transição para a web 3.0. Apesar da Europa estar na frente, acredito que a tendência é que logo estes recursos estejam disponíveis para usuários em todos os cantos do planeta, mesma opinião de Tim Bernes-lee [4], colhida quando ele esteve em julho deste ano, aqui no Brasil, na Campus Party [5].

Já no caso dos objetos inteligentes, existem muitos projetos em todo mundo, especialmente relacionados a jogos eletrônicos (alternate reality games, pervasive games etc.), que ajudam a aproximar seus usuários deste tipo de tecnologia. Mas ainda dependemos de providências a serem tomadas quanto aos problemas que apontei acima. Por exemplo, em uma fase do jogo relacionado ao último filme do Batman (The Dark Knight, 2008), disputada em São Paulo, cerca de 600 pessoas corriam pela Avenida Paulista com smartphones, notebooks etc. e quase foram roubadas.

IHU On-Line – Outra questão importante para implementação da Internet das coisas é a segurança. O que está sendo pensado a respeito?

Luiz Adolfo – O problema não está somente na segurança. É preciso investimentos em infraestrutura para a implantação destas tecnologias. No caso das etiquetas RFID, deve-se investir pelo menos nas antenas que ativam as etiquetas e captam as informações, por exemplo. Deve-se alterar a arquitetura de prédios e o design de objetos para que os chips pervasivos possam ser implantados. No caso da segurança, além dos aspectos relativos à integridade dos usuários e dos objetos inteligentes, deve-se investir a preservação desta estrutura a ser construída.

IHU On-Line – Ao integrar os objetos uns aos outros, fazendo com que eles "saibam" sua localização e se comuniquem, como a "Internet das coisas" muda nosso cotidiano?

Luiz Adolfo – Com certeza! Como disse anteriormente, a tendência é que essas tecnologias facilitem a vida de seus usuários. Muitas tarefas, como comprar passagens, entradas a eventos, fazer transações bancárias, encontrar lugares nas cidades, comprar presentes, chegar a um restaurante etc. se tornarão mais fáceis, afinal poderão ser feitas em qualquer hora e de qualquer lugar.

Notas:
[1] Computação ubíqua é um termo usado para descrever a onipresença da informática no cotidiano das pessoas.

[2] RFID significa Identificação por Rádio Frequência. Trata-se de um método de identificação automática através de sinais de rádio, recuperando e armazenando dados remotamente através de dispositivos chamados de tags RFID. Uma tag ou etiqueta RFID é um transponder, pequeno objeto que pode ser colocado em uma pessoa, animal, equipamento, embalagem ou produto, dentre outros. Ele contém chips de silício e antenas que lhe permite responder aos sinais de rádio enviados por uma base transmissora.

[3] Bluetooth é uma especificação industrial para áreas de redes pessoais sem fio. O Bluetooth provê uma maneira de conectar e trocar informações entre dispositivos como telefones celulares, notebooks, computadores, impressoras, câmeras digitais e consoles de videogames digitais através de uma freqüência de rádio de curto alcance globalmente não licenciada e segura.

[4] Timothy John Berners-Lee é o inventor do World Wide Web e diretor do World Wide Web Consortium, que supervisiona o seu desenvolvimento.

[5] O Campus Party Brasil é uma LAN party com temas diversos relacionados à Internet, reunindo comunidades e usuários da rede envolvidos com tecnologia e cultura digital. Realiza-se anualmente na cidade de São Paulo, desde 2008. O nome Campus Party surgiu na Espanha, onde foi realizado o primeiro dos eventos em 1997, posteriormente estendo-se a outros países como Brasil e Colômbia.

 

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