Marighella.40 anos depois. Entrevista especial com Denise Rollemberg

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03 Novembro 2009

“Ele foi o grande líder da luta armada no Brasil”. Assim, a pesquisadora e historiadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Denise Rollemberg, define Carlos Marighella, político guerrilheiro brasileiro e um dos principais defensores da criação de um estado socialista no Brasil. Em entrevista concedida, por telefone, à IHU On-line, Denise apresenta o histórico de Marighella, apontando suas principais contribuições à história da luta armada no país. O cenário da ditadura militar e o isolamento da prática da luta armada, também foram temas abordados por Denise. “É importante perceber que a ditadura não foi militar, mas civil e militar. Isto deve ser pensado para compreender porque a luta armada ficou tão isolada. Foi porque a sociedade foi muito participante da ditadura”, revela.

Denise Rollemberg possui graduação, mestrado e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense, pós-doutorado em História pela Universidade de Paris X e em Sociologia pela Universidade de Campinas/Unicamp. Atualmente, é professora da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do Núcleo de Estudos Contemporâneos/NEC-UFF.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quem foi Carlos Marighella e por que se transformou em um mito?

Denise Rollemberg – Carlos Marighella é uma figura antiga do Partido Comunista que tem todo um percurso que acompanha a própria história do PCB, e o que é interessante nele, assim como outros militantes do partido, é que ele radicalizou esse percurso. E mais ainda: ele fez uma ruptura. Ele foi um sujeito que entrou no partido muito cedo, com 17 anos, e, a partir de 1964, começou a questionar o papel desarticulado, pois a política do PCB é associada aos trabalhistas e teria então desmobilizado os movimentos sociais, no sentido de uma possibilidade de resistência ao golpe. A ruptura dele se dá mais adiante, mas ele ficou, a partir dali, pensando como outros segmentos das esquerdas na época, o que teria sido um papel nefasto do Partido Comunista, nesse momento.

Outras figuras do partido também fizeram um percurso semelhante, como Jacob Gorender [1] e Mario Alves [2]. O que ele vai radicalizar é o caminho que tomou em 1967. A radicalização dele tem a ver exatamente com o fato de ter organizado a Ação Libertadora Nacional (ALN), uma organização de luta armada que foi uma das mais importantes do Brasil. Ele foi o grande líder da luta armada no Brasil.

IHU On-Line – Dentre os grupos de esquerda organizada e que optaram pela luta armada nos anos 1960 pode-se dizer que Marighella desfrutava de reconhecimento e liderança?

Denise Rollemberg – Sim. Havia muita disputa entre as organizações, embora elas tenham fragmentado bastante. Foram dezenas de organizações que disputaram a liderança na luta armada. Sem dúvida, Marighella é a figura mais expressiva, junto com Carlos Lamarca [3], dessa opção revolucionária da ação armada. São duas trajetórias muito diferentes, mas que se encontram em algum momento.

IHU On-Line – Como se deu o rompimento de Marighella com o PCB e a criação da Ação Libertadora Nacional (ALN)?

Denise Rollemberg – Muitas vezes, aparece em jornais Aliança ao invés de Ação. Não é simplesmente uma troca de palavras, mas há todo um projeto da ALN que estava centrado nessa discussão. Até 1964, o PCB falava muito na questão da aliança junto com os trabalhistas dentro da política de associação com os trabalhadores. A ruptura do Marighella com o partido vem centrada nesse sentido, de que não era mais o caso de uma política de aliança, mas sim centrada numa política de ação. Em 1967, houve um congresso de comunistas em Cuba, e Marighella foi. Ainda que ele fizesse parte do PCB nessa época, ele não foi representando-o. A ida dele, portanto, foi uma ruptura com o partido. Cuba queria, naquele momento, organizar uma espécie de internacional latino-americana que teria essa função de organizar e coordenar as lutas armadas na América Latina, com uma política muito diferente da política do PCB. A partir desse momento, ele assume o papel de liderança revolucionária com o apoio de Cuba, que o reconheceu como um dirigente revolucionário capaz de representar e fazer a revolução no Brasil, não mais dentro das concepções e orientações do Partido Comunista, mas numa guinada voltada para outro sentido.

IHU On-Line – Ideologicamente, como poderia ser definida a Ação Libertadora Nacional (ALN)?

Denise Rollemberg – A ALN era uma organização foquista, ou seja, defensora do foco guerrilheiro cubano, fundada nos moldes de Cuba. Quando Marighella foi para Cuba e se tornou o grande líder, até sua morte, apoiado por Cuba para implementar a revolução no Brasil, ele adere à teoria do foco, mas com muitas ressalvas também. Apesar de ele ter ficado tanto tempo no partido, numa política muito rígida, com a ruptura, Marighella obtém uma autonomia muito grande em relação a isso, exatamente pelas críticas que ele faz à burocratização do PCB. Então, a ALN vai ser fundada dentro da necessidade de valorizar a ação, ao mesmo tempo, ela é uma crítica à formação de um partido. O partido era necessário para fazer a revolução, mas não mais aquele partido tal qual o Partido Comunista. Daí que a ALN não vai assumir um nome como Partido da Ação Revolucionária.

Outra característica importante é a autonomia que seus dirigentes, encarnados no Marighella, defendiam. Eles diziam que a organização não deveria ser verticalizada, hierarquizada, exatamente criticando a estrutura dos velhos partidos comunistas. Pelo contrário, a organização deveria ser formada a partir de uma ideia horizontalizada, na qual os militantes que tivessem empenhados na luta revolucionária não precisavam mais passar por uma autorização da hierarquia partidária. As ações armadas deveriam ser organizadas em grupos de ação e estes teriam uma autonomia para fazer as suas ações armadas. Marighella inverte completamente a organização, suas ideias invertem completamente essa ordem de um partido revolucionário verticalizado para uma organização horizontal, na qual os militantes teriam muita autonomia para desenvolver suas ações armadas. E a questão do foco foi lida pelo Marighella de uma forma muito particular. Um apoio, sim, de Cuba seria importante para receber e incorporar os apoios disponíveis, principalmente, por toda a simbologia e a importância de Cuba naquele momento, na América Latina e no comunismo internacional, mas que não ficasse totalmente dependente de Cuba, refém da ajuda recebida. A revolução cabia aos revolucionários brasileiros. Foi uma organização muito diferente no sentido de que ela não se adapta a nenhum padrão rígido, exatamente diante da experiência de Marighella de tanto tempo no Partido Comunista. Ele cria uma organização muito mais flexível, em termos de hierarquias, ideologias, adaptando muitos vetores, e o resultado disso seria a própria ALN.

IHU On-Line – Qual era o conceito de revolução de Marighella?

Denise Rollemberg – É uma revolução de transformação e que passa, ao mesmo tempo, pela libertação nacional, com duas etapas muito rigorosamente separadas, tal qual o partido discutia, mas alguma coisa que a libertação nacional imediatamente levaria à revolução socialista através da ação armada. Ele mantém a ideia da libertação nacional nas duas etapas, mas ao mesmo tempo funde-as. Essa é a concepção de revolução dele, que mantém a perspectiva, mas ao mesmo tempo rompe com ela. Isto dentro da maneira como ele via Cuba, as possibilidades de fazer a revolução a partir do foco guerrilheiro.

IHU On-Line – A concepção da guerrilha do “foquismo” de Marighella se opõe a de Che Guevara e Regis Debray inspirada no maoísmo?

Denise Rollemberg – Ele tem uma leitura do foco guerrilheiro que é exatamente isso, a perspectiva do Che Guevara e do Regis Debray. Mas ele adapta. Vai receber o apoio urbano e vai aparecer para Cuba como a grande liderança revolucionária, mesmo depois de sua morte, esse apoio de Cuba a ALN vai se manter.  Ele não faz toda a revolução no Brasil ou da luta armada depender exclusivamente do foco. O foco seria um elemento importante, mas mais um entre tantos outros.

IHU On-Line – Contextualizando historicamente a luta armada, quais foram os acertos e erros de Marighella?

Denise Rollemberg – Acho que o grande acerto, se formos pensar dentro desta linha do que acertou e do que errou, foi lutar pela revolução, pela transformação da sociedade, contra um conformismo, contra a ditadura. Não só resistir à ditadura, mas ir além desta luta. Poderíamos dizer até mesmo que, antes mesmo de 1964, ele estava lutando contra o capitalismo, pelo socialismo. Esse inconformismo com o status quo, seja ele dentro de um regime democrático como era no regime pré-1964, ele lutava pela transformação do Brasil. Acho que se pensarmos dentro desta perspectiva, que não é a óptica do historiador, de acerto e erro, a grande importância é isso. Quem faz erra e acerta, quem não luta erra sempre.

Acho que o inconformismo é não colaborar com a ditadura, com as injustiças é um legado importante. A ALN, assim como todas as outras organizações, acabou enveredando por um militarismo muito rigoroso, o que na verdade tem a ver com a organização, mas tem a ver também com o isolamento em que essas organizações ficaram no Brasil. Este isolamento delas com relação à sociedade tem a ver exatamente com o fato de que a sociedade brasileira, desde o final dos anos 1970, participou e apoiou muito a ditadura. Segmentos importantes da sociedade, não só das classes média e média alta, mas setores populares receberam de uma forma muito alegre a instauração do regime e apoiou o regime durante um bom tempo. Esta ideia de que a sociedade brasileira resistiu contra a ditadura, que a ditadura é uma questão dos militares e não da sociedade, é uma construção, a partir do fim dos anos 1970, que é memória e não história. É importante perceber que a ditadura não foi militar, mas civil e militar. Isto deve ser pensado para compreender porque a luta armada ficou tão isolada. Foi porque a sociedade foi muito participante da ditadura.

Notas:

[1] Jacob Gorender é um dos mais importantes historiadores marxistas brasileiros. Jovem, lutou na II Guerra Mundial, na Itália, como integrante da Força Expedicionária Brasileira. Foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual saiu, nos anos 60, para participar da fundação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Foi preso e torturado quando da ditadura militar.

[2] Mário Alves de Souza Vieira foi um político brasileiro, um dos fundadores do PCBR. Destacou-se por ser um dirigente comunista estudioso do marxismo-leninismo.

[3] Carlos Lamarca foi um militar que desertou do exército durante a ditadura militar e se tornou um guerrilheiro comunista. Como guerrilheiro, integrante da Vanguarda Popular Revolucionária, foi, juntamente com Carlos Marighella, um dos principais opositores armados à ditadura militar.

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