Ônibus 174. Uma tragédia e uma boa lição. O retorno da vida. Entrevista especial com Janaína Lopes Neves

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20 Maio 2008

Às 14h20 do dia 12 de junho de 2000, Sandro Barbosa do Nascimento, um garoto de rua com uma história trágica de vida, ao tentar assaltar os passageiros do ônibus 174, no Rio de Janeiro, transformou-se em seqüestrador. Amplamente televisionado, o seqüestro durou quatro horas e acabou com a morte de uma passageira e do próprio Sandro. Janaína Lopes Neves estava no ônibus. Passou um dos momentos de maior tensão do episódio, quando Sandro andou de um lado para o outro com um lençol na sua cabeça e afirmou que iria contar até cem e, quando chegasse ao fim da contagem, a mataria. Sandro contava pulando os números e, ao chegar no número cem, fez a refém se abaixar e fingiu dar-lhe um tiro na cabeça.

Janaína conversou por telefone com a IHU On-Line sobre o episódio. Oito anos depois do ocorrido, ela diz que tira boas lições da tragédia. “Naquele momento eu tinha absoluta certeza que fosse morrer, por isso, hoje, eu agradeço todos os dias pela minha vida.”

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que você sente ainda, quase oito anos depois, em relação àquele episódio?

Janaína Lopes Neves – Hoje, depois de tanto tempo, parece que foi uma coisa que não aconteceu, mas todos os dias eu passo pelo local do seqüestro e sempre me lembro de tudo.

IHU On-Line – E como você vê o Rio de Janeiro hoje?

Janaína Lopes Neves – Eu acho que com relação à segurança algumas coisas melhoraram e me sinto segura. De qualquer maneira, eu tenho meus medos, evito algumas coisas, como sair ou chegar muito tarde em casa, pois a gente fica fechada depois de tudo o que aconteceu. Lembro de tudo o que aconteceu ainda. Eu já falei tanto sobre isso... Ao mesmo tempo em que parece que não aconteceu, eu tenho as cenas muito presentes na minha memória. Lembro bem de como eu estava naquele dia. Foi um dia em que acordei triste, fui à faculdade, e tenho lembrança do momento em que o seqüestro começou, quando o ônibus foi rendido. Também recordo do desfecho.

IHU On-Line – E tem como tirar alguma coisa de boa desse momento que você viveu?

Janaína Lopes Neves – Eu penso que sim, principalmente a possibilidade de agradecer a Deus pela vida, porque eu tive a oportunidade de ter ela de volta. Naquele momento, eu tinha absoluta certeza que fosse morrer, por isso, hoje, eu agradeço todos os dias pela minha vida. Algumas lições foram aprendidas também, pois passei a olhar as pessoas de outra maneira, vi que as dificuldades de outras pessoas são de repente maiores do que as suas, enfim. Eu passei a ser um pouco mais humilde e a ver as outras pessoas.

IHU On-Line – Como as pessoas reagem quando sabem que você é uma das vítimas desse episódio?

Janaína Lopes Neves – Onde eu trabalho nem todas as pessoas sabem do que ocorreu. Mas algumas pessoas viram o documentário (Ônibus 174, de José Padilha) e não acreditaram que eu era uma das pessoas que estavam lá. Algumas ficaram muito surpresas e diziam: não acredito que você, que está aqui na minha frente agora, passou por isso!?! Eu acho que eu teria todas as razões para ser uma pessoa... não normal, um tanto perturbada, mas sou uma pessoa tranqüila.

Documentário

Eu gostei muito do documentário e recomendo, porque ele tem os dois lados da moeda. Não podemos mostrar só o nosso lado.

IHU On-Line – Você tem contato com alguma das pessoas que viveram esse momento com você?

Janaína Lopes Neves – Eu só tenho com a Luana [1] que estava no fundo do ônibus junto com a Geísa [2]. Ela vai casar e até me trouxe o convite. Ela é a pessoa com quem eu mais tenho contato, mas eu não deixo de falar com as outras pessoas. Durante um ano, depois do seqüestro, eu tive contato com a Damiana [3], que estava com a Geísa. Elas eram amigas e tinham descido a Rocinha para descontar um cheque. A Damiana teve um derrame dentro do ônibus, e a Geísa pediu muito pela vida dela. Por isso, o Sandro deixou com que ela descesse do ônibus. Eu, por um tempo, fiz parte do projeto social em que elas trabalhavam, mas, por uma questão de segurança, eu deixei de freqüentar a Rocinha, pois tomei um susto lá em cima e achei que estava dando muito “a cara a tapa”. Hoje, a gente não tem mais contato.

Geísa e Sandro

Claro que tem a parte feliz que é o fato de que eu sobrevivi, mas sempre me lembro dela. A Geísa foi a pessoa que morreu “segurando” todas as outras pessoas, a vida de outras pessoas. O Sandro, também, ao mesmo tempo em que foi o nosso algoz, foi um menino de rua, e o lado dele também é difícil. Muitas pessoas me perguntam se tenho raiva dele e eu digo que não, pois existiam razões no subconsciente dele para ser daquele jeito e, infelizmente, nós estávamos no caminho. Só Deus mesmo para saber por que temos que passar por tais situações.

IHU On-Line – O ônibus 174 ainda existe?

Janaína Lopes Neves – A linha existe, mas trocou o número. Agora é 158. Mas as pessoas sempre lembram que ele foi 174.

Notas:

[1] Luana Belmont, estudante de comunicação, foi uma das vítimas do ônibus 174.

[2] Geísa Firmo Gonçalves era professora primária e tinha 20 anos quando foi morta durante o seqüestro do ônibus 174. Ela servia como escudo ao assaltante, que chegou a enfiar-lhe o cano da pistola na boca enquanto o ônibus era cercado por tropas de elite da polícia. As emissoras locais de TV passaram a transmitir o drama ao vivo, em rede nacional, enquanto canais internacionais, como a CNN, colocavam flashes no ar a todo momento. Passavam das 18h30 quando Sandro, que insistia em receber duas granadas, duas pistolas, um carro e mil reais, decidiu soltar um dos reféns, um deficiente físico. Alguns minutos depois, saiu do ônibus pela primeira vez, sempre mantendo como escudo a refém Geísa. Enquanto negociava com três policiais, um quarto, vindo de trás, irrompeu com uma submetralhadora e disparou três tiros. Não se sabe se Geísa morreu em decorrência dos tiros disparados pela arma do policial ou do próprio assaltante. Uma investigação concluiu que Geísa levou quatro tiros: três de Sandro e um da polícia.

[3] Damiana Nascimento Souza, que já tinha sofrido antes do episódio, dois derrames cerebrais, passou mal durante o seqüestro do ônibus 174, tendo um terceiro derrame. O derrame deixou-a sem a fala e sem os movimentos do lado esquerdo do corpo. Foi para ela que o seqüestrador entregou um celular para que negociasse com os policiais. Foi Geísa quem intercedeu por ela, que teve seu pedido atendido por Sandro que liberou a amiga.

[4] Sandro Barbosa do Nascimento foi o seqüestrador do ônibus 174. Foi um dos sobreviventes do massacre da Candelária, que ocorreu na madrugada do dia 23 de julho de 1993. Antes de seu nascimento, seu pai biológico abandonou sua mãe assim que descobriu que ela estava grávida. Aos seis anos de idade, Sandro presenciou o assassinato de sua mãe na favela onde moravam. Foi então que ele virou menino de rua. Ele acabou se viciando em drogas, roubando para manter seu vício em cocaína. Nunca aprendeu a ler ou escrever. No dia 12 de junho de 2000, Sandro, que continuava a habitar as ruas do Rio de Janeiro, seqüestrou o ônibus 174 com um revólver de calibre trinta e oito que continha apenas quatro balas. Sua intenção inicial era roubar os passageiros, mas o roubo se transformou em seqüestro após um passageiro ter feito um sinal para uma viatura da polícia militar que estava passando pela rua. Sem ter como escapar da polícia, Sandro fez onze reféns dentro do ônibus. Ele assegurou aos passageiros que não tinha a intenção de matar ninguém, mas dizia à polícia e à imprensa que iria matar a todos os reféns. Às seis e cinquenta da tarde no horário de Brasília, Sandro decidiu sair do ônibus, usando a professora Geisa Firmo Gonçalves como escudo. Um policial do BOPE atirou em Sandro, mas o disparo acabou pegando em Geisa, que foi levada para o hospital, onde foi declarada como morta. Sandro foi imobilizado e levado para dentro do carro da viatura da polícia, onde morreu por asfixia. Após alegações de que a morte de Sandro foi ocasional, os policiais responsáveis pela morte de Sandro foram levados a julgamento por assassinato e foram declarados inocentes.

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