A greve de fome de D. Cappio. Seu significado ético e político, hoje. Entrevista especial com Franklin Leopoldo e Silva

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19 Janeiro 2008

"Com o individualismo transformado em isolacionismo, fica fácil para o poder exercer o controle sobre indivíduos inteiramente desagregados e empenhados em feroz competição. Com isso, desaparece o sujeito político e surge o indivíduo constituído pelo poder, isto é, pelas técnicas de sujeição, que torna os indivíduos números constituintes de um conjunto homogêneo e uniforme de produtores e consumidores, vontades submissas e susceptíveis de serem adequadamente administradas". A afirmação é de Franklin Leopoldo e Silva, professor de filosofia da USP, em entrevista, concedida por e-mail, à IHU On-Line. Segundo ele, isso gerou a incompreensão  do aparecimento de uma individualidade autônoma e afirmativa, como Dom Luiz Flávio Cappio. "Daí também a estratégia do poder: ignorá-la ou reduzi-la à marginalidade para que a exceção passe desapercebida e não produza efeitos", conclui.

Franklin Leopoldo e Silva realizou sua graduação, seu mestrado e doutorado em Filosofia, pela Universidade de São Paulo (USP), onde também obteve o título de livre-docência. Nela, também é professor titular na mesma área de sua formação. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre a “Ética e literatura no pensamento de Sartre”. É autor de Descartes: a metafísica da modernidade (São Paulo: Editora Moderna, 1993), Bergson: intuição e discurso filosófico (São Paulo: Loyola, 1994), Ética e literatura em Sartre (São Paulo: Editora UNESP, 2004) e Felicidade: Dos filósofos pré-socráticos aos contemporâneos (São Paulo: Editora Claridade, 2007). "Subjetividade moderna: possibilidades e limites para o cristianismo" é o tema dos Cadernos IHU Idéias no. 91, de autoria de Franklin Leopoldo e Silva. O texto está disponível, nesta página, para download.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Certa vez, o senhor afirmou que, na modernidade, o interesse privado colocou-se como um critério ético e político. A partir dessa afirmação, como o senhor avalia o debate gerado sobre a transposição do Rio São Francisco?

Franklin Leopoldo e Silva -
A transposição do Rio São Francisco é, claramente, uma decisão que atende os interesses privados e tem a finalidade de incrementar o agronegócio na região. Do ponto de vista ético e político, fere os interesses coletivos da população, dificultando ainda mais a sobrevivência, cujas condições já são reconhecidamente precárias. O que temos, então, é um exemplo claro de como o interesse privado e a motivação do lucro esperado a partir de investimentos ocupam lugar privilegiado nas decisões de um governo cuja principal função é representar grupos econômicos. Se levarmos em conta que a ética da política relaciona-se com a preocupação com o bem comum, a iniciativa pode ser, sem dúvida, qualificada de antiética e politicamente nociva à população. O governo, apoiado em estudos técnicos tendenciosos (a ciência e a técnica não são neutras), ignora os argumentos em defesa da população porque não se vê como representante do povo e entende que não lhe deve prestar contas. A relação entre os políticos e o povo é, em geral, baseada na desinformação e na manipulação. O debate tem servido para mostrar o outro lado da questão, que o poder esconde, mas a força e o alcance dos meios de que dispõe o governo tende a sufocá-lo. Numa democracia meramente formal como a nossa, os debates sempre tendem a girar em falso.

IHU On-Line - O jejum que Dom Luiz Flávio Cappio fez gerou inúmeras manifestações, sejam contrárias ou a favor de sua atitude. O jejum não afetou as decisões do governo, porém ampliou o debate entre a população. Como o senhor avalia a greve de fome de Dom Luiz Flávio Cappio em pleno século XXI?

Franklin Leopoldo e Silva -
A atitude de Dom Luiz Cappio tem sido a principal força que se opõe à estratégia governamental de manipulação da opinião pública e sem essa disposição moral o assunto há muito já teria sido absorvido pelo pensamento único que o poder impõe, como vem fazendo em relação a outras questões. A repercussão do gesto de Dom Luiz é prova de que a firmeza moral, a honestidade e a solidariedade ainda contam, apesar da falta de ética dominante no país e, principalmente, nas esferas dos poderes da república. O governo e a grande imprensa ignoram ou diminuem a importância da atitude de Dom Luiz, até porque não se podem expor a uma discussão aberta quanto ao caráter ético-político da decisão de transpor o São Francisco, devido ao risco de que as verdadeiras motivações se tornem mais claras.

Aqueles que estão comprometidos com os interesses anti-populares querem que a atitude do bispo apareça como arcaica, intransigente e patética, para assim desmerecê-lo junto à opinião pública. Trata-se de uma tática tipicamente totalitária que por si mesma já denuncia a máscara popularesca atrás da qual se esconde um governo profundamente comprometido com os grupos que detêm o poder econômico. A coragem cristã de Dom Luiz, longe de ser fora de época, representa um autêntico compromisso com as causas populares, hoje totalmente abandonadas por todos os partidos políticos. Ela mostra a grandeza do indivíduo frente a uma sociedade que os poderes constituídos desejam que se torne cada vez mais degradada, para assim facilitar o trabalho de dominação.

IHU On-Line - O que a ação do Bispo significa para a sociedade?

Franklin Leopoldo e Silva - A ação de Dom Luiz mostra, de forma impressionante, como a encarnação de idéias e valores humanamente relevantes por parte de um indivíduo pode representar uma oposição efetiva a todo um sistema. Nesse sentido, essa ação mostra que é possível resistir e que a dignidade humana não se curva obrigatoriamente diante das pressões dos poderosos e de seus representantes de plantão; que as mudanças sociais de que tanto necessitamos podem começar na força da liberdade de dizer não, de modo pacífico, corajoso, sincero e solidário. Por mais que os poderosos tentem fingir que nada se passa, isso os incomoda, porque sabem que se trata de semente que pode germinar na sociedade, que o exemplo pode frutificar e que a rebeldia pode multiplicar-se. Por outro lado, a força de Dom Luiz provém da singularidade de seu caráter e de sua visão de mundo e de sociedade. A questão é: terá essa força singular que caracteriza um indivíduo excepcional o alcance necessário para instaurar e manter uma vontade coletiva de resistência?

IHU On-Line - Como o senhor analisa, no contexto atual, a relação da Igreja com a política brasileira? Dom Cappio confundiu e misturou fé e política?

Franklin Leopoldo e Silva -
Se é para falar em “mistura” de fé e política, teríamos que dizer que essa mistura data dos tempos de Cristo, porque o cristianismo não é uma teoria ou um conjunto de dogmas, mas, antes de tudo, um modo de vida, e a vida em sociedade é necessariamente o exercício da política por parte de todos, inclusive daqueles que desejam se eximir. Os valores universais inerentes ao cristianismo nem sempre foram adequadamente defendidos pela Igreja, e disso temos muitos exemplos ao longo da História. Não me parece que a posição de Dom Luiz deva ser avaliada à luz da conduta da Igreja como instituição (porque as instituições são presas das conjunturas e não representantes da verdade), mas sim segundo os valores que o cristianismo traz no seu núcleo e que os cristãos autênticos encarnam na experiência do amor. Diria que os que o censuram provavelmente confundem fé e conformismo, religião e adesismo, humildade e fraqueza.

IHU On-Line - Como tantos que hoje estão no governo Lula e outros tantos que já estiveram, Dom Cappio bebeu nas fontes da Teologia da Libertação. “O saldo do gesto de Frei Luiz Cappio institui um abismo moral entre companheiros que até ontem bebiam da mesma água”, escreveu um dos assessores do bispo. Com o jejum, houve uma espécie de ruptura. Como se explica este fato?

Franklin Leopoldo e Silva - Como as pessoas podem se separar tão radicalmente de convicções pelas quais, até há pouco tempo, pareciam dispostas a dar a vida, é algo que ainda está por ser explicado de forma mais completa do que a simples idéia de que o poder necessariamente corrompe. A Teologia da Libertação certamente foi usada por muitos como um discurso instrumental, unicamente um meio de ascender ao poder contestando o poder. A conduta de uma parte ponderável do PT parece confirmar essa idéia. Isso significa que, da parte destes, jamais houve um verdadeiro compromisso moral, mas o mero aproveitamento de oportunidades. Pois compromissos morais são fins em si mesmos e não meios que podem ser abandonados, uma vez atingido o objetivo. Os que estão no governo, e que lá chegaram graças à simulação e à dissimulação, esqueceram ou nunca souberam que o poder, para o cristão e para qualquer pessoa decente, é um meio de servir à coletividade e não um meio de servir-se dela. Nesse sentido, a atitude de Dom Luiz indica a distância moral que o separa daqueles que algum dia pôde chamar de companheiros, graças a um triste equívoco que muitos cometeram.

IHU On-Line - Para o governo, o bispo foi “intransigente”, enquanto para este o governo foi “autoritário”. O que lhe parece?

Franklin Leopoldo e Silva - Quando alguém pauta sua vida pelo propósito de ser sensível à condição sofredora dos outros, a intransigência em perseverar nessa atitude é um traço sublime de caráter. Tomara que Dom Luiz nunca perca essa “intransigência”, porque é nela que se manifesta como alguém pode viver tão intimamente o preceito da solidariedade, prezando-o mais do que a própria vida. Todo poder que renega o povo como sua origem torna-se autoritário e se põe na via do totalitarismo. Mas o autoritarismo do governo é singular: nunca se manifesta contra as elites, nunca é usado para deter a violência ou a corrupção, mas sempre a favor dos interesses dos grupos mais poderosos, perante os quais se mostra de uma total subserviência. Uma característica psicológica e política do autoritarismo é que ele se alimenta da servidão, da covardia e do oportunismo. Para constatar isso, basta observar o cuidado que o governo manifesta nas “negociações” com os grupos hegemônicos e com a classe política – e a facilidade com que despreza o diálogo com as classes populares (e com os seus representantes legítimos) e com os movimentos sociais.

IHU On-Line - A política e a forma de governar atual estão banalizadas no Brasil? O individualismo e o controle social da vida individual contribuíram para essa banalização política?

Franklin Leopoldo e Silva - A política, na autêntica acepção da palavra, não existe: o extremo da sua banalização gerou o seu desaparecimento - e isso não acontece apenas no Brasil. Sem participação efetiva e sem a consciência da liberdade e da cidadania não pode existir política, que é, originalmente, a arte de compartilhar o poder de gerir a Polis. O individualismo extremado contribui para o desaparecimento da política porque o indivíduo político só pode existir numa comunidade política. No Brasil, a relação política que deveria existir numa democracia representativa foi substituída pela tecnologia do marketing eleitoral e pela manipulação da opinião pública.

Com o individualismo transformado em isolacionismo, fica fácil para o poder exercer o controle sobre indivíduos inteiramente desagregados e empenhados em feroz competição. Com isso, desaparece o sujeito político e surge o indivíduo constituído pelo poder, isto é, pelas técnicas de sujeição, que torna os indivíduos números constituintes de um conjunto homogêneo e uniforme de produtores e consumidores, vontades submissas e susceptíveis de serem adequadamente administradas. Daí a incompreensão gerada pelo aparecimento de uma individualidade autônoma e afirmativa, como Dom Luiz. Daí também a estratégia do poder: ignorá-la ou reduzi-la à marginalidade para que a exceção passe desapercebida e não produza efeitos.

IHU On-Line - Certa vez, o senhor afirmou que não há razões para otimismo em relação à política porque a única possibilidade de isso acontecer está condicionada a acontecimentos que dificilmente poderão ocorrer. Como fica a população brasileira diante dessa certeza?

Franklin Leopoldo e Silva - A volta da política, isto é, da vida comunitária ativa e participativa, é uma possibilidade remota, ou mesmo impossível, porque a reprodução do sistema tende a acentuar os traços de desagregação que se manifestam no individualismo isolacionista e no desinteresse pela vida pública. O governo encoraja esse tipo de comportamento por todos os meios, porque essa situação é propícia à redução da vida democrática às aparências e rituais de uma forma democrática sem conteúdo. O cidadão sem densidade política, o indivíduo sem realidade própria e o sujeito destituído de sua própria subjetividade são hoje os atores num cenário que já nem sequer simula a esfera pública. A continuidade dessa situação não é uma certeza porque a história é sempre contingente e podem eventualmente ocorrer mudanças imprevisíveis. Mas uma apreciação realista dos acontecimentos não encoraja otimismo quanto ao futuro.

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