"Na América Latina podemos ressuscitar o projeto socialista". Entrevista com Leonardo Boff

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03 Dezembro 2006

Leonardo Boff continua acreditando em Lula, mas também na necessidade de uma brusca mudança no Brasil. Amigo do Movimento Sem Terra, reclama a reforma agrária integral, adverte para futuros desastres ambientais, acredita num novo socialismo de raízes latino-americanas e, evidentemente, critica a Igreja em entrevista ao jornal argentino Página/12, 4-12-06.

Confira a entrevista traduzida pelo Cepat.

O que o Brasil espera nos próximos quatro anos do governo Lula?

Espero que Lula radicalize os programas sociais, porque a intenção é fazer o trânsito de um Estado neoliberal clássico, privatista, da burguesia, para outro mais republicano, que coloque ênfase na coisa pública, na centralidade dos pobres, nas famílias, no Fome Zero. Então, há uma tensão interna porque o projeto da macroeconomia não é adequado à razão social. Esperamos que Lula radicalize a questão social, que faça, por exemplo, a reforma agrária que havia prometido e nunca fez. Se não faz esse aprofundamento, há o risco de que se caminhe para um assistencialismo do Estado para com os pobres.

Há indícios para esperar uma mudança radical como a que menciona?

Se ele quiser completar bem o mandato e realizar as promessas que fez, esta é sua última oportunidade. E tem muitas razões para radicalizar. Além disso, a situação econômica está mais estabilizada. Há indícios de que ele vai mudar, vai assumir uma política mais desenvolvimentista porque antes era mais equilibrista. Há, além disso, as pressões dos movimentos sociais que apóiam Lula. Dizem “Lula é o nosso candidato”, mas não lhe perdoam que não tenha tido coragem suficiente para enfrentar os fazendeiros.

Entre os movimentos sociais, entre eles os Sem Terra, se afirma que Lula chegou ao governo com seu apoio, com um trabalho conjunto de décadas, mas que governou para os mesmos de sempre e se esqueceu das promessas.

Considero um erro que Lula tenha buscado apoio parlamentar em partidos de aluguel e se tenha distanciado do movimento social. Inclusive o Partidos dos Trabalhadores (PT), seus dirigentes, perdeu a organicidade dos movimentos sociais, de onde obtinha a vitalidade e a criatividade. E agora prometeu que quer recuperar o vínculo com os movimentos sociais e vai incluí-los mais no social.

E o que pode acontecer se não o fizer?

Os movimentos observam Lula. Dizem que não entregarão Lula à burguesia, dizem que “Lula é fruto do trabalho de acumulação histórica, mas vamos pressioná-lo e criticá-lo para que cumpra o que prometeu”. Lula fez promessas ao povo e deve cumpri-las. E ele tem muito claro isso porque ele é filho desse povo, filho da fome e não esquece suas raízes.

Como avalia os primeiros quatro anos do governo de Lula?

No econômico, obedeceu aos princípios do neoliberalismo, com superávit primário alto, taxas de juro altas, as riquezas para o setor financeiro. Foi a condição para manter uma estabilidade no Brasil. Mas, no social houve mudanças, ruptura. Nunca na história do Brasil se fez tanto pelos pobres, políticas sociais articuladas, se criou esperança em irmãos que comiam uma vez por dia e agora podem se alimentar bem.

Há também críticas de assistencialismo a esses programas. Por exemplo, com o bolsa-alimentação e sua utilização nas eleições.

Essa é uma crítica de fora, porque de dentro esses cinco ou seis programas sociais são vistos de forma articulada, com fomento da educação, da saúde, da reabilitação profissional, da economia solidária, da agricultura familiar.

Recentemente você disse que Lula foi uma oportunidade desperdiçada.

Penso que ele desperdiçou algumas oportunidades. Por exemplo, não soube negociar com o sistema financeiro, como Kirchner; não disse “não vou pagar”, que seria uma heresia que o sistema não perdoaria, mas “vou pagar uma parte”. Lula não soube negociar com o sistema financeiro nacional e internacional. Creio que ele queria desfazer a idéia geral de que seu governo criaria uma crise sistêmica, que seria o grande risco do Brasil, e ele internalizou isso e quis demonstrar que não era bem assim. Mas, creio que deveria mudar, porque faz a soberania do país, e ele já desperdiçou uma oportunidade. Lula também desperdiçou a oportunidade para um diálogo mais orgânico e fundo com os movimentos sociais, a fim de sustentar mudanças profundas, como a reforma agrária, que estava muito bem estudada e detalhada a para sua implementação. A opção que Lula fez foi para obter uma base parlamentar, com deputados que são grandes latifundiários, que iriam bloquear todos os projetos e acreditou que seria uma guerra perdida. Preferiu fazer reformas inconclusas. Lula foi um reformista. Mas também conseguiu que a desigualdade diminuísse 5% e houve uma distribuição de bens diferente.

Na América do Sul está ocorrendo um processo de mudança ou para você isso tudo é apenas um reformismo neoliberal?

Tenho a impressão de que a partir da América Latina se pode recolocar o projeto socialista que na Europa já não existe mais. Aqui temos a possibilidade de ressuscitar o projeto socialista, mas não como o velho do Leste europeu, mas como uma radicalização da democracia, como inclusão de massa, com o povo, respeitando os povos indígenas, com as diferenças culturais, socializando as riquezas. E tendo em conta que na base desse continente está a mais rica biodiversidade do planeta, que será a riqueza mais valorizada nas próximas décadas. Este novo socialismo poderia ser guiado por um grande pensador como Mariátegui: são nossas idéias, valoriza as culturas, a dimensão religiosa mística, um olhar utópico. Isso quase não se encontra nos clássicos europeus. Seria um socialismo crioulo, latino-americano. Neste sentido, creio que os sujeitos históricos portadores de projetos de profundas mudanças não são os Estados, são os movimentos sociais, o MST, a Via Campesina, grupos de negros, indígenas. Todos eles se colocam o socialismo, não uma social-democracia, mas uma democracia social, uma democracia includente, participativa, distributiva. E o socialismo seria o marco teórico para essa aspiração. A nível mundial, está claro que ou dividimos o que temos ou não haverá suficiente para todos.

Qual é o papel dos movimentos camponeses e indígenas neste momento da América?

Está se elaborando um novo estado de consciência social dos movimentos. Eles já não lutam só por seus direitos negados, agora discutem que sociedade querem e caminham ao seu encontro. Já pensam um projeto de mundo novo, com articulações com outros movimentos de outros países, com reflexão, forte consciência, que vão impedir governos autoritários. Creio que os movimentos camponeses e indígenas são a base para sustentar projetos sociais mais próximos ao povo.

Não há o perigo de que estes governos da América Latina com sensibilidade social terminam cooptando e enfraquecendo as lutas?

Sempre há o perigo de cooptação, mas depende muito dos líderes sociais, que sempre devem estar articulados com suas bases. Os dirigentes não devem realizar diálogo pessoal com os partidos, mas diálogos coletivos. No Brasil, a referência maior dos Sem Terra (João Pedro Stedile), nunca vai sozinho a reuniões com o governo; sempre vão grupos de cerca de 20 companheiros e dialogam sempre depois de ter consensuado com as bases. Aí está a força do movimento, não dos líderes. Assim não sofrem tanto risco de cooptação.

Você está trabalhando há anos o tema ambiental. Como vê a situação da América Latina e o papel do setor privado?

Nós somos vítimas das empresas do setor do agronegócio. Os governos necessitam de dólares para arcar com a dívida externa, então permitem que se tirem montes, se venda a Amazônia, se devaste sistemas em nome da soja e de outras monoculturas. E não há muita consciência social ecológica e os governos centrais não favorecem uma consciência porque vêem a contradição entre os objetivos econômicos e a preservação do meio ambiente. Outro grande problema, este mundial, é a escassez de água e não há uma cultura do cuidado da água. Então, a água é riqueza e os governos não negociam com ela. Tudo passa por um processo de conscientização. Santo Agostinho dizia que as grandes mudanças se dão por amor ou por dor. Eu acredito que, lamentavelmente, certas pessoas não sofreram o suficiente para perceber que é preciso mudar. Este sistema, esta máquina mundial, produzirá grandes desastres ambientais se não a pararmos. Ou começamos agora ou em 50 anos a Terra será espaço de grandes devastações. Mas, claro, todos os que dizemos isto somos tomados por loucos, mas pode ser um futuro dramático.

O que é hoje a Teologia da Libertação?

A Teologia da Libertação nasceu escutando o grito do oprimido: o negro, o pobre, a mulher, o grito da terra e de todos os oprimidos. E os pobres do mundo aumentaram. E creio que um dos problemas do sistema é que antes podia ocultar os pobres. Hoje, a desgraça é tão terrível que já não se pode ocultar a realidade, o drama dos pobres do mundo: bilhões de pessoas passam fome e sede. Isso é um desafio à consciência humana, e a Igreja Católica não escuta esse grito. Essa Igreja tem pouco conhecimento dessa situação de injustiça. A Igreja atual, de Bento XVI, é a opção pelos ricos e não pelos pobres. Então, a Teologia da Libertação insiste, afirma que o problema é o sistema e continua viva fundamentalmente nas igrejas menores que levam a sério o desafio dos pobres e a justiça. E a Igreja, que está mais preocupada com a liturgia e a catequese e que não é muito sensível a estes temas, vê a Libertação como algo mau, perigoso, porque politiza as pessoas. Depois de 40 anos de Teologia da Libertação, se pode celebrar esta contribuição da América Latina para o mundo, uma contribuição cultural e de idéias em busca de justiça.

Dentro da Igreja Católica, que espaço há hoje para a Teologia da Libertação?

O cristianismo tem que ter uma matriz aberta, onde cada cultura tome o cristianismo e lhe some sua cultura, como fizemos na América: tentamos dar ao cristianismo um rosto negro, indígena, latino-americano. Com ritos nossos, celebrações, e lentamente se foi formando uma igreja latino-americana que é muito diferente da de Roma. É um catolicismo popular, que foi uma criação dos povos. Se se olha para o establishment romano, a cúria, é uma igreja muito conservadora, que se constrói só para dentro, onde não há espaço para fazer nada. Mas, se se olha para as igrejas periféricas, porque o cristianismo é uma grande multinacional com diferentes níveis de conscientização, se vê que há espaços para que a teologia discuta temas, questione o neoliberalismo. Ela é uma teologia viva, mas nas igrejas de grupos que são sensíveis. Assim que, a Teologia da Libertação tem a hegemonia moral, mas não a hegemonia política, que sem dúvida está com Roma.

 

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