Discurso do Papa Francisco ao Congresso americano: sinfonia ou ópera?

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25 Agosto 2015

A expectativa pelo discurso do Papa Francisco a ser pronunciado no Congresso americano é o tema do artigo de Thomas Reese, jornalista e jesuíta, publicado por National Catholic Reporter, 20-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Será que o discurso do Papa Francisco diante do Congresso americano vai ser como uma sinfonia ou uma ópera? Se for uma sinfonia, então os congressistas devem postar-se calmamente durante a alocução até a sua conclusão. Não se deve aplaudir durante uma sinfonia, mesmo entre os movimentos. Se for uma ópera, então eles teriam a permissão de se levantarem e aplaudir sempre que acharem que o pontífice falou algo válido de nota.

No teatro político que é Washington, esta distinção realmente importa. O Discurso sobre o Estado da União é claramente uma ópera, com o partido do presidente respondendo com aplausos em certos trechos da alocução. Será que este deveria ser o modelo a ser adotado durante o discurso do papa à sessão conjunta do Congresso em 24 de setembro? O consenso geral é de que os democratas estariam em melhor situação caso o discurso papal seja tratado como uma ópera, enquanto que os republicanos melhor estariam caso se vissem diante de uma sinfonia.

Os republicanos estão preocupados sobre como responder se o papa disser: “Cuidem dos pobres”, “Acolham os imigrantes”, ou “Cuidem do meio ambiente”. Claramente, estas são frases que contarão com o aplauso dos democratas, mas não com o do Tea Party. Se os congressistas republicanos permanecerem sentados durante a fala do pontífice, eles acabarão sendo vistos como se estivessem “sacaneando” o papa, mas, se aplaudirem, os fiéis do Tea Party poderão se irritar. John Boehner (deputado católico republicano de Illinois e presidente da Câmara dos Representantes, equivalente à câmara federal no Brasil) poderá se deparar com alguns problemas na convenção do Partido Republicano depois do discurso papal.

Mas os democratas podem enfrentar o mesmo dilema caso o papa diga algo sobre o aborto, o casamento gay ou a liberdade religiosa. Toda a atenção dos democratas estará voltada para Nancy Pelosi (deputada democrata da Califórnia), católica assim como Boehner, em busca de pistas relativas ao que se deve aplaudir durante a alocução e ao que se deve permanecer sentado em silêncio.

Isso levou alguns membros do Congresso a querer tratar o discurso papal como uma sinfonia – e não como uma ópera. Aqui eles sentar-se-iam respeitosamente ao longo do discurso e aplaudiriam somente no final. Dada a incapacidade do Congresso de chegar a acordo sobre até mesmo a ordem do dia, é bem provável, ainda que se tenha concordado em certas regras de decoro, que alguém rompa as fileiras para se levantar e aplaudir.

Enquanto os partidos se preocupam sobre como se comportar durante o discurso de Francisco, o próprio Francisco tem que se preocupar com o impacto que ele – o discurso – terá sobre a Igreja. Com certeza ele não deseja ser manipulado para fins partidários, algo que tentou evitar na Argentina quando era arcebispo de Buenos Aires. Os católicos americanos dividem-se, em grande parte, entre republicanos e democratas. Ele não quer dividir a Igreja assim como a política partidária.

Um congressista que também está preocupado com a divisão da Igreja ao se politizar o discurso papal é o Dep. Dan Lipinski (democrata de Illinois), um dos poucos membros do Congresso que é “pró-vida” e que também se preocupa com os pobres e o meio ambiente. Embora possa facilmente aplaudir tudo o que o papa venha a dizer, ele não quer que a tal alocução papal seja tratada como um Discurso sobre o Estado da União. “Nós já temos divisões o suficiente dentro da Igreja Católica, e eu não quero que esta seja uma ocasião que reforce divisões partidárias dentro da Igreja”, explica ele.

Ele e alguns outros políticos, tanto republicanos como democráticos, estão trabalhando na elaboração de uma carta a Boehner (presidente da Câmara dos Representantes) e Pelosi (líder da minoria no Congresso) pedindo-lhes que definam alguns protocolos.

“Esta é uma ocasião sem precedentes – o papa discursando ao Congresso. Então, fica difícil saber o que é apropriado”, diz ele. “Eu prefiro que ninguém se levante e demonstre aprovação, que ninguém bata palmas ou mostre qualquer resposta durante todo o discurso até o fim”. Mas reconhece: “Se isso vai ser possível, eu não tenho certeza”.

Independentemente da forma como os congressistas pensam que devem responder ao discurso papal, todos eles estão ansiosos por este momento, como podemos ver a partir das respostas que recebi dos próprios congressistas após um pedido que fiz para que comentassem sobre próxima visita do papa ao país.

Mas mesmo aqui existem diferentes esperanças e expectativas dependendo do partido. Primeiro, os republicanos:

“Como católico, eu estou ansioso para ouvir a mensagem de paz do Papa Francisco”, disse o Dep. Steve Scalise (republicano do Alabama). “Eu gostaria que ele incentive uma cultura de vida, como aquela que o fez se tornar o primeiro papa a se dirigir a uma reunião conjunta do Congresso”.

O papa “tem a capacidade de abordar algumas das questões mais difíceis que o nosso mundo enfrenta, e assim o faz com uma grande clareza moral”, disse Dep. Thomas Marino (republicano da Pensilvânia). “Em primeiro, acho que ele condenará o Estado Islâmico e o extremismo religioso. Também espero que ele convide, com vigor, a ajudarmos a todos os que necessitam de tratamento de doenças mentais. Por último, interesso-me em ouvir os seus pontos de vista – e talvez os seus planos – quanto a apresentarmos alguns valores tradicionais a nossos jovens e de como podemos trazê-los para a nossa fé”.

“A minha fé sempre me guiou”, explica o Dep. Dan Benishek (republicano de Michigan). “Espero que o Papa Francisco fale sobre algumas questões da vida e sobre os direitos da consciência que pesam diante do Congresso deste nosso país”.

E aqui os comentários dos democratas:

“O que precisamos ouvir do papa é como os líderes de todos os tipos – políticos, empresariais, religiosos, militares, etc. – deveriam se afastar dos excessos de autopromoção e abraçar o papel de servo, papel que o Papa Francisco exemplifica de forma tão clara”, afirma o senador Tim Kaine (democrata de Virginia). Ele também espera ver mudanças na Igreja: “Algo importante que este papa poderia fazer para ajudar a melhorar o mundo é colocar a Igreja no caminho da ordenação sacerdotal das mulheres”.

“Espero ouvir o Papa Francisco invocar o Congresso a reconhecer a humanidade em todas as pessoas – não importando sua renda, raça, religião ou orientação sexual – e de agir em conformidade”, escreveu o senador Joe Donnelly (democrata de Indiana). “O Papa Francisco desafiou os católicos de todo o mundo a melhor viverem a nossa fé, servindo aos necessitados. Creio que esta mensagem de sermos líderes a serviço dos necessitados e melhores administradores dos nossos recursos naturais seja uma mensagem importante para o Congresso também”. 

“Depois de um longo período de dogmas rígidos e de aplicação da lei escrita, o Papa Francisco representa uma chuva nutritiva que vai prover as sementes há muito dormentes de pensamento independente e de consciência em nossa Igreja”, escreveu o Dep. Gerry Connolly (democrata de Virginia). “Quando o papa se pergunta: ‘Quem sou eu para julgar?’, ele está advertindo a todos nós a andarmos de forma mais humilde diante de Deus e de nossos companheiros seres humanos. Ele despertou uma Igreja mais inclusiva, compreensiva e aberta”.

“A mensagem de esperança e tolerância do Santo Padre precisa soar bem alto nos corredores do Congresso”, disse o Dep. Jackie Speier (democrata da Califórnia). “Ele irá nos dar elementos para uma liderança inspiradora de forma que possamos ser mais eficientes naquilo que temos feito até então para o enfrentamento dos grandes desafios do nosso tempo (...) Se os membros do Congresso ouvirem e agirem em conjunto, de boa fé, então esta sua visita irá merecer um capítulo especial na história do mundo”.

“Espero que o Papa Francisco discuta a necessidade de ação em torno da justiça social e da desigualdade econômica, assim como fez em visitas a outras partes do mundo”, escreveu o Dep. Joaquin Castro (democrata do Texas). “Estas são questões que Congresso deve abordar; e ouvir sobre tais problemáticas, a partir de um mensageiro tão profundo e influente, seria algo de grande valor”.

“Por meio de seu apelo à compaixão e ao perdão, o Papa Francisco renovou a fé de tantas pessoas em todo o mundo, reforçou a necessidade de apoiar aqueles que estão em dificuldade, e convidou para a paz e o fim da discriminação”, relata o senador Heidi Heitkamp (democrata da Dakota do Norte). “O Papa Francisco também ajudou a trazer uma atenção renovada para o terrível problema de tráfico de seres humanos, uma vez que estes crimes horríveis estão acontecendo em nosso próprio quintal, em Dakota do Norte, e ao redor do mundo. Espero que ele aborde a necessidade de acabarmos com estes crimes terríveis em seu encontro com o Congresso”.

“O Papa Francisco trouxe uma nova energia não só para os católicos de todo o mundo como também para uma nova geração de pessoas que compartilham o seu compromisso de combater a injustiça social e enfrentar a ameaça muito real das mudanças climáticas”, afirma o Dep. Joe Crowley (democrata de Nova York). “Como muitos, estou inspirado por este seu apelo à ação, dirigido a pessoas de todas as crenças, para ajudar a melhorar as condições de vida dos que se encontram em situação de pobreza. As palavras do papa servem como um lembrete da necessidade de compaixão para com os nossos semelhantes, e espero que as pessoas ouçam esta mensagem”. Crowley também espera “ouvir o Papa Francisco falar da questão das mudanças climáticas e de como nós devemos, enquanto comunidade internacional, encarar este desafio. O fenômeno das mudanças climáticas não é apenas um problema ambiental, é uma questão moral também”. 

O Dep. Charles Rangel (democrata de Nova York) reza para que outros líderes religiosos ouçam o papa, “pois não há uma questão moral entre as que lidamos aqui no Congresso que não tenha um fundamento bíblico e religioso”. O congressista está decepcionado com o fato de que as religiões organizadas não estejam mais falando sobre paz e os pobres e necessitados.

“A nossa crença diz que um dos nossos trabalhos mais importantes é cuidar dos mais vulneráveis”, diz o Dep. Tim Ryan (democrata de Ohio). “O Papa Francisco encarna esse princípio, e eu estou particularmente ansioso em ouvir a sua mensagem de tolerância, perdão e esperança. Esta visita histórica dará ao Congresso e a todos os americanos a oportunidade de escutar o ponto de vista da Sua Santidade” sobre o futuro, as mudanças climáticas, a economia e a compaixão com todos. Em todo o mundo, ouvimos histórias de vidas atingidas pela pobreza e pela fome. A mensagem do Papa Francisco é a de que todos nós nos unamos no intuito de melhorar o mundo para os nossos filhos”.

Um grupo de 18 membros católicos e não católicos da Câmara dos Deputados, todos democratas, escreveu ao papa – no dia 12 de agosto deste ano – para expressar a gratidão e alegria por sua vinda ao país. Eles o agradeceram a ênfase papal “na centralidade do ensino social da Igreja” e “na dignidade humana, na solidariedade e nos direitos dos trabalhadores, sobretudo dos pobres e vulneráveis”.

Eles estão convencidos de que o “poderoso exemplo de solidariedade para com os pobres e marginalizados irá ajudar, sem dúvida, a informar os nossos debates atuais em torno das políticas nacionais que afetam todos os americanos”.

Na carta, eles se queixam de que o Congresso cortou o apoio alimentar aos necessitados e se recusou a aumentar o salário mínimo. Citam a crítica do papa às “teorias de gotejamento que supõem que o crescimento econômico, estimulado pelo livre mercado, vai inevitavelmente ter sucesso na obtenção de uma maior justiça e inclusão no mundo”.

Eles igualmente se queixam de que, em vez de ajudar os países em desenvolvimento a empregar tecnologia verde, o Congresso continua fomentando programas que os têm incentivado a usar carvão.

Um bilhete de entrada para a sessão conjunta do Congresso na ocasião da visita papal é o assunto mais candente em Washington, com cada membro do Congresso tendo a permissão de trazer apenas um convidado. Todos os demais terão de ver o papa discursar via televisão, a partir das 9h20 do dia 24 de setembro, horário local; só assim os demais poderão se certificar de que estão ouvindo uma ópera ou uma sinfonia.

Alerta de spoiler: as origens da família Bergoglio remontam à Itália e ele cresceu ouvindo ópera.

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