Na mídia social, a nova raiz do populismo. Artigo de Massimo Recalcati

Foto: Camilo Jimenez | Unsplash

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12 Abril 2025

"A afirmação progressiva da Internet e das redes sociais está reformulando profundamente esse quadro. E não apenas porque os jovens de hoje não assistem mais à TV. O que as mídias sociais mudaram foi, em primeiro lugar, o caráter necessariamente passivo do espectador. A nova tela das redes sociais é, de fato, estruturalmente movimentada. Tudo é consumido de forma acelerada. Não há mais a hipnose televisiva, que requer tempo, mas o mergulho em uma realidade paralela", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano, em artigo publicado por publicado por La Repubblica, 09-04-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo ele, "enquanto a televisão embotava o senso crítico ao exercer uma função de controle biopolítico, o uso coletivo das redes sociais parece exasperá-lo de forma anormal, a ponto de legitimar sua invasão flagrante e disseminação desconcertante no ódio invejoso, quando não na incitação aberta à violência". 

"Não é por acaso  - conclui o psicanalista - que, para a psicanálise, o lugar por excelência da indiferenciação é o do incesto, onde a fronteira simbólica da diferença geracional desaparece e onde, acima de tudo, a paixão perde seu limite, tornando-se não mais paixão pela vida, mas paixão pela morte".

Eis o artigo.

De acordo com Pasolini, a entrada da televisão nos lares italianos foi uma das causas não secundárias da grande mutação antropológica que transformou o povo de um conjunto político de cidadãos em um conjunto comercial de consumidores. A sociedade de consumo não apenas encontrava na televisão seu principal instrumento de promoção, mas o espectador era forçado a assumir uma posição necessariamente passiva em relação a ela. A mensagem era numa única direção e não dava margem a nenhuma possibilidade de interação.

Daí a acusação de Pasolini sobre a existência de um novo fascismo que impunha seus comandos sem a necessidade de um poder autoritário e repressivo, mas pela via hedonista de uma sedução permissiva. O telespectador representava a forma mais pura do consumidor forçado a engolir passivamente avalanches de mensagens e ofertas que tinham como denominador comum o embotamento de sua capacidade de iniciativa crítica.

Assim, a televisão tornava-se a ferramenta de propaganda de um neototalitarismo que tinha transferido o poder do soberano para os objetos de consumo. Um poder que moldava corpos e mentes de seus usuários, conformando-os aos modelos de valores impostos pelo novo regime.

Os psicanalistas viram na época em que a televisão reinava em nossas casas uma espécie de confirmação da tese sobre o declínio da autoridade paterna e da desorientação mais geral do discurso educacional. A televisão havia tomado o lugar dos pais cada vez mais distraídos ou ausentes, incapazes de desempenhar seu papel.

A afirmação progressiva da internet e das redes sociais está reformulando profundamente esse quadro. E não apenas porque os jovens de hoje não assistem mais à TV. O que as mídias sociais mudaram foi, em primeiro lugar, o caráter necessariamente passivo do espectador. A nova tela das redes sociais é, de fato, estruturalmente movimentada. Tudo é consumido de forma acelerada. Não há mais a hipnose televisiva – que requer tempo – mas o mergulho em uma realidade paralela. Não é por acaso que o uso do smartphone e suas potencialidades sociais não está mais, como no caso da televisão, circunscrito em um único lugar, mas aparece como uma espécie de prótese do corpo do sujeito. Enquanto a televisão condenada por Pasolini fabricava corpos e mentes oferecendo-lhes os modelos de identificação impostos pela sociedade dos consumos, o smartphone parece mais como uma parte pós-humana do corpo.

A participação na vida das redes sociais também reflete essa interpenetração. Não se trata de assistir a um programa imposto por um palimpsesto, mas de formar o próprio palimpsesto pessoal, não apenas na escolha do que eu quero ver, mas na possibilidade sem precedentes de se apresentar como protagonista absoluto em cena. A distinção rígida imposta pela TV entre a mensagem oferecida pela tela e seu usuário é, portanto, subvertida. A tela não é mais um limite rígido que separa, mas foi radicalmente traumatizado: os atores e protagonistas da cena se tornaram milhões. A tela perdeu sua centralidade vertical para se disseminar horizontalmente.

E o mesmo acontece com a escrita. Foi isso que provocou a resignação melancólica de Umberto Eco quando constatou com amargura a quantidade de imbecis que a rede teria autorizado a escrever. Aqui, mais uma vez, a fronteira entre leitor e escritor foi esfacelada: nas redes sociais, qualquer pessoa pode escrever sobre qualquer coisa. Nesse sentido, ao contrário do que acontecia com o espectador hipnotizado da TV, as redes sociais se baseiam na valorização extrema da interação. Ela não assume apenas a forma da manifestação do “like” ou da aversão, mas, acima de tudo, aquela da exibição do próprio corpo e do próprio pensamento sem censuras. Mas a psicanálise adverte que, quando os limites simbólicos são rompidos, há sempre o risco de uma queda catastrófica na indiferenciação.

Essa é a face escura da democratização introduzida pelas redes sociais. Esse é o cerne de todo populismo, incluindo o populismo midiático. A autorização dada a todos para falar sobre tudo, um é igual a um, não apenas produz efeitos de mistificação perigosa – basta pensar no dano causado àqueles que se expressam nas redes sociais sem títulos sobre doenças ou tratamentos médicos – mas também ativa poderosamente dinâmicas agressivo-invejosas. Enquanto a televisão embotava o senso crítico ao exercer uma função de controle biopolítico, o uso coletivo das redes sociais parece exasperá-lo de forma anormal, a ponto de legitimar sua invasão flagrante e disseminação desconcertante no ódio invejoso, quando não na incitação aberta à violência. 

É o superaquecimento pulsional que a tela das redes sociais gera continuamente e do qual são manifestações eloquentes a falsificação sistemática da verdade, a brutalidade dos insultos e as campanhas de difamação individuais ou coletivas que até podem levar os sujeitos mais jovens ou frágeis a comportamentos autolesivos graves. Não é por acaso que, para a psicanálise, o lugar por excelência da indiferenciação é o do incesto, onde a fronteira simbólica da diferença geracional desaparece e onde, acima de tudo, a paixão perde seu limite, tornando-se não mais paixão pela vida, mas paixão pela morte. Não é coincidência o fato de que filhos e pais tenderem a se comportar da mesma maneira no uso violento das redes sociais. Adultos que se comportam estupidamente como adolescentes e adolescentes que manifestam a mesma estúpida violência que anima o mundo dos adultos.

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