D. Aloísio Lorscheider, um perfil. Entrevista especial com Mário de França Miranda

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30 Outubro 2007

Uma das mais importantes figuras da Igreja Católica brasileira é Dom Aloísio Lorscheider. Nascido em Estrela, município do interior do Rio Grande do Sul, em 1924, Dom Aloísio entrou, aos noves anos, para o Seminário de Taquari (RS). Foi ordenado sacerdote em 1948 e em 1962 foi nomeado Bispo de Santo Ângelo (RS) pelo Papa João XXIII. Com apenas 50 anos, tornou-se o primeiro brasileiro eclesiástico candidato a Papa. É um homem conhecido por sua energia em relação às mazelas sociais do país, pois esteve sempre à frente da luta pelos direitos humanos. Durante a ditadura militar, lutou pela democratização do Brasil e pela Reforma Agrária. Em 1995, foi nomeado arcebispo da Aparecida do Norte.

Com a saúde fragilizada, Dom Aloísio passou por uma cirurgia delicada há mais de um mês. Ontem ele obteve alta. O pessoal da Casa Provincial de Ipanema, para onde ele foi, o esperava ansioso, segundo as palavras de Frei João Luiz. “Eles está muito feliz com sua recuperação, está sorrindo e conversando muito”, contou-nos.

Uma das pessoas que conviveu com Dom Aloísio foi o Padre Mário de França Miranda, que concedeu uma entrevista, por e-mail, à IHU On-Line. Durante a conversa, Pe. Mário fala sobre sua amizade com Dom Aloísio, da convivência, do papel que Dom Aloísio representa para a Igreja e sobre as lutas que fizeram.

Mário de França Miranda, padre jesuíta, é graduado em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira. É mestre em Teologia, pela Faculdade de Teologia da Universidade de Innsbruck, na Áustria, e doutor, na mesma área, pela Universidade Gregoriana, na Itália. Atualmente, é professor de teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC - Rio.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Pe. Mário, o senhor conviveu com Dom Aloísio por muito tempo de forma muito próxima. Para homenagear Dom Aloísio, que é tão importante para o Brasil, gostaríamos que falasse dessa amizade e proximidade.

Pe. Mário de França Miranda -
Conheci Dom Aloísio por ocasião do Sínodo da Igreja Católica sobre a Penitência no ano de 1983. Convivemos um mês no Colégio Pio Brasileiro de Roma, juntamente com outros bispos participantes. Eu estava lá como assessor da CNBB, devendo colaborar com todos os bispos do Brasil. Mas acabei trabalhando muito próximo a Dom Aloísio Lorscheider, pois seu vigor de pensamento e sua abertura teológica logo me cativaram. Elaboramos textos juntos, e aí fiquei fascinado com sua ampla visão do cristianismo: equilibrada, bem fundamentada, aliada a uma profunda humildade. Certa vez, eu lhe ditava um texto que havia escrito em português e, para meu espanto, olhando por cima da máquina de escrever, notei que ele já o batia em latim, e num ótimo latim! Anos depois colaborei, juntamente com outros teólogos, na Comissão de Doutrina da CNBB, a qual ele presidia. Foi também um tempo de graça, pois pude aprender muito com sua pessoa, simples, objetiva, culta, corajosa. Talvez seja a figura de bispo mais completa que encontrei em minha vida e que me lembra os grandes Padres da Igreja do primeiro milênio. Sem dúvida alguma, devo-lhe muito em minha vida sacerdotal, religiosa e acadêmica pelo exemplo que me deu. O que seríamos nós sem estes gigantes que nos precedem e que tanto reforçam nossa fé?

IHU On-Line – Quais são os aspectos na pessoa de Dom Aloísio que, em sua opinião, merecem mais destaque?

Pe. Mário de França Miranda - Três palavras sintetizam o que quero expressar, embora não saiba se o conseguirei adequadamente: Evangelho, Igreja e Pobres. Vejamos a primeira delas: Dom Aloísio sempre me pareceu um cristão profundamente impregnado dos valores evangélicos, valores estes hauridos e assimilados através da espiritualidade de São Francisco de Assis. Daqui provém sua simplicidade, sua humildade, sua facilidade de trato com os mais simples, sua liberdade interior diante da fama, das honras e do poder que ele, de fato, tem na Igreja e na sociedade. Daqui também brota sua sensibilidade espontânea pelos valores evangélicos que o levam a sintonizar logo com as pessoas que também os vivem.

A outra palavra é Igreja. Sempre vi nele um autêntico homem da Igreja, todo entregue, apesar de seus problemas de coração, às importantes tarefas de que foi encarregado. Não esqueçamos que Dom Aloísio foi o relator dos Sínodos durante o pontificado de Paulo VI, que lhe tinha grande confiança e estima. Mencionemos ainda sua colaboração intensa na CNBB e no Celam como presidente destas instituições. Sua fidelidade e sua dedicação à Igreja não esmorecem, mesmo quando tem de sofrer por parte de alguns membros desta Igreja. Sabe calar-se, procurando sempre salvar a reputação alheia.

A terceira palavra que procura sintetizar muito do que abriga em seu coração é o termo “pobres”. Sua sensibilidade humana e cristã diante do sofrimento alheio, sua coragem em denunciar as causas da injustiça, mesmo no difícil tempo da ditadura militar, sua atenção ao pequeno, ao anônimo, ao insignificante para o mundo, quebrando protocolos, arriscando sua reputação, dificultando seu relacionamento com autoridades do Vaticano, levando-o a se envolver em problemas sempre que o mais fraco estivesse em desvantagem, tudo isto reflete o que busco expressar, embora imperfeitamente com este vocábulo “pobres”. Não podemos deixar de mencionar que seu amor aos mais pobres transformou o Santuário de Aparecida realmente numa Igreja dos pobres. Como arcebispo desta arquidiocese, soube criar uma infra-estrutura nesta basílica que possibilita aos peregrinos mais pobres se sentirem em casa, quando vão rezar à padroeira do Brasil, à Senhora Aparecida.

IHU On-Line – Qual é o papel que Dom Aloísio representa hoje para a Igreja Católica?

Pe. Mário de França Miranda – Certamente, minha resposta será incompleta, pois nunca examinei com calma a história da Igreja Católica no Brasil no período em que Dom Aloísio atuava na presidência da CNBB. De qualquer modo, foram anos difíceis para a Igreja, único porta-voz para os que estavam silenciados ou sofrendo violências e torturas. Havia nesta época, entre os jovens, muito mais idealismo e vontade de transformar a sociedade do que hoje encontramos. Independente da carga ideológica subjacente, presente em ambos os lados, muitos se arriscaram por reformas sociais que urgiam e eram sempre adiadas. Sabemos o que sofreram Dom Helder Câmara e outros bispos, padres, religiosos, religiosas, camponeses e estudantes, muitos com o sacrifício da própria vida.

Sem perder a calma, mas demonstrando coragem e lucidez, Dom Aloísio soube tomar a palavra quando se fazia necessário, sendo respeitado mesmo pelos detentores do poder. Foi um tempo áureo da Igreja do Brasil que impressionava outras Igrejas por suas tomadas de posição e seus documentos, muitos deles traduzidos em várias línguas. Por outro lado, embora sem provocar muito ruído da grande imprensa, Dom Aloísio sempre está atento à formação na fé, às diversas pastorais da Igreja, ao ecumenismo, à carência crônica de sacerdotes, à formação espiritual de religiosas, ao cuidado com seus presbíteros, sendo um autêntico pastor. Ele sempre participou de muitos retiros por todo esse Brasil, proferiu palestras teológicas em muitos institutos de formação e soube falar ao nosso povo simples com profundidade espiritual e grande simplicidade.

IHU On-Line - Dom Aloísio é muito querido pelo povo brasileiro, mas sempre foi alvo de polêmica dentro da igreja. Como o senhor vê as defesas que Dom Aloísio defendeu, como a ordenação dos padres casados e a reforma agrária?

Pe. Mário de França Miranda - Certamente não, se entendemos por “figura polêmica” alguém que se destaca por atitudes radicais ou por afirmações extremadas. Ou, ainda, alguém dotado de um temperamento forte que atrai a mídia por seus pronunciamentos. Porém, não podemos negar que as tensões da Igreja com o poder militar, resultantes de sua postura diante das violências e das arbitrariedades, geravam certo mal-estar em parte da hierarquia. Pessoalmente, nada vejo de extraordinário neste fato, pois a Igreja Católica sempre manteve sua unidade numa certa diversidade. Basta que conheçamos sua história. É praticamente impossível que todos façam a mesma leitura da realidade, a partir de experiências passadas, contextos socioculturais e formação teológica das mais diversas. São normais as divergências em pontos não centrais da fé católica, que refletem uma diversidade que só ajuda à Igreja a ser realmente católica, isto é, universal.

Também é normal que Dom Aloísio nem sempre tem sido entendido, nem tem suas opiniões acolhidas por parte da Cúria Romana. Mas sempre é muito respeitado por sua personalidade profundamente cristã e lucidamente crítica. Não esqueçamos que João Paulo I afirmou ter votado nele para Papa!

IHU On-Line – Para a CNBB de hoje, qual é o maior legado que Dom Aloísio deixou durante sua gestão?

Pe. Mário de França Miranda - Veja, a Igreja não existe para si mesma, mas para levar ao mundo a salvação de Jesus Cristo. Toda ela deve estar a serviço do Reino, que é mais do que ela. Tudo o que ela tem de propriamente religioso e que deve ser reservado e transmitido às novas gerações (doutrina, ética, culto, instituições etc.) deve ser mediação para que a doação que Deus nos faz de si próprio no Filho e no Espírito Santo seja, de fato, acolhida pela humanidade, gerando, assim, uma sociedade fraterna, solidária, e justa. Ninguém se salva se não cuida de seu próximo, e ninguém obedece a Deus se não cuida do contexto social onde vive seu irmão. Aqui se encontra o sentido último da Doutrina Social da Igreja, aqui se acha a razão de fundo que leva a Igreja a se interessar pela sociedade onde se encontra. Dom Aloísio, bem como Dom Ivo e Dom Luciano, para só citar alguns mais conhecidos entre muitos outros bispos, sabe dialogar com a sociedade, entendê-la em suas dificuldades, valorizá-la em suas conquistas, denunciá-la em seus abusos, corrigi-la em seus erros. Neste tempo, a Igreja esteve sempre presente e atuante nos eventos que marcavam nossa história. É uma tarefa difícil que supõe competência, personalidade, liberdade cristã. Mas Dom Aloísio dá o exemplo de que ela é possível.

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