Teologia e magistério da Igreja. Uma relação não-resolvida. Entrevista especial com Rosino Gibellini

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19 Março 2009

Uma relação não-resolvida. É assim que o teólogo italiano Rosino Gibellini define a convivência entre a teologia e o magistério da Igreja. Segundo ele, em entrevista concedida por e-mail, apesar de os teólogos já terem conquistado "bons espaços de liberdade", ainda falta "aquela colaboração plena e criativa entre teologia e magistério, que foi verificada no Concílio".

Falando em Concílio, Gibellini acredita que a discussão sobre uma nova reunião eclesial não é "realista" neste momento. Segundo ele, Um Sínodo, "mais amplo e representativo, com valor deliberativo" poderia ajudar a solucionar as diversas questões em aberto na Igreja. Questões essas que se manifestaram claramente nos últimos dias a partir das recentes medidas de Bento XVI, como a revogação da excomunhão a quatro bispos ultraconservadores, no que foi chamado de um retorno ao período pré-conciliar. Para Gibellini, a operação foi "arriscada". "Parece que está em curso uma estratégia de contenção do Vaticano II", afirma.

Mas há esperanças. Rosino Gibellini aponta o surgimento, nas últimas décadas, das teologias contextuais, que servem como resposta aos temas que as demais teologias não abordam. Assim como as contribuições de outras teologias, como a Feminista, que, segundo o teólogo, introduziu a categoria inovadora do "discipulado de iguais".

Rosino Gibellini é teólogo italiano, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e doutor em filosofia pela Universidade Católica de Milão. Colaborador do IHU, é autor de muitos livros, alguns deles traduzidos para o português, como "A teologia do século XX" e "Deus na filosofia do século XX", ambos da Editora Loyola.

Confira a entrevista.

IHU Online – Quais são os principais desafios que as teologias contemporâneas encontram hoje? Seria necessário um novo Concílio? Por quê?

Rosino Gibellini – Não acredito que seja realista prospectar hoje um novo Concílio. A proposta foi feita, no seu tempo, por Hans Küng, e foi o tema – "Rumo ao Vaticano III" – de um congresso teológico anunciado pela revista Concilium, que ocorreu com participação internacional na Notre Dame University (Indiana, Estados Unidos), no verão de 1977. As Atas foram publicadas na íntegra por Hans Küng e David Tracy com o título "Toward Vatican III. The Work that Needs to Be Done" [Rumo ao Vaticano III. O trabalho que precisa ser feito, em tradução livre] (New York, 1978). A edição italiana fez uma escolha desses textos com um título mais discreto "Verso la Chiesa del terzo Millennio" [Rumo à Igreja do Terceiro Milênio] (Queriniana, Bréscia, 1979) na coleção "Giornale di teologia".

"Parece que está em curso uma estratégia de contenção do Vaticano II e não de hermenêutica da reforma da Igreja`, como o papa anunciou em 2005"

A idéia foi depois retomada com a aproximação do ano 2000, mas no sentido de um Sínodo, mais amplo e representativo, com valor deliberativo, e não apenas consultivo. Para esse Sínodo, não faltariam temas: o cardeal [Carlo Maria] Martini assinalou, surpreendentemente, a nova compreensão da sexualidade; o cardeal [Karl] Lehmann indicou uma nova práxis penitencial; o presidente da Conferência dos Bispos Alemães, o tema do ministério na Igreja. No campo ecumênico, impõem-se os novos passos concretos a serem dados para realizar a unidade dos cristãos. E, mais em geral, como a Igreja se situa no contexto de um mundo profundamente modificado na era da mundialização.

IHU Online – Por onde a teologia caminha hoje em termos de vanguarda e ideias de fronteira? Há espaços e abertura para que a teologia possa desafiar concretamente o pensamento e a prática das Igrejas?

Rosino Gibellini – É notório que a teologia – segundo as indicações de David Tracy – tem uma tríplice responsabilidade: frente à comunidade cristã, frente à sociedade e frente à academia, ou seja, a pluralidade das ciências, que buscam interpretar o mundo. E a teologia, católica e ecumênica, desenvolve essas tarefas. Resta, para a teologia católica, o problema da relação com o magistério. Hoje, deve-se dizer que os teólogos católicos ganharam bons espaços de liberdade ([Yves Marie-Joseph] Congar [1] já reconhecia isso), certamente bem vigiada, e que devem ser defendidos. Mas, sobretudo, falta aquela colaboração plena e criativa entre teologia e magistério, que foi verificada no Concílio.

"Pode-se entender a estratégia do papa em remediar um cisma. Mas o modo com o qual a Cúria conduziu a operação foi arriscado"

IHU Online – A crise mundial preocupa realmente a reflexão teológica ou é apenas abordada superficialmente? Como a teologia se preocupa e participa hoje do debate público?

Rosino Gibellini – Para identificar esses problemas, é preciso dar reconhecimento institucional às igrejas locais e à contribuição que a sua teologia pode dar à Igreja universal. Nesse sentido, gostaria de citar o livro do teólogo norte-americano Robert Schreiter, "A nova catolicidade. A teologia entre o global e o local" (Editora Loyola, 1998). Um dos maiores fenômenos das últimas décadas é o nascimento das teologias contextuais. Estas nascem como resposta à insuficiência das teologias universais, mas devem ser inseridas no horizonte da "nova catolicidade", capaz de manter a unidade e de reconhecer a diversidade. Só uma teologia liberta daquilo que é chamado de "cativeiro ocidental" [2] poderá dar a sua contribuição criativa a uma Igreja que vive com o mundo (David Bosch) e está a serviço do mundo ([Dietrich] Bonhoeffer).

IHU Online – Quais são as contribuições que a Teologia Feminista trouxe para que a Igreja seja mais participativa?

Rosino Gibellini – A teologia feminista representou um dos capítulos mais novos da teologia do século XX. A categoria mais inovadora introduzida pela teologia feminista no discurso cristão é a do "discipulado de iguais" (Elisabeth Schlüsser Fiorenza). Essa categoria é um desafio, não à dimensão institucional da Igreja cristã, mas à estrutura patriarcal da instituição-Igreja, que ainda não foi concretamente acolhida na vida e na organização eclesial.

IHU Online – Vemos que a Igreja se pronuncia contra vários teólogos que buscam avançar na reflexão teológica, por exemplo, Roger Haight S.J., recentemente silenciado pelo Vaticano. Qual é o problema central que existe entre esses teólogos e o Vaticano?

Rosino Gibellini – Pode-se notar duas linhas teológicas nesse campo da relação entre teologia e magistério: uma teologia que serve como suporte ao magistério (função que é importante); e uma teologia exploradora, que representa quase uma radar (expressão de Congar), que tem a intenção de captar os sinais dos tempos, que não está desvinculada da comunidade, mas na qual está ativa sobretudo a categoria de "reino de Deus".

Essa segunda função exploradora também é necessária – nessa linha, coloca-se o experimento cristológico de Roger Haight – para manter viva e operante a "memória de Deus" na cultura secular. Deve-se constatar que ainda não se resolveu de modo satisfatório, na Igreja Católica Romana, a relação entre teologia e magistério. Daí as tensões recorrentes entre a instância romana, preocupada com a ortodoxia da doutrina a ser transmitida, e as teologias criativas, que não estão simplesmente em função da comunidade, mas sobretudo ao serviço do "Reino". [Jürgen] Moltmann [3] escreveu: "A teologia nasce na comunidade cristã, mas não é autorreferencial, porque está em função do Reino".

"Hoje, a teologia cristã está elaborando a figura de um cristianismo relacional, que conjugue a identidade cristã, o conhecimento das outras tradições religiosas, o diálogo, a capacidade de colaboração"

IHU Online – A "superioridade de Jesus" em algumas teologias não contraria uma kénosis dialógica e as novas revelações de Deus em outras culturas e religiões? Qual a atitude da teologia com relação ao pluralismo religioso e o diálogo inter-religioso?

Rosino Gibellini – Uma teologia cristã responsável não fala de "superioridade de Jesus", categoria inadequada e desviante da dimensão de kénosis do evento do Cristo, como [Dietrich] Bonhoeffer [4] bem ensinou. Hoje, a teologia cristã está elaborando arduamente a figura de um cristianismo relacional, que conjugue a identidade cristã, o conhecimento das outras tradições religiosas, o diálogo, a capacidade de colaboração em vista de uma ordem mundial da solidariedade. Nessa direção, considero importantes as contribuições do "Projeto de Ética Mundial" (Editora Paulinas, 1998), de Hans Küng, e a contribuição da teologia asiática, que tem a experiência e o conhecimento do diálogo e da colaboração com as grandes religiões mundiais.

IHU Online – Como o senhor avalia a postura do Vaticano com Bento XVI diante de gestos como a revogação da excomunhão dos lefebvrianos, censura a teólogos, problemas com os judeus e no debate sobre a bioética etc.? Há futuro para o catolicismo e o cristianismo em geral? Qual é o papel da teologia dentro desse debate?

Rosino Gibellini – Entre os vários comentários sobre o fato da remissão da excomunhão aos quatros bispos lefebvrianos, achei particularmente interessante o artigo publicado no The Tablet, de Londres, que trazia este título: "A estratégia arriscada de Bento" [Benedict’s high risk strategy, na versão original, disponível aqui, em inglês]. Isto é: pode-se entender a estratégia do papa em remediar um cisma. Mas o modo com o qual a Cúria conduziu a operação foi arriscado: corre-se o risco da emigração do interior da Igreja, isto é, a desafeição de muitos fiéis frente a uma Igreja que dá passos para trás com relação à linha de abertura e de diálogo com o mundo e com as religiões não-cristãs, sancionada na "Gaudium et spes" e na declaração "Nostra Aetate", que é o documento mais intolerável para os lefebvrianos. Não faltaram reações, sobretudo por parte das faculdades teológicas da Alemanha. Parece que está em curso uma estratégia de contenção do Vaticano II e não de "hermenêutica da reforma da Igreja", como o papa anunciou no discurso comemorativo ao 40º aniversário do Concílio, em 2005.

O tema do futuro do cristianismo se desenvolveu, sobretudo, na França ([René] Rémond, [Paul] Valadier) e na Alemanha ([Walter] Kaufmann e [Johann Baptist] Metz), e eu descrevi suas linhas na nova edição italiana de "A teologia do século XX" (Editora Loyola), de 2007. Aqui, cito apenas as palavras do historiador Rémond, que se recusa a falar em declínio, mas insiste sobre a idéia de situar novamente o cristianismo como "fermento". Ele deveria "introduzir valores fortes, o sentido do homem, a história em caminho, a esperança em um progresso possível, mas, junto a isso, reencontrar uma palavra mais discreta, definir-se como fermento".

Notas:

1. Yves Marie-Joseph Congar (1904-1995) foi teólogo dominicano francês. Esteve preso em 1940-1945 nos campos de concentração de Golditz e Lübeck. Professor de teologia na faculdade de Le Saulchoir, foi duramente perseguido pelo Vaticano, antes do Concílio, por seu trabalho teológico, por sua obra "Verdadeira e falsa reforma de Igreja". Porém, João XXIII pediu que ele trabalhasse nos mais importantes documentos do Concilio Vaticano II, junto com outros teólogos como Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, ou Henri de Lubac. Em 1994, foi elevado a cardeal por João Paulo II. [voltar ao texto]

2. Termo que compreende o chamado "espírito dos tempos", ou seja, o materialismo idolátrico, o individualismo ontológico, a fé no progresso tecnológico. [voltar ao texto]

3. Jürgen Moltmann (1926-) é professor emérito de Teologia da Faculdade Evangélica da Universidade de Tübingen, considerado um dos mais importantes teólogos vivos da atualidade. Foi um dos inspiradores da Teologia Política nos anos 1960 e influenciou a Teologia da Libertação. [voltar ao texto]

4. Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) foi um teólogo, pastor luterano, membro da resistência antinazista alemã e membro fundador da Igreja Confessante, ala da igreja evangélica contrária à política nazista. Bonhoeffer envolveu-se na trama da Abwehr para assassinar Hitler. Em março de 1943, foi preso e acabou sendo enforcado, pouco tempo antes do próprio Hitler cometer suicídio. [voltar ao texto]

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

 

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