EUA. Arcebispo Chaput. Ver nada, Julgar todos, Agir ridiculamente

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02 Outubro 2018

Falta um ano. Na semana passada, em 26 de setembro, o arcebispo Charles Chaput, de Filadélfia, completou 74 anos de idade, e por isso ele apresentará sua renúncia ao Papa, conforme exigido pela lei canônica, nesse mesmo período do ano que vem. O arcebispo não cairá sem luta. De fato, seu título poderia ser “Líder da Oposição”, tamanha é sua aversão a este Santo Padre e o seu programa pastoral.

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada por National Catholic Reporter, 01-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Chaput irá para Roma nesta semana porque ele é um dos delegados do Sínodo dos Bispos, que se inicia na quarta-feira. Ele não está inteiramente feliz em participar do evento, que discutirá os jovens e o discernimento vocacional. No final de agosto, ele revelou que havia escrito ao Papa Francisco pedindo-lhe para cancelar a reunião, ou pelo menos mudar seu tópico.

“Escrevi ao Santo Padre e pedi a ele que cancelasse o próximo sínodo dos jovens. Neste momento, os bispos não teriam absolutamente nenhuma credibilidade para abordar esse assunto”, disse ele em uma conferência em 30 de agosto.

Eu estava preparado para rejeitar essa queixa como meramente outro exemplo de miopia por parte de um americano. Os EUA, especialmente a Pensilvânia e Nova Jersey, estão envolvidos em uma confusão de abusos sexuais clericais criada pelos próprios bispos e a Igreja universal precisa interromper um evento internacional importante, e há muito planejado, para atender às nossas questões. Nós somos americanos. O mundo não gira em torno de nós? A Igreja não deveria fazê-lo também?

Agora sabemos que o verdadeiro objetivo de Chaput era simplesmente parar o sínodo por qualquer meio necessário. Como sabemos disso? Porque ele agora publicou uma crítica ao Instrumentum laboris (documento de trabalho) do sínodo, que ele diz ter “recebido de um respeitado teólogo norte-americano”. Chaput afirma que a crítica é “suficientemente substancial para garantir uma consideração e discussão muito mais ampla à medida que os delegados-bispos se preparam para se engajar no tema do sínodo”. Já que ele decidiu publicá-lo em seu próprio nome, podemos seguramente assumir que ele concorda com a sua essência, se não com cada item levantado.

E o que seria essa essência? Considerada por completo, a crítica faz lembrar um turista americano gritando com um garçom em um restaurante parisiense porque o garçom não fala inglês. Esse teólogo sem nome - e por que ele ou ela não acharam adequado colocar seu nome nesse documento está além de minha capacidade - culpa o Instrumentum laboris por ele não aderir à perspectiva teológica do autor. Imagine isto: um teólogo norte-americano de época cuja postura é “ou é do meu jeito, ou não é de jeito nenhum”.

As preocupações específicas levantadas são bastante ilusórias e também um pouco estranhas. A primeira acusação é que o Instrumentum laboris é culpado de “naturalismo”.

“O IL apresenta um foco impositivo em elementos socioculturais, com a exclusão de questões religiosas e morais mais profundas”, afirma a crítica. “Embora o documento expresse o desejo de ‘reler’ ‘realidades concretas’ ‘à luz da fé e da experiência da Igreja’, o IL lamentavelmente não consegue fazê-lo”.

Isso não faz sentido. O Instrumentum laboris não exibe “naturalismo”. Ele evidencia a abordagem “ver, julgar, agir” que caracterizou por muito tempo a abordagem teológica de muitos teólogos a partir da Gaudium et Spes. Essa abordagem foi especialmente proeminente na América Latina, e não apenas nos círculos teológicos, mas também nos ensinamentos magistrais de suas conferências episcopais. Infelizmente, na Filadélfia, Sua Graça almeja uma variação norte-americana: Não veja nada, julgue todos, aja ridiculamente.

O segundo ponto da crítica é que o Instrumentum laboris demonstra “uma compreensão inadequada da autoridade espiritual da Igreja”. O autor se opõe à ênfase colocada no diálogo como método e estilo apropriados à Igreja.

“Em outras palavras, a Igreja não possui a verdade, mas deve tomar o seu lugar ao lado de outras vozes”, escreve o teólogo anônimo. “Aqueles que têm desempenhado o papel de professor e pregador na Igreja devem substituir sua autoridade pelo diálogo.”

A expressão “em outras palavras” permite uma analogia, uma metáfora ou uma explicação, mas não uma distorção. E, nesse exemplo, dá para ver exatamente o quão hipócrita é o endosso do arcebispo: ao pedir o cancelamento do sínodo, Chaput disse que os bispos não poderiam ter credibilidade no assunto dos jovens. Será que ele acha que recusar o diálogo e insistir em “sua autoridade” é o caminho para restaurar sua credibilidade?

A terceira objeção levantada é que o Instrumentum laboris não menciona “a vontade [humana]” e, consequentemente, tem “uma antropologia teológica parcial”. Ele alega que os autores substituem o conceito de “vontade” pelo de “afetividade”, mas o Instrumentum laboris emparelha “razão” com “desejo”, que é certamente um sinônimo de “vontade”. E o teólogo cita essa passagem. Isso é um ato desesperado.

A quarta queixa é que o Instrumentum laboris abrange “uma concepção relativista de vocação”. Isso se aproxima das preocupações levantadas pelos conservadores sobre o tratamento da consciência em Amoris Laetitia. Não é novidade que os teólogos conservadores, alarmados com o resgate de um entendimento de consciência completamente tradicional, desde o Vaticano II, favoreceram uma eliminação restrita, não-tradicional e neoescolástica de qualquer papel para a consciência na tomada de decisões morais. Não é novidade, mas é um absurdo burkeano, o triunfo de uma abordagem legalista da teologia pastoral sobre uma compreensão mais tomista e pré-kantiana do papel da consciência na teologia moral.

A última preocupação mencionada - que o Instrumentum laboris evidencia “uma compreensão empobrecida da alegria cristã” - está em concorda com o que penso. O teólogo anônimo escreve: “Apesar de sua constante referência à ‘alegria’, em nenhum lugar o IL a descreve como o fruto da virtude teológica da caridade.”

Isso é um descuido e os padres sinodais deveriam certamente corrigi-lo. Digo isso não apenas porque vale a pena mencionar os méritos, mas porque o eventual documento do sínodo deveria contar com todos os esforços possíveis para que se faça entender por todos os católicos, inclusive os conservadores. Só porque eles preferem fechar os olhos e ouvidos a qualquer coisa que venha de Francisco não quer dizer que ele não tenha a obrigação de tentar de novo, e de novo, chegar até eles.

Dito isso, é absolutamente irônico que essa preocupação obtenha o apoio de Chaput, cujo método preferido de engajamento público é o rosnado.

Não tenho certeza do que Chaput e outros conservadores acham que estão fazendo. Em 2014, o cardeal Walter Kasper foi à Catholic University of America, em Washington, D.C., e foi questionado sobre a oposição ao Papa Francisco. Ele disse que eles agiram como se este pontificado fosse uma pequena instabilidade e que esperavam que isso passasse rapidamente. Quatro anos depois, a oposição se intensificou, mas não cresceu e seu caráter essencialmente americano tornou-se cada vez mais óbvio.

O resto do mundo uniu-se a Francisco depois do desprezível ataque do ex-arcebispo Carlo Maria Viganò. Foi o próprio Chaput quem elogiou Viganò, não o Papa, para o New York Times no dia seguinte.

Francisco não vai sair de cena tão cedo e, mesmo que ele renuncie amanhã, duvido muito que os cardeais vão eleger o cardeal Raymond Burke como Papa. Qual é, então, o objetivo de Chaput? Ele é apenas um obstrucionista, sem dúvida desapontado por ser o primeiro arcebispo de Filadélfia em mais de 100 anos a não receber um chapéu vermelho, um homem cujos principais atributos intelectuais são a falta de flexibilidade e um alcance limitado. Ele é um homem impaciente, cada vez mais amargurado, cujo mandato como bispo coincide precisamente com a ascensão do número de pessoas sem religião, nunca assumindo a responsabilidade pelo fracasso de suas próprias estratégias pastorais, culpando sempre outros, ou forças amorfas, por sua própria incapacidade de evangelizar efetivamente. Esse é o seu legado. Não é de se admirar que ele pareça tão bravo o tempo todo.

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