O resgate da cultura material confirma a diversidade cultural e étnica indígena. Entrevista especial com Jairo Rogge

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03 Maio 2008

Ao falar sobre a pesquisa arqueológica como forma de conhecer a cultura indígena, o professor Jairo Rogge, em entrevista por e-mail à IHU On-Line afirma: “Se hoje falamos em desenvolvimento sustentável, que é uma palavra de ordem da sociedade capitalista moderna, temos muito que aprender com as sociedades indígenas, pois a sustentabilidade era (e ainda é) para eles a chave da vida. E isso parte de um conhecimento e um respeito profundo pelo ambiente natural”. Para Jairo, “essa incrível proximidade entre homem e natureza certamente está na raiz do conhecimento profundo das sociedades indígenas sobre os recursos naturais”.

Jairo Rogge é doutor em História pela Unisinos. Desde 1992, é pesquisador da Unisinos e desenvolve atividades no Instituto Anchietano de Pesquisas, na área de Arqueologia, com ênfase em Arqueologia Pré-Histórica. Rogge atua principalmente nos seguintes temas: arqueologia do planalto meridional, arqueologia tupi-guarani, assentamentos litorâneos pré-cerâmicos e cerâmicos do Rio Grande do Sul, fronteiras e contato cultural. Desde 1996, é docente no curso de Licenciatura em História da Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a atenção prestada pelo debate arqueológico nacional aos elementos culturais indígenas? Em que sentido se desenvolvem os estudos atuais?

Jairo Rogge - A maior parte dos estudos arqueológicos feitos no Brasil está relacionada ao que chamamos de uma “arqueologia pré-histórica”, ou seja, vinculados diretamente às sociedades indígenas antes do contato com populações de origem européia. Nesse sentido, a contribuição da Arqueologia está na construção de um conhecimento mais amplo sobre a história das sociedades indígenas no país, ao mesmo tempo em que auxilia na construção de uma memória cultural nacional.

IHU On-Line - Como a arqueologia se coloca diante do que são e de como são percebidos os vestígios de atividades indígenas?

Jairo Rogge - A Arqueologia implica, em essência, no estudo da cultura material. No entanto, isso não significa que os objetos são um fim, mas sim um meio para compreender o homem e sua sociedade. A cultura material é uma manifestação do indivíduo e da sociedade e, justamente em função disso, a Arqueologia desenvolveu, ao longo do tempo, métodos e técnicas analíticas que permitem uma aproximação a esse homem e essa sociedade, tendo como intermediário os vestígios materiais deixados por eles.

IHU On-Line - Como é percebida a relação entre natureza e cultura indígena? Como a arqueologia concebe e interpreta a intervenção de uma na outra?

Jairo Rogge - As relações entre o meio natural e o meio social nas populações indígenas é de uma extrema profundidade. São âmbitos que se interseccionam a todo o momento. Assim, não há como realizar uma pesquisa arqueológica sem levar em conta essa inter-relação. Se hoje falamos em desenvolvimento sustentável, que é uma palavra de ordem da sociedade capitalista moderna, temos muito que aprender com as sociedades indígenas, pois a sustentabilidade era (e ainda é) para eles a chave da vida. E isso parte de um conhecimento e um respeito profundo pelo ambiente natural.

IHU On-Line - Segundo informações da Funai, as primeiras populações da América eram advindas da Ásia, com vestígios que datam de 11 a 12,5 mil anos atrás. Já os povos indígenas que hoje vivem na América do Sul seriam originários de povos caçadores que aqui se instalaram, vindo da América do Norte através do istmo do Panamá. Como teriam ocorrido essas primeiras levas migratórias e como se deu a adaptação dessas populações no solo americano?

Jairo Rogge - A questão do povoamento inicial do continente americano é, ainda hoje, motivo de muita discussão e muita polêmica. Sabemos que, desde pelo menos 13 mil anos atrás, esse processo de povoamento se desenrolou a partir da região do estreito de Behing, por populações com características mongólicas, em diferentes levas de migrantes que acabaram por se dispersar ao longo de todo o continente. Dessas populações, descende a maior parte das sociedades indígenas atuais. No entanto, estudos mais recentes aventam a possibilidade de migrações anteriores, ao redor de 15 mil anos atrás, por populações com outras características, afro-australóides, que parece não terem deixado descendentes. Há ainda pesquisadores que defendem a tese de um povoamento muito mais remoto do continente.  Na verdade, este panorama pode ser comparado à visão que temos a partir de uma janela entreaberta: conseguimos vislumbrar parte da paisagem que está do outro lado, mas ainda não é possível vê-la por inteiro. Ao longo do tempo e do espaço, essas populações foram se diversificando culturalmente, em função de processos diferenciados, em parte devido a adaptações a diferentes ambientes ecológicos e em parte, acionados por distintos contextos históricos.

IHU On-Line - Como as primitivas populações indígenas do Brasil desenvolveram seus modos de uso e manejo dos recursos naturais e como eram as formas de organização social? Como viviam os índios "antes do Brasil"?

Jairo Rogge - Como já havia mencionado anteriormente, o conhecimento natural indígena deve-se, em grande medida, à estreita inter-relação entre o mundo social e o mundo natural, que na verdade é uma coisa só. Essa incrível proximidade entre homem e natureza certamente está na raiz do conhecimento profundo das sociedades indígenas sobre os recursos naturais. Na América, em termos de organização social, existiram diferentes formas de estruturas socioculturais, desde as mais complexas (grandes estados e impérios) até estruturas relativamente mais simples, mas nem por isso menos significativas, fundamentadas em uma economia doméstica baseada na caça, na coleta, na pesca e na agricultura em pequena escala. No Brasil, os dados arqueológicos indicam a existência de sociedades que, durante muito tempo, viveram exclusivamente da caça, da coleta e da pesca. Mais recentemente, se calcula por volta de uns 3 ou 4 mil anos atrás, muitas começam a cultivar alimentos e a maior parte dos grupos indígenas acabam adotando essa forma de economia, com maior ou menor intensidade, constituindo um modo de vida que estava amplamente disseminado no momento da chegada dos primeiros europeus e que ainda caracteriza a economia da maior parte das sociedades indígenas atuais.

IHU On-Line - Os lingüistas afirmam que cerca de 1.300 línguas diferentes eram faladas pelas sociedades indígenas então existentes no território que corresponde ao Brasil hoje. Nesse sentido, qual é a contribuição da arqueologia para a compreensão da realidade histórica das comunidades indígenas no Brasil?

Jairo Rogge - Calcula-se que a América era povoada por algo entre 80 e 100 milhões de índios na época da chegada dos primeiros europeus. Pode-se imaginar a grande diversidade cultural e étnica dessas populações naquela época. A mesma relação pode ser feita olhando para o território brasileiro. Essas 1.300 línguas faladas aqui (hoje reduzidas a cerca de 180) representam um patrimônio incalculável. A Arqueologia não é capaz de recuperar a língua falada pelos antigos habitantes do Brasil, mas se entendermos que a cultura material é a manifestação concreta de outros âmbitos da cultura, incluindo seus aspectos organizativos, ideológicos e mesmo lingüísticos, os arqueólogos podem confirmar essa incrível diversidade cultural e étnica registrada (e dramaticamente reduzida) a partir do início da conquista.

IHU On-Line - Na sua opinião, que importância tem o patrimônio arqueológico nacional na conjuntura política atual? Como envolver a sociedade em um trabalho conjunto de preservação desse patrimônio e dessa herança históricos?

Jairo Rogge - Tomo a liberdade de citar um trecho do artigo 216 de nossa Constituição, relativo ao conceito de patrimônio cultural: “(...) os bens de natureza material e imaterial tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira (...).” Ora, o patrimônio arqueológico é parte integrante do patrimônio cultural brasileiro e sua importância reside justamente no fato de que, também ele, é uma referência à identidade, ação e memória de diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, sendo, portanto, uma herança comum (o que também inclui os descendentes de europeus). Logicamente esse assunto é um assunto público e deve ser tratado dentro da esfera das políticas públicas, o que infelizmente pouco tem sido feito. O envolvimento desses diferentes grupos, que formam a sociedade de uma maneira geral, só será efetivo no momento em que tiverem acesso ao conhecimento produzido, ao significado desse patrimônio, que é público e coletivo.

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