“Você vai ficar bem...”. Artigo de Faustino Teixeira

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20 Dezembro 2024

"Numa frase cortante dita por meu terapeuta, nós somos a última geração que cuidaremos dos pais. O destino de todos nós, infelizmente, é viver no futuro num quarto de “asilo”, cercado de atividades lúdicas, fraudas e desencanto (sic!)", escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

Eis o artigo. 

Bem impactante o livro de Didier Eribon, o clássico filósofo e sociólogo francês, com o título: “Vida, velhice e morte de uma mulher do povo” (Belo Horizonte: Âyiné, 2024 – o original é de 2023). Ele relata no livro o delicado processo de internação de sua mãe numa instituição de cuidados contínuos. É doloroso todo o processo que envolve o acompanhamento de sua mãe para a “casa de repouso”.

Ele relata que hoje se arrepende profundamente de ter dito para a sua mãe na ocasião: “Não se preocupe. Eles vão cuidar bem de você aqui. Você vai ver, você vai ficar bem”. Isso faz lembrar uma dura canção de Jean Ferrat: “Tu verras, tu seras bien” (Você vai ver, você vai ficar bem). Os velhos, coitados, chegam a um momento em que são privados de liberdade. Como diz o texto bíblico:

“Quando eras jovem

tu te cingias

e andava por onde querias;

quando fores velho,

estenderás as mãos

e outro te cingirá

e te conduzirá aonde não queres” (Jo 21,18)

Doce a ilusão de se imaginar que alguém que vai para um “asilo” receberá com frequência a visita de seus queridos, seja parentes ou amigos. Como indicou Eribon, sua mãe tinha a ilusão de que os filhos e parentes iriam visitá-la sempre. Não foi o que ocorreu, e o que ocorre com frequência. As visitas só se realizaram de vez em quando, e com o passar do tempo os encontros foram se desvanecendo.

Por mais esforço que Eribon tenha feito para levar para o “quarto” as coisas de que sua mãe gostava, incluindo seus quadros e sua velha televisão, aquele lugar nunca tinha o mesmo acolhimento e ternura de sua casa... Foi ainda mais difícil para ele sinalizar para a sua mãe, que a situação iria apenas piorar dali em diante. Nas casas de repouso vale o ditado: “A morte é certa, mas a hora é incerta”.

Numa frase cortante dita por meu terapeuta, nós somos a última geração que cuidaremos dos pais. O destino de todos nós, infelizmente, é viver no futuro num quarto de “asilo”, cercado de atividades lúdicas, fraudas e desencanto (sic!). Como diz com acerto Eribon, “quem entra em uma casa de repouso sabe, e não tem como deixar de saber, apesar dos rituais de denegação e de fingimento mútuo, que este será o último lugar em que vai morar”.

A dura verdade é que nossa sociedade e nossos parentes não estão aparelhados para lidar com a questão da velhice. Igualmente, nossas instituições de saúde não estão preparadas para lidar com os cuidados paliativos. Como vem mostrando a doutora Ana Claudia Arantes, “apenas 0,3 % das pessoas que precisam de cuidados paliativos têm acesso a eles”no Brasil. E nossa população envelhece a cada dia. A expectativa de vida também vem aumentando no Brasil, alcançando agora a idade de 78 anos. Por volta de 1950, um em cada cinco pessoas no Brasil terá mais de 60 anos. E um dado ainda mais alarmante, aos 85 anos de idade, de duas pessoas, uma terá algum tipo de demência complexa, sobretudo o Alzheimer. O que também preocupa é o crescimento de índice de suicídios entre idosos, com taxa mais elevada entre aqueles que têm 80 ou mais anos. São dados divulgados pela doutora Ana Claudia, e que traduzem um sério alarme.

Retornando ao livro de Eribon, ele sugere a leitura de dois livros importantes para lidar com o tema da velhice, que para ele foram fundamentais: “A velhice”, de Simone de Beauvoir e “A solidão dos moribundos”, de Norbert Elias. O autor também comenta o precioso romance de Shichirô Fukazama, Narayama, que relata a delicada situação de uma aldeia japonesa, onde as pessoas que alcançavam a idade de 70 anos, eram levadas para uma montanha, e ali iriam aguardar a morte. Todas tinham que abandonar o aconchego familiar e se direcionarem para um lugar sem retorno. O romance serviu de base para o precioso filme: “A balada de Narayama” (1983). De Shôwei Imamura, um clássico do cinema mundial. A primeira adaptação do romance para o cinema ocorreu antes, em 1958, com o diretor Keisuuke Kinoshital.

Recentemente, no Festival Varilux, pudemos apreciar o delicado filme de Christian Carion, “Une belle course” (2023 – em português saiu com o título: Conduzindo Madeleine), que aborda o tema da ida de uma senhora de 92 anos, Madeleine, para o asilo derradeiro. No filme, ela solicita ao motorista de táxi, Charles, uma pessoa bem mal humorada, para conduzí-la pelos lugares de Paris que marcaram a sua vida. Ao longo do périplo, os dois vão ganhando intimidade e vivem uma bonita experiência de amizade. Depois de um longo percurso, ela chega finalmente à casa de repouso, e sua estadia ali dura pouco tempo.

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