Mudanças climáticas poderão aumentar o quadro de doenças tropicais nos próximos 40 anos. Entrevista especial com Ulisses Confalonieri

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Por: Patricia Fachin | 23 Outubro 2016

O aumento de temperatura associado a períodos de chuvas e secas extremas, conforme projetam os estudos sobre as mudanças climáticas, poderão gerar um impacto na proliferação de doenças causadas por mosquitos transmissores. Segundo o professor Ulisses Confalonieri, “em 2040 se estima que a temperatura aumentará 2,5 graus em alguns municípios do Paraná” e, por conta disso, o quadro de algumas doenças poderá aumentar. “As doenças transmitidas por mosquito, por exemplo, geralmente decorrem de uma temperatura mais alta e de algum grau de umidade, porque esses fatores sempre aceleram a proliferação de mosquitos”, diz.

Confalonieri explica ainda que a “a existência de uma maior ou menor população de mosquito transmissor” vai depender da “variação climática”. “Por exemplo, no Rio Grande do Sul, na maior parte do ano, dificilmente haverá transmissão continuada desses vírus, porque nessa região é bastante frio e o mosquito não consegue transmitir as doenças. Se a temperatura média nessas regiões mais frias aumentar, há um risco de expansão da transmissão do vírus de forma mais continuada”, exemplifica na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line.

A prevenção desse cenário, diz, dependerá de ações localizadas segundo o grau de vulnerabilidade de cada município. “Se existe uma vulnerabilidade por causa de deficiência no sistema de saúde local, isso tem que ser corrigido. Existem várias ações específicas, no setor de saúde, que precisam e devem ser feitas, independentemente da mudança do clima, como controlar o mosquito, educar a população para não deixar água acumulada e para evitar que o mosquito se prolifere dentro de casa. Agora, se o município tem problemas de drenagem urbana, isso é algo específico que precisa ser melhor visto em virtude do aumento de chuvas naquela região”. Além disso, adverte, municípios ambientalmente “devastados” e “desmatados”, “como é o caso do Paraná, que só tem duas regiões com floresta preservada – Serra do Mar, na região litorânea, e a região de Foz do Iguaçu -, tendem a enfrentar maiores problemas por conta das mudanças climáticas”.


Ulisses Confalonieri | Foto: Comida e Ecologia

Ulisses Confalonieri é graduado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ e em Medicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio, e é mestre e doutor em Ciências pela UFRRJ. Atualmente é professor da Fundação Oswaldo Cruz e da Universidade Federal Fluminense.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que consiste a pesquisa coordenada pelo senhor, a qual mapeia as mudanças do clima no Paraná e em outros estados?

Ulisses Confalonieri – Essa pesquisa é resultado de um convênio entre o Ministério do Meio Ambiente, que tem uma Secretaria de Mudanças Climáticas, e a Fiocruz, para criar um modelo de análise de vulnerabilidade de municípios por conta das mudanças climáticas nos próximos anos. Como não é possível fazer isso no país inteiro, então nessa etapa da pesquisa escolhemos seis estados, um de cada região, mais o Maranhão, que é uma região de transição entre o Nordeste e a Amazônia, para fazer uma análise comparativa dos municípios dentro de cada estado. Já tínhamos uma experiência de quase 15 anos trabalhando nessa linha de investigação, na Fiocruz do Rio e em Belo Horizonte, e o Ministério nos solicitou esse projeto. Depois de analisarmos a situação de vulnerabilidade dos municípios, faremos um treinamento, no primeiro semestre do ano que vem, com técnicos dos governos estaduais, para que eles possam usar a ferramenta desenvolvida pelo projeto, que é um software específico para fazer as análises de dados para o conjunto de municípios.

Então, a estrutura socioambiental de cada município, somada com as projeções climáticas acerca de quais regiões de cada estado terão uma situação climática mais sensível e problemática em termos de prováveis impactos, possibilitará que os governos encontrem estratégias de lidar com essas questões. A situação de cada município é particular, porque alguns são mais pobres, desaparelhados e não têm uma boa estrutura de governança. Outros municípios estão em regiões para as quais se projeta, por exemplo, aumento de eventos extremos e aumento de temperatura. Os municípios em que não há perspectiva de mudança do clima e que são municípios mais desenvolvidos, mais aparelhados, nos quais tem Defesa Civil, tem infraestrutura de saneamento e não tem tantas doenças, estão em uma situação melhor. Então, a partir desse software, o gestor estadual de cada região poderá orientar políticas públicas visando à melhoria de alguns setores enquanto há tempo, já que esse cenário de mudança climática é previsto para só daqui a 20 anos.

IHU On-Line - Quais são as doenças associadas às mudanças climáticas? De que modo as mudanças climáticas previstas para as próximas duas décadas podem influenciar a dinâmica de algumas doenças?

São muitas as doenças associadas às mudanças climáticas

Ulisses Confalonieri – São muitas as doenças associadas às mudanças climáticas. As doenças transmitidas por mosquito, por exemplo, geralmente decorrem de uma temperatura mais alta e de algum grau de umidade, porque esses fatores sempre aceleram a proliferação de mosquitos. Então há um risco maior de transmissão dos vírus da zika, dengue e chikungunya. Outras doenças estão relacionadas à água, então, em regiões onde há perspectiva de aumento de chuvas, com inundações, há um risco maior de doenças como a leptospirose.

Existem algumas outras doenças que são transmitidas por animais, como a hantavirose, sobre a qual ainda não temos uma ideia clara de como poderá ser alterada por conta das mudanças climáticas, mas em maiores períodos de seca, o risco de transmissão da hantavirose pode aumentar. Isso é o que posso dizer em linhas gerais, pois não apontamos, para cada município, um risco específico de doenças. Consideramos as doenças, nas análises, da seguinte maneira: os municípios que têm uma carga maior de doenças estão em uma situação de maior vulnerabilidade, porque já enfrentam problemas com dengue, leishmaniose e leptospirose, e isso pode piorar, dependendo da infraestrutura do serviço de saúde e de vários outros fatores. Usamos, portanto, esses dados como indicadores de vulnerabilidade, não como um risco específico de aumentar uma determinada doença.

IHU On-Line – Mas os atuais quadros de epidemia de zika, chikungunya e dengue podem estar já associados a efeitos das mudanças climáticas que estão em curso, ou ainda não?

Ulisses Confalonieri – O início da epidemia não, pois ele tem a ver com a entrada do vírus no país por algum mecanismo, provavelmente alguma pessoa infectada e sem sintomas e, obviamente, está relacionado também com a falta da imunidade da população e com a presença do mosquito no país há muitos anos. Então, isso é o que desencadeia a epidemia. Agora, a variação climática pode favorecer a existência de uma maior ou menor população de mosquito transmissor.

Por exemplo, no Rio Grande do Sul, na maior parte do ano, dificilmente haverá transmissão continuada desses vírus, porque nessa região é bastante frio e o mosquito não consegue transmitir as doenças. Se a temperatura média nessas regiões mais frias aumentar, há um risco de expansão da transmissão do vírus de forma mais continuada. O mosquito até resiste durante a seca, mas não resiste a temperaturas baixas: ele fica meio inativo. Portanto, a transmissão de dengue durante o inverno, no país todo, de modo geral, é bem menor. Por outro lado, a transmissão é maior quando a população do mosquito aumenta por conta da chuva e do calor.

Os modelos climáticos, quase todos, apontam para o aumento da temperatura nas próximas duas décadas, mas na questão da chuva há uma variação grande: em algumas regiões há indicação nítida de redução de chuvas e, em outras, há indicação de aumento de chuvas. No Paraná, por exemplo, e na região Centro-Sul, em um grupo pequeno de municípios, a previsão é de aumento e de concentração de chuvas, o que consequentemente causa desastres: inundações, queda de barreiras, queda de morros, deslocamento de encostas, que são os chamados eventos meteorológicos extremos. Agora, na maior parte de modelos e das regiões que já estudamos até o momento, há uma indicação de redução de chuvas, e isso pode ocasionar um impacto enorme na produção agrícola, por exemplo, e esse é o impacto econômico dos efeitos climáticos, por assim dizer.

Em países tropicais, como o Brasil, dificilmente teremos impacto direto de temperatura alta, porque o país é tropical, as pessoas estão acostumadas com temperaturas altas, assim, não há aquelas ondas de calor como as que aconteceram em 2003 na Europa, na França, principalmente, que mataram milhares de pessoas porque ninguém aguentava 38 graus de temperatura durante uma semana. Em Porto Alegre, no verão faz 38 graus, então as pessoas já estão mais ou menos adaptadas, principalmente os idosos, doentes crônicos, doentes pulmonares e doentes cardiovasculares.

Em 10 anos – de 2004 a 2013 -, a Amazônia teve as duas piores secas em 100 anos e as três piores enchentes em 100 anos

Desastre climático no Brasil geralmente é seca ou chuva extrema, ou seja, muita chuva em pouco tempo, levando a uma concentração de chuvas, o que gera um impacto nas grandes cidades e na zona rural. Inclusive, na zona rural tem havido muitos eventos extremos, com impactos terríveis, como na Amazônia. Em 10 anos – de 2004 a 2013 – a Amazônia teve as duas piores secas em 100 anos e as três piores enchentes em 100 anos. Com isso é possível perceber que o clima está oscilando muito e causa enormes problemas.

IHU On-Line - Seca, chuvas e aumento da temperatura ligados a eventos extremos serão os principais impactos ocasionados pelas mudanças climáticas nas próximas duas décadas?

Ulisses Confalonieri - Isso é o que nos indicam os modelos feitos na região do Paraná. Mas em outras regiões, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, ainda não temos os modelos municipalizados. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE produz cenários regionalizados, ou seja, eles partem de um modelo global de clima, o regionalizam para a América do Sul, mas a informação que eles nos passam é um quadrado da superfície terrestre medindo 20 x 20 quilômetros. O que nós fazemos é a interpolação com geoprocessamento e com isso conseguimos obter um parâmetro numérico para cada município. As informações que temos a partir desse estudo é de que em 2040 se estima que a temperatura aumentará 2,5 graus em alguns municípios do Paraná.

IHU On-Line - Então as ações para prevenir a proliferação de doenças por conta das mudanças climáticas devem ser localizadas nos municípios de acordo com a particularidade de cada município? Que políticas públicas deveriam ser implantadas tendo em vista esse cenário e considerando a vulnerabilidade dos municípios?

Ulisses Confalonieri – Se existe uma vulnerabilidade por causa de deficiência no sistema de saúde local, isso tem que ser corrigido. Existem várias ações específicas, no setor de saúde, que precisam e devem ser feitas, independentemente da mudança do clima, como controlar o mosquito, educar a população para não deixar água acumulada e para evitar que o mosquito se prolifere dentro de casa. Agora, se o município tem problemas de drenagem urbana, isso é algo específico que precisa ser melhor visto em virtude do aumento de chuvas naquela região. A vulnerabilidade dos municípios, portanto, é determinada por várias características. O que fazemos é apontar, nos municípios especificamente, o que é mais frágil: o serviço de saúde ou saneamento etc.

Em boa parte do estado do Paraná existem plantações do agronegócio e, por conta disso, o estado fica completamente vulnerável à seca

Por exemplo, nos municípios em que a vegetação nativa e os ecossistemas naturais estão preservados, há menos impacto de chuva forte. Então, municípios muito devastados, desmatados, como é o caso do Paraná, que só tem duas regiões com floresta preservada – Serra do Mar, na região litorânea, e a região de Foz do Iguaçu -, tendem a enfrentar maiores problemas por conta das mudanças climáticas. Em boa parte do estado do Paraná existem plantações do agronegócio e, por conta disso, o estado fica completamente vulnerável à seca, e a terra da agroindústria fica fisicamente vulnerável ao excesso de chuvas, porque está desprotegida.

IHU On-Line - Quais os desafios postos para o Brasil nos próximos 25 anos no enfrentamento de doenças que podem ser agravadas por conta das mudanças climáticas, dado que hoje já existe uma dificuldade no combate e no tratamento à dengue e ao zika, por exemplo?

Ulisses Confalonieri – Prevenção significa controlar as doenças endêmicas, como malária, dengue, leptospirose, as quais são muito afetadas pelo clima. Portanto, essas doenças precisam ser combatidas como já vinham sendo, talvez de forma mais intensificada.

Outro problema ligado à questão climática são os desastres naturais. O trabalho acerca dos desastres no país é algo ainda mal organizado. A Defesa Civil de muitos estados é boa, mas ela não é especialista em oferecer respostas depois que o evento ocorreu. Acredito que o setor de saúde também é um pouco negligente nessa área de desastres e, portanto, pesquisas na área de saúde e impactos de desastres climáticos precisam melhorar no país. Por exemplo, se perguntarem quantas pessoas morreram por conta das chuvas e inundações no Rio de Janeiro nos últimos 10 anos, o Sistema Único de Saúde - SUS não sabe responder a essa questão, porque não consegue captar a informação de qual é o número de mortos em desastres climáticos; isso é uma deficiência tremenda.

IHU On-Line - Por que esses dados não existem?

Ulisses Confalonieri – Porque o sistema já está concebido para fazer dessa forma. Existe um catálogo enorme de codificação internacional de causas de morte, mas o sistema de saúde brasileiro não o aplica porque o médico não é treinado para isso, porque não existe integração entre a Defesa Civil e o setor de saúde. Além disso, razões de ordens gerencial, administrativa e até educacional, como a má-formação do profissional de saúde, principalmente médicos, nessa parte de saúde pública, dificultam a coleta desses dados.

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