Hinduísmo e a busca pelo moksa. Entrevista especial com Klaus Klostermaier

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26 Setembro 2009

“A noção hindu de dharma é muito mais abrangente que o termo ocidental ‘religião’. Seu significado implica ‘modo de viver’ (...) e deve expressar a ordem natural das coisas”, esclarece Klaus Klostermaier, pesquisador de Hinduísmo e história indiana, à IHU On-Line, por e-mail. Na entrevista a seguir, ele explica que o hinduísmo é politeísta, mas os hindus são monoteístas. De acordo com o professor, as escrituras falam de 330 milhões de deuses, mas cada hindu escolhe seu próprio istadevata, ou seja, seu deus. “As principais religiões hindus como vaisnavismo, saivismo e saktismo adoram o mesmo deus sob diferentes nomes. Mas todos concordam em que somente existe um único principio último: o Criador Mantenedor e Destruidor do Universo”, enfatiza.

Os aproximadamente 900 milhões de hindus, menciona o pesquisador, mantêm diferentes atitudes em relação ao hinduísmo: “desde a identificação total até a rejeição completa”. Mas em comparação com a Europa Cristã, informa, “a Índia hindu continua sendo muito religiosa”.

Ao comentar o sentido de tradições antigas como o hinduísmo, que existe há mais de 6000 anos, e sua relevância no mundo pós-moderno, Klaus Klostermaier é enfático: “acredito que já estamos entrando num pós-pós-modernismo”. E explica: “Muitos estão buscando a religião da pessoa pensante, não crença cega ou devoção tradicional. Mestres espirituais de todas as origens encontram grandes audiências hoje em dia, quase que por toda a parte”.

Klaus Klostermaier é doutor em Filosofia pela Gregoriana de Roma e atualmente professor de Estudo das Religiões na University of Manitoba . Entre sua produção bibliográfica, destacamos Hinduism: A Beginner`s Guide (2008); Hindu Writings: A Short Introduction to the Major Sources (2001); A Survey of Hinduism (3rd ed. 2007) e Hindu and Christian in Vridaban.

Confira a entrevista.

HU On-Line — Quais aspectos históricos caracterizam o aparecimento do hinduísmo e sua permanência no Oriente ao longo dos séculos?

Klaus Klostermaier - Hinduísmo é o nome de uma grande variedade de diferentes religiões que surgiram na Índia no decorrer de um tempo muito longo, possivelmente mais de 6000 anos. O elemento comum, teoricamente, é a aceitação do Veda como texto revelado. O termo “hinduísmo” como designação para religiões indianas foi uma invenção de estrangeiros. Os próprios hindus tinham chamado sua religião de vaidika dharma (dispensa [ou ministração] védica) ou sanatana dharma (dispensa eterna). A noção hindu de dharma é muito mais abrangente que o termo ocidental “religião”. Seu significado implica “modo de viver” e não depende de um fundador histórico, mas deve expressar a ordem natural das coisas. Vir Sarvarkar, nacionalista hindu do séc. XX, definiu a pessoa hindu como alguém cuja Terra Santa é a Índia. Os hindus consideram os rios, as montanhas e os mares da Índia como sagrados, e, por toda a Índia, há um grande número de cidades santas que são a meta de milhões de peregrinos. O estreito vínculo do hinduísmo com a geografia e natureza da Índia é uma das razões para sua resistência face aos numerosos desafios vindos de fora. O hinduísmo é parte integrante da história e cultura da Índia.

IHU On-Line — Os indianos continuam observando o sistema de castas? Como é a percepção dessa divisão social? Ela gerou grandes desigualdades entre os cidadãos?

Klaus Klostermaier - Casta é um assunto muito complexo. Nas escrituras hindus, ela é descrita como uma divisão da humanidade, implantada bem no início do mundo, pelo Criador. Ao longo de toda a história conhecida da Índia, ela foi um fator importante: os brâmanes, a casta mais elevada, controlavam as escrituras e rituais religiosos, xátrias eram os governantes e comandantes militares, vaixás, os comerciantes e negociantes, e sudras, os trabalhadores. Havia grande número de "excluídos" ["outcastes", párias] e tecnicamente estavam fora da lei que regulava a sociedade de castas. A pessoa se tornava um pária ao violar regulamentos de casta, por exemplo, ao negligenciar rituais ou deixar de seguir as regras da própria casta. As quatro “castas” (varnas) mencionadas acima se dividiam em cerca de três mil jatis (linhagens de nascença), que são de grande importância prática principalmente em conexão com o casamento. Na Índia de hoje, a divisão entre as castas não é tão evidente como costumava ser. Os brâmanes podem ser homens de negócio ou produtores rurais, e sudras podem ocupar posições elevadas no governo. Mas, socialmente, os jatis continuam muito importantes, principalmente no contexto do casamento. Isto vale também para cristãos indianos! Basta uma olhada nos anúncios matrimoniais nos jornais locais. A desigualdade baseada na casta veio à tona principalmente entre as pessoas pertencentes a uma casta e as sem casta. Os chamados Dalits (“gente oprimida”), que se organizaram politicamente faz pouco tempo, eram originalmente excluídos, e agora estão se revoltando contra uma sociedade dominada pela casta. A constituição indiana proibiu desqualificações baseadas no fato de a pessoa não ter casta, mas não aboliu as castas em si. Mahatma Gandhi lutou pelos direitos dos excluídos, mas insistiu em preservar a sociedade de castas. Ele ficou muito indignado com o Dr. Ambedkar (que era um excluído que veio a ser conhecido advogado), quando este, em protesto contra o sistema de castas hindu, se converteu para o budismo e levou junto consigo milhões de outros excluídos, que, atualmente, formam a comunidade neobudista na Índia.

IHU On-Line — Para os Cristãos, no ocidente, naturalmente, há um Deus. Enquanto isso, persiste, entre os indianos, a crença em diversos deuses. Como o senhor caracterizaria a espiritualidade e a divindade no hinduísmo?

Klaus Klostermaier - O hinduísmo é politeísta, ao passo que os hindus são monoteístas. Enquanto as escrituras do hinduísmo falam de 330 milhões de deuses, cada hindu escolhe seu próprio istadevata, isto é, a forma na qual adoram a Deus. Todos os teólogos hindus insistem na unicidade de Deus. O termo deva, geralmente traduzido como “deus”, na verdade significa um tipo de poder maior. As principais religiões hindus como vaisnavismo, saivismo e saktismo adoram o mesmo deus sob diferentes nomes. Mas todos concordam em que somente existe um único principio último: o Criador Mantenedor e Destruidor do Universo. Como já dizia o Veda: “O principio supremo é um único, as pessoas o chamam por nomes diferentes”.

IHU On-Line — Quais as características do vaisnavismo, e por que é considerado o maior segmento do hinduísmo moderno?

Klaus Klostermaier – Numericamente, o vaisnavismo é o maior segmento do hinduísmo. Cerca de 70% dos hindus são vaisnavas. O vaisnavismo em si é subdividido num grande número de sampradayas (tradições de culto). Sua característica é o culto de Vixnu como Criador, Preservador e Redentor. Algumas escrituras do vaisnavismo, como o Bhagavad Gita e o Bhagavata Purana, são amplamente aceitas por todos os hindus (e até mesmo não-hindus) como inspiradas (inspirational). Alguns dos lugares mais populares de romaria na Índia (Tirupati, Srirangam, Puri, Mathura-Vrindaban, Dwarka, Vixnu-Kanci e outros) são centros vaisnava visitados por milhões todos os anos.

IHU On-Line — Quais paralelos o senhor reconhece entre cristianismo e vaisnavismo?

Klaus Klostermaier - Os paralelos são bem numerosos. Ambas são religiões da graça e ambas enfatizam o amor de Deus (bhakti) como objetivo supremo. Na Bengala Krishna, é chamado Kristo. Há imagens de Yasoda (mãe de criação de Krishna) e Krishna, as quais poderiam com facilidade ser consideradas imagens de Maria com o menino Jesus. Ambas as religiões enfatizam a vida de moralidade e são contra os extremos do ascetismo. Muitos santos vaisnava poderiam facilmente ser considerados santos cristãos, e vice e versa.

IHU On-Line — O que caracteriza as mitologias e filosofias de salvação nas tradições religiosas da Índia?

Klaus Klostermaier - Este é um tópico vastíssimo que não pode ser respondido em um parágrafo. Escrevi todo um livro sobre Mitologias e Filosofias de Salvação nas Tradições Teístas da Índia (Wilfried Laurier Press, 1984), no qual tentei resumir a extensa literatura hindu sobre este tópico. Numa casca de noz: todas descrevem a condição humana natural como insatisfatória e carente de salvação. Elas também concordam em que Deus deseja o melhor para todas as pessoas e interfere de muitas maneiras em suas vidas com o objetivo de salvá-las. Elas também descrevem a condição última das pessoas libertas como sendo de extrema felicidade [bliss] na presença de Deus. Os sistemas filosóficos indianos esboçam modos de salvação e especificam os meios necessários para atingir moksa (libertação última).

IHU On-Line — A Ásia se caracteriza pela diversidade das religiões. Como o hinduísmo se relaciona com outras tradições religiosas orientais como, é claro, a chinesa?

Klaus Klostermaier - O hinduísmo é tipicamente indiano e praticamente não há paralelos entre o hinduísmo, o taoísmo e o confucionismo. O budismo começou na Índia e se tornou uma das principais religiões da China, mas os elementos típicos do hinduísmo não foram transmitidos para a China. O hinduísmo foi “exportado” para a Indonésia e para a Indochina no início da Idade Média  por meio de colonizadores e invasores que fundaram reinos nesses países. A maioria dos outrora famosos templos hindus nessas regiões, atualmente, está em ruínas, e o hinduísmo foi suplantado por outras religiões (budismo, islamismo).

IHU On-Line — Que influência exercem os deuses e a religião hindus na vida dos indianos? Como é que as suas crenças conformam a ética e os princípios indianos?

Klaus Klostermaier - Entre os 900 milhões de hindus, pode-se encontrar as mais diferentes atitudes em relação ao hinduísmo: desde a identificação total até a rejeição completa. De um modo geral, grande percentual dos hindus observa práticas religiosas visitando templos, orando, prestando culto etc. Em muitos lares hindus, um cômodo (ou parte de um cômodo) fica reservado para a imagem de uma divindade, sendo a adoração diária diante da mesma muito comum ainda hoje. Em comparação com a Europa cristã, a Índia hindu continua sendo muito religiosa. Símbolos hindus podem ser encontrados por toda a parte, e milhões de hindus, em qualquer época do ano, estão peregrinando para alguma das numerosas cidades santas. Há milhões de sadhus hindus (“gente santa” que deixou suas famílias por razões religiosas) e, por toda a parte, gozam de grande respeito. Festas hindus são celebradas com grande participação popular, com a declamação e encenação de livros sagrados como o Ramayana são muito comuns. (Uma produção de TV sobre o Ramayana foi assistida por centenas de milhões na Índia, que consideraram o ato de assistir uma espécie de culto.) A ética hindu tradicional continua sendo a espinha dorsal da moralidade indiana. Grande número de pregadores hindus populares promove reuniões públicas onde explicam e inculcam a ética do Bhagavadgita.

IHU On-Line — Qual é a preocupação do hinduísmo em relação ao ser humano moderno? Neste sentido, que contribuições a religião pode oferecer neste momento de crise global (crise de valores, econômica, ambiental, ética)?

Klaus Klostermaier - O hinduísmo contemporâneo cobre imenso espectro de atitudes para com a modernidade (ocidental). Há hindus extremamente conservadores bem como progressistas, e toda a escala entre um e outro. De um modo geral, os hindus se adaptaram de modo relativamente rápido à boa parte daquilo que é considerado “moderno”. Não é por acaso que hoje em dia os indianos lideram muitas áreas da tecnologia da informação. Alguns hindus tentam, de modo bastante explícito, aplicar os princípios do hinduísmo às práticas de negócio modernas. Também há numerosos ambientalistas e economistas hindus. De um modo geral, os indianos tentam resolver as diversas crises mencionadas, apelando para princípios indianos (hindus).

IHU On-Line — Para o teólogo alemão Hans Küng, existe um principio que pode ser encontrado em muitas tradições religiosas e éticas da humanidade: não faça aos outros o que você não quer que eles façam a você (ou, em termos positivos, faça aos outros o que você quer que lhe façam). O senhor também considera que este pode ser um princípio, uma norma incondicional entre as nações e as religiões?

Klaus Klostermaier - A máxima mencionada, que é a “regra de ouro”, é menos um princípio religioso que uma expressão de sabedoria profana. Naturalmente, também pode ser encontrada no hinduísmo. Trata-se de um requisito mínimo para a paz social (e também para a paz internacional): sua violação seria tola e contraproducente.

IHU On-Line — O senhor concorda com a ideia de que estamos entrando numa sociedade pós-metafísica? Neste sentido, qual é o papel das religiões e especialmente do hinduísmo?

Klaus Klostermaier - Você provavelmente está se referindo ao que se chama de “pós-modernismo”, que é uma mistura de cientificismo, freudismo e marxismo. Não o tenho em grande consideração e acredito que já estamos entrando num pós-pós-modernismo. Há muitos sinais de que está despertando novamente o pensamento metafísico entre os cientistas mais avançados, especialmente os físicos. Eu poderia citar com facilidade uma dúzia de livros recentes para embasar esta afirmação. A popularidade das numerosas facetas do hinduísmo no Ocidente, por exemplo, yoga, crença na transmigração etc. também é digna de nota. Muitos estão buscando a religião da pessoa pensante, não crença cega ou devoção tradicional. Mestres espirituais de todas as origens encontram grandes audiências hoje em dia, quase que por toda a parte. Observe, por exemplo, a popularidade do Dalai Lama. O pensamento metafísico indiano, por exemplo, Vedanta, tem grande potencial também para os dias de hoje.

IHU On-Line — O senhor gostaria de acrescentar alguma opinião sobre algo não perguntado?

Klaus Klostermaier - Gostaria de acrescentar, a título de conclusão, um parágrafo do meu livro “Survey of Hinduism” [Visão Geral do Hinduísmo] (State University of New York Press, 2007, p. 454): “O hinduísmo, no passado e no presente, teve e tem suas deficiências. Ninguém pode ignorá-las. Mas ele sempre teve vitalidade e substância espiritual genuína o suficiente para compensá-las. Sua abertura para a realidade, seu caráter experimental e experiencial, suas intuições genuínas e seus sábios autênticos são uma garantia de que continuará crescendo e tendo relevância.”

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