Chega dessa ‘permacrise’. Não basta produzir e consumir. Artigo de Leonardo Becchetti

Foto: PxHere

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

02 Janeiro 2023

"A chave para que o caminho seja compartilhado e por isso bem-sucedido está na capacidade de mobilizar e ativar os cidadãos para percursos de participação e cidadania ativa, desviando-os de círculos viciosos e perniciosos do tiro ao alvo naquelas rinhas mediáticas em que as redes sociais muitas vezes se transformam. Os percursos várias vezes sinalizados do consumo responsável e economia, das comunidades de energia renovável e da administração compartilhada são algumas das oportunidades mais promissoras nessa direção", escreve Leonardo Becchetti, professor de economia política da Universidade de Tor Vergata, em Roma, colunista de Avvenire e cofundador da Next - Nova economia para todos, em artigo publicado por Avvenire, 30-12-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

No final da manobra orçamental para 2023 e agora às vésperas do novo ano, vale a pena olhar para o horizonte para definir nossas estratégias futuras. O ano que virá fecha uma sequência de choques vastos e profundos como a pandemia, a invasão russa da Ucrânia, a explosão dos preços do gás que reabre o capítulo da inflação, com o desenvolvimento, como pano de fundo, de uma crise permanente como a crise climática aquele que, por sua vez, alimenta repetidos eventos atmosféricos extremos.

Não é por acaso que a palavra permacrise foi recentemente cunhada para indicar um estado de crise permanente. Como se sabe, o significado da palavra crise é ambivalente, como também ressalta o ideograma chinês onde significa perigo, mas também oportunidade. O tempo das crises, extraordinariamente criativo, é kairos (oportunidade) mais do que kronos (passagem monótona e sempre igual dos instantes) que nos induz (também pelo espírito de sobrevivência) a repensar as nossas vidas.

Economistas e cientistas sociais em geral deveriam ser mecânicos e conhecedores especializados do motor e da máquina do sistema socioambiental.

Cabe a eles explicar os problemas que alimentam os contínuos choques e a consequente crise permanente.

Os principais problemas são essencialmente dois. O primeiro é a confusão do bem-estar e do bem viver com o acréscimo do consumir. Os livros de microeconomia que são a base do conhecimento e das receitas econômicas contêm essa simplificação fundamental e incorreta.

A única coisa que parece importar na economia de mercado é garantir preços cada vez mais baixos por meio da concorrência. Mas os preços baixos não dependem apenas da eficiência e do progresso tecnológico e podem esconder a falta de dignidade do trabalho, a insustentabilidade ambiental e a baixa qualidade do produto.

O segundo problema é o foco quase exclusivo na produtividade e na eficiência o que significa, simplificando, produzir mais bens e serviços em menos tempo.

Nossa civilização é, para o bem ou para o mal, o resultado desses dois erros. Vivemos no paraíso dos consumidores assoberbados por bens de todos os tipos, muitas vezes disponíveis a baixíssimo custo, ainda que a inflação hoje pareça sugerir o contrário, pelo menos no curto prazo. Mas muitas vezes por trás do consumidor exaltado não há apenas inovação e progresso, mas também o trabalhador mortificado e explorado (especialmente nos empregos de baixa qualificação) e o ecossistema em risco.

Produtividade e eficiência foram virtudes e motivos de sucessos espetaculares por muito tempo, tendo levado a humanidade de 230 milhões para 8 bilhões e de 24 para 73 anos de vida média em nível global. Mas quando se lançou o imperativo, o problema ambiental estava longe e agora estamos desafiando os limites do ecossistema e temos de mudar de rumo muito rapidamente usando a lógica da circularidade (criação de valor econômico com o menor impacto ambiental possível).

O efeito mais geral desses dois problemas é uma direção do progresso que nos afasta das razões mais profundas da riqueza do sentido de viver que não são o embotamento dos bens de consumo e a produção de mais em menos tempo, mas uma relação harmoniosa com o ecossistema, a qualidade da nossa vida de relações, o sentido de pertença, a transcendência e sentir-se parte de uma história que tem um significado. Se estivermos cientes do problema, podemos corrigi-lo. Para isso, precisamos enriquecer de significado a vida das empresas (o que está acontecendo lentamente no florescimento da biodiversidade de organizações que não mais focam no lucro máximo alcançado a-qualquer-custo) e mudar os indicadores de bem-estar que orientam o nosso rumo.

Um bom sinal vem da "Aliança para a economia do bem-estar", uma coalizão criada para avançar nessa direção pelos líderes políticos de alguns países importantes do mundo. O debate sai assim das universidades (onde o desenvolvemos há décadas) e entra na cultura (como acontece com os indicadores de generatividade desenvolvidos com o “Avvenire” e apresentados todos os anos no Festival da Economia Civil) para acabar incidindo na política e nas escolhas reais.

No entanto, a chave para que o caminho seja compartilhado e por isso bem-sucedido está na capacidade de mobilizar e ativar os cidadãos para percursos de participação e cidadania ativa, desviando-os de círculos viciosos e perniciosos do tiro ao alvo naquelas rinhas mediáticas em que as redes sociais muitas vezes se transformam. Os percursos várias vezes sinalizados do consumo responsável e economia, das comunidades de energia renovável e da administração compartilhada são algumas das oportunidades mais promissoras nessa direção.

Construir uma economia e uma sociedade civil sobre essas bases significa basicamente dobrar o incrível poder dessa máquina, corrigindo suas falhas e orientando-a na direção do bem comum.

Leia mais