"Os números de suicídios no Rio Grande do Sul assustam". Entrevista especial com Ricardo Nogueira.

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17 Dezembro 2009

O nível de suicídios no Rio Grande do Sul é alarmante, principalmente nas cidades interioranas. Os municípios de Candelária e Venâncio Aires têm índices de suicídio entre os maiores do mundo. A pesquisa “Promoção da vida e prevenção do suicídio no RS”, dissertação de mestrado do médico psiquiatra, Ricardo Nogueira, analisou as quatro cidades gaúchas com maior número de casos de suicídio. O estudo foi patrocinado pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, através do Centro de Vigilância em Saúde e do Programa de Prevenção à Violência. Sobre os resultados constatados e as peculiaridades dos casos no Estado, Nogueira conversou, por telefone, com a IHU On-Line. O psiquiatra fala sobre os principais motivos dos suicídios no RS, o perfil do suicida e o tipo de ajuda que este necessita. “Quase 100% dos pacientes que foram ao óbito através do suicídio procuraram ajuda uns seis meses antes. (...) O problema é que falta um treinamento, não só na área de saúde, mas na rede de segurança e educação”, frisa. Sobre este preparo no atendimento às vítimas e prevenção dos casos, Nogueira aborda os projetos desenvolvidos pela pesquisa que participou, como um manual de prevenção, e lamenta que mídias, como a Internet, atrapalhem o processo de cuidado para com indivíduos com tendências suicidas. “Uma orientação seria, ao invés de suicídio, falar da promoção da vida. Mas há uma contradição, pois sempre, em qualquer situação, há um outro lado, que, neste caso, é o estímulo de algumas mídias, como a Internet, uma área muito perigosa”, garante.

Ricardo Nogueira é mestrando em saúde da família pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisa em Saúde Coletiva (CEPES) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e atua como médico psiquiatra.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais as peculiaridades do RS, em comparação aos outros estados brasileiros, no que diz respeito aos dados que o senhor apresenta sobre os casos de suicídios?

Ricardo Nogueira – O que mais chama a atenção é o número de casos. O Rio Grande do Sul, em relação ao Brasil, tem um número muito maior de suicídios que os outros estados. Existem três cidades com os maiores níveis do mundo, e existem pequenas cidades que têm números muito maiores. O que assusta é que, até hoje, o número de suicídios é maior entre os idosos e as pessoas mais velhas, mesmo havendo uma diminuição de suicídios nesta faixa etária e um aumento entre os mais jovens. Em Porto Alegre, os números têm nos assustado muito porque a maior incidência é entre os jovens na faixa dos 15 aos 29 anos. Na avaliação que fizemos, há uma progressão epidemiológica e uma tendência crescente nos números. Isso nos deixa muito preocupados. Analisamos esses números com epidemiologistas, técnicos e com profissionais da nossa área que dizem exatamente o que nossa pesquisa aponta: que há uma urgência de se ter um programa de prevenção ao suicídio.

O que temos até agora são constatações e diagnósticos, então nós temos que partir imediatamente para o combate. E fazer isso como foi feito na Suécia, Dinamarca, Noruega, Hungria e em Israel, aplicando-se inquéritos, pesquisas e entrevistas com sobreviventes, aqueles que tentaram suicídio e não conseguiram, e entre seus familiares, porque se constatou que o suicídio é um problema familiar, existem famílias que têm essa tradição do suicídio.  Quase 100% dos pacientes que foram ao óbito através do suicídio procuraram ajuda uns seis meses antes na rede, nas Unidades Básicas de Saúde, nos Capes, em consultórios particulares, em serviços de emergência ou pronto-socorros. O problema é que falta um treinamento, e, por isso, estamos propondo e criando um manual de prevenção ao suicídio para ser aplicado a nível dos agentes comunitários de saúde, dos profissionais das Unidades Básicas, dos Capes e dos hospitais, ou seja, em toda a rede, não só na de saúde, mas na rede de segurança.

Muitas vezes, os bombeiros, a Brigada Militar e a Polícia Federal é que são chamados para dar esse atendimento. É preciso também um treinamento na área social, nas secretarias de assistência social e na área de educação, pois, os sintomas aparecem na escola, nas atitudes dos pacientes. A maioria dos pacientes que vão ao óbito através da tentativa de suicídio já está em algum tipo de tratamento médico, já teve alguma doença psiquiátrica ou é viciada em álcool e drogas, como o crack. Inclusive, Porto Alegre, e Curitiba, são as duas capitais do Brasil onde aumenta cada vez mais o número de suicídios entre jovens, na faixa etária dos 15 aos 29, uma faixa que chama a atenção por causa do uso dessas drogas. Estamos sofrendo no Rio Grande do Sul uma epidemia do uso do crack, então ainda não temos uma comprovação científica fidedigna. Nossa pesquisa vai partir para esse viés também, para analisar a associação da droga com o suicídio. Queremos aprofundar isso.

Temos outro problema por sermos vizinhos do Uruguai, um dos países que tem mais suicídio no mundo. Inclusive foi lá o Congresso Mundial de Prevenção ao Suicídio onde apresentamos nosso trabalho. Há um chamado contágio nas cidades fronteiriças e é preciso se pensar nisso. Dizemos que o trabalho de prevenção ao suicídio é de uma vida toda.

IHU On-Line – E que tipo de ajuda o suicida quer?

Ricardo Nogueira – As pessoas têm algumas dificuldades. Por exemplo, na nossa pesquisa, existem dois dados que não aparecem em nenhum outro tipo de investigação, são os dados que conseguimos através da Secretaria de Segurança, que tem um banco de dados excelente. O que chama a atenção é que essas pessoas que se suicidaram, um grande número delas, eram vítimas ou tinham feito boletins de ocorrência contra outras pessoas. Não é normal, por exemplo, uma pessoa ter vinte ocorrências de delitos ou transtornos no trânsito. Ter um transtorno, uma multa ou um boletim de ocorrência, é normal, mas vinte, trinta ou quarenta, não é. Estas pessoas estão com dificuldades na sua vida pessoal, afetiva ou econômica, e procuram uma solução. Muitas vezes, na cabeça da pessoa, o suicídio seria uma saída para acabar com seu sofrimento. A pessoa não suporta mais a situação que está passando e acha que a única saída realmente seria morrer. O que estamos apontando é um treinamento para as equipes médicas de saúde e da área social, terapeutas e enfermeiros, e todas as equipes multiprofissionais, para que possam propor e ofertar o atendimento, o acolhimento e o tratamento desse paciente.

Nossa ideia é trazer esses instrumentos, aplicados na Suécia, Noruega, Hungria e Israel, que foram traduzidos para o português e estão validados no Brasil. Temos alguns desses instrumentos que foram validados em Campinas, em São Paulo, e o trabalho de pesquisa lá mostrou que diminuiu em cinco vezes o número das tentativas de suicídio. As pessoas que têm uma ideação suicida fazem várias tentativas, na maioria das vezes, elas não morrem na primeira. O intuito desse instrumento é fazer com que a pessoa prorrogue o tempo o máximo possível entre uma tentativa e outra. O mais comum é uma pessoa tentar o suicídio hoje, e, se não for bem sucedida, tentar novamente em trinta dias, se não for bem sucedida, novamente, provavelmente irá tentar dentro de 180 dias, seis meses. Então, nesse interregno, é óbvio que ela precisa ter tratamento, tem que ter cuidado e a prevenção a novas tentativas. Aí eu digo e afirmo que há tratamento às tentativas e prevenção. Outra constatação: o risco maior é entre pessoas que já tentaram anteriormente e em pessoas que têm familiares que já cometeram suicídio. Nosso foco fica menor, e então se pode trabalhar focado naquelas pessoas que têm um maior risco.

IHU On-Line – Quais foram os quatro municípios estudados e porque esses municípios foram escolhidos para essa pesquisa?

Ricardo Nogueira – Foram Santa Cruz do Sul, Candelária, Venâncio Aires e São Lourenço do Sul. Foram escolhidos porque são municípios com uma população média, pela questão logística e pela incidência e prevalência. Entre os quatro, temos Candelária e Venâncio Aires, que têm índices de suicídio entre os maiores do mundo, e eles ficam próximos um do outro. Para nós, isso dá uma facilidade logística para se deslocar, reunir as equipes e capacitá-las. Fizemos um projeto piloto e, a partir dele, vamos, em 2010, para mais quatorze municípios, totalizando em dezoito municípios.

IHU On-Line – Que localidades têm registrado maior índice de suicídio?

Ricardo Nogueira – Conforme as pesquisas, são as cidades de Venâncio Aires, Canguçu, São Lourenço do Sul, Candelária e Santa Cruz do Sul onde têm ocorrido variações, há uma diminuição e, em seguida, um repique. Isso pode ocorrer em distorções. Por exemplo, essas são as quatro cidades em que fizemos a nossa pesquisa e o projeto piloto, são as que apresentam maiores níveis, no entanto, quando se analisa na série histórica, uma análise de dez anos, constatamos que a cidade com maior índice de suicídios no Rio Grande do Sul é Santa Rosa. Santa Rosa é a cidade que aparece na análise dos dez anos, mas, se formos analisar, no ano passado e no retrasado ela não aparece. Por exemplo, na lista das cinquenta cidades que têm mais suicídios no Brasil, dez são do RS, mas aí não aparece São Lourenço.Só para se ter uma ideia, em São Lourenço do Sul, uma cidade que possui entre 15 e 20 mil habitantes, tem mais suicídios ou um número semelhante a todos os suicídios de Belém do Pará, que é uma cidade do tamanho de Porto Alegre. Então, temos de ter muito cuidado com esses números por causa das distorções, mas essa situação no RS realmente chama atenção. Conversei com o Secretário Estadual de Saúde, Dr. Osmar Terra, colocando para ele, dentro desses números, a emergência. Estamos com a proposta de continuar a pesquisa em mais quatorze municípios do RS que também apresentam números altos de suicídio, para que possamos, assim como em países europeus e Israel, que reverteram e, hoje, têm números negativos, trazer esses instrumentos que foram usados lá e aplicar aqui.

IHU On-Line – Na pesquisa que o senhor participou, qual o perfil dos suicidas?

Ricardo Nogueira – Em nossa pesquisa, a maioria são pessoas casadas. Antigamente, apareciam mais pessoas solteiras, separadas ou viúvas. 90% dos casos de suicídios são entre brancos, 90% são agricultores, e, em São Lourenço do Sul, também aparecem pescadores. A grande novidade da nossa pesquisa são os dados que recebemos da Secretaria de Segurança, de que as pessoas que se suicidam têm um número muito grande de ocorrências policiais como autoras ou vítimas. Um número muito grande, mais de 60% já estava tratando de doenças mentais ou usavam medicamentos psicotrópicos continuados, já tinham tentando suicídio anteriormente e tinham membros diretos de sua família que já haviam cometido suicídio. O perfil que concluímos é que são trabalhadores rurais, brancos, católicos, casados e com nível baixo de ensino. A grande maioria, entre 60 e 70% se matam por enforcamento e dentro de casa, principalmente. A pesquisa, que foi feita junto com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão RuralEMATER, tem outro viés que levanta a questão do fumo e dos organofosforados [1]. Estão querendo que seja aprofundada a pesquisa nesta área para comprovar, ou não, que esses elementos são responsáveis pelo suicídio. Porém, mesmo que isso seja comprovado, nossa visão é para que haja uma prevenção ao uso do tabaco e dos organofosforados.

IHU On-Line – É possível prevenir o suicídio?

Ricardo Nogueira – Claro, sem dúvida. Nossa proposta concreta é a criação dos grupos de sobrevivência. São grupos com pessoas que tentaram suicídio e familiares. Através do grupo, pode-se fazer com que haja uma sensibilização da pessoa e também a questão da avaliação do próprio tratamento. Avaliar se o tratamento que está sendo feito é correto, pois, cada caso é um, e existem vários diagnósticos. Tem como fazer um tratamento para as tentativas de suicídios. Vimos a questão dos jovens, e aí entram as cidades maiores. Os maiores números de suicídios de jovens estão em Porto Alegre, Passo Fundo, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Carazinho e Santo Ângelo, não nesta ordem. Inclusive, tem uma pesquisa constatando em quais os meses ocorrem mais suicídios e quantos suicídios ocorrem a cada mês. Os meses com maior incidência são dezembro e janeiro. Queremos chamar atenção para que as pessoas procurem ajuda, seus serviços de saúde, o Caps, a Unidade Básica de Saúde, seu psiquiatra ou psicólogo, porque, tendo-se uma equipe capacitada e treinada, é possível reverter a situação.

IHU On-Line – E qual o papel da mídia em relação aos suicídios?

Ricardo Nogueira – Esse é um problema. Existe um manual de prevenção do suicídio para a mídia, foi feito pela Organização Mundial de Saúde. Neste manual, há um cuidado muito grande, principalmente para os jovens, que é colocado como contágio. Há uma visão que diz que, quando se fala em suicídio está se estimulando, só que precisamos rever esta questão. É o mesmo que achar que, ao se falar em droga, estaria estimulando o consumo. Entendemos que o suicídio é uma realidade que está aí e, para ser combatida, tem que ser revelada. Temos que divulgar isso. Claro que precisamos ter um cuidado de como colocar a questão. Uma orientação seria, ao invés de suicídio, falar da promoção da vida. Mas há uma contradição, pois, sempre, em qualquer situação, há um outro lado, que, neste caso, é o estímulo de algumas mídias, como a Internet, uma área muito perigosa. Nesta área, existe uma capacidade apavoradora, pois, enquanto estamos querendo implantar um programa de prevenção ao suicídio, estamos com o Grupo de Valorização da Vida, que é um único, do outro lado nossos “inimigos” são imensos e não se tem noção de quantos sites existem que nos combateriam. Estamos sozinhos. Um contra uma gama imensa, e não se divulgam esses números porque daí sim estaria se estimulando. Já houve um caso famoso em Porto Alegre de um jovem que teve seu suicídio acompanhado passo a passo através desse tipo de mídia. Esta é outra questão delicada que requer um cuidado muito grande, pois a situação é muito maior e perigosa do que se tem noção.

Notas:

[1] Substâncias químicas extremamente tóxicas que contém carbono e fósforo, sendo geralmente obtidas através do uso de sais orgânicos do ácido fosfórico.

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