O monge trabalha, não ganha e ama antes de conhecer. Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Elmar Gubisch | Canva Pro

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07 Janeiro 2025

"Viver o celibato dá aos monges uma liberdade e uma possibilidade adicional e diferente de interiorização, de pensamento, de solidão: todas ferramentas para uma vida monástica que é uma busca de Deus e uma busca do homem. Dentro da comunidade monástica, não há possibilidade de propriedade ou posse privada. Todos os bens são comuns e, entre os monges, o dinheiro não circula. É claro que os monges sabem que o dinheiro tem poder, mas não reconhecem ao dinheiro nenhuma autoridade em suas relações. E isso muda muitas coisas", escreve o monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado em La Repubblica, 04-01-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Quem são os monges? São aqueles que compreendem a realidade e o mundo de outra forma. E, por compreenderem de outra forma, também vivem de outra forma. Há algumas constantes que definem a alteridade da vida monástica cristã (sabendo que, de modo mais geral, a vida monástica é um fenômeno humano universal).

Em primeiro lugar, os monges apenas existem: eles não têm outro objetivo a não ser tentar viver o Evangelho, na forma de celibato e da vida comum. Os monges não têm nenhuma função específica na igreja. Outros estão na igreja para fazer alguma coisa: bispos e presbíteros para governar o povo de Deus, frades para pregar, freiras para ajudar os pobres e os doentes... Os monges, por outro lado, não têm um propósito específico. Não há carreira na vida monástica: somos sempre irmãos e irmãs, pobres leigos. “Somos apenas pobres leigos”, como dizia Pacômio ao Patriarca de Alexandria Atanásio.

Quanto ao que dá sentido a toda vida humana, ou seja, o amor, os monges vivem de outra forma também esse aspecto. Eles decidem amar o outro antes de conhecê-lo, enquanto normalmente na vida primeiro se conhece alguém e depois se ama. Os monges não! Eles decidem amar o outro antes de conhecê-lo, e se esforçam para fazer isso, em obediência ao novo mandamento: o outro é o hóspede, é o viandante, é aquele que pede para entrar na comunidade. Viver o celibato dá aos monges uma liberdade e uma possibilidade adicional e diferente de interiorização, de pensamento, de solidão: todas ferramentas para uma vida monástica que é uma busca de Deus e uma busca do homem. Dentro da comunidade monástica, não há possibilidade de propriedade ou posse privada. Todos os bens são comuns e, entre os monges, o dinheiro não circula. É claro que os monges sabem que o dinheiro tem poder, mas não reconhecem ao dinheiro nenhuma autoridade em suas relações. E isso muda muitas coisas.

Todos trabalham (e tentam fazer isso bem!) para não depender de ninguém, trabalham para ganhar a vida e, entre eles, há aqueles que ganham pouco e aqueles que ganham muito: mas essa diferença não significa nada nas relações, porque os ganhos são postos em comum. Além disso, todos, sem distinção, fazem trabalhos manuais: cozinham, lavam pratos, limpam as casas, trabalham na floresta ou na horta... Em suma, entre os monges, o dinheiro e o trabalho que fazem não contam: o que conta é o fato de serem irmãos e irmãs, solidários, envolvidos em uma mesma vida. Capazes e não tão capazes, fortes e fracos, saudáveis e doentes, necessitados e menos necessitados, os monges são todos iguais em dignidade e todos devem se submeter aos mesmos deveres e desfrutar dos mesmos direitos. É a partir dessa unidade, vivida nas diferenças, que os monges tendem à fraternidade, buscando viver a primazia do novo mandamento. Ao fazer isso, dia após dia, eles praticam o amor e se sentem um corpo, membros uns dos outros.

Na vida monástica, a consciência de formar um corpo exige que se pratique a submissão mútua, “carregando os fardos uns dos outros” (cf. Gl 6,2). A obediência à regra e ao abade está sempre e somente em vista da submissão mútua que permite a comunhão e a relação em liberdade e amor. Submissão mútua significa aceitar que as pessoas fracas ditem o ritmo à comunidade, que os intelectuais recebam lições dos simples, que os idosos ouçam os jovens, que o dissenso surja como um sinal de que se está juntos por causa de Cristo e não como grupo narcisista e autorreferencial. Ao mesmo tempo, com o passar do tempo, pode-se descobrir que a regra é um caminho para a liberdade, que há uma liberdade maior do que fazer o que se quer. Ao contrário do que se pensa, as exigências às vezes duras da regra não são uma perda ou um obstáculo, mas uma ajuda para amadurecer e aprofundar a humanidade.

Uma característica particular dos monges é que eles amam a noite e vivem a noite antes do dia. Outros homens e mulheres vivem durante o dia e depois estendem suas vidas na noite. Os monges, por outro lado, fazem o oposto: no início da noite (por volta das 20h) entram em suas celas e vão descansar, mas pela manhã (entre 2h30 e 4h30, dependendo do mosteiro) acordam antecipando a luz do dia e mantêm a vigília na leitura das escrituras, na meditação e na oração. Não se levanta cedo para fazer penitência, mas para viver a noite, esse tempo abençoado em que se está sozinho, em que há silêncio absoluto, em que, acima de tudo, se pode ouvir Deus falando ao coração humano.

Alex Corlazzoli, jornalista, professor e escritor, depois de permanecer por muito tempo no mosteiro de Cellole, que fundei há mais de dez anos em San Gimignano, em Diario da un monastero: parole di un ateo in cammino, oferece aos leitores sua experiência. Nesse livro, como um “ateu em caminho”, como ele gosta de se definir, Corlazzoli examina a vida monástica por dentro, vivendo-a por um longo tempo. Não é um diário de dias, uma crônica de fatos, um caderno de memórias e muito menos um ensinamento sobre o monaquismo. É a narração simples e honesta do que ele vivenciou em contato dia e noite com os monges.

Graças a um agudo espírito de observação e a uma grande capacidade de interpretação, o autor nos entrega a vida monástica lida por olhos que souberam ver, observar, captar e por ouvidos que souberam ouvir, discernir, compreender.

Grande é o tato, a delicadeza, eu diria o pudor com que ele narra os momentos mais importantes que marcam a vida monástica, mas também os momentos mais íntimos da vida pessoal e comum: ele anota, observa, avalia sem nunca julgar. Não idealiza, mas também observa seus limites, as fraquezas e as contradições. De página em página, é possível ver claramente o desejo de entender, conhecer e aprender.

Acredito que posso dizer que o valor de seu testemunho é este: um outro olhar sobre uma outra vida. O que caracteriza o testemunho de Alex Corlazzoli de um tempo prolongado vivido junto com os monges é, sem dúvida, sua capacidade incomum de coletar, compreender e interpretar os elementos essenciais que compõem a diversidade da vida monástica e fazê-los convergir em uma instância central, que os resume e os ressignifica: os monges querem ser uma memória da communitas, um antídoto para as forças centrífugas, desagregadoras e individualistas. Tudo é comum para eles, e a própria personalidade do indivíduo não deve se tornar singularidade contra ou sem os outros.

Os monges praticam o viver em comum, o possuir em comum, o fazer tudo em comum, o legislar juntos: em uma palavra, vivem a labuta e a beleza da fraternidade.

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