A privatização da morte. Resiliência e Fé. Entrevista com Martin Dreher

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25 Outubro 2008

O conceito de morte foi invisibilizado, denuncia o teólogo Martin Dreher. “A morte não foi apenas camuflada. Ela foi privatizada, dobrando-se às leis da economia de mercado. A morte não é mais questão da família, mas de uma indústria que se encarrega dela.” Já o conceito de vida foi baseado no consumo. Dreher , em entrevista concedida, por email, à IHU On-Line, lamenta que o tema morte seja um tabu, e que os velórios no Brasil durem tão pouco tempo, pois é preciso mais vagar para que nos separemos de quem se foi. Questionado sobre o que resta da vida após nossa morte, foi enfático: “Resta a esperança, a certeza da ressurreição por causa da ressurreição de Jesus dentre os mortos. Essa esperança e certeza não é verdade que possa ser comprovada. Ela é crida, a partir da mensagem de que Deus vai fazer nova criação a partir do velho corpo, por causa do que já fez em Jesus. O que resta da vida na morte? Vida”.

Dreher, que é professor e pesquisador no PPG em História da Unisinos, possui graduação em Teologia, pela Escola Superior de Teologia (EST), e doutorado em Teologia com Concentração em História da Igreja, pela Ludwig Maximilian Universitat München. Recentemente, o professor da Unisinos organizou, juntamente com os pesquisadores Imgart Grützmann e J. Feldens, o livro A imigração alemã no Rio Grande do Sul. Recortes (São Leopoldo: Oikos, 2008). Além desse, Dreher publicou outras obras, dentre as quais destacamos Populações rio-grandenses e modelos de Igreja (Porto Alegre: EST; São Leopoldo Sinodal, 1998), História do povo luterano (São Leopoldo: Sinodal, 2005) e A Igreja no mundo medieval (São Leopoldo: Sinodal, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como a morte é encarada pela religião luterana? Que diferenças existem em relação ao catolicismo?

Martin Dreher - Fundamentalmente, também há, entre os luteranos, uma pluralidade de concepções relativamente à morte. Essa pluralidade tem sua origem nas regiões de origem dos luteranos que migraram para o Brasil desde 1824. Mas ela, ao mesmo tempo, se deve às trocas culturais que ocorreram no Brasil, país de profundo sincretismo religioso. Não podemos esquecer que igualmente os luteranos foram marcados pelo neoplatonismo e pela profunda dicotomia por ele difundida em sua antropologia ao dividir o ser humano em corpo e alma. Nessa dicotomia, existe uma parte mais nobre no ser humano, sua alma imortal. Ora, ao acentuar a perecibilidade do corpo e a imortalidade da alma, esse neoplatonismo, também em sua acepção cristã que remonta a Orígenes , acabou por esvaziar a mensagem central da fé cristã: a ressurreição de Jesus Cristo e, por conseguinte, a confissão contida no Credo Apostólico: “creio na ressurreição do corpo (da carne)”. Para que esperança em relação ao corpo, se a alma é imortal e não morre?! Foi o que por muito tempo norteou o cristianismo no Brasil, para o qual valia “salva tua alma!”

O significado da morte de Jesus

Para se compreender o significado da morte para a fé cristã, é importante que se parta da morte de Jesus. Na cruz, Jesus repete palavras do Salmo 22: “Deus meu, Deus por que me desamparaste?” . São palavras que expressam a ausência total de Deus. E por que isso é assim? Porque vida é ter relacionamento, principalmente relacionamento com Deus. Morte significa ausência de relacionamento com Deus. O Salmo 22, na boca de Jesus e em seu contexto original, expressa a morte em todo o seu horror. A morte nada tem de glorioso. Ela é, antes, a impossibilidade de o morto estabelecer qualquer contato com o autor da vida, Deus, e com seus semelhantes. A única possibilidade que permanece ante o perigo da morte é dirigir-se a Deus, “fonte da vida” (Salmo 36.8-10), pois Ele pode também estar presente no mundo dos mortos (Salmo 139,8). O horror da morte, pelo qual todo o ser humano precisa passar, a impossibilidade de comunicar-se com Deus e com os seus, se tenta minimizar com teorias acerca da alma e de sua imortalidade. Essa radicalidade está descrita com todas as letras na morte de Jesus. Nela, se expressa o significado de culpa, de pecado. Os moralismos, resultantes da tentativa desesperada de se preservar uma alma imortal ligada a Deus, criaram catálogos de pecados maiores e menores e produziram igual número de listagens para minimizar culpa.

O que se esqueceu (e a questão é atualíssima, pois o conceito “pecado” saiu do vocabulário dos pregadores cristãos) é que o pecado é fundamentalmente fim de relacionamento, fim de comunicação, é morte. Pecado é a tentativa do ser humano de querer “ser como Deus”, ocupar seu lugar, tornar-se medida de todas as coisas e dos seus semelhantes, o que leva à morte, ou seja, produz e resulta em morte. Isso torna a morte de Jesus mais terrível: ele morre a morte do ser humano que produz morte, do ser humano que se afastou totalmente de Deus. Esse Deus buscou anunciar e possibilitar vida. Em sua morte, se mostram todas as potencialidades do ser humano como produtor de morte. Toda essa brutalidade e violência da morte, no entanto, só fica evidente em toda a sua clareza a partir do instante em que a fé cristã anuncia o não de Deus a tudo aquilo que produz morte, ao ressuscitar a Jesus. A morte de Jesus é associada a sua ressurreição. É, por outro lado, o sim evidente de Deus à vida. Na comunidade cristã, esta certeza é experimentada na celebração eucarística, quando é anunciado, através da palavras de Jesus, o “dado e derramado em favor de vós para a remissão (perdão) dos pecados” e quando no cerne de sua pregação é anunciado que a morte não tem a última palavra, mas a vida: “O Senhor verdadeiramente ressucitou!”. Na fé cristã, se anuncia que em Jesus temos a vida, que é maior do que a morte, mesmo que todos tenhamos que experimentar esta. Por isso, é possível uma postura confiada diante da morte. Ela sabe que também na morte, por causa de Jesus, se tem vida.

IHU On-Line - Para os materialistas e ateus, a vida significa apenas corporeidade. O que resta da vida após nosso corpo deixar de funcionar?

Martin Dreher - Vida tem começo e tem fim. A partir do instante em que nascemos, começamos a morrer. Daí que, para a fé cristã, vida é tempo dado de presente pelo Autor da vida. Nessa perspectiva, também é importante dizer que, ao permitir o surgimento de vida, Deus está criando um ser único, com o qual quer se relacionar, se comunicar. Daí brota também o cuidado com a vida, que se estende até o cuidado com o moribundo e a entrega de seu corpo à terra, quando de sua morte. Não é por acaso que cristãos marcam com uma cruz o local onde foi sepultada uma pessoa batizada - aqui descansa -, aguardando pela ressurreição, um ser único, criado por Deus, objeto do amor de Deus, em relação ao qual temos esperança. Por isso, a pergunta formulada tem de ser respondida com: “Resta a esperança, a certeza da ressurreição por causa da ressurreição de Jesus dentre os mortos”. Essa esperança e certeza não é verdade que possa ser comprovada. Ela é crida, a partir da mensagem de que Deus vai fazer nova criação a partir do velho corpo, por causa do que já fez em Jesus. O que resta da vida na morte? Vida.

IHU On-Line - Podemos dizer que a morte no Ocidente está camuflada? Por quê?

Martin Dreher - Em minha infância, falar sobre sexo era tabu. Não era tabu falar sobre a morte. Desde pequeno participei de velórios e de sepultamentos. Acompanhei a preparação para a morte de um tio-avô e de minha avó. Muito pequeno,acompanhei o velório de meu avô, colhendo todas as flores que havia no jardim e juntado-as às flores que eram trazidas por amigos: Vovô só podia estar de aniversário! Sem o saber, estava fazendo profunda reflexão teológica: a morte é o nascimento para a vida que não tem fim.
Em muitas famílias, as pessoas morriam em casa, no círculo da família que segurava a mão do moribundo, secava o seu suor, que brotava na testa. A família comungava com o moribundo, antecipando a grande eucaristia a ser celebrada com Cristo e com todos os que nos antecederam na morte. No século XX, tivemos a banalização da morte em duas guerras mundiais, nos campos de extermínio a exemplo de Auschwitz,  nos desaparecidos dos Estados de Segurança Nacional, no crescimento de um capitalismo selvagem para o qual o lucro a todo o custo era o mais importante. A vida ficava em segundo plano, como o vimos nos milhões dizimados pela fome. Por outro lado, esse mesmo século XX teve avanços impressionantes no campo da medicina. Houve aumento da expectativa de vida, a morte foi postergada e afastada do quotidiano. O moribundo foi tirado do seio da família para morrer no anonimato, só. O jovem não tem contato com a morte senão através de produções sensacionalistas da mídia. Vai estudar medicina, e o primeiro morto que vê em sua vida encontra na aula de anatomia.
Procurou-se invisibilizar a morte e vender conceito de vida, baseado em consumo, tornando realidade a sentença de Schopenhauer : “Der Mensch ist, was er isst” (O ser humano é o que come). A morte não foi apenas camuflada. Ela foi privatizada, dobrando-se às leis da economia de mercado. A morte não é mais questão da família, mas de uma indústria que se encarrega dela.

IHU On-Line - Nesse sentido de negar a morte, como entender a indústria da beleza (padrões estéticos, cirurgias e cosméticos) e o culto ao corpo nas academias, a eutanásia de idosos e a maquiagem dos mortos?

Martin Dreher - Creio que o cuidado com o corpo não significa necessariamente negação da morte. Há uma responsabilidade em relação ao corpo e se nós, enquanto corpos, nos devemos ao Criador, é mais do que justo e responsável que cuidemos do corpo e o embelezemos. Agora existem padrões de corpo que fogem inclusive ao racional. Penso nos sofrimentos a que se submetem jovens modelos, desesperadas para manter um corpo “ideal” que, por vezes, as leva à morte. Penso na ingestão de anabolizantes. Aqui, estamos diante do irresponsável e há profunda falta de reflexão sobre o que significa vida e vida plena. No outro extremo, encontramos a situação do corpo do idoso. Em relação a esse corpo, assim me parece, o problema maior não é o da eutanásia , mas o da ortotanásia .  Na ânsia por prolongar a vida, esquecemos que há também um direito à morte e ao morrer. Lembro-me de minha avó no leito de morte, acordando de um pesadelo aos soluços. Quando lhe perguntei o que a fazia chorar convulsivamente, respondeu: “Sonhei que faltavam dois dias para eu completar mil anos e... isso é tão terrível!”. Pouco depois ela se juntou a seus pais. Cuidamos de meu pai até sua morte. Foi uma longa agonia. Quando faleceu, agradecemos a Deus por sua vida e o louvamos por causa de sua morte.

IHU On-Line - Que sentido existe em comemorar o Dia dos Finados?

Martin Dreher - Esse dia “comemora”, “rememora” os que foram antes de nós e sem os quais não seríamos, nem física nem espiritualmente. No calendário litúrgico luterano, o dia de comemorar os mortos, originalmente, era o último domingo do ano eclesiástico, designado de “domingo da eternidade”; era o dia de lembrar aqueles que Deus já chamara par junto de si. No Brasil, a forte tradição católico-romana fez com que também luteranos e outros cristãos passassem a visitar os túmulos dos que foram antes de nós, em 2 de novembro. Quando visito as sepulturas dos que foram antes de mim, faço-o com sentimento de gratidão.

IHU On-Line - Esse tipo de data contribui para a superação da dor de quem fica?

Martin Dreher - Uma data apenas não significa nada. A superação de dor se faz falando daquela pessoa amada que tivemos que entregar à sepultura, recebendo e dando abraços, segurando uma mão em silêncio. Quando em 2 de novembro visitar as sepulturas de meus bisavós, avós e pai e ornamentá-las com flores, vou expressar gratidão a Deus e a eles. O que sou, devo a Deus por meio deles. É claro que existem pessoas para as quais o 2 de novembro é dia de tentar fazer penitência pelo que não fizeram em vida em relação à pessoa falecida. Essas pessoas sofrem por demais. Aí a ida ao cemitério não ajuda a superar dor. Tenho aconselhado a quem se encontra nessa situação a amar mais a alguém que, vivo, necessita muito de amor.

IHU On-Line - Qual a importância do funeral, principalmente do velório, para o processo de superação e de cura da dor pela perda?

Martin Dreher - Lamento que entre nós, no Brasil, o velório seja extremamente breve: poucas horas. Precisamos de mais tempo para nos separar de quem nos é querido. Lamento também que “velório” sempre mais deixe de ser tempo de despedida. Como morte é tabu, cada vez menos se fala da pessoa falecida com os familiares e, com isso, não se ajuda a amenizar a dor. Cada vez mais, sinto a necessidade da visita após o sepultamento. No funeral propriamente dito, o rito é importante. O clamor do Salmo ajuda a clamar; a palavra do Evangelho ajuda a dar esperança; a oração faz-nos sentir acolhidos; a bênção conforta; o acompanhamento à sepultura ajuda na despedida; o retorno para casa na companhia de outros nos ajuda a conviver com a dor e a minorá-la.

IHU On-Line - É possível dar sentido à existência sem a fé?

Martin Dreher - Para a mídia, certos refrigerantes, certas marcas de dentifrícios ou certas marcas de cigarro dão sentido à existência. Ela não me convence. Estamos rodeados por uma série de inquietudes que requerem satisfações momentâneas. Santo Agostinho  dizia que vivemos inquietos até que descansemos em Deus. Fazer essa afirmação é resultado de experiência de fé, de uma confiança resultante de um encontro com Deus, no meu caso, na pessoa de Jesus, em sua morte e ressurreição. Foi um presente que me foi dado e que me deixa viver confiado.

IHU On-Line - Qual é o papel do Outro na ajuda da superação da dor da morte no desenvolvimento da resiliência?

Martin Dreher - O “Outro” é, para mim, Deus, que sempre se vale de “outro” para vir a meu encontro. Sem o “Outro”, através do “outro” fico só com minha dor. Sempre vivi a experiência religiosa em comunidade, dela aprendi que ela é o lugar da mutua consolatio fratrum (mútuo consolo dos irmãos). Uma das características de Deus é o condoer-se. É, por isso, que no Evangelho é dito que Deus “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. De Deus se pode aprender que somos convidados a acompanhar a dor do outro e a compartilhá-la.

 

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