Proposta de acordo para o Hamas em Gaza. Artigo de Riccardo Cristiano

Foto: Wikimedia Commons

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30 Setembro 2025

"Um processo que, enquanto se aguarda a resposta do Hamas, ainda não começou: a campanha militar em Gaza continua."

O artigo é de Riccardo Cristiano, jornalista italiano, publicado por Settimana News, 30-09-2025. 

Eis o artigo. 

O acordo ainda não está fechado. Donald Trump deixou claro que deu ao Hamas 72 horas para aceitá-lo, mas ele se mostrou confiante. Somente após a aceitação, será possível falar oficialmente em um acordo para Gaza.

É importante notar que todos os líderes árabes, incluindo os dos países que abrigam a liderança do Hamas no exterior, estão a favor do acordo. Algumas fontes informam que, durante a noite, líderes do Hamas se reuniram com negociadores egípcios e qataris, e que comunicaram que responderiam “de boa-fé”.

O plano tem como objetivo acabar com os medos de ambos os lados: o terrorismo, por um lado, e a transferência em massa de palestinos de Gaza, por outro.

Se o Hamas aceitar, o processo será o seguinte: libertação imediata de todos os reféns e entrega dos corpos dos falecidos, cessação das hostilidades, entrada de ajuda humanitária sob a responsabilidade da ONU, suas agências e a Cruz Vermelha, e retirada em três fases do exército israelense da Faixa.

Após as declarações de Netanyahu, que aceitou o plano, ressaltando que todos os objetivos de Israel seriam alcançados, mas que se o Hamas o rejeitasse, Israel “terminaria o trabalho” (e Trump concordou), os ministros das Relações Exteriores de Catar, Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Paquistão divulgaram um comunicado oficial de apoio ao plano para Gaza. Eles acrescentaram, de forma significativa, que isso uniria Gaza à Cisjordânia, com a perspectiva de um Estado Palestino. Nesse sentido, há apenas o compromisso de Trump de não permitir a anexação.

O plano, como mencionado, se refere apenas a Gaza. No entanto, a inclusão da Cisjordânia indica que a questão é delicada.

França, Grã-Bretanha e a Autoridade Palestina expressaram apoio. Foi também notável o telefonema do primeiro-ministro Netanyahu ao emir do Catar, pedindo desculpas pela violação de seu território durante a operação contra os líderes do Hamas. O Catar informou que aceitou as desculpas.

Vamos analisar de forma resumida os pontos do plano para Gaza, todos de difícil implementação.

  • Gaza será desradicalizada.
  • Gaza será reconstruída para o benefício de sua população, que já sofreu demais.
  • Se as partes aceitarem, a guerra terminará imediatamente, com a retirada do exército israelense conforme o acordo.
  • O prazo para a decisão é de 72 horas.
  • Após a libertação imediata de todos os reféns, Israel libertará 250 palestinos condenados à prisão perpétua e 1.700 prisioneiros presos em Gaza.
  • Os membros do Hamas que aceitarem a coexistência pacífica receberão anistia. Aqueles que desejarem deixar Gaza terão a oportunidade de fazê-lo.
  • A ajuda terá acesso total, pelo menos nos níveis previstos pelos acordos de 19 de janeiro de 2005.
  • A ajuda será gerenciada pelas Nações Unidas, suas agências e a Cruz Vermelha.
  • Gaza será governada por uma autoridade de transição tecnocrática e apolítica, composta por palestinos envolvidos. Um “Conselho da Paz” supervisionará essa autoridade, liderado pelo próprio Donald Trump e com a participação de Tony Blair, entre outros. Isso permanecerá em vigor até que a Autoridade Palestina conclua sua reforma e possa assumir o controle efetivo de Gaza.
  • Um plano de desenvolvimento econômico será implementado por Trump, com especialistas que ajudaram a criar os milagres urbanos do atual Oriente Médio.
  • Uma zona econômica especial, com incentivos tarifários, será criada.
  • Quem quiser sair de Gaza poderá fazê-lo, assim como retornar. A população será encorajada a ficar.
  • O Hamas (e outras facções) aceita não fazer parte do governo de Gaza. Os túneis, infraestruturas terroristas e armas serão destruídos.
  • Os parceiros regionais oferecerão garantias, e as outras facções respeitarão as obrigações assumidas.
  • Os Estados Unidos, em acordo com os países árabes e outros parceiros internacionais, trabalharão na criação de uma Força Internacional de Estabilização, que treinará as forças policiais palestinas em Gaza. Essa mesma força trabalhará com Israel e o Egito na estabilização das passagens de fronteira, juntamente com a nova polícia palestina.
  • Israel não ocupará nem anexará Gaza. A retirada será definida com a Força de Estabilização, para a qual transferirá os territórios de Gaza em acordo com a autoridade de transição.
  • No caso de atrasos ou respostas negativas do Hamas, o plano permanecerá válido para as áreas libertadas por eles.
  • Um Diálogo Inter-religioso baseado na tolerância e coexistência será implementado para mudar as narrativas, destacando os benefícios da paz.
  • Com o progresso na implementação deste plano e na reforma da autoridade palestina, estarão prontas as condições para iniciar um caminho rumo à autodeterminação e soberania palestina, aspiração do povo palestino.
  • Os Estados Unidos promoverão um diálogo israelo-palestino.

Trump usou tons triunfalistas, falando em paz ao alcance das mãos após 2/3 mil anos, e, acima de tudo, fez questão de elogiar a todos. Ele sabe que há muitos problemas, sendo os dois principais citados o Hamas e a Cisjordânia. Além disso, existe a questão da “perspectiva do Estado”, crucial para os sauditas e sempre rejeitada por Netanyahu. Talvez os líderes esperem para discutir um ponto que não está tão próximo.

E como ficará o cenário político israelense? Há muitas perguntas. Enquanto isso, é preciso aguardar a resposta do Hamas. Mas é impossível não enxergar a possível novidade, que pode ser considerada o início de um processo.

Um processo que, enquanto se aguarda a resposta do Hamas, ainda não começou: a campanha militar em Gaza continua.

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