O sequestro do Santíssimo Sacramento. Artigo de Guillermo Jesús Kowalski

Foto: Alma/Pexels

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25 Março 2026

A Eucaristia não foi instituída para o deleite espiritual de grupos seletos, mas para romper com bolhas "místicas" e se tornar pão para os feridos do mundo.

O comentário é de Guillermo Jesús Kowalski, teólogo e cientista social, mestre em Doutrina Social da Igreja pela Universidade de Salamanca, publicado por Religión Digital, 23-03-2026.

Eis o artigo. 

Existem fenômenos dentro da Igreja que não podem ser interpretados de forma ingênua. Não basta assistir a concertos de jovens entusiasmados ou longas horas de culto para concluir que estamos testemunhando um reavivamento da fé. É desconfortável dizer isso, mas o que parece ser renovação pode, na verdade, ser uma regressão espiritual cuidadosamente disfarçada.

E um dos sinais é o que poderíamos chamar de "o sequestro do Santíssimo Sacramento".

Não porque a adoração eucarística seja questionada. Muito pelo contrário. Aqueles que creem na Presença Real de Cristo sabem que ela é um imenso tesouro da Igreja. Mas, precisamente por isso, dói — e muito — ver como, em muitos contextos, ela é usada indiscriminadamente, superficialmente e para servir a uma espiritualidade privatizada que pouco tem a ver com o Evangelho. E que manipula essa Presença para descartar as outras presenças reais de Cristo.

Recordemos o Adoro Te Devote: “At hic latet simul et humanitas”; “Mas aqui também se esconde a Humanidade”, não apenas Deus, não apenas a Transcendência, mas a humanidade encarnada e em solidariedade com todos os seres humanos. Especialmente aqueles que são tratados “desumanamente”, os crucificados do mundo, associados pelo Senhor à Cruz. “É a força e o poder do ‘divino’, colocados ao serviço do ‘humano’”. (JM Castillo)

Uma fé intensa… mas sem encarnação

Há um número crescente de encontros em que a exposição do Santíssimo Sacramento se torna o foco absoluto e exclusivo. O Sacramento não só é usado para legitimar o grupo, como também o interesse pelos principais princípios da fé cristã é excluído. Tudo parece encontrar sua justificativa ali.

Muito se fala sobre fé, mas que tipo de fé está sendo gerada?

Porque, em muitos casos, o que emerge não é uma fé mais madura, mais comprometida ou mais evangélica. É uma fé:

  • emocionalmente intensa,
  • teologicamente fraca,
  • socialmente irrelevante.

Uma fé que sente profundamente… mas transforma pouco. Que adora intensamente… mas se compromete pouco. E então a adoração deixa de ser um encontro com o Cristo real e se torna uma experiência espiritual autorreferencial, nascida da imaginação de um grupo social privilegiado.

A “Tridentização” da devoção

Isso se alinha a um fenômeno mais profundo: uma espécie de “retro-Tridentização” da vida espiritual.

Não no sentido sério de uma recuperação litúrgica bem fundamentada, mas numa sacralização de práticas devocionais que absolutizam formas do passado sem levar em conta o desenvolvimento teológico da Igreja, a dinâmica do Vaticano II e o magistério pontifício atual.

A solenidade é exaltada sem compreensão, o ritual sem processo e a emoção sem discernimento.

E, acima de tudo, constrói-se uma espiritualidade onde o importante é "estar diante de Deus"... mesmo que esse estar não tenha consequências na vida, porque esse "Deus" não se interessa pelos pobres.

Assim se cria uma religião que não questiona a realidade, não desafia estruturas injustas e não incomoda ninguém. Uma religião perfeitamente compatível com a vida confortável daqueles que frequentam esses encontros, uma religião que se esquece de um mundo ferido por injustiças sistêmicas.

Uma espiritualidade que seja funcional para o bem-estar

E aqui reside um dos pontos mais delicados.

Essas práticas costumam encontrar terreno fértil em setores que se sentem confortáveis ​​com o mundo como ele é. Seu fundamento fundamentalista é uma das piores ideologias ou "ismos", como costumam chamá-los. Tendem a descartar aqueles que falam de justiça social, desigualdade ou pobreza estrutural como suspeitos de "comunismo" ou "teologia da libertação". (Cabe ressaltar que esta última nunca foi condenada e chegou a ser defendida pelo Papa Leão XIV, que era próximo de seu fundador, Gustavo Gutiérrez.)

É muito mais simples refugiar-se numa espiritualidade intensa, emocional e aparentemente profunda... mas que não exige uma transformação real e acalma a consciência.

  • Porque comprometer-se com a justiça implica mudar estilos de vida que são dissonantes com a vida austera de Jesus.
  • Analise seus privilégios pessoais e de classe por meio de exercícios de autocrítica.
  • Chega de vivermos de costas para o sofrimento alheio, imersos em um consumismo ostentoso e excludente.

Assim, o culto se torna um passatempo refinado de escapismo.

Obediência sem escuta: o problema da profissão docente

Outra característica irritante desses círculos é a sua ignorância do Magistério. Eles professam lealdade ao Papa e à Igreja.

Mas, na prática, a orientação pastoral e teológica dos papas Francisco e Leão XIV é sistematicamente ignorada, especialmente em tudo o que se relaciona com:

  • A opção pelos pobres, imigrantes e vítimas de todos os tipos.
  • Críticas à economia que mata, às guerras e às formas naturalizadas de violência, como a polarização e o messianismo populista (aos quais muitas vezes aderem fervorosamente).
  • O apelo por uma Igreja que se dirija às periferias como um hospital de campanha.
  • Denunciar o clericalismo e os abusos dentro da Igreja.
  • A doutrina social da Igreja em sua formulação atual.

Às vezes, cita-se o que é conveniente... mas não se assume o todo.

E então ocorre uma ruptura silenciosa: um catolicismo que mantém formas de fidelidade externa enquanto ignora o cerne da conversão evangélica.

Renascimento ou retorno ao pior?

Alguns apresentam esses movimentos como "um retorno à fé", como um sinal de esperança diante da secularização. Mas: a que fé estamos retornando? Porque nem todo retorno é progresso, nem toda religiosidade é evangélica.

Quando a fé é reduzida a uma emoção sem profundidade, a um ritual sem vida real, a uma adoração sem compromisso, corre o risco de se tornar aquilo que já foi denunciado tantas vezes: uma forma de "droga religiosa".

Não no sentido simplista de negar o espiritual, mas sim: uma experiência que acalma, consola e desperta emoções… mas que não transforma a realidade nem desafia as injustiças. É meramente uma fuga emocional íntima, uma privatização da fé por "grupos seletos".

O Cristo que adoramos... e aquele que ignoramos

Eis aí a principal contradição.

A presença real de Cristo na Eucaristia é fortemente afirmada. E, ao mesmo tempo, sua presença nos pobres é ignorada.

O silêncio diante do Santíssimo Sacramento é cuidadosamente mantido. Mas os gritos daqueles que sofrem não são ouvidos.

São organizadas longas horas de culto. Mas não há tempo para compromisso.

E então a pergunta se torna inevitável: Qual Cristo estamos adorando?

Porque o Cristo do Evangelho não pode ser fragmentado. Aquele que está na hóstia consagrada é aquele que disse: “Eu estava com fome e vocês me deram de comer” (Mt 25), que proclamou bem-aventurados os que sofrem agora e lamentou a cegueira dos ricos. Que abençoou o samaritano que cuidou dos feridos e expôs a insensibilidade dos “religiosos”.

Recuperando a Eucaristia: de "objeto de identidade" a alimento para a jornada

A Eucaristia não foi instituída para ser privatizada por grupos seletos dedicados à indulgência espiritual. Foi dado como pão para a viagem, alimento para o Povo de Deus que caminha pela História.

Como nos lembra o Papa Francisco, não é um prêmio para os perfeitos, mas alimento para os fracos. Isso muda tudo.

Porque, então, a adoração deve ser o início de uma vida entregue, vivida e comprometida com os mais humildes, que são os escolhidos de Deus para o seu Reino inclusivo.

Conclusão

Dizer isso pode ser desconfortável, mas é necessário: nem toda forma de culto é cristã. Nem toda devoção é evangélica. Nem tudo que parece fervor é fé genuína.

O Santíssimo Sacramento não pode ser sequestrado por dinâmicas que o separam do Evangelho que lhe dá significado. Porque o Cristo que adoramos não permanece no altar.

Saída.

Está exposto.

O produto foi entregue.

E nos aguarda — sempre — fora das nossas bolhas.

Onde a vida dói.

Onde a fé se transforma em compromisso.

Onde a Eucaristia deixa de ser um objeto autorreferencial…

e volta a ser pão para o mundo.

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