Nos últimos tempos, Curtis Yarvin passou da marginalidade do mundo da chamada "Ilustração Sombria" a atrair o interesse de políticos republicanos de primeiro escalão. Sua proposta de que o país seja governado por um CEO-monarca, assim como outras de suas excentricidades antidemocráticas, pareciam uma piada. Mas hoje, uma parte da direita parece seduzida por elas.
O artigo é de Ava Kofman, publicado pela revista The New Yorker e reproduzido por Nueva Sociedad, junho/julho de 2025.
Ava Kofman é redatora do The New Yorker. Recebeu o prêmio do National Press Club e o Prêmio Hillman de Jornalismo.
Em meados de 2008, quando Donald Trump ainda era oficialmente um democrata, um blogueiro anônimo que se fazia chamar Mencius Moldbug publicou um manifesto em partes que apresentou como uma "Carta aberta para progressistas de mente aberta" [1]. Escrito com o desdém irônico de um ex-crente, o texto de 120 mil palavras argumentava que, longe de ter tornado o mundo um lugar melhor, o igualitarismo era o verdadeiro responsável pela maioria de seus defeitos. O fato de seus bem-pensantes leitores opinarem o contrário, sustentava Moldbug, se devia à influência dos meios de comunicação e da academia, que colaboravam, ainda que inconscientemente, para a perpetuação do consenso liberal de esquerda. Ele propôs dar a essa aliança nefasta o nome de "A Catedral".
Moldbug exigia nada menos que sua destruição e um "reinício" completo da ordem social por meio da "liquidação da democracia, da Constituição e do Estado de direito" e a posterior transferência de poder a um "CEO em chefe" (alguém como Steve Jobs ou Marc Andreessen, sugeria) para converter o governo em "uma corporação armada até os dentes, extremamente lucrativa". Esse novo regime colocaria as escolas públicas à venda, destruiria as universidades, aboliria a imprensa e encarceraria as "populações descivilizadas". Também demitiria em massa os funcionários públicos (uma medida que Moldbug chamou de rage, "ira" ou "fúria", pelas siglas em inglês de retire all government employees) e interromperia as relações internacionais, incluindo "as garantias de segurança, a ajuda internacional e a imigração em massa".
Moldbug reconhecia que seu programa dependia da sanidade de seu executivo em chefe: "Está claro que, se ele ou ela se revelar um Hitler ou Stalin, simplesmente teremos recriado o nazismo ou o stalinismo". Mas, ao mesmo tempo, desprezava os fracassos dos ditadores do século XX que, segundo ele, confiaram demais no apoio popular. Para Moldbug, qualquer sistema que buscasse legitimar-se nas paixões das massas estava condenado à instabilidade. Seus críticos o tacharam de tecnofascista, mas ele preferia se ver como um monarquista ou um jacobita: uma referência aos partidários do rei Jaime II e seus descendentes, que nos séculos XVII e XVIII se opuseram ao sistema parlamentar britânico defendendo o direito divino dos reis. Nem era necessário atacar a Revolução Francesa, bête noire dos pensadores reacionários: Moldbug acreditava que foram a Revolução Inglesa e a Revolução Americana que haviam ido longe demais.
Embora a carta aberta de Moldbug demonstrasse pouca estima pelas massas, deixava entender que ainda poderiam ser de alguma utilidade. "O comunismo não foi derrubado por Andrei Sakharov, Joseph Brodsky ou Václav Havel", escrevia: "O que foi necessário foi a combinação do filósofo e da multidão". O melhor lugar para recrutar uma multidão, assinalava – com astuta intuição –, era a internet.
Não demorou muito para que o blog de Moldbug, Unqualified Reservations, começasse a circular entre libertários techies, burocratas descontentes autoproclamados racionalistas, entre os quais se encontravam muitos dos integrantes das tropas de choque de um movimento intelectual da internet que passou a ser conhecido como "neorreação" ou "Ilustração Sombria". Poucos se tornaram monarquistas convictos, mas as heresias de Moldbug pareciam dar voz ao desprezo pelo progresso da era Obama. Em sua formulação mais influente, que rapidamente ganhou popularidade entre a nascente alt-right (direita alternativa), Moldbug incentivava seus leitores a despertar do sonho ideológico por meio da red pill, a "pílula vermelha" que o personagem de Keanu Reeves toma no filme Matrix ao escolher a verdade incômoda em vez da ignorância confortável.
Em 2013, um artigo do site de notícias TechCrunch, "Geeks for Monarchy" [Geeks pela monarquia], revelou que Mencius Moldbug era o pseudônimo virtual de Curtis Yarvin, um programador de 40 anos que vivia em São Francisco [2]. Enquanto tentava redesenhar o governo dos Estados Unidos, Yarvin também sonhava com um novo sistema operacional de computadores que chegasse a se tornar uma "república digital". Fundou uma empresa chamada Tlon, inspirada no conto de Borges "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", no qual uma sociedade secreta descreve um elaborado mundo paralelo que aos poucos toma conta da realidade. Durante a captação de recursos para sua startup, Yarvin tornou-se uma espécie de Maquiavel para seus benfeitores dos círculos da big tech, que compartilhavam sua visão de que o mundo estaria melhor com eles no comando. Entre os investidores da Tlon estavam empresas de capital de risco como Andreessen Horowitz e Founders Fund, esta última criada pelo bilionário Peter Thiel. Tanto Thiel quanto Balaji Srinivasan, então sócio geral da Andreessen Horowitz, haviam se tornado amigos de Yarvin depois de lerem seu blog, embora os e-mails que compartilhou comigo sugerissem que, naquela época, nenhum dos dois gostava muito de ser publicamente associado a ele. "Quão perigoso será sermos vinculados?", perguntou Thiel a Yarvin em 2014. "Um pensamento tranquilizador: uma de nossas vantagens secretas é que esses caras [os guerreiros da justiça social] não acreditariam em uma conspiração nem que a tivessem diante dos olhos (esta talvez seja a melhor prova do declínio da esquerda). Quando denunciam vínculos, realmente parecem malucos; de alguma forma, eles se entregam".
Uma década depois, com a direita trumpista abraçando abertamente a lógica do homem forte autoritário, os vínculos de Yarvin com as elites de Washington e do Vale do Silício já não são nenhum segredo. Em 2021, em um podcast de extrema-direita, o então senador J.D. Vance – que trabalhou para uma das firmas de capital de risco de Thiel – aludiu a Yarvin ao sugerir que um futuro governo Trump deveria demitir "cada um dos burocratas de nível médio, todos e cada um dos funcionários do Estado administrativo [3], para substituí-los pelos nossos", e ignorar a Justiça caso esta se opusesse. Marc Andreessen, um dos líderes da Andreessen Horowitz e conselheiro informal do chamado Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês), citava seu "bom amigo" Yarvin sobre a necessidade de uma figura tutelar que assumisse o controle de nossa burocracia "fora de controle". Andrew Kloster, novo assessor jurídico do escritório de Recursos Humanos do governo, disse que substituir os funcionários por defensores da realeza poderia ajudar Trump a derrotar "A Catedral".
"Existem figuras que canalizam um Zeitgeist – Nietzsche os chama de homens oportunos – e Curtis é sem dúvida um homem oportuno", disse-me um membro do Departamento de Estado que lê Yarvin desde seus dias como Moldbug. Por volta de 2011, Yarvin disse que via em Trump uma das duas figuras "biologicamente adequadas" para se tornar monarca americano (a outra era Chris Christie [4]). Em 2022 sugeriu que, se conseguisse a reeleição, Trump deveria nomear Elon Musk à frente da chefia do Executivo. Em um podcast com seu amigo Michael Anton, hoje diretor de Planejamento de Políticas, Yarvin sustentou que seria necessário fechar as instituições da sociedade civil, como a Universidade de Harvard: "A ideia de que você vá ser um César (…) enquanto mantém em funcionamento um Departamento de Realidade administrado por outros é simplesmente absurda".
Em um mundo alternativo, Yarvin poderia não ter passado de um excêntrico da internet, obscuro e irrelevante, o conde de Maistre da era digital [5]. Em vez disso, tornou-se um dos pensadores antiliberais mais influentes dos Estados Unidos, engenheiro do código-fonte intelectual do segundo governo Trump. Como me disse Nikhil Pal Singh, professor de História na Universidade de Nova York (NYU), "Yarvin deslocou a janela de Overton" [6]. Sua obra reviveu ideias que pareciam ter ficado à margem da sociedade educada, segundo Singh, e criou uma espécie de roteiro para desmantelar "o Estado administrativo e a ordem global do pós-guerra".
Com suas ideias materializadas de forma quase surreal no Doge, e vendo o gosto que Trump tomou por se autoperceber como rei, seria de esperar que Yarvin estivesse eufórico. Mas, ao contrário, há meses ele anda angustiado com a possibilidade de o momento atual ser desperdiçado. "Se neste momento você tem uma ereção trumpista, aproveite" [7], escreveu dois dias depois da eleição: "É o mais duro que você conseguirá". O que muitos veem como o ataque à democracia mais perigoso da história dos EUA, Yarvin descarta como lamentavelmente insuficiente: um mero golpe mais "atmosférico" do que real (vibes coup). Sem uma tomada autocrática de poder em larga escala, acredita, o mais provável é que haja um contragolpe. Em uma conversa recente, citou uma frase de Louis de Saint-Just, o filósofo francês que defendia o Reino do Terror: "Quem faz uma revolução pela metade cava a própria cova".
Há alguns meses, almocei com Yarvin em Washington, DC, onde ele havia ido para festejar a mudança de regime. Vestia seu traje habitual: jeans, botas Chelsea, camisa amassada e jaqueta de motociclista. Depois de dar algumas mordidas em um hambúrguer com cebolas crocantes, afastou o prato. No ano anterior, contou-me, havia decidido começar a usar uma droga ao estilo do Ozempic após um debate com o comentarista de direita Richard Hanania sobre os méritos relativos da monarquia e da democracia. "Eu o destruí em quase todos os sentidos possíveis", disse Yarvin, cutucando um tomate com o garfo. "Mas ele tinha uma grande vantagem: eu estava gordo e ele não".
As injeções pareciam estar funcionando. Enquanto eu comia, o telefone de Yarvin se enchia de mensagens, algumas com felicitações por sua transformação. Naquela manhã, a revista do New York Times havia publicado uma entrevista com ele, acompanhada de um retrato em preto e branco, de expressão carrancuda. Até pouco tempo, com sua cabeleira desgrenhada e roupas largas e descuidadas, Yarvin parecia indiferente à aparência; agora, lá estava, de jaqueta de couro e cabelo propositalmente desalinhado, lançando um olhar fulminante ao leitor desde o papel. Seu amigo Steve Sailer, que escreve em sites de nacionalismo branco, disse que ele parecia "o quinto integrante dos Ramones".
Tanto em pessoa quanto em seus escritos, Yarvin se expressa com uma confiança imperiosa em si mesmo. É quase impossível interrompê-lo. "Quando o rabino fala, deixa-se o rabino falar", explicou-me Razib Khan, blogueiro científico de direita e amigo próximo de Yarvin. No entanto, até amigos e familiares reconhecem que suas habilidades de comunicação poderiam melhorar. Ele fala em uma monotonia hesitante, raramente responde às perguntas de maneira direta e tem a tendência de se perder em digressões. No meio de uma ideia, sempre se distrai com outra coisa que poderia estar dizendo, como um GPS que não para de sugerir rotas mais rápidas.
Yarvin, por sua vez, estava aliviado com o resultado da entrevista. "Meu objetivo principal era não prejudicar nenhuma das minhas relações", disse. Durante anos, Yarvin foi conhecido sobretudo – se não exclusivamente – como o filósofo oficial do "Thielverso", a rede de empreendedores heterodoxos, intelectuais e acólitos reunidos em torno do magnata da tecnologia. Comentou de passagem que um empresário conhecido havia se queixado certa vez de que Thiel não tinha investido o suficiente em sua empresa. "Na primeira falha você está fora, e ele ficou fora", disse Yarvin, com um suspiro teatral. Seu segundo objetivo, acrescentou, era alcançar os leitores do Times. Isso parecia surpreendente, já que ele chegou a exigir que o governo fechasse o jornal. "Costumo estar mais interessado em alcançar pessoas que compartilham do meu mesmo contexto cultural", explicou.
Gosta de contar a história de seus avós paternos, judeus comunistas oriundos do Brooklyn que se conheceram em uma reunião de esquerda nos anos 1930. (Tem menos a dizer sobre os avós maternos, protestantes brancos da cidade de Tarrytown, com casa de veraneio em Nantucket). "A atitude do comunismo americano era: ‘Temos 30 pontos de QI a mais que essa gente e vamos vencer’", disse. "É como se todas as crianças superdotadas formassem um partido político e tentassem dominar o mundo". Os pais de Yarvin se conheceram na Universidade Brown, onde seu pai, Herbert, fazia doutorado em Filosofia. Depois de se formar, sem conseguir a titularidade ("arrogante demais", acrescentou Yarvin), Herbert tentou a sorte escrevendo uma Grande Novela Americana para depois ingressar no serviço exterior como diplomata. Nos anos seguintes, a família viveu na República Dominicana e em Chipre. Herbert via com cinismo seu trabalho para o governo, e Yarvin parece ter herdado esse desdém: em várias ocasiões propôs fechar as embaixadas dos EUA, uma possibilidade que o Departamento de Estado hoje considera para algumas partes da Europa e da África.
Sobre sua infância, é mais reservado, mas amigos e familiares sugeriram que seu pai sabia ser severo, dominante e impossível de agradar. "Controlava suas vidas com punho de ferro", contou alguém com conhecimento direto da família. "Seu domínio era absoluto". (Yarvin rejeitou veementemente essa versão, argumentando que pessoas controladoras tendem a ser inseguras, "e essa não era de forma alguma a natureza de meu pai". Palavras melhores para descrevê-lo, disse, seriam "teimoso", "intenso" e "formidável", como "um bom gerente").
Quando criança, Yarvin foi educado em parte em casa, com sua mãe, e pulou três séries (seu irmão mais velho, Norman, pulou quatro). A família acabou se mudando para Columbia, Maryland, onde Yarvin ingressou no terceiro ano do ensino médio com apenas 12 anos. "Quando seus colegas têm tantos anos a mais que você, todos o veem ou como um mascote adorável ou como um extraterrestre estranho, ameaçador e perturbador", contou Yarvin, acrescentando que, em seu caso, foi a segunda opção. Ele foi selecionado para participar de um estudo da Universidade Johns Hopkins sobre prodígios em matemática. Frequentou o Centro para Jovens Talentosos da universidade, um acampamento de verão para superdotados, e venceu a competição da região de Baltimore em um programa de perguntas e respostas chamado It’s Academic. Andrew Cone, um programador que hoje vive no quarto de hóspedes de Yarvin, contou-me que a infância parece ter deixado em Yarvin um duradouro sentimento de inadequação: "Acho que ele sente que nunca é bom o bastante, que é visto como ridículo ou irrelevante e que a única maneira de sair disso é atuando".
Yarvin foi para a Universidade Brown, graduou-se aos 18 anos e ingressou no doutorado em Ciências da Computação na Universidade da Califórnia em Berkeley. Seus ex-colegas contaram-me que ele usava um capacete de bicicleta em plena aula e parecia ansioso para mostrar ao professor o quanto sabia. "Ah, o cabeça de capacete?", respondeu um quando perguntei por Yarvin. A piada que circulava entre alguns colegas era que o capacete impedia que novas ideias entrassem em sua mente. Yarvin encontrou sua comunidade mais em Usenet, um precursor dos atuais fóruns da internet. Mas mesmo em grupos como talk.bizarre [conversas bizarras], onde a ostentação intelectual era norma, ele se destacava pelo desejo de dominar. Além de postar piadas, conselhos, poemas leves e flames ("chamas", isto é, ataques ferozes a outros usuários), tinha um kill file, uma "lista de vítimas" com os usuários que bloqueava por escrever coisas pouco interessantes. "Ele queria ser visto como o cara inteligente… isso era realmente muito, muito importante para ele", contou Meredith Tanner, sua primeira namorada. O que a atraiu, inicialmente, foi uma de suas "chamas" virtuosas, e eles namoraram por alguns anos. "Não se envolva sentimentalmente com alguém só porque te impressiona a criatividade com que insulta as pessoas", alertou. "Mais cedo ou mais tarde, ele usará isso contra você".
Seus amigos de juventude o descrevem como alguém reflexivo e provocador, que adorava contrariar. "Não era um garoto doce, e às vezes podia ser cruel, mas não era o Moldbug", disse um deles. Politicamente e culturalmente, Yarvin era liberal [8]: "um grande hippie", nas palavras de Tanner. Usava rabo de cavalo, tinha um brinco de prata, tomava ácido em festas e escrevia poemas. Tanner lembrou que certa vez questionou o valor da política de ação afirmativa nas admissões universitárias e foi Yarvin quem a convenceu de sua necessidade.
Após um ano e meio de doutorado, Yarvin deixou a academia para tentar a sorte na indústria tecnológica. Ajudou a projetar uma versão inicial de um navegador móvel para uma empresa que viria a ser conhecida como Phone.com. Em 2001, começou a namorar Jennifer Kollmer, uma dramaturga que conheceu pelo site Craigslist, com quem depois se casou e teve dois filhos. A Phone.com abriu capital, o que lhe rendeu inesperadamente um milhão de dólares. Usou parte do dinheiro para comprar um apartamento e com o restante financiou um programa autodirigido de estudos em ciência da computação e teoria política. "Eu estava acostumado a receber tapinhas na cabeça pela minha inteligência", disse sobre a decisão de abandonar o cursus honorum da criança superdotada. "Desviar-me da economia dos tapinhas foi uma decisão estranha e assustadora".
Em seu retiro autoimposto, Yarvin mergulhou em textos obscuros de história e economia, muitos dos quais haviam se tornado acessíveis apenas recentemente graças ao Google Books. Leu Thomas Carlyle, James Burnham e Albert Jay Nock, bem como uma profusão de blogs políticos do início dos anos 2000. Yarvin situa seu "momento red pill" na eleição presidencial de 2004. Enquanto muitos de seus pares se inclinavam para a esquerda diante das mentiras sobre armas de destruição em massa no Iraque, Yarvin foi levado na direção oposta por outros tipos de invenções: a teoria conspiratória da organização Swift Boat Veterans for Truth [Veteranos das Lanchas Rápidas pela Verdade], aliada à campanha de George W. Bush, segundo a qual o candidato democrata John Kerry teria mentido sobre seu serviço no Vietnã. Para Yarvin, que acreditava na acusação, parecia óbvio que, uma vez revelada a verdade, Kerry seria forçado a abandonar a disputa. Quando isso não aconteceu, começou a se perguntar que outras coisas teria aceitado ingenuamente como certas. Os fatos já não pareciam sólidos. Como poderia confiar no que lhe haviam contado sobre Joseph McCarthy, a Guerra Civil ou o aquecimento global? E quanto à própria democracia? Depois de anos de debates intensos na seção de comentários de blogs alheios, decidiu abrir o seu próprio. Não lhe faltava ambição. A primeira postagem começava assim: "Outro dia estava arrumando tralhas na garagem e decidi fundar uma nova ideologia" [9].
O acadêmico alemão Hans-Hermann Hoppe é às vezes descrito como uma porta de entrada intelectual para a extrema-direita. Professor de Economia aposentado da Universidade de Nevada, Las Vegas, Hoppe sustenta que o sufrágio universal substituiu o governo de uma "elite natural", defende a subdivisão dos países em comunidades menores e homogêneas, e pede a "remoção física" de comunistas, homossexuais e outras pessoas que se oponham a essa rígida ordem social. (Alguns nacionalistas brancos fizeram memes com o rosto de Hoppe e a imagem de um helicóptero, em alusão à prática do ditador chileno Augusto Pinochet de executar opositores jogando-os ao mar). Embora Hoppe prefira um Estado mínimo, acredita que a liberdade é melhor preservada em uma monarquia do que em uma democracia.
Yarvin quase se tornou libertário. Como programador da baía de São Francisco e jovem de vinte e poucos anos devoto dos economistas da Escola Austríaca, reunia todos os fatores de risco. Então descobriu o livro de Hoppe, Democracia: o deus que falhou [10], e mudou de ideia. Logo adotou a imagem hoppiana do líder forte e benevolente: alguém que governaria com eficiência, evitaria guerras insensatas e priorizaria o bem-estar de seus súditos. "Não chega a ser um copy-paste, mas a influência é tão direta que chega a ser um pouco obscena", observou Julian Waller, especialista em autoritarismo da Universidade George Washington. (Por e-mail, Hoppe lembrou ter conhecido Yarvin em um encontro íntimo na casa de Thiel, que o havia convidado para expor suas ideias. Reconheceu sua influência sobre Yarvin, mas acrescentou: "Para o meu gosto, seu estilo sempre foi muito florido e divaga demais"). Hoppe argumenta que, ao contrário dos governantes democraticamente eleitos, um monarca teria um incentivo de longo prazo para proteger seus súditos e o Estado, já que ambos lhe pertencem. Isso pode parecer falacioso a qualquer um minimamente familiarizado com a história das ditaduras. Para Yarvin, não.
"Você não saqueia sua própria casa", disse-me Yarvin certa tarde em um café ao ar livre em Venice Beach, quando lhe perguntei o que impediria seu "monarca-CEO" de saquear o país – ou escravizar o povo – em benefício próprio. "Para Luís XIV, quando diz ‘L’État, c’est moi’ [O Estado sou eu], saquear o Estado não faz sentido porque, no fim das contas, tudo já é dele". Seguindo Hoppe, Yarvin propõe que, a longo prazo, as nações deveriam se fragmentar em um "mosaico" de miniestados, como Singapura ou Dubai, cada um com seu soberano. Os eternos problemas políticos da legitimidade, da responsabilidade e da sucessão seriam resolvidos por um conselho secreto, com poder de escolher e depor o, de resto todopoderoso, CEO de cada corporação soberana, ou sovcorp. (O processo de seleção desse conselho não está claro, mas Yarvin sugeriu que pilotos de avião – "uma irmandade de gente inteligente, prática e cuidadosa, a quem já se confia regularmente a vida de outras pessoas; o que mais você iria querer?" – poderiam gerir as transições entre regimes). Para impedir um golpe militar por parte de um CEO, os membros do conselho teriam acesso a chaves criptográficas que lhes permitiriam desativar todas as armas do governo, de mísseis nucleares a armas de mão, com um único botão.
A participação política de massas deixaria de existir, e a única maneira de as pessoas “votarem” seria com os pés, mudando-se de uma sovcorp para outra caso já não estivessem satisfeitas com as condições do serviço, como quando alguém troca o Twitter pelo Bluesky. A ironia de que, em um Estado assim, dissidentes como o próprio Yarvin provavelmente seriam vítimas de repressão não parece preocupá-lo. Em seu sistema político imaginário, insiste, ainda haveria liberdade de expressão: “Você poderia pensar, dizer ou escrever o que quisesse”, prometeu. “Porque ao Estado não precisa importar”.
O cinismo congênito de Yarvin em relação ao governo desaparece assim que começa a falar de regimes ditatoriais. Tem apenas elogios ao autoritário presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e já incentivou Trump a permitir que Vladímir Putin liquide a ordem liberal “não apenas nos territórios de língua russa, mas em tudo o que vai até o próprio Canal da Mancha”. Beliscando uns anéis de lula frita, Yarvin exaltou a China e Ruanda (países que nunca visitou) por terem governos fortes que garantiriam tanto a segurança pública quanto a liberdade pessoal. Na China, disse-me, “alguém pode pensar e, em boa medida, dizer o que quiser”. Deve ter percebido meu ceticismo, dado o histórico do país em matéria de presos políticos e campos de concentração para minorias étnicas, porque logo admitiu: “Se você tentar se organizar contra o governo, aí sim terá problemas”. Em seguida retomou seus retoques: “[Mas] não como sob o regime de Stalin. No máximo, digamos, você será cancelado”.
Para certas pessoas, como os dependentes químicos ou crianças de quatro anos, continuou, um excesso de liberdade pode ser fatal. Então, com um gesto em direção à população em situação de rua que acampava no bairro, de repente começou a chorar. “A ideia de que isso representa um sucesso, ou ‘o pior sistema, com exceção de todos os demais’” – em referência ao famoso comentário de Churchill sobre a democracia, que eu havia parafraseado momentos antes – “é um delírio monumental”, disse, enxugando as lágrimas. (Algumas semanas depois, em uma viagem a Londres, voltei a vê-lo se emocionar enquanto fazia um discurso semelhante a um membro da Câmara dos Lordes. Da segunda vez não foi muito comovente).
Seria de se supor que o monarca de Yarvin atuaria com determinação para proteger seus súditos. No café em Venice Beach, Yarvin derramou elogios à Fundação Delancey Street, uma organização de reabilitação sem fins lucrativos, descrevendo seu programa rígido como uma forma de “controle comparável ao de um pai fascista”. Algumas de suas próprias propostas, porém, vão ainda mais longe. Em seu blog, uma vez brincou com a ideia de transformar as classes marginalizadas de São Francisco em biodiesel para os ônibus urbanos. Depois, sugeriu confiná-las, conectando-as a uma interface de realidade virtual. Independentemente da solução exata, escreveu, o crucial era encontrar “uma alternativa humana ao genocídio”, um caminho que “alcance o mesmo resultado que o assassinato em massa (a remoção dos elementos indesejáveis da sociedade) sem o estigma moral” [11].
Seu apelo em favor de um “homem forte” para os EUA é frequentemente entendido como uma provocação. Mas, para Yarvin, é, na verdade, a única resposta a um mundo em que a maioria das pessoas não está preparada para a democracia. Um “país africano”, explicou-me, “tem hoje pessoas inteligentes o suficiente para dirigi-lo, mas simplesmente não tem pessoas inteligentes o suficiente para realizar eleições democráticas”. Por comentários como esse, Yarvin às vezes é definido como nacionalista branco, rótulo que ele rejeita com delicadeza. Em uma postagem de 2007, explicava que, embora não seja “exatamente alérgico ao tema”, tanto a branquitude quanto o nacionalismo lhe parecem pouco úteis como conceitos políticos [12]. Durante um almoço, contou-me que sente certa compaixão pelos supremacistas do passado, que acertavam em algumas de suas intuições, mas careciam da ciência adequada. Os neorreacionários tendem a aderir ao que chamam de “biodiversidade humana”, um conjunto de crenças alternativas segundo as quais, por exemplo, nem todos os grupos raciais ou populacionais são igualmente inteligentes. Como Yarvin veio a compreender por meio de suas pesquisas na internet, essas diferenças genéticas contribuíam para as diferenças demográficas (e, convenientemente, ajudavam a justificá-las) em termos de pobreza, criminalidade e nível educacional. “Nesta casa acreditamos na ciência: na ciência racial”, escreveu ele no ano passado [13].
Yarvin passou várias horas repassando seus diferentes argumentos em favor de um governo autoritário, como um leiloeiro desesperado para fechar uma venda. Eu o ouvi com paciência, embora suas distorções dos fatos e suas observações peculiares frequentemente me desconcertassem. “Em um regime completamente novo, qual seria a política correta para os afro-americanos?”, perguntou em voz alta em certo momento. O comentário pareceu deslocado no início; eu o havia pressionado sobre como definiria o sucesso de um segundo governo Trump. Respondendo a si mesmo, disse que a “solução óbvia” para os problemas urbanos do abuso de drogas e da pobreza deveria ser “colocar os negros da igreja no comando dos negros do gueto”. Yarvin é ateu e não tem interesse especial em governos teocráticos, mas defende a criação de códigos legais diferentes para governar populações distintas. (Citou o sistema otomano millet, que concedia às comunidades religiosas certo grau de autonomia). Para manter a ordem entre os “negros do gueto”, continuou, eles deveriam ser forçados a viver “de forma tradicional”, como os judeus ortodoxos ou os amish. “A estratégia do século XX era que, se tivéssemos escolas boas o suficiente, todos se tornariam unitários [14]”, disse. “Para alguém que tenha visto [a série] The Wire e vivido em Baltimore, e eu fiz ambas as coisas, isso não parece funcionar de modo algum”. Só quando chegou ao fim de seu discurso, dez minutos depois, entendi que, a seu modo, estava respondendo à minha pergunta inicial. “A não ser que redesenhássemos por completo o DNA para mudar o que é o ser humano, há muita gente que não deveria viver de maneira moderna, mas sim de modo tradicional”, concluiu. “E isso é um nível de revolução que vai muito além de qualquer coisa que esteja sendo feita pelo regime de Trump e Vance”.
Yarvin não é conhecido pela discrição. Tem o hábito de compartilhar correspondências privadas, como descobri quando começou a me enviar, sem que eu pedisse, capturas de mensagens de texto e e-mails que havia trocado com sua esposa, seus amigos, um editor da revista New York Times e até uma pessoa indicada para o novo governo. Parecia preocupado com a ideia de que o engenho e a sabedoria contidos ali pudessem se perder para sempre. Com sua amizade com Thiel era mais cuidadoso, mas mencionou uma gravação privada que haviam feito no ano anterior de uma conversa entre os dois e exibiu com orgulho o presente de aniversário que recebera do bilionário: The Tragedy of Europe [A tragédia da Europa], de Francis Neilson, uma análise contemporânea da Segunda Guerra Mundial — embora não a primeira edição com a qual Yarvin havia sonhado. Thiel sempre teve algo de profeta. Cofundou o PayPal, foi o primeiro investidor externo do Facebook e criou a Palantir, uma empresa de mineração de dados que acabou de receber um novo contrato do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE, na sigla em inglês) para agilizar os processos de deportação.
Thiel apoiou Trump ainda nos tempos em que, no Vale do Silício, isso significava tornar-se um pária. Em 2022, doou 15 milhões de dólares para a campanha de J.D. Vance ao Senado, a maior doação a um candidato em toda a história parlamentar dos EUA. A guinada yarviniana de Thiel, libertário de longa data, parece ter ocorrido por volta de 2009, quando, em um ensaio muito citado, publicado online pelo Instituto Cato, escreveu: “já não acredito que liberdade e democracia sejam compatíveis” [15]. Yarvin mencionou isso com tom de aprovação em uma postagem de seu blog intitulada “Democraphobia Goes (Slightly) Viral” [A democrafobia se torna (um pouco) viral] [16]. Pouco depois, conheceram-se pessoalmente, na casa de Thiel em São Francisco, e começaram, segundo as mensagens privadas que li, uma correspondência confidencial. Os e-mails de Yarvin eram longos e moralizantes, cheios de preceitos tomados de blogs de “artistas da sedução”[17]; os de Thiel eram diretos e concisos. Ambos pareciam dar como certo que os EUA eram um país comunista, que os jornalistas se comportavam como a Stasi e que os CEOs de tecnologia eram suas presas.
Em setembro de 2014, Thiel publicou – junto com Blake Masters, seu funcionário e antigo fã de Moldbug – o livro De Zero a Um, um tratado sobre startups que se tornou um best-seller [18]. Antes da turnê de imprensa, Thiel pediu conselhos a Yarvin sobre como escapar das perguntas que poderia receber a respeito de como incluir mais mulheres no setor de tecnologia. Ambos consideravam a ideia equivocada, já que, para eles, as mulheres seriam menos propensas a ter a mesma aptidão que os homens para a informática. Como resumiu Yarvin em um e-mail: “A não ser que se transforme em uma farsa, não há nenhuma maneira de que Google ou YC – Y Combinator, a aceleradora de startups – ou qualquer outra empresa se ‘pareça com os EUA" [19]. Yarvin lhe recomendou uma tática que os “artistas da conquista” chamam de “concordar e amplificar”: ou seja, perguntar à jornalista – que provavelmente não teria nenhuma solução em mente – o que ela faria para lidar com o problema. “O objetivo nesse caso não é levar sua interlocutora para a cama, mas sim assustá-la a ponto de fazê-la abandonar o assunto”, escreveu.
Certa vez, durante um jantar, Thiel começou a questioná-lo sobre o que seria conveniente fazer para acabar com o blog Gawker. (Ao que tudo indica, Thiel já havia decidido financiar secretamente o processo por difamação movido por Hulk Hogan contra a publicação online, que em 2016 acabou levando-a à falência). Em e-mails obtidos pelo BuzzFeed, Yarvin vangloriava-se com Milo Yiannopoulos, editor do site Breitbart, de ter acompanhado a primeira eleição de Trump na casa de Thiel e de ter o estado “assessorando”. “Peter precisa de orientação política, isso é certo”, respondeu Yiannopoulos. Yarvin replicou: “Menos do que você imagina! (…) Ele está completamente esclarecido, só que muito cauteloso” [20].
Recentemente, durante uma visita à casa em estilo Craftsman de Yarvin, em Berkeley, notei uma pintura que Thiel lhe havia presenteado: um retrato de Yarvin desenhado como uma carta de personagem de RPG, com a legenda “Filósofo”. Tomando chá em uma caneca personalizada com uma caricatura sua usando uma coroa de desenho animado, ouvi Yarvin me dizer que seria cringe da parte dele sair anunciando aos quatro ventos sua ligação com Thiel – ou com Vance, nesse caso, a quem conheceu em 2015 graças a Thiel. “Um eleitor comum de Ohio acaso lê… Mencius Moldbug? Não”, teria dito Vance em um bar durante a National Conservatism Conference de 2021. “Mas ele concorda, em linhas gerais, com a direção que acreditamos que a política pública americana deve seguir? Absolutamente”. “É um cara realmente incrível”, disse Yarvin sobre o vice-presidente, que há alguns meses começou a segui-lo na rede X. (A Casa Branca não respondeu aos meus pedidos de comentário).
Embora Yarvin tentasse ser discreto, mencionou que Thiel tem um lado “meio esquisito” e descreveu Andreessen, o investidor de risco, como alguém que “se não fosse pela forma estranha e possivelmente desumana de sua cabeça, pareceria muito mais normal que Peter”. Depois que Andreessen investiu em sua startup, Tlon, Yarvin passou a conhecê-lo melhor; trocavam mensagens e saíam para tomar café da manhã muito antes de Andreessen dar seu apoio público a Trump, o que ocorreu no ano passado. Sabe-se que Andreessen incentiva conhecidos a ler o blog de Yarvin. “Os empreendedores tecnológicos não se interessam por apelos à virtude, à beleza ou à tradição, como a maioria dos conservadores”, explicou um funcionário do Departamento de Estado. “Eles são mais uma espécie de progressistas de direita, e por muito tempo a única pessoa que falava com eles nesses termos era Moldbug”. (Andreessen e Thiel recusaram comentar). Sobre sua relação com homens poderosos, Yarvin me parafraseou “um maravilhoso conselho para cortesãos” que havia encontrado nas Cartas a seu filho, de Lord Chesterfield, um manual de etiqueta do século XVIII dirigido ao filho ilegítimo do autor: “Nunca os incomode. Mas nunca deixe que se esqueçam de sua existência”.
Yarvin teve mais êxito como cortesão de empreendedores do que como empreendedor. Lançou a Tlon em 2013, com um ex-bolsista de Thiel de vinte e poucos anos. Yarvin mergulhou na ciência da computação com a mesma atitude com que havia se dedicado a repensar o sistema de governo dos EUA: com uma – em suas palavras – “megalomania utópica”. Sua aspiração visionária era construir uma rede peer-to-peer chamada Urbit, que permitiria aos usuários controlar seus dados sem censura, espionagem ou monopólios. Cada usuário da rede Urbit conta com um NFT de identificação que funciona como passaporte digital. Embora promova a descentralização, o Urbit é estruturado em um modelo hierárquico de propriedade virtual, no qual os usuários são donos de “planetas”, “estrelas” ou “galáxias”.
No projeto inicial do sistema, Yarvin nomeou a si mesmo como “príncipe”, mas não foi fácil atrair súditos para seu reino imaginário. Tal como sua teoria política, sua linguagem de programação – que ele mesmo escreveu – era ousada e enredada, e por vezes soava como uma piada. Fiel ao seu estilo provocador, inverteu o significado de zeros e uns. Após décadas de esforço e um investimento estimado em 30 milhões de dólares, o Urbit se parece menos com uma sociedade feudal e mais com os fóruns do Usenet de sua juventude. (A revista especializada CoinDesk o chamou de “uma versão mais lenta do Messenger da AOL”). “Não funciona como deveria”, confessou-me um ex-funcionário da Urbit, que descreveu Yarvin como “o maior lunático da informática”. Yarvin deixou a empresa em 2019.
Sem precisar mais se preocupar em assustar investidores, Yarvin adotou o estilo de vida do que ele mesmo descreve como “intelectual rebelde”. Lançou um boletim no Substack, Gray Mirror of the Nihilist Prince [Espelho cinzento do príncipe niilista], que assina com seu próprio nome. (Hoje é a terceira publicação de “história” mais popular da plataforma). Tornou-se figura frequente no circuito de podcasts da direita e aparentemente nunca recusava um convite para festas. Em suas viagens, costumava organizar “horários de escritório”: debates informais com seus leitores, muitos deles jovens sensatos, alienados pela culpa liberal e pelo pensamento de grupo. O que lhe conquista adeptos não é tanto a solidez dos argumentos, mas a energia transgressora que transmite: faz com que quem o escuta sinta estar tendo acesso a um saber proibido – sobre hierarquias raciais, conspirações históricas e a falsidade da democracia – que a cultura progressista se empenha em suprimir. Seu enfoque explora o fato de que a maioria dos norte-americanos nunca aprendeu a defender a democracia; apenas cresceu acreditando nela. Yarvin aconselha seus seguidores a evitar as batalhas da guerra cultural em torno de temas como DEI (diversidade, equidade e inclusão) ou aborto. É mais inteligente, afirma, deixar o sistema democrático ruir por si só. Enquanto isso, os dissidentes deveriam focar em se tornar “estilosos” ao construir uma subcultura reacionária: uma contra-Catedral. Sam Kriss, escritor de esquerda que debateu com Yarvin, disse que sua obra é “lisonjeira para pessoas que acreditam que podem mudar o mundo apenas colocando ideias excêntricas na internet e indo a festas decadentes em Manhattan”.
Esse tipo de pessoa passou a ser conhecido como a “direita dissidente”, uma constelação dispersa de criadores e aspirantes da Baía de São Francisco, de Miami e de Dimes Square, no Lower East Side de Nova York. O que os une é a frustração com a política eleitoral, os isolamentos da covid e a censura do wokismo. A transgressão como marca identitária tem sido central em seu apelo contracultural: em vez de usar pronomes e a nomenclatura aprovada (“em situação de rua”, “latinx”, “pessoas envolvidas no sistema judicial”), seus membros reavivam insultos como “viado” ou “retardado”. Dasha Nekrasova e Anna Khachiyan, anfitriãs do podcast Red Scare, são duas das figuras mais proeminentes da cena. Em 2021, Thiel ajudou a financiar um festival de cinema antiwoke em Nova York, no qual Yarvin leu poemas diante de uma plateia lotada. Hoje, o Urbit abriga uma revista literária projetada para se parecer com a The New York Review of Books.
“Se você é um sofisticado urbanita judeu-americano que quer explorar certos temas nietzschianos e eugenistas, não vai se juntar a manifestantes com tochas gritando ‘os judeus não vão nos substituir’”, observou o colunista Sohrab Ahmari em um ensaio do ano passado. “Não, você vai se aproximar da direita dissidente”.
Yarvin emergiu como o edgelord veterano [21] desse círculo, que ele comparou tanto à subcultura gay de São Francisco dos anos 60 quanto à Geração Perdida do modernismo literário: comunidades coesas cujos membros se conectavam em virtude de sua marginalização compartilhada. James Joyce, explicava Yarvin, vendeu poucos exemplares de Ulisses, mas seus amigos, como Ezra Pound e T.S. Eliot, “sabiam que o que ele fazia era bom”. O mesmo ocorria, segundo ele, com as mentes criativas da direita dissidente, cujos esforços eram ignorados pela intolerante Catedral. Em abril deste ano, Yarvin apresentou a Darren Beattie – subsecretário interino de Estado para Diplomacia Pública – um plano para a tomada do pavilhão americano da Bienal de Veneza pelas “prostitutas artísticas da direita dissidente”.
Yarvin tentou transformar parte de seu recém-adquirido capital cultural em algo tangível. No ano passado, retornou à Urbit como “CEO em tempos de guerra”, após a renúncia de vários funcionários importantes, e em fevereiro voltou a buscar fundos da Andreessen Horowitz. Segundo um rascunho de postagem no Substack não publicado, seu plano mais recente é promover a Urbit como um clube privado de elite, cujos membros, segundo ele, estariam destinados a se tornar “estrelas de uma nova esfera pública: uma nova Usenet, uma nova Atenas digital que durará para sempre”.
Na noite anterior à posse de Trump, levei Yarvin de carro a um evento de gala, o chamado “baile de coroação”, no hotel Watergate, em Washington, DC. O evento era organizado pela editora neorreacionária Passage Press, que havia publicado recentemente seu livro Gray Mirror, Fascicle I: Disturbance [Espelho cinza, fascículo 1: Perturbação], o primeiro de uma série de quatro volumes em que Yarvin delineia sua visão para um novo regime político. As notas de rodapé consistiam predominantemente em QR codes com links para páginas da Wikipedia sobre “Desnazificação”, “L’État, c’est moi”, “Presentismo (análise histórica)”. Enquanto eu lidava com o gelo na calçada, Yarvin explicou que, na era isabelina, as mentes mais brilhantes das artes e das ciências estavam na corte. Quando perguntei se via um paralelo com o círculo íntimo de Trump, ele deu uma gargalhada. “Ui, não”, respondeu. “Meu Deus”.
Como a maioria dos jornalistas, eu havia sido impedido de entrar no baile, então pedi uma bebida no bar do hotel. Ao meu lado estava um homem com chapéu de cowboy e terno violeta de veludo: um admirador de Yarvin, chamado Alex Maxa, como descobri. Ele tinha uma empresa de ônibus de festas em San Francisco e, no tempo livre, criava memes com a imagem de Yarvin. Disse que o que o atraía na obra de Yarvin era que “me faz sentir que tenho algo contra o qual as luminárias de Washington não conseguem argumentar”. Queria participar do baile, mas os ingressos – cujo preço havia chegado a 20 mil dólares – estavam esgotados. Pouco depois, conheci dois amigos de Yarvin, que incentivaram tanto a mim quanto a outro jornalista a entrar discretamente na festa com eles. Maxa já estava lá dentro, tendo usado uma estratégia similar. Sua mensagem dizia: “Haha, entrei só perguntando pelo guarda-roupa”.
A Passage Press havia promovido o evento como uma “reunião de cúpula entre MAGA [Make America Great Again] e a direita tech”. Não era propaganda enganosa. Em um salão iluminado por luzes rosa e púrpura, estavam Anton, do Departamento de Estado, Laura Loomer – conselheira de Trump famosa por sua islamofobia – e Jack Posobiec, que popularizou a teoria conspiratória do Pizzagate [22], circulando entre investidores de risco, criptoaceleracionistas e superestrelas do Substack. Mais cedo, enquanto os convidados jantavam vieiras seladas e filé mignon, Steve Bannon, principal orador do evento, havia defendido deportações em massa, o Götterdämmerung [ocaso dos deuses] do Estado administrativo e prisão para Mark Zuckerberg.
Oito anos antes, Mike Cernovich, da primeira geração de influenciadores da alt-right, foi um dos anfitriões do baile inaugural conhecido como “deploraball”, em referência ao infeliz comentário de Hillary Clinton de que metade dos eleitores de Trump era uma “cesta de deploráveis”. O evento foi caótico em todos os aspectos, repleto de jornalistas e manifestantes. Outro dos organizadores, Tim Gionet (mais conhecido pelo pseudônimo Baked Alaska), foi removido da equipe após publicar conteúdo antissemita no Twitter. No baile de coroação, servia-se como sobremesa o “Baked Alaska”, uma referência a Gionet, que na época estava em liberdade condicional por sua participação no ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2020 (e que receberia o perdão de Trump no dia seguinte). Cernovich passeava com um bebê em um carrinho, admirado, como um pai orgulhoso, pelo quão longe o movimento havia chegado. “Eu era um dos mais velhos da festa!”, tuitou na tarde seguinte. “Direita de verdade. Energia elevada e alto coeficiente intelectual”.
Em 2008, em carta aberta, Yarvin havia convocado uma vanguarda reacionária para formar um partido político clandestino. O baile de coroação deixou claro que isso já não era necessário. Sua contraelite ofuscante das redes havia se tornado o establishment.
Yarvin usava o mesmo smoking com a mesma faixa vermelha brilhante que havia usado na noite anterior em uma festa na casa de Thiel, na qual, como reportou a revista Politico, Vance o havia recebido com o cumprimento amistoso de “Ei, fascista reacionário!”. Também usou o traje em seu casamento no ano anterior. A primeira esposa de Yarvin faleceu em 2021, aos 50 anos, devido a uma doença genética do coração. Yarvin compareceu ao baile acompanhado de sua segunda esposa, Kristine Militello. Ex-partidária de Bernie Sanders e aspirante a romancista, Kristine contou que teve seu momento red pill durante a pandemia, após perder seu emprego de atendimento ao cliente em uma empresa de vendas de vinhos online. Seu primeiro contato com Yarvin foi pelo YouTube, onde assistiu a um vídeo seu criticando a legitimidade da Revolução Americana, e então passou a ler todos os seus textos. Em 2022, enviou-lhe um e-mail cheio de admiração, pedindo conselhos para se inserir na cena literária da direita dissidente em Nova York, e algumas semanas depois se encontraram para tomar algo.
Ultimamente, Yarvin passou a se descrever como um “elfo negro” encarregado de seduzir os “altos elfos” – as elites dos estados democratas – implantando “sementes de dúvida sombria em suas altas mentes douradas”. (Nessa metáfora tolkeniana, os conservadores dos estados republicanos seriam “hobbits” que deveriam se submeter ao “poder absoluto” de uma nova classe governante, composta, claro, por elfos negros). Mas Yarvin nem sempre se expressou de forma tão colorida. Em 2011, no dia seguinte ao atentado na Noruega em que o terrorista de extrema-direita Anders Behring Breivik matou 69 pessoas em um acampamento de verão de jovens socialistas, Yarvin escreveu: “Se você quer transformar a Noruega em algo novo, precisa que a classe dirigente atual se una e siga você. Ou pelo menos, precisará de seus filhos”. Elogiava Breivik por identificar o alvo correto (“os comunistas, não os muçulmanos”), mas condenava seus métodos: “Estuprar é de betas. Seduzir é de alfas. Não massacre os jovens do acampamento: é melhor recrutá-los” [23].
Os esforços de recrutamento de Yarvin pareciam estar funcionando. Perto do bar do hotel, conversei com Stevie Miller, um estudante do segundo ano da Carnegie Mellon University que havia começado a ler Yarvin ainda jovem. (Yarvin me contou que conheceu vários zoomers superdotados que o liam desde a pré-adolescência, pois seu “estilo de alto QI” funcionava como “ímã para mentes brilhantes”). Dois anos atrás, Miller passou um tempo com Yarvin no Vibecamp, um encontro para nerds e aficionados por tecnologia na zona rural de Maryland. Yarvin, que saiu antes, pediu a Miller que o ajudasse a organizar sua própria festa em Washington, que ficou conhecida como Vibekampf. Miller se tornou o primeiro estagiário pessoal de Yarvin. “Meus pais, judeus liberais nova-iorquinos a quem adoro, não acreditavam”, disse ele.
Meia hora depois, fui escoltado para fora da festa, assim como outros jornalistas ao longo da noite. A equipe de segurança confundiu Maxa, meu amigo do bar, com um dos nossos, então também o expulsou – não sem que ele tivesse que se abrir caminho pela multidão para tirar uma foto com o elfo negro.
Até os críticos mais pessimistas de Trump se surpreenderam com a rapidez com que, em seu segundo mandato, o presidente avançou na imposição de uma autocracia, concentrando o poder no Executivo e, com bastante frequência, nas mãos dos homens mais ricos do planeta. Elon Musk, cidadão não eleito, liderou uma equipe de vinte e poucos anos em uma ofensiva contra o governo federal, com milhares de funcionários demitidos [24], o fechamento da Agência de Desenvolvimento Internacional (USAID) e a tomada do controle do sistema de pagamentos do Departamento do Tesouro. Enquanto isso, o governo de Trump atacou a sociedade civil, revogando financiamentos de universidades, como Harvard, que considera bastiões de doutrinação ideológica, e punindo escritórios de advocacia que representaram opositores de Trump. Expandiu a máquina de controle migratório, com a deportação para Honduras de três menores nascidos nos EUA, para a África de um grupo de imigrantes asiáticos e latino-americanos e de mais de 200 migrantes venezuelanos para uma prisão de segurança máxima em El Salvador, onde poderiam passar o resto da vida. Os cidadãos americanos vivem hoje sob um governo que se arroga o direito de fazê-los desaparecer sem devido processo: como Trump disse ao presidente salvadorenho Nayib Bukele em uma reunião na Casa Branca, “os locais são os próximos”. Sem um sistema vigoroso de freios e contrapesos, ideias malucas de um indivíduo – como iniciar uma guerra comercial incoerente que virou a economia mundial de cabeça para baixo – não têm nada que as filtre. Tornam-se políticas públicas com as quais sua família e aliados se enriquecem.
Desde janeiro passado, vem se formando uma pequena indústria na internet dedicada a rastrear as conexões entre a enxurrada caótica de medidas governamentais e os escritos de Yarvin. Embora esteja longe de ser o Rasputin com acesso direto ao Salão Oval que alguns usuários do Bluesky imaginam, não é difícil entender como chegaram a essa conclusão. No início de maio, um assessor anônimo do doge contou ao Washington Post que era “um segredo de polichinelo que todos os responsáveis pelo desenho de políticas públicas leram Yarvin” [25]. Stephen Miller, chefe adjunto de gabinete do presidente, citou recentemente um de seus tuítes. Vance pediu a retirada americana da Europa, um antigo desejo de Yarvin. Em abril de 2024, Yarvin propôs expulsar todos os palestinos da Faixa de Gaza para transformá-la em um resort de luxo. “Alguém disse ‘vista para o mar’?”, escreveu em seu Substack. “A nova Gaza – desenvolvida, claro, por Jared Kushner – seria a [Los Angeles] do Mediterrâneo, uma cidade charter totalmente nova à beira do oceano mais antigo da humanidade, com propriedades dos sonhos e governo absolutamente perfeito, qualidade Apple” [26]. Em fevereiro deste ano, em uma coletiva de imprensa ao lado do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, Trump surpreendeu seus conselheiros com uma proposta quase idêntica, descrevendo o relançamento de Gaza como “a Riviera do Oriente Médio”.
Todas as vezes que perguntei sobre as ressonâncias entre seus textos e os acontecimentos do mundo real, Yarvin respondeu com indiferença. Parecia se ver como um conduto da razão pura: o único mistério, para ele, era por que os outros demoraram tanto para perceber. “Mentiras podem ser inventadas, mas a verdade só pode ser descoberta”, explicou. Estávamos em Londres, onde ele participava da conferência da Aliança para a Cidadania Responsável, organização conservadora cofundada pelo psicólogo Jordan Peterson. (Yarvin o descreveu como “um dândi” com “uma estranha energia narcisista que emana dele”). Viajava acompanhado por Eduardo Giralt Brun e Alonso Esquinca Díaz, dois cineastas millennials que filmavam um documentário sobre sua vida. Pretendiam produzir um estudo de caráter naturalista, ao estilo de Grey Gardens [27], no qual, nas palavras de Brun, “a câmera está ali por acaso”. Não estavam conseguindo: Yarvin repetia os mesmos monólogos, tornando grande parte do material redundante. Preocupavam-se também que os comentários racistas de Yarvin afastassem o público.
Uma tarde em Londres, enquanto Díaz filmava, Yarvin posou para um retrato ao lado de lorde Maurice Glasman, teórico político pós-liberal chamado de “lord MAGA do trabalhismo” pelo apoio ao Brexit e contato constante com figuras como Steve Bannon. Em certo ponto, Yarvin pegou seu iPhone para mostrar a Glasman que havia hackeado o chatbot Claude para que falasse usando a “palavra com n” [28].
Há pensadores que invejariam a atenção que Yarvin recebe. Mas ele desconsiderava sua influência como “moeda falsa”, já que ainda não produziu a revolução que deseja. Despejava sua raiva sobre o doge (“demasiado DNA libertário”) e o plano tarifário de Trump (insuficientemente mercantilista). Em um ensaio recente no Substack, criticou a decisão de enviar agentes disfarçados do ICE a universidades para prender estudantes e professores com base em comentários políticos… não por razões morais, mas porque sua imagem de valentão provavelmente geraria resistência. Suas profecias e desdém infinito pela política real inspiraram um post viral com sua imagem e o texto: “Suas ações antisistema funcionam bem na prática. Mas funcionam na teoria?” O ativista conservador Christopher Rufo comparou-o a “um adolescente mal-humorado que insiste que nada faz sentido” [29]. Com o tempo, comecei a vê-lo como uma encarnação reacionária de Cachinhos Dourados, que não se contentaria com nada que não fosse uma versão meticulosamente perfeita da autocracia que tem na mente.
Esse desejo patente de controle também se refletia em seus relacionamentos. Estive recentemente em Berkeley visitando Lydia Laurenson, sua ex-noiva. Começaram a namorar em setembro de 2021, depois que Yarvin postou um anúncio pessoal no Substack explicando que havia perdido recentemente sua “virgindade de viúvo” e buscava alguém “em idade fértil”. Laurenson, editora e escritora freelance, respondeu no mesmo dia: “Sempre fui liberal, mas tenho QI realmente alto, quero ter filhos e estou curiosa para te conhecer”. Yarvin teve encontros por Zoom com outras mulheres que responderam ao anúncio – entre elas, Caroline Ellison, ex-namorada do hoje detido criptoempreendedor Sam Bankman-Fried – mas logo se envolveu intensamente com Laurenson. Ela disse que a premissa do relacionamento era: “Vamos ser gênios juntos e ter filhos gênios”.
Como Yarvin, Laurenson foi criança precoce que entrou cedo na universidade e manteve um blog com seguidores de culto, sob o pseudônimo Clarisse Thorn, escrevendo sobre feminismo pró-sexo, BDSM e “arte da conquista”. Yarvin e Laurenson brigavam frequentemente, às vezes sobre política. Ela havia se afastado da esquerda, mas não adotara totalmente o pensamento neorreacionário. Quando perguntei se alguma vez conseguiu mudar a opinião de Yarvin, disse que conseguiu que ele deixasse de usar a “palavra com n”, pelo menos quando estava presente. (Ele alegaria mais tarde que não a usava no sentido de “proprietário sulista de plantações”).
A principal fonte de tensão, segundo Laurenson, era o estilo autocrático de Yarvin nos relacionamentos. Quando discutiam, ele exigia que ela oferecesse justificativas racionais para encerrar a hostilidade. Laurenson sentia que os ataques pessoais de Yarvin refletiam sua conduta em debates públicos. “Ele inventa explicações que parecem razoáveis, mas são falsas; desacredita quem aponta suas manipulações; é como um ataque duplo à alma”, explicou, referindo-se à estratégia de ataque cibernético de sobrecarregar servidores. James Dama, amigo de Laurenson, lembrou que Yarvin “fazia piadas grosseiras sobre peso ou aparência de Lydia, e quando ninguém ria, ficava bravo com ela e a acusava de vaidosa”. (Tanner, primeira namorada de Yarvin, descreveu padrão semelhante.)
Laurenson e Yarvin se separaram em meados de 2022, com ela grávida. Ele disse que sua necessidade de proximidade poderia parecer “controladora e sufocante”, e embora admitisse a má costumbre de fazer “piadas como arame farpado”, negou ter sido deliberadamente cruel. Algumas semanas após o nascimento do filho, Yarvin conseguiu a custódia compartilhada. O caso na corte de família continua contencioso. Agora, compartilhando um filho pequeno, Laurenson pensa muito na infância de Yarvin: “Ele tem atitude de palhaço da classe, desesperado por atenção”. Para ela, sua adoção de uma ideologia provocadora seria uma “compulsão de repetição”, mecanismo psicológico para reinterpretar rejeição infantil. Como defensor monárquico mais famoso dos EUA, podia convencer-se de que era rejeitado por suas ideias bizarras, não por sua personalidade.
Na última década, o liberalismo foi criticado de ambos os lados do espectro político. Seus críticos de esquerda veem o gradualismo como inadequado para emergências como mudanças climáticas, desigualdade e o avanço de uma direita etnonacionalista. Conservadores, por sua vez, o pintam como leviatã cultural que pisoteou valores tradicionais. Patrick Deneen, em Por que o liberalismo falhou? (2018), argumentou que o foco americano na liberdade individual prejudica família, fé e comunidade, tornando-nos “distantes, autônomos, incapazes de se relacionar, cheios de direitos, mas inseguros e solitários” [30]. Outros teóricos pós-liberais, como Adrian Vermeule, propuseram que o Estado restrinja certos direitos em favor do “bem comum” católico.
Yarvin, no entanto, deseja algo mais simples e libidinalmente satisfatório: destruir tudo e recomeçar do zero. Desde a ascensão do neoliberalismo no final dos anos 1970, líderes tratam a governança como gestão corporativa, transformando cidadãos em consumidores e privatizando serviços. O resultado foi desigualdade crescente, enfraquecimento das redes de apoio social e percepção de que a democracia é culpada de todos os males, gerando apetite por eficiência autocrática como a que Yarvin promove. “Um programa como o de Yarvin pode ser sedutor numa era neoliberal, em que esforços para mudar o mundo parecem vãos”, disse a historiadora Suzanne Schneider. “Permite recostar a cadeira e não se importar, enquanto outros fazem tudo”. Yarvin pouco fala sobre realização humana ou humanos em geral, retratados como ovelhas a pastar, idiotas a corrigir ou marionetes de titereiros de esquerda.
Além do talento para chamar atenção, sua obra não resiste a análise séria: cheia de silogismos espúrios e argumentos retroativamente manipulados para confirmar intuições biliosas. Leu muito, mas usa o saber como água para o moinho da fábula reacionária: havia um mundo em que todos conheciam seu lugar e viviam em harmonia, até a Ilustração com sua “mentira nobre” igualitarista. Critica academia por tratar a história como filme da Marvel, mas não explica o que adiciona dizer que Napoleão era um empreendedor de startup [31]. Endossa teorias revisionistas, como a autoria das obras de Shakespeare pelo 17° Conde de Oxford, ou que a Guerra Civil nos EUA piorou a vida da população negra. “O bom das fontes primárias é que muitas vezes uma basta para provar seu argumento” [32], diz ele, notícia para historiadores.
Alguns de seus críticos mais rigorosos estão à direita. Rufo, o ativista conservador, escreveu que Yarvin é um “sofista” com um estilo de discussão feito de “insultos infantis, acessos de paranoia, frases carregadas de itálicas, digressões inúteis, ostentação bibliográfica e menções a desenhos animados”. E acrescentou: “Quando se tenta descobrir o que ele realmente pensa, não se consegue evitar perceber que, no fundo, não há nada substancial” [33]. A visão mais generosa sobre as ideias de Yarvin veio de blogueiros associados ao movimento racionalista, que se orgulha de pesar evidências mesmo para sustentar afirmações aparentemente absurdas. Sua formidável paciência, porém, também começou a se esgotar. “Nunca me tratou como igual, apenas como alguém de cérebro lavado”, disse Scott Aaronson, destacado especialista em computação, referindo-se às suas conversas com Yarvin. “Parecia acreditar que bastava me fazer ler mais um texto sobre escravos cantando felizes ou ouvir mais um monólogo sobre Roosevelt para finalmente eu enxergar a luz”.
A seriedade intelectual talvez não seja o objetivo. Seu estilo polêmico tem sido útil para aqueles à direita que buscam justificar ressentimento nerd e a vontade de poder plutocrática. “O cara não tem uma teoria coerente e fundamentada”, disse Chris Murphy, senador democrata de Connecticut. “Apenas acontece de ele dizer em voz alta o que muitos republicanos morrem de vontade de ouvir”.
Não é difícil prever o desfecho totalitário de uma teoria que combina a veneração pelo poder com o desprezo pela dignidade humana: alguns chamam isso de fascismo. Como os bolcheviques, sua nêmesis ideológica, Yarvin também parece acreditar que o único obstáculo para alcançar a utopia é a relutância em empregar todos os meios necessários. Declara que a transição para seu regime será pacífica, até alegre, mas seus textos revelam fantasias violentas por toda parte. “A menos que o monarca esteja disposto a exterminar a nobreza ou as massas, terá que conquistar sua lealdade”, escreveu em março no Substack. “Você não vai sacrificá-los, como um bando de perus com gripe aviária, certo?” [34].
Suas convicções extremas sobre como o mundo deveria funcionar se estenderam também a este perfil jornalístico. Algumas de suas sugestões eram intrigantes: propôs organizar um debate com uma de suas ex-namoradas e me convidou a viajar com ele para Doha para acompanhá-lo em uma reunião com Omar bin Laden, um dos filhos de Osama. Outras eram impertinentes. Um dia me enviou nove mensagens contestando meu uso da palavra “extremo”: um termo “pejorativo e hostil”, explicou, que não favorecia meu artigo. (Antes, ele havia se gabado várias vezes em nossas conversas gravadas de ser mais “extremo” que qualquer membro do governo atual). Alguns dias depois do baile de coroação no hotel Watergate, escreveu para o New Yorker reclamando que eu havia entrado na festa sem permissão do editor; disse que esperava que o incidente não se tornasse um “segundo Watergate” e se referiu a si mesmo como “a pessoa mais gentil com a mídia de todo o movimento, de longe!”. (Jonathan Keeperman, editor da Passage Press e anfitrião do baile, disse certa vez que o Partido Republicano deveria “enforcar” – ou seja, linchar – os “prenseros”, então o padrão não estava muito alto).
Certa manhã, no início deste ano, acordei com 28 mensagens de Yarvin expressando preocupações sobre minha técnica jornalística. “O problema é que seu processo é descuidado e sinto que gera conteúdo de baixa qualidade, porque não é suficientemente confrontativo”, escreveu. “Quando o processo não é confrontativo, não sei a que estou me enfrentando”. Ele se perguntou brevemente se eu era “boa demais para entender as ideias” ou se havia sucumbido à autocensura mental que George Orwell chamava de paracrime. Me instou a assistir A Vida dos Outros, filme vencedor do Oscar que mostra a relação entre um dramaturgo da República Democrática Alemã e o agente da Stasi responsável por vigiá-lo. O agente da Stasi, escreveu Yarvin, “pode até colocar por escrito as ideias do dramaturgo ‘sem nem pensar nelas’. Nem sequer é que se oponha às ideias dissidentes. É que ele nem deixa que toquem seu cérebro”. No filme, depois de se conectar com as opiniões do dramaturgo, o agente finalmente se “quebra”. Yarvin, supõe-se, seria o dramaturgo.
Disse-me também que estava começando a me ver como um “PNJ”, personagem não-jogador. Sugeriu que eu me submetesse a um teste Voight-Kampff, exame fictício usado em Blade Runner para distinguir androides de humanos. Sua versão consistiria em nos colocar debatendo “a teoria da tabula rasa” contra o “racismo” e gravar a conversa. (“Com ‘racismo’ me refiro, claro, à biodiversidade humana”, esclareceu). Quando expliquei que testes sob demanda não faziam parte do meu processo de trabalho, Yarvin me enviou uma captura de tela de “Agosto de 1968”, poema de W.H. Auden sobre a invasão soviética da Tchecoslováquia para reprimir a Primavera de Praga:
O Ogro fará o que os ogros fazem bem,
proezas impossíveis para o Homem.
Mas há um prêmio fora do seu alcance:
O Ogro nunca alcançará a Linguagem.
Depois acrescentou que, embora tivesse aceitado participar do meu artigo porque “não existe má publicidade”, agora tentaria frear sua publicação.
Fiquei impressionada com o contraste entre suas mensagens e o tom frio e contido que ele mesmo recomendava a Thiel e outros amigos no manejo da mídia. Após o artigo da TechCrunch que, em 2013, identificou Yarvin, Balaji Srivinasan, empreendedor, propôs em um e-mail “mandar todos os cães do Iluminismo sombrio para doxear algum jornalista vulnerável hostil”. Yarvin o dissuadiu: “O que Heartiste diria?”, perguntou, em referência ao artista de conquista e nacionalista branco do blog Chateau Heartiste. “Quase sempre, a resposta alfa correta é ‘nada’. Não diga nada. Não faça nada.”
Numa tarde amena no final de fevereiro, Yarvin e Kristine, sua esposa, dirigiam por uma estrada rural no sul da França. Acompanhavam-nos Brun e Díaz, os documentaristas.
— Para onde estamos indo, Kristine? —perguntou Brun do banco do passageiro, girando a câmera para filmá-la, enquanto ela ia atrás de mim.
Ela disse que não sabia bem.
— A verdade é que ele me diz tudo em cima da hora —explicou. —É meio como ser um cachorro. Só sei que estou no carro e não sei se estou indo para a praça ou para o veterinário, e só descubro quando chegamos.
— Espontaneidade —interveio Yarvin.
— É uma forma de chamar — brincou Kristine.
Estávamos indo conhecer Renaud Camus, o romancista e escritor panfletário de 78 anos que, em 2011, publicou um manifesto incendiário sobre o “grande substituição”, segundo o qual as elites liberais estariam por trás de uma conspiração para substituir os europeus brancos por migrantes da África e do Oriente Médio [35]. A expressão se tornou, desde então, uma bandeira para nacionalistas brancos em todo o mundo, desde a marcha e o canto de “Não nos substituirão” em Charlottesville, Virginia, em 2017, até Christchurch, Nova Zelândia, onde dois anos depois um homem publicou online um manifesto com o mesmo título de Camus para justificar o assassinato de 51 muçulmanos.
Do alto de uma colina surgiram os muros do castelo de Camus, o Château de Plieux.
— Alguém sabe se ele tem algum parentesco com Albert Camus? —perguntou Yarvin.
— Acho que não é parente de Albert, mas é um encantador idoso francês, gay e literato —respondeu.
Brun, que é venezuelano, perguntou-se o que faria se Camus tivesse “um cartaz na porta dizendo ‘Proibida a entrada de estrangeiros’”.
— Então, você veio nos substituir? —brincou Kristine. Ninguém respondeu.
Yarvin tocou a campainha, uma impressionante peça de metal junto à porta, e imediatamente Pierre Jolibert, parceiro de Camus, nos fez entrar. Camus nos aguardava no andar de cima com uma garrafa de champanhe. Com a barba branca cuidadosamente aparada e seu casaco de veludo marrom, além do gravatinho e do relógio de bolso dourado com corrente que completavam o conjunto, parecia um homem de letras saído do século XIX. Falando inglês perfeito com sotaque britânico, deu a impressão de que não teve outra opção senão comprar o castelo — cuja construção remonta ao século XIV — quando sua biblioteca transbordou seu pequeno apartamento parisiense. Isso havia acontecido 35 anos antes. Agora, reconhecendo as pilhas de livros que começavam a dominar o estúdio cavernoso, disse que estava prestes a enfrentar novamente o mesmo problema.
Entre várias taças de champanhe, Yarvin lançou uma série de perguntas, embora raramente esperasse o suficiente para que o anfitrião desse uma resposta completa. O que Camus pensava de Philippe Pétain? De Charles de Gaulle? De Napoleão III? De Napoleão I? De Ernst Jünger? De Ernst von Salomon? De Ezra Pound? De Basil Bunting? Mais do que uma interação, o que Yarvin parecia querer — ex-campeão de trivia — era um tapinha na cabeça por seu despliegue de erudição.
Depois descemos para o almoço — pato crocante, quiche Lorraine, vinho tinto — e Yarvin retomou seu interrogatório. O que Camus pensava de Thomas Carlyle? De Michel Houellebecq? De Luís XIV? O que diria a Charles Maurras se estivesse vivo hoje? O que Dostoievski teria pensado da teoria da covid como fuga de laboratório?
Camus soltava uma risadinha aguda cada vez que seu convidado fazia uma pergunta particularmente estranha, mas ficou perplexo com sua insistência sobre Brigitte Macron, a primeira-dama francesa, de quem Yarvin suspeitava que fosse, na verdade, um homem.
— Estamos lidando com o fato mais importante da história do continente — exclamou Camus, referindo-se ao aumento da imigração não branca na Europa. — Que importa se a senhora Macron é homem ou mulher?
Brun pediu que se aproximassem de uma janela para poder filmá-los do exterior. Passeando o olhar pelo mosaico de campos cuidadosamente cultivados que se estendia abaixo, Yarvin se referiu ao “grande substituição” como “um dos maiores crimes” da história.
— É pior que o Holocausto? Não sei. (…) Ainda não vimos o desfecho.
Ele havia bebido desde sua chegada e parecia visivelmente alterado.
— Tenho três filhos — contou a Camus. — Será que acabarão alinhados e marchando para valas comuns?
Eles haviam conversado sobre o romance apocalíptico de Jean Raspail, O Desembarque (1973), que descreve uma invasão de migrantes indianos que destrói as nações europeias. Já soluçando, Yarvin acrescentou:
— Quero que meus filhos morram no século XXII. Não quero que tenham de passar por algum tipo de delirante Holocausto pós-colonial.
Após a sobremesa, o café e um rum da Guadalupe, chegou a hora de um passeio vespertino. Com seu bastão de madeira, Camus mostrou a Yarvin a vila de Plieux. A primavera havia chegado mais cedo, e um cerejeira exibia sua florada antecipada. Ao passar em frente à igreja local, Yarvin tirou o telefone para mostrar a Camus uma foto do pequeno filho que compartilha com Laurenson.
— A mãe desta criança não era minha esposa — confidenciou. Em seguida, lia um poema de Konstantinos Kavafis, novamente com lágrimas nos olhos.
Em um momento em que Yarvin e Camus se adiantaram, os documentaristas fizeram uma pausa para avaliar o trabalho do dia. Brun disse que Yarvin lhe lembrava o personagem exaustivo de Onde Está o Piloto?, que fala incessantemente a ponto de levar os colegas de assento ao desespero. Perguntamo-nos o que Camus estaria pensando sobre a tarde. Logo descobrimos.
— Se os intercâmbios intelectuais fossem intercâmbios comerciais — e, em certa medida, são —, o volume das minhas exportações não chegaria a 1% do volume da minha última importação — escreveu Camus em seu diário, postado na internet no dia seguinte. — O visitante falou sem interrupções desde que chegou até ir embora, durante cinco horas, muito rápido e muito forte, parando apenas para estranhos ataques de choro, quando falava de sua falecida esposa, mas também, mais estranhamente, de certas situações políticas.
Já escurecia quando retornamos ao château.
— Muito obrigado pela hospitalidade e pelo pato e pelo castelo — disse Yarvin, olhando ao redor. — Quanto custou?
Dando-lhe um apertão carinhoso no braço, Kristine o repreendeu:
— Isso não se pergunta!
Camus presenteou Yarvin com alguns de seus livros como lembrança, mas a mente de Yarvin já parecia em outro lugar. No dia seguinte, voaria para Paris para se encontrar com um grupo de zoomers iluminados pela red pill e com Éric Zemmour, polemista de extrema-direita que, alguns anos atrás, foi candidato à presidência da França.
Caminhando para o carro, Yarvin borbulhava de entusiasmo infantil por seu desempenho. Virou-se para mim e para os documentaristas.
— Saiu bem? — perguntou. — Saiu bem?
[1] Mencius Moldbug: "An Open Letter to Open-Minded Progressives" en Unqualified Reservations, 17/4/2008.
[2] Klint Finley: "Geeks for Monarchy" en TechCrunch, 22/11/2013.
[3] El Estado administrativo engloba agencias federales, burocracia y organismos de regulación. Suele ser asociado al "Estado profundo", núcleo de una teoría conspirativa de la extrema derecha [N. del E.].
[4] Abogado y ex-gobernador de Nueva Jersey [N. del E.].
[5] Joseph de Maistre (1753-1821) fue un teórico político y filósofo saboyano, representante del pensamiento reaccionario opuesto a las ideas de la Ilustración y la Revolución Francesa [N. del E.].
[6] La ventana de Overton es un modelo que refiere a las opiniones que se pueden expresar en el espacio público sin que el individuo o partido político que las expresa sea directamente descalificado [N. del E.].
[7] C. Yarvin: "Narrative and Reality in Trump 47" en Gray Mirror, Substack, 7/11/2024.
[8] Liberal en el sentido estadounidense, término que incluye posiciones progresistas sobre temas sociales [N. del E.].
[9] Mencius Moldbug: "A Formalist Manifesto" en Unqualified Reservations, 7/4/2007.
[10] H.-H. Hoppe: Democracia. El dios que fracasó [2001], Unión, Madrid, 2013.
[11] Mencius Moldbug: "Patchwork: A Political System for the 21st Century" en Unqualified Reservations, 20/11/2008.
[12] Mencius Moldbug: "Why I Am Not A White Nationalist" en Unqualified Reservations, 22/11/2007.
[13] C. Yarvin: "Migration and the Sovereign Firm" en Gray Mirror, Substack, 28/12/2024.
[14] El término hace alusión a los unitarios universalistas, una corriente religiosa que pone el acento en la razón, la ética y la libertad individual, en lugar de en dogmas religiosos en sentido estricto –puede incluir a personas de credos variados– [N. del E.].
[15] P. Thiel: "The Education of a Libertarian" en Cato Unbound, 13/4/2009. Thiel se declaró "orgulloso" de ser abiertamente gay y republicano [N. del E.].
[16] Mencius Moldbug: "Democraphobia Goes (Slightly) Viral" en Unqualified Reservations, 7/5/2009.
[17] Pick up artist refiere a una subcultura (principalmente masculina) centrada en técnicas para seducir y conquistar mujeres, a menudo mediante estrategias manipuladoras o psicológicas. Está estrechamente vinculado a la androsfera (manosphere), una comunidad en línea variada pero básicamente misógina, que incluye a incels (célibes involuntarios), MGTOW (Men Going Their Own Way [Hombres que siguen su propio camino]), Redpill/MGTOW [N. del E.].
[18] P. Thiel con la colaboración de Blake Masters: De cero a uno. Cómo inventar el futuro, Gestión 2000, Barcelona, 2015.
[19] En el sentido de su diversidad [N. del E.].
[20] Joseph Bernstein: "Here’s How Breitbart and Milo Smuggled White Nationalism into the Mainstream" en BuzzFeed, 5/10/2017.
[21] Alguien que intenta impresionar o provocar publicando opiniones exageradas, nihilistas o extremistas, generalmente en internet [N. del E.].
[22] El Pizzagate fue una teoría conspirativa viral durante las elecciones presidenciales de 2016, que afirmaba sin fundamento que altos funcionarios del Partido Demócrata, incluida Hillary Clinton, operaban una red de tráfico infantil desde la pizzería Comet Ping Pong en Washington, DC [N. del E.].
[23] Mencius Moldbug: "Right-Wing Terrorism as Folk Activism" en Unqualified Reservations, 23/7/2011.
[24] Finalmente, Musk y Trump fueron protagonistas de una sonada ruptura, de consecuencias inciertas [N. del E.]
[25] Peter Jamison y Elizabeth Dwoskin: "Curtis Yarvin Helped Inspire doge. Now He Scorns It" en The Washington Post, 8/5/2025.
[26] Curtis Yarvin: "Gaza and the Laws of War" en Gray Mirror, Substack, 3/4/2024.
[27] Film documental de 1975 realizado por los hermanos Albert y David Maysles que muestra la vida de Edith Ewing Bouvier y Edith Bouvier Beale, tía y prima de Jacqueline Kennedy, en su mansión en ruinas de Grey Gardens [N. del E.].
[28] Corresponde al insulto racista nigger [N. del E.].
[29] "Face Off: Christopher Rufo vs. Curtis Yarvin" en IM-1776, 11/4/2024, disponible en https://im1776.com/2024/04/11/rufo-vs-yarvin/.
[30] P. Deneen: ¿Por qué ha fracasado el liberalismo?, Rialp, Madrid, 2018, p. 21.
[31] C. Yarvin: "Narrative and Reality in Trump 47", cit.
[32] Mencius Moldbug: "An Open Letter to Open-Minded Progressives", cit.
[33] "Face Off: Christopher Rufo vs Curtis Yarvin", cit.
[34] C. Yarvin: "Barbarians and Mandarins" en Gray Mirror, Substack, 6/3/2025.
[35] R. Camus: Le Grand Remplacement suivi de Discours d’Orange, edición del autor, Plieux, 2012.
[36] J. Raspail: El desembarco, Plaza & Janés, Barcelona, 1975.
[37] R. Camus: Journal 2025, 21/2/2025. Disponível aqui.