A hipótese interrompida e o Estado que foi posto de joelhos. Entrevista com Luiz Eduardo Soares

Foto: Fernando Frazão | Agência Brasil

23 Junho 2026

"Cada um de nós é culpado perante todos, por todos e por tudo — e eu mais do que os outros." - Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov.

Há um modo de olhar para o Estado do Rio de Janeiro que não é o do mapa nem o da estatística, mas o do velório. Olhe assim, devagar, e o que se vê é um corpo estendido — um Ente da Federação deitado sob uma mortalha que ele mesmo teceu, fio a fio, com os seus próprios mortos.

Não é miséria dos cofres públicos: é o mais rico dos paradoxos. Sobre chão fluminense jorra petróleo, e o dinheiro nunca faltou. Faltou outra coisa, que nenhum royalty compra e que a língua antiga sabia nomear com inicial maiúscula: faltou Política — aquela que é a mais alta forma de cuidado, a que se ajoelha diante do homem deixado à beira da estrada e lhe ata as feridas em vez de passar adiante, do outro lado.

O que se administrou no Rio de Janeiro, com cofres cheios, foi o avesso disso: a paróquia, o balcão, o púlpito convertido em urna. E quando o sangue de um irmão grita desde a terra, não há contabilidade de petróleo cru ou refinado que o cale.

Houve um homem que leu esse corpo antes que ele esfriasse. Entre janeiro de 1999 e março de 2000, Luiz Eduardo Soares foi subsecretário de Segurança e coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Estado — um degrau abaixo do posto máximo, subordinado a um coronel, e ainda assim alto demais para o que ousou dizer.

Soares pronunciou em voz alta duas palavras que o Palácio Guanabara queria manter caladas: banda podre. Falava dos policiais que cobravam pedágio do crime, que vendiam proteção, que matavam por encomenda e dormiam tranquilos.

Disse o nome exato da desolação — e essa é, sempre foi, a tarefa mais perigosa que existe, porque o aparelho perdoa quase tudo, menos ser nomeado. Numa manhã de março, diante das câmeras de um telejornal, ao vivo, no horário nobre, o governador o exonerou.

Não se demitiu, naquele instante, um auxiliar de governo: interrompeu-se uma hipótese de futuro. Uma geração inteira — farta de bala perdida, de sequestro relâmpago, de filhos que saíam e não voltavam — tinha depositado naquele homem uma aposta de civilização, e viu essa aposta ser liquidada na tela da maior rede de TV do país, que tem sua sede na mesma cidade daquela tragédia noticiosa, entre um quadro e outro, como se fosse notícia menor. Ameaçado de morte, ele e a família deixaram o país. A esperança de muitos não morreu de causas naturais; foi interrompida no telejornal.

Convém olhar de perto, porque a exoneração não foi acidente de temperamento. Ele não foi expulso apesar do que denunciava: foi expulso por causa do que denunciava. A estrutura tolerava a denúncia da estrutura como o corpo tolera um espinho — até o ponto em que ele toca o nervo.

Soares tocou o nervo. E o que ele viu, proclamou cedo demais para o conforto de todos: que a polícia do Rio não estava doente, estava funcionando exatamente como fora projetada; que o jagunço do coronel, o braço armado do latifúndio no pós-escravidão, não era folclore do sertão, mas arquétipo vivo, núcleo gravitacional ao qual a sociedade volta como a um destino atávico; que a segurança, no Brasil, nunca foi um problema separado da reparação de uma dívida social — é a própria dívida, vestida de farda, cobrada à bala nas encostas dos pobres.

Querer tratar segurança como direito, e não como guerra, era a aposta inscrita na Constituição de 1988: que ao policial cabe servir ao cidadão independentemente de cor, de território, de classe. Foi essa aposta, e não um homem, que a câmera em close-up abateu.

Aqui é preciso ser exato sobre quem fez a política rasteira que ocupou o vácuo. O Rio inaugurou, antes de quase todo o país, a arte de transformar a fé do povo em ativo eleitoral. O primeiro governador a expulsar Soares construiu sua base sobre o mantra do “irmão vota em irmão”, instrumentalizando as redes de rádio e os templos como currais de voto — uma engenharia em que o púlpito vira cabine e o sagrado vira logística.

Sua esposa, governadora em seguida, foi eleita sob a mesma bênção pactuada entre as grandes denominações evangélicas. Tudo isso é o oposto exato da ética da responsabilidade que organizava o pensamento de Soares: a convicção de que o poder se mede pelas consequências que produz sobre os mais frágeis, e não pelos espíritos que diz representar.

A linhagem se prolonga, muda de roupa e chega, ao fim, a um governador que se dizia católico — de uma vertente carismática, coordenador de um ministério de “Fé e Política”. Aqui o texto se cala. O leitor saberá completar o silêncio.

A história tem ironias que só o tempo assina — os adversários de Soares foram caindo, um a um, com a regularidade de uma profecia. O governador que o demitiu em nome da moralidade foi, ele próprio, preso e condenado por comprar votos.

A governadora que o sucedeu no sobrenome foi detida sob acusação de fraude. O sucessor seguinte foi preso na maior delação da história recente e acumulou, em condenações somadas, mais de duzentos e setenta anos de prisão.

O vice que herdou o cargo foi preso a poucos dias do fim do mandato, acusado de receber mesada de propina. O juiz que chegou prometendo moralidade e bala na cabeça de quem não portasse uma Bíblia nas mãos nas ruas das favelas (uma infâmia para fluminenses e cariocas) foi afastado e sofreu o primeiro impeachment contra um governador desde a redemocratização — destituído por desviar verba da saúde no meio de uma peste, quando o povo morria sufocado e o dinheiro do remédio ia para a caixinha.

E o último, o cantor que chamou de “sucesso” a operação mais letal da história do país, foi declarado inelegível até a próxima década. A conta é de um rigor quase bíblico: todos os governadores eleitos no Rio nos últimos trinta anos foram presos ou arrancados do cargo. Todos. Menos a hipótese que foi demitida antes de governar — porque a essa nunca se permitiu sequer levantar-se. A pedra que os construtores rejeitaram não chegou a ser cabeça de esquina; foi atirada fora antes que alguém medisse seu lugar no edifício.

Falta dizer o tamanho da ferida, e aqui não há retórica que substitua o número. A contabilidade do Estado contra os seus começa numa noite de julho de 1993, diante de uma igreja no centro da cidade, quando atiradores dispararam contra dezenas de adolescentes que dormiam ao relento e mataram oito meninos de onze a dezenove anos — e dos setenta sobreviventes daquele grupo, antes da virada do século, mais de quarenta já haviam morrido de morte violenta, como se a chacina fosse menos um evento e mais uma sentença de prazo dilatado.

Semanas depois, vinte e uma pessoas tombaram numa única noite em outra comunidade. Em 2005, foram vinte e nove numa vingança policial na Baixada. Em 2009, dezenove. Em 2021, vinte e oito numa operação em que apenas três dos mortos eram alvos de mandado, e cujo governador chamou os demais de “vagabundos”.

Em 2022, vinte e três, entre elas uma jovem atingida por bala perdida. E em outubro de 2025, cento e vinte e um — cento e vinte e um corpos, muitos arrancados de uma mata pelas mãos dos próprios moradores, no dia seguinte, porque o Estado matou e foi embora —, a ação mais letal já registrada no país, superando até o que a memória nacional guardava como o fundo do poço.

Entre 2003 e 2025, as ações policiais no Estado do Rio mataram vinte e três mil cento e cinquenta e nove pessoas. O país inteiro estaciona, ano após ano, num patamar de seis mil mortos pela polícia.

Só num intervalo de quinze anos, o Estado registrou mais de seiscentas chacinas decorrentes de ações policiais. Todas as vítimas eram, na esmagadora maioria, pobres e negras. Há um pranto que se ouve nas encostas, um pranto de mães que se recusam a ser consoladas — e têm razão de se recusar, porque os seus não existem mais, e nenhuma harmonia futura, nenhuma estatística de queda, nenhum discurso de “menor índice da série histórica” vale a lágrima de uma só dessas crianças.

É preciso dizer com todas as letras, porque é o ponto onde o pensamento de Soares se torna intolerável para o conforto: isto não é um problema de polícia. É a forma visível de uma economia que acumula imobilizando o trabalho e bloqueando o acesso à terra e ao futuro — ontem pela escravidão, hoje pela pólvora.

Os mortos das favelas são o homem caído na vala da parábola, e o que se deve a eles não é caridade, é restituição: o pão que se retém nas mãos pertence a quem tem fome, e quem o devolve não dá esmola, devolve o que furtou. Por isso o povo, para nomear o aparelho que o vigia, o explora e ocasionalmente o mata, não diz “o Estado” nem “a polícia”: diz Eles. Pronome vago para uma alteridade poderosa, linguagem oca em que se cifra a luta de classes num país de sincretismos que tudo diluem.

Diante desse Eles, a tentação fácil é o seu espelho invertido — o punitivismo que confunde justiça com vingança, o messianismo que floresce no vácuo democrático e oferece, como o velho inquisidor da literatura, segurança em troca de liberdade, pão e circo de sangue em troca da renúncia ao direito de ter direitos. Soares recusou as duas tentações a vida inteira: nem a complacência com a banda podre, nem o gozo da carnificina rebatizada de guerra.

Convém, então, dizer de que estatura é o homem que aquele governador dispensou ao vivo. Literatura, antropologia, ciência política, filosofia política — formou-se sob alguns dos maiores nomes das ciências sociais brasileiras e do pensamento filosófico do Atlântico Norte, foi visiting scholar nas universidades mais exigentes do mundo, escreveu mais de duas dezenas de livros, dois dos quais entregaram ao cinema do país a anatomia de uma violência que a classe média preferiria não nomear.

Há um Soares anterior ao nome público, e é esse que a Biblioteca Virtual do Pensamento Social vem trazendo à luz — a BVPS, que é a própria cartografia do pensamento social brasileiro, o lugar onde o cânone se mapeia, de Nabuco a Florestan, de Sérgio Buarque a Caio Prado, e que agora estende seu mapa para incluir, na mesma estante, o discípulo e o mestre.

Publicar ali não é ganhar mais um espaço: é entrar na geografia em que o país se lê a si mesmo. A cada segunda-feira, a série República uma estação da década formativa desse pensamento — os textos inéditos, as raízes de que a obra madura é a copa. Quem quiser entender de onde vem a tese do capitalismo autoritário que ele desata no caso fluminense terá ali, à disposição, o sistema de raízes inteiro.

Há, finalmente, uma coerência que atravessa toda a biografia como uma assinatura: este é um homem que sai. Saiu da Segurança do Rio quando o pediram que calasse sobre a banda podre. Saiu da Secretaria Nacional de Segurança Pública, anos depois, sob a mesma pressão de quem não quer ser corrigido. Emprestou sua densidade intelectual ao mais ambicioso esforço de reinventar a política brasileira — um projeto que sonhou a Política com inicial maiúscula, a recusa de vencer de qualquer maneira — e dele também se retirou quando o projeto se curvou, quando a liderança se fechou e as escolhas táticas trincaram o sonho. É lícito ler — e esta introdução o lê como hipótese, não como sentença — que a fragmentação daquele centro de terceira via, com seus gestos errados em horas decisivas, ajudou a desanuviar o terreno em que o ovo da serpente da extrema-direita viria a chocar.

Soares via além, desconfortava-se, inquietava-se: um ator que desejava ajudar o país e o fazia de onde podia, como intelectual público, extramuros de todo aparelho. Três rupturas, um só caráter. O incorruptível que prefere sair a mentir.

Não se trata — e aqui é preciso ser cirúrgico — de afirmar que ambicionou o poder, que sonhou com o Palácio. Trata-se de medir, com honestidade, o que o Rio perdeu. Porque a pergunta que esta entrevista deixa pairando não é sobre o desejo de um homem, é sobre a privação de um povo: como teria sido diferente o Estado do Rio se lhe tivesse sido dado, ao menos uma vez, um governante dessa estatura — alguém para quem governar fosse a mais alta forma de cuidado, para quem segurança significasse a garantia de direitos e a reparação de uma ferida social, e não o festival de fogo e sangue com que se atiça o ódio para colhê-lo em voto.

Em vez disso, deram ao Rio o paroquial, o venal, o instrumentalizador da fé. E todos caíram, um a um, enquanto os mortos se empilhavam nas encostas. A mortalha continua sobre o corpo do Estado. Mas a única forma de levantá-la não é a vingança, e sim o trabalho longo, paciente, quase litúrgico, da reparação — porque, no fim, cada um de nós é responsável por todos, e quem pensou estas coisas mais cedo e mais alto que os manuais são responsáveis, talvez, um pouco mais do que os outros. Ele continua sendo a nossa mais esperançosa hipótese.

Esta entrevista foi concedida por e-mail pelo Professor Dr. Luiz Eduardo Soares ao mestre e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thiago Gama.

Luiz Eduardo Soares (Foto: Fernando Frazão | Agência Brasil)

Eis a entrevista.

Professor, se o Comando Vermelho nasce sob uma mística de solidariedade coletiva no cárcere da ditadura, o PCC refundou a criminalidade sob a lógica da eficiência corporativa. Como o senhor analisa essa mutação histórica de um ethos de sobrevivência reativo para um modelo de governança empresarial transnacional?

Luiz Eduardo Soares – A pergunta é interessantíssima e, a rigor, exigiria centenas de páginas e muita pesquisa empírica, não algumas linhas sumárias em uma breve entrevista. Portanto, minha resposta é uma ousadia desmesurada e corre o risco da simplificação e do reducionismo especulativo. Mesmo assim, tomo a liberdade de esboçá-la.

Ambos os grupos, CV e PCC, se formaram na prisão, o que já indicia um dos paradoxos da tragicomédia de erros a que têm se resumido as chamadas políticas de segurança no Brasil: medidas repressivas potencializando os problemas a cuja “resolução” supostamente se destinam. Formaram-se num esforço de autodefesa, ante violações a seus direitos elementares, que culminaram, em São Paulo, no massacre do Carandiru.

O PCC investiu no fortalecimento de laços com egressos e suas famílias, em pactuações entre os membros, envolvendo lealdades e obrigações mútuas, visando tanto a proteção aos internos – por meio do serviço de advogados, por exemplo, e da criação de sistemas de comunicação entre unidades – quanto a manutenção econômica das famílias.

Tornou-se crescentemente relevante a adesão a uma pauta ético-política que incluía valores como fidelidade, orgulho pela autoimagem restaurada, coletivamente sustentada, senso compartilhado de dever, assim como a experiência de pertencimento a uma comunidade dotada de identidade.

Isso tudo importando em disciplina e um cardápio determinado de práticas. Tratava-se de promover a organização (no Rio, presos políticos demonstraram sua necessidade aos pioneiros do CV), que envolve ingredientes afetivos e simbólicos, e ordena o estabelecimento de relações, cujas dimensões complementares são solidariedade e hierarquia. Participar de um grupo dotado dessas características dissolve, para os próprios membros, os componentes moral e psicologicamente degradantes da ação individual desviante, intensamente estigmatizada.

Não há grupo sem os sentimentos de orgulho e honra, esse auto-reasseguramento dialogicamente promovido, que garante a reprodução dos laços e das práticas, isto é, confere estabilidade ao grupo e o dinamiza. A consistência das adesões passa a integrar a rota normalizada das expectativas, gerando um circuito de profecia autorrealizada.

Aprendemos com Marx, Weber e, depois, Norbert Elias, entre outros autores, que os processos sociais ensejam e, por outro lado, derivam de combinações específicas entre diferentes esferas da vida social – a economia, a política, a cultura –, energizadas pelo conflito entre projetos antagônicos de poder, com destaque para a luta de classes.

A criação na Europa dos estados nacionais gerava uma tração centrípeta político-econômica que se contrapôs à dinâmica fragmentária dos baronatos feudais, cujas armadas se confrontavam com frequência imprevisível, absorvendo força de trabalho masculina jovem, bloqueando potenciais de acumulação econômica, generalizando a violência, fracionando estruturas de poder e limitando a expectativa de vida.

Trabalhadores no campo e guerreiros, o horizonte era a permanente ameaça e o destino provável “a morte violenta em mãos alheias”, para usar a expressão hobbesiana. Entre os valores disponíveis no repertório cultural, sobressaíam aqueles que se adaptavam às exigências do tempo, aos dilemas da existência, às escassas possibilidades históricas.

As adaptações entre economia, política, regimes afetivos, símbolos, crenças e valores se realizam à moda da seleção natural, por acaso e necessidade, e pela agência humana, sob a forma de acomodações recíprocas sob tensão, não por determinações mecânicas de uma infraestrutura dominante, mas pelo jogo de afinidades eletivas, se quisermos aplicar uma leitura evolucionária, por analogia aos ensinamentos da biologia de inspiração darwiniana, mal lidos como evolucionismo.  

Assim, quando Estados são criados, absorvendo e concentrando (até a monopolização) os meios de força e coerção, as armas e seu direito de usá-las são subtraídos dos poderes locais, os barões feudais são expropriados de suas milícias e a nova dinâmica centrípeta vai configurar nova gravitação cultural, novos padrões de comportamento, novas linguagens valorativas, novos modelos de personalidade, novas modalidades de subjetivação.

Outras afinidades vão eleger outros parâmetros éticos, estimulando novos comportamentos, novas dramaturgias cotidianas, novos ritos, posturas, expectativas: mudam os modos na corte, as maneiras de mesa, os hábitos populares, as vestes aceitáveis, os planos para a formação de indivíduos, os recortes entre público e privado, ainda incipientes.

Passamos das exibições ostensivas de valentia e coragem, à valorização da discrição, das artes da persuasão, da capacidade de discernir significados ocultos em mensagens cifradas nos códigos políticos.

Da guerra, passamos à política, do ímpeto, à interpretação, das aptidões físicas, às artes da articulação, da bravura, às virtudes do negociador. Nascerão, com o capitalismo e a supremacia burguesa, as psicologias, os romances policiais investigativos, as etiquetas que mais ocultam que revelam, as roupas que uniformizam e a grande dissimulação alienante do fetiche, outro nome para o reino da mercadoria.

De nossa parte, vamos passar, aqui, da grande história burguesa, que será também a nossa pela mediação do colonialismo, ao problema do ethos de facções criminosas. Lembremo-nos de que estamos falando em capitalismo: a crônica do crime em nosso país é a crônica do capital na periferia do ocidente.

O salto de um tema a outro deve ser tomado como o trânsito da ilustração simplificada de um método de abordagem – na análise de relações entre diferentes dimensões da vida social – para um ensaio rudimentar de sua aplicação.

A pergunta chave será: no Brasil, qual mudança terá ocorrido no centro de gravitação que selecionará valores e rotas de comportamento?

Qual transformação terá acontecido no centro gravitacional produzido pela articulação entre racionalização das atividades econômicas e busca de maximizar poder, proteção, acumulação, afluência e estabilidade?

Essa mudança se dará no período marcado pelo declínio da ditadura, pela emergência de nossa precária democracia, pela crise econômica legada pelos militares, que acompanha o fim da guerra fria, pela afirmação unilateral do imperialismo estadunidense sob a forma do neoliberalismo globalizado.

A cocaína chegará logo ao Brasil, lembremo-nos. Entre nós, não haverá Justiça de transição. Pior: a arquitetura institucional da segurança pública (em particular o sistema penitenciário e o modelo policial bifronte e militarizado) será mantida, incorporados e naturalizados pelo novo ecossistema democrático, gerando uma contradição estridente de efeitos racistas sanguinários (eu diria, genocidas), sobretudo quando a natureza militar da polícia mais numerosa e ativa se mostrar impermeável a controles externos, inclusive do Ministério Público.

Ante a falta de tradição autóctone de banditismo social, quando o crime viu-se instado a se modernizar, em sintonia com o andamento do país, as polícias (antecedendo o empresariado de faro predador) ocuparam o lugar de modelos a emular. Modelos de espoliação, rapinagem, chantagem, exploração de oportunidades ilícitas e brutalidade extralegal organizada.

Modelos que, entretanto, incorporaram a abertura a alianças verticais e horizontais com agentes e instituições, substituindo ou cooptando mediadores políticos locais. Mencionei a falta de tradição, porque, já nos anos 1980, os milenarismos estavam perdidos nos capítulos quase imemoriais do tempo e as lendas épicas dos Lampiões, reis do cangaço, havia se folclorizado no relicário dos regionalismos, enquanto o Brasil era revirado celeremente por migrações internas em escala dantesca, em cujo ambiente modernizar-se e urbanizar-se brandiam a bíblia do esquecimento – o golpe de 1964 decretara a amnésia histórica como a nova ordem da cultura. Antes de 64 e ao longo da ditadura, tomando o Rio de Janeiro como referência, mais notórios do que Mineirinho, Cara de Cavalo, a Fera da Penha ou o Bandido da Luz Vermelha, eram os grupamentos policiais: os Esquadrões da Morte, a Scuderie Le Cock, o Mão Branca etc., antecessores das milícias mafiosas no imaginário e na realidade social do Rio.

Contudo, o mais importante não foram os indivíduos lendários, mas a presença constante e a atuação de grupos policiais, em geral fiéis a expectativas sociais forjadas em longa trajetória, que nos remete aos confins mais remotos do Brasil profundo, mas se apresenta pleno no primitivo arranjo republicano.  

O padrão policial violento que perdura, atravessando mudanças de regime e de Constituições, só alcança estabilidade quase atemporal porque boa parte da sociedade (naturalizando desigualdades e racismo) manteve aberto esse lugar, mesmo depois dos anos de chumbo da ditadura de 64, recusando-se inclusive a adotar universalmente os princípios ditados pela Constituição de 1988, em cujos termos segurança corresponde à garantia de direitos, o que significa que aos profissionais da segurança pública compete o dever de servir à cidadania, independentemente de cor, raça, território ou classe social.

É verdade que este é o lado escuro da lua, pois as instituições policiais vivem tensionadas pelo choque entre a herança que se prolonga, relançada ao futuro como sinistra vocação, e o compromisso constitucional, que engaja a outra parte dos profissionais. Essa divisão, entretanto, é neutralizada pela predominância do viés soturno na relação com as classes subalternizadas.

Quando me reporto à longa tradição, que nos remete aos confins mais remotos do Brasil profundo, mas se apresenta pleno no primitivo arranjo republicano, me refiro à pregnância histórica do coronelismo como estrutura de governança local, em que se destacava a figura do jagunço (mercenário ou miliciano), membro da tropa privada do patrão (latifundiário, senhor de Engenho), braço armado coercitivo do mandonismo rural, no imediato pós-escravismo da primeira República, que restou para a posteridade como sinalização arquetípica, núcleo gravitacional que atrai repetição obsessiva, origem a que se retorna compulsivamente, como um destino atávico.

Uma variante do jagunço será o matador a soldo, fiel a um senhor ou livre no mercado como empreendedor independente. Não deve nos surpreender o fato de que a segurança privada serviu às classes dominantes ao longo do século, atravessando distraída as fronteiras complacentes da legalidade – legalidade, diga-se, cambiante, embora predominantemente cúmplice da exploração do trabalho e do domínio de classe.

Vamos flagrar a réplica tardia do modelo, por exemplo, no apoio armado à supremacia político-econômica dos bicheiros na Baixada Fluminense, que permanece vigente, intangida pela transição democrática, depois de ter se associado à ditadura. O apoio armado envolvia muitas vezes dupla jornada, pois a segurança dos criminosos locais era frequentemente realizada por profissionais das polícias que, via de regra, ganhavam mais no segundo emprego.  

Quando o crime se organiza pela primeira vez em escala significativa no Rio de Janeiro, no começo dos anos 1980, aproveitando as oportunidades oferecidas pelo negócio das substâncias ilícitas (sobretudo pela chegada da cocaína, no momento em que a atmosfera cultural girava do modo Hippie para a onda Yuppie, no embalo da maré ultra individualista e produtivista neoliberal), seu espelho, do qual extrairá as sementes de seu ethos, não serão os partidos clandestinos da resistência política – o convívio com presos políticos na Ilha Grande apenas mostrou a importância da solidariedade como autodefesa contra as violações perpetradas pelo Estado –, mas a polícia.

Não se trata de qualquer polícia, mas de uma agência que traz consigo o peso devastador de uma história brutal, de viés racista e de classe, história que se define a partir do polo essencialmente autoritário de nosso capitalismo. Explico: o que caracteriza como autoritário o capitalismo brasileiro, conforme nos ensinou Otavio Velho (Capitalismo autoritário e campesinato - SP: Difel, 1976), independentemente do regime político, é sua natureza extraeconômica, jurídico-política, uma vez que sua condição de possibilidade, desde a origem, foi a imobilização da força de trabalho, seja pela escravidão, seja pelo bloqueio do acesso à terra e o veto à reforma agrária.

A política, expressiva de interesse de classe, dita a Lei, cuja vigência requer coerção, delegada aos operadores da força, sendo que o exercício da força, no mundo descentralizado dos coronéis, prescindia de mediações institucionais, assim como jagunços prescindiam da insígnia do Estado.

Ethos são valores, ligados a crenças, que orientam comportamentos, dirigem práticas, ordenam subjetividades em torno de regimes afetivos e autoimagens, tecidas coletiva e individualmente na experiência comum do pertencimento a corporações, grupos, subgrupos, famílias etc.

Orientam e são orientados: o fluxo formador e transformador admite dinâmicas diversas (evito aqui o adjetivo “dialéticas” porque não se trata, de fato, de um processo desse tipo – aliás, tampouco se trata de um único tipo). Para simplificar, diria que fundamental é o apreço que se devota à força, como base autossuficiente da legitimidade do poder que se exerce ao mobilizá-la, real ou potencialmente.

Força traduzida no recurso à arma, o que delineia um perfil guerreiro, qualificado pela coragem reconhecida e a lealdade ao grupo de referência. Outros elementos não entram no julgamento, não se trata de justiça, ainda que a avaliação da moralidade das ações eventualmente considere o respeito a alguns limites, mas não necessariamente.

Além dos arquétipos com os quais inconscientemente se identificam os que internalizam (e metabolizam) o ethos da nova criminalidade armada e organizada, espelhando-se no exemplo oferecido por instituições do Estado, outros três fatores também atuam como guias formativos da subjetividade prototípica:

(1) A estrutura patriarcal, que é social, cultural e psíquica (sabendo-se que mais do que vínculo externo entre masculinidade e violência, os laços são internos e constitutivos, a tal ponto que não seria exagero afirmar que masculinidade tem sido uma modulação da violência em nossa sociedade, e não apenas).

(2) O fenômeno que denomino dupla mensagem da cultura brasileira: as balizas formais do Estado democrático de direito proclamam a igualdade; o dia a dia da sociedade brasileira reitera, substantivamente, as desigualdades, manchando a forma com o verniz do cinismo. Sabemos que a dupla mensagem na formação familiar “enlouquece” a criança.

No Brasil, desnorteia as vítimas das iniquidades, abrindo caminho para apropriações igualmente cínicas da estrutura ambivalente. Se o cinismo dá o tom no comportamento das elites (da meritocracia às manipulações judiciais), por que o crime não se sentiria liberado para rezar pela mesma cartilha?

(3) E o impulso produzido pela racionalização econômica das atividades criminais, em sinergia com o processo de desenvolvimento do capitalismo – e aqui o caminho se bifurca entre Rio e São Paulo.

Para concluir a resposta, tomo a liberdade de citar longo trecho de meu texto sobre essa temática, escrito em 2018, inédito em português, “Crime, Poder e Capitalismo Autoritário: ensaio de realismo distópico”:

“(Vale) atentar para algumas conexões entre duas problemáticas. Por um lado, o desenvolvimento do capitalismo autoritário no Brasil, fiel ao modelo da modernização conservadora, que envolve, embora marginalmente, a subsunção formal do trabalho ao capital[1] por intermédio de intervenções políticas (e político-repressivas) e da imobilização da força de trabalho (de que são ilustrações clássicas o monopólio da terra e a escravidão), e que preservam modalidades econômico-sociais tradicionais, combinando-as desigualmente aos processos mais dinâmicos e modernos da economia capitalista, sob hegemonia financeira.

“Por outro lado, as formas de trabalho ou de relações de trabalho e de apropriação do excedente não-estritamente capitalistas, embora externamente conectadas com dinâmicas do capital:

(a) como aquelas relações engendradas no interior do tráfico de drogas, em favelas e periferias do Rio de Janeiro, caracterizadas por divisão do trabalho hierarquicamente organizada, na qual operadores, alguns dos quais crianças, estabelecem entre si elos de subordinação por vezes proto-militar, divisão regida por regras e valores específicos;

(b) ou como aquelas estabelecidas entre as milícias e os moradores, que pagam a cota que lhes cabe por determinação do poder armado local. O modelo miliciano depende da força e do domínio territorial, além da anuência das instituições policiais, enquanto o modelo do tráfico repousa sobre lealdade, sustentada pela virtualidade da força, além de depender de cumplicidade policial (embora de maneira distinta do caso miliciano) e do assentimento tácito sob constrangimento das comunidades.

“Ao contrário do tráfico paulista, moderno e racional, integrado à economia por meios econômicos, indiciando a subsunção real do trabalho ao capital, marcado por plasticidade adaptativa, heterogeneidade formal e vínculos contratuais de tipo preferencialmente horizontal, o tráfico fluminense revela diariamente sua irracionalidade econômica: a maior parte dos custos é inútil, do ponto de vista dos negócios. Para prosperar no varejo das substâncias ilícitas (e mais ainda para crescer no mercado atacadista), não seria necessário impor-se por domínio territorial, formar um grupo adestrado para o confronto armado, investir em armamento e desperdiçar tantas vidas e energia na defesa do território contra investidas policiais ou de facções rivais.

As vidas poderiam ser mais longas, menos angustiadas, inseguras e violentas, com mais chances de fruir os ganhos, se o modelo organizacional fosse análogo aos que se estruturaram em São Paulo e nos países centrais do capitalismo. Para a sociedade, os benefícios seriam enormes.

“No estado do Rio de Janeiro, três fatores concorrem para a manutenção do modelo tradicional do tráfico:

(1) Sua história, que, associada à geografia social (isto é, à existência de enclaves de pobreza no interior de bairros afluentes consumidores), forjou as organizações que conhecemos hoje, com suas identidades totêmicas, vínculos “geopolíticos”, trajetórias, valores, práticas consolidadas e dinâmicas de funcionamento naturalizadas.

(2) O proibicionismo, isto é, a lei de drogas que criou o tráfico e o mercado “clandestino” das drogas.

(3) A atuação das instituições da segurança pública e da Justiça criminal, que congelam essa realidade, em dois sentidos distintos e, eventualmente, articulados: segmentos corruptos parasitam o tráfico, beneficiando-se de parcelas dos rendimentos obtidos na atividade ilegal, e/ou agem (não só os corruptos) impedindo a mobilidade dos agentes do tráfico, inclusive sua saída das tramas da ilegalidade.

Esta última afirmação soa paradoxal, uma vez que o senso comum esperaria que Justiça e polícias impelissem traficantes para fora do tráfico, até mesmo bloqueando seu acesso, prevenindo o ingresso. Não é o que acontece. Elas bloqueiam as saídas e estimulam o ingresso, e disso dou testemunho pessoal[2].

Negam a saída restringindo oportunidades de rendição, convertendo o acerto de contas com a Justiça no risco iminente de “queima de arquivo”, transformando sentença de privação de liberdade em pena de morte, ou simplesmente recusando o abandono do posto de trabalho, quando especialmente rentável aos grupos policiais associados[3].

O ódio às instituições, fruto das humilhações cotidianas e da brutalidade que o Estado dispensa às comunidades, sobretudo aos negros e às negras, estimula a adesão ao tráfico como resposta ao habitual “esculacho”. Esse caminho é pavimentado sobretudo pela redução de alternativas e a atratividade exercida pela promessa de pertencimento, reconhecimento e valorização individual. Ainda assim é trilhado por uma pequena minoria.

“Observe-se, portanto, que o modelo mais oneroso do tráfico reproduz-se, alheio à sua própria ineficiência, por motivos endógenos e exógenos, entre os quais se destacam vetores políticos, como a legislação e a ação do Estado[4].

“Parece simplista e esquemático, nem por isso julgo improcedente a hipótese que formulo, cujo alcance pode vir a ter serventia mais abrangente e ambiciosa: o tráfico em São Paulo modernizou-se como o capitalismo do principal estado brasileiro, enquanto, no Rio, atravancou-se em seu próprio passado e se enredou em tramas tipicamente autoritárias e regressivas, como nossa modernização.

O capitalismo demonstra cada vez com mais clareza suas dificuldades em conviver com a democracia, chegando a mostrar-se, em sua versão neoliberal, a ela refratário. Entretanto, assassinatos em massa não são necessários nem convenientes ao desenvolvimento capitalista contemporâneo, embora não cause constrangimento aos neoliberais flertar com a ditadura e até mesmo aliar-se à barbárie sempre que conveniente para garantir lucros e privilégios.

São Paulo e sua ordem econômico-política induziu (sem ter sido o único fator relevante) a organização do crime, sua modernização e racionalização. O capitalismo paulista oferece ao país mais organização, inclusive no crime, e menos homicídios, embora a escalada dos crimes contra o patrimônio persista – o que, conforme vimos, nem sempre é incongruente com as cadeias de ganhos do capital.

“O Rio de Janeiro nos oferece, além do espetáculo de sua inesgotável e excruciante decadência, a imagem de um país violento e autoritário, que acumula capital imobilizando o trabalho e bloqueando o acesso aos recursos para a emancipação.

O tráfico, represado pelo Estado no círculo de sua irracionalidade, é o retrato sintético de uma economia na qual a informalidade é menos expressão de empreendedorismo virtuoso e mais o resultado duplo de exploração do trabalho (inclusive infantil) e exclusão da cidadania. Mas a imagem sem as milícias está incompleta: a outra metade é formada pela intervenção direta do Estado à paisana, isto é, privatizado, que expropria, vilipendia comunidades e exerce o papel arcaico de seu duplo (público): a exação fiscal discricionária e despótica.

“Nenhum quadro maniqueísta se aproxima de realidades complexas. Portanto, importa ressaltar que Rio e São Paulo funcionam, aqui, como tipos ideais distantes de suas respectivas empirias, necessariamente combinadas e desiguais.

As polícias paulistas são tão violentas quanto as fluminenses, mas tendem a exercer sua brutalidade de modo diferente, mais em chacinas do que em confrontos. Não há Estado que encarcere tanto quanto São Paulo.

A redução de homicídios e a modernização capitalista não levam ao paraíso, trazem consigo rastros, vestígios e horizontes de barbárie. Mas cumpre atentar para as distinções. O Brasil é Rio e São Paulo, e muito mais.

São Paulo não é o futuro do Rio, se os fluminenses forem capazes de superar seu atraso atávico – o que não é impossível, até porque há setores sociais vibrantes e criativos. De resto, ambos os estados não se resumem a seus respectivos universos criminais – mesmo porque esses universos há muito penetraram os demais.

A lição que se pode extrair desse exercício reflexivo é simples: uma agenda neoliberal e punitiva, aprofundando desigualdades e reificando o que há de mais regressivo na Justiça criminal, tenderá a radicalizar os processos degradados e degradantes, marcados pela “irracionalidade”, assim como tornará a ponta moderna do capitalismo mais insidiosamente avessa a direitos, excludente e indissociável do crime, por um lado, e da barbárie social, por outro.

Por vezes se torna inviável saber a que a categoria barbárie efetivamente se refere. Tudo indica que essa dúvida tenderá a estender-se. A boa notícia é que previsões falham. De todo modo, a melhor receita para manter aberto o horizonte de expectativas é pensar no longo prazo e encontrar na história motivos para crer que uma via de desenvolvimento radicalmente democrática seja possível.”[5]

A literatura clássica pensava a prisão como espaço de exclusão e controle total do Estado, mas hoje ela funciona como o verdadeiro QG regulador do mercado criminal externo. O fracasso estrutural do sistema carcerário brasileiro foi, na verdade, a pré-condição para o sucesso dessa gestão monopolista das facções?

Luiz Eduardo Soares – Não sei se pré-condição seria a categoria correta, porque talvez exigisse que considerássemos o contrafactual como referência comparativa, sob a forma da pergunta: não houvesse este sistema carcerário, as facções existiriam como hoje existem, com vocações monopolistas, isto é, disputando o mercado do crime com vistas a monopolizá-lo?

Como não podemos recorrer ao contrafactual, o melhor provavelmente seria apenas dizer que o sistema carcerário foi um fator relevante para a formação e o fortalecimento das facções. Isso me parece inegável.

Investigações recentes mostram facções controlando centenas de postos de combustíveis e motéis, movimentando bilhões no mercado legal. Diante desse “capitalismo de fachada”, ainda faz sentido cindir a economia entre legal e ilegal, ou o crime organizado já se tornou sócio indissociável da acumulação de capital no país?

Luiz Eduardo Soares – As duas coisas, concordo com ambas as hipóteses. Elas não se excluem. Por um lado, o crime organizado já integra as dinâmicas do capital, e não só no Brasil.

Há duas décadas os dados internacionais já demonstravam que praticamente todos os setores da economia incorporavam recursos de origem criminosa. Dos shoppings aos transportes de todos os tipos, das finanças ao turismo, da construção civil ao petróleo, das armas aos serviços, tudo que se mostrava rentável recebia investimentos na procura por lavar dinheiro e multiplicá-lo.

O caminho natural do capital é buscar o lucro, onde quer que ele esteja. Nada mais conveniente ao capital indiferente à legalidade do que a circulação globalizada numa economia desregulada.

Ou seja, tanto quanto os paraísos fiscais, o neoliberalismo é o mundo ideal do crime de alto calibre. Por outro lado, ainda acho que continua valendo a pena não abençoar a hibridização definitiva e irreversível entre o legal e o ilegal, ao menos como tipos ideais, autorizando a resistência da sociedade civil democrática.

Sabemos que não há assepsia absoluta, mas nem por isso deveríamos aceitar que cirurgias se façam no pântano. O capitalismo é aético, não tem qualquer compromisso com democracia ou justiça, entretanto, politicamente, continua sendo importante denunciar a coalização entre setores do empresariado e as elites do crime, até mesmo como recurso para expor as contradições do status quo e para indicar a necessidade de superação da ordem do capital.

O cidadão periférico hoje não lida apenas com a ausência do Estado, mas com uma sobreposição cotidiana de soberanias: a milícia, o tráfico e a letalidade policial. De que maneira essa fragmentação do monopólio da violência reconfigura a própria experiência de cidadania e a subjetividade urbana no Rio?

Luiz Eduardo Soares – A resposta exige um livro, mas, vamos lá. O antropólogo britânico Edmund Leach se antepunha à rigidez que via no estruturalismo francês propondo a “Topologia” como referência. Imaginemos uma superfície elástica, feita de borracha, por exemplo. Se desenharmos na superfície pontos e linhas que os relacionem, a estrutura se manterá, a despeito da reconfiguração da forma, provocada pelas dobras e por nossos puxões na borracha. Teremos uma geometria em movimento e o desafio será descobrir a estrutura nas transformações, ou a estrutura das transformações.  

O fenômeno fluminense (e não só) talvez seja análogo, em alguma medida. O Estado – seus braços policiais, institucionais, o sistema de justiça, que inclui as unidades penitenciárias, os parâmetros normativos formais e as práticas cotidianas – é um Outro, relativamente à experiência diária das comunidades – dos bairros, das vizinhanças, das favelas, da cidade, da sociedade.

Um Outro que se teme e despreza, ou do qual se demanda ordem e proteção, ou um mínimo de justiça, cuja máscara muda conforme conjunturas e momentos históricos, mas que não perde sua natureza exógena. É sempre um Outro que responde, em última instância, a mecanismos distantes e incontroláveis, submetidos a interesses próprios – em meu livro O Brasil e seu Duplo (Todavia, 2019), digo que a população usa o pronome “Eles” para designar essa nebulosa alteridade. Esta é a linguagem lacunar em que se expressa a luta de classes no país dos sincretismos diluidores.

Se o Estado monopolizasse o uso legítimo dos meios de força ou coerção, o estranhamento persistiria, a desidentificação cidadã permaneceria, mas teria contornos diferentes dos que se apresentam para nós, uma vez que, na realidade, esse monopólio nunca existiu plenamente. Sempre foi permeável a disputas e negociações com agentes seus – que se autonomizam – ou alheios, sempre foi vazado por domínios privados – ou que se desgarram da estrutura do Estado e se privatizam, se autonomizam, no processo dessas disputas pelo exercício do poder local.

A consequência é que a experiência fluminense não é a do choque ou a da perplexidade com a perda da “soberania” do Estado, mas a da progressiva extensão do elenco das elites auto erigidas em despotismos locais, a da expansão da elasticidade das formas de mediação pelas quais se afirmam os mandonismos centrífugos.

O que compensa a extensão elástica, bloqueando a ruptura definitiva que desmembraria o território em arquipélagos balcanizados, é o movimento centrípeto encetado pelas facções criminosas (traficantes ou milicianas), que sinalizam a existência de uma dimensão de unidade, nem que seja incerta e porosa, armada pelo guarda-chuva simbólico da constelação totêmica: quem “é” do comando tal ou qual, que espaço “pertence” a um ou outro etc.

Há, portanto, vários Outros, que ora entram em confronto, ora se aliam, mas replicam a mesma lógica: constituem polos armados contra os quais se afirma uma comunidade. Porém, essa afirmação é antes negativa do que positiva, a identidade é contrastiva, o que esvazia seu potencial político e refrata, enfraquecendo-o, seu protagonismo.

As ações coletivas tendem a ser reativas, a se despolitizar, dificilmente escalam a um plano superior na luta por outro mundo. “Eles” é nome vago da alteridade poderosa, que não suporta um nós antagônico substancial. “Eles” não serve só para nomear a alteridade estatal. Aplica-se genericamente ao espectro fantasmal, o Outro, que parasita a vitalidade comunitária e drena vontade e consciência política do ator coletivo popular.

Quando o governador Cláudio Castro rotula tiroteios na Avenida Brasil como “atos terroristas”, ele tensiona a segurança em confrontos urbanos pesados que vitimam inocentes. Esse espetáculo de guerra aberta é uma estratégia deliberada de marketing político ou a confissão última da impotência institucional do Estado?

Luiz Eduardo Soares – De novo, respondo: as duas coisas. Ambas estão certas. Trata-se de marketing político e confissão de impotência, ao mesmo tempo. Eis aí outra modalidade da dupla mensagem, “enlouquecendo” a população. O governador está convocando a sociedade para celebrar a morte no rito canibal que propõe, exaltando o ódio vingador, num festival de sangue e fogo.

Ele quer atiçar o ódio e aliar-se ao ódio, fazer-se canal de manifestação da repulsa popular ao crime. Mas todo mundo sabe, ou intui, que o espetáculo justiceiro não tem a mais remota relação com resolver problemas. Nada, relativo aos problemas do crime, foi sequer tangenciado. O aspecto mais perverso desse jogo é triplo: perpetra carnificinas; aprofunda a confusão entre justiça e vingança; e intensifica o racismo e os preconceitos de classe, na medida em que as incursões policiais apontam para a favela como sede do mal. Operações militarizadas em favelas são o endereçamento político da abjeção social.

O Complexo de Israel, sob o comando do tráfico evangélico, materializa uma simbiose inédita entre domínio territorial armado e símbolos bíblicos, inclusive perseguindo terreiros. O que essa apropriação sincrética e violenta do Antigo Testamento nos diz sobre as novas fronteiras da identidade e do poder periférico?

Luiz Eduardo Soares – O tema é muito importante e exige um conhecimento que não tenho. Por isso, em vez de responder, remeto às pesquisas da antropóloga Christina Vital da Cunha. Recomendo, entre outros trabalhos, seu livro Oração de traficante; uma etnografia (Garamond/FAPERJ), assim como A Fé e o fuzil, de Bruno Paes Manso (Todavia).  

A pressão política para classificar grandes facções brasileiras como “grupos terroristas” avança no debate público. O senhor enxerga nisso um ganho real de ferramentas de inteligência ou um atalho retórico perigoso que visa apenas justificar o estado de exceção permanente e o extermínio nas favelas?

Luiz Eduardo Soares – Esse tipo de classificação é exclusivamente político e provém do repertório da extrema-direita. Quando proposto por vozes brasileiras, antes da era Trump, tinha o objetivo de abrir espaço ao envolvimento das Forças Armadas na segurança pública, por meio da multiplicação de GLOs.

Quando decretado pelo governo Trump, tem a finalidade de ameaçar a soberania do Brasil, erguendo a espada de Dâmocles sobre o país, uma vez que a legislação interna dos EUA, em sua notória autossuficiência imperial, autoriza intervenção em qualquer território extranacional se a finalidade for a prisão (o sequestro internacional) ou a neutralização (a execução) de indivíduos ou grupos terroristas. Trata-se de uma carta branca para a mais despudorada pirataria.

A recente classificação do PCC e do CV como organizações terroristas globais por Marco Rubio, sob a administração Trump, opera um corte geopolítico nítido ao omitir as milícias. Como o senhor interpreta esse silêncio analítico norte-americano sobre os grupos paraestatais profundamente infiltrados na máquina pública nacional?

Luiz Eduardo Soares – A categoria política “terrorista” qualifica operadores de crimes em escala transnacional, cuja dinâmica possa afetar os EUA, direta ou indiretamente. Por ora, as milícias não têm esse potencial. Mas é claro que elas estarão implicadas (assim como o sistema bancário), na medida em que se associarem ao CV e ao PCC. De todo modo, tudo isso não passa de teatro para fornecer, ao arbítrio do governo dos EUA, os meios legais (e políticos) para eventual intervenção.

Ao internacionalizar o conflito doméstico, o enquadramento de Washington abre precedentes para sanções severas e bloqueios de ativos que atingem o sistema financeiro nacional. Quais são os riscos reais de essa dinâmica de exceção transnacional desorganizar o pacto federativo e fraturar o Estado por dentro?

Luiz Eduardo Soares – Os riscos são reais, o que não significa que a intervenção será efetivada. Tudo vai depender das condições políticas e dos interesses dos EUA. Eles agora têm, além das tarifas, mais um instrumento de chantagem, que pode ser usado para reduzir nossos laços com a China, com os BRICS, e assim por diante. De resto, a fratura interna já existe, tornou-se ostensiva no impeachment de Dilma Roussef.

O bolsonarismo exibiu a profundidade da ruptura do pacto constitucional retirando a camuflagem do racha que já era fratura exposta desde o golpe, capitaneado por Eduardo Cunha e Michel Temer, sob as bênçãos do general Vilas-Boas. O Estado democrático de direito está atravessado pelo tensionamento político-ideológico que Lula esforçou-se por suturar, mas que continua ameaçando irromper em crise radical. As instituições são campos de batalha. O equilíbrio é precário. A hegemonia neoliberal jogou o capitalismo contra o pacto social-democrata, consagrado na Carta de 1988, abrindo espaço para a emergência do neofascismo bolsonarista, cujo projeto (antissistema) aponta para o encerramento do ciclo democrático, inaugurado pela chamada Nova República.

O senhor cunhou o termo “enclaves institucionais” para definir corporações policiais refratárias ao controle civil republicano. Como quebrar o cordão umbilical de propinas e cumplicidades que conecta setores dessas forças de segurança à manutenção financeira de complexos criminosos?

Luiz Eduardo Soares – Vejo as polícias como enclaves institucionais, refratários à autoridade civil política e à Constituição, embora haja variações no tempo e no espaço, de acordo com as diferentes tradições corporativas regionais e com as conjunturas políticas. A rigor, ouso sustentar que nenhum governador comandou suas polícias, no sentido forte do verbo.

A autonomização ilegal se mostra também na ponta do controle externo, porque o Ministério Público não cumpre seu dever constitucional de exercê-lo, tornando-se cúmplice, no mínimo por omissão, do verdadeiro genocídio de jovens negros e pobres, moradores dos territórios vulnerabilizados.

De 2003 a 2025, no estado do Rio, houve 23.159 mortes provocadas por ações policiais. É preciso dizer algo mais? Por isso, quando pensamos em déficit de soberania do Estado em razão do domínio territorial imposto por grupos armados – traficantes e milicianos, cada vez mais parecidos –, devemos estender a preocupação à autonomização inconstitucional, experimentada pelos enclaves policiais. Essa problemática é a contraface da corrupção, que não será detida com a mera punição de desvios de conduta individuais.

No Rio de Janeiro, embora haja milhares de profissionais honestos e honrados, que arriscam suas vidas por salários injustos, o nível de promiscuidade com o crime provocou verdadeira degradação institucional. Para reverter esse quadro, será preciso um esforço de refundação, que acabe com o enclave e inscreva as corporações, não apenas formalmente, no Estado democrático de direito.

A deterioração se dá sobretudo por duas vias:

(1) a adoção de execuções extrajudiciais como política, isto é, a autorização para matar (não me refiro à legítima defesa, é claro);

(2) e a “vista grossa” para o envolvimento dos policiais com o mercado da segurança privada ilegal e informal. Vejamos a primeira via: quando o superior dá ao policial na ponta autorização para matar, dá-lhe também, tacitamente, autorização para negociar a sobrevivência do suspeito.

Isso gera um mercado clandestino que tende a se racionalizar sob a forma de pactos, os “arregos”, associando segmentos policiais a grupos criminosos. Pode-se deduzir os desdobramentos.

Quanto à segunda via, a segurança privada informal, observe-se que por mais que haja profissionais que se envolvem porque precisam completar a renda e mantêm postura honesta, mesmo atuando fora da lei (que proíbe aos policiais esse trabalho, a não ser excepcionalmente), não é difícil entender como muitos outros vão além, gerando insegurança para promover a venda de segurança. Também se deduz o que vem na sequência. Por esse motivo, digo que as milícias são filhas bastardas da segurança privada informal.

Em suas reflexões, o senhor aponta para a urgência de uma “escuta intergeracional” para reconstruir vínculos sociais dilacerados. Diante de uma máquina econômico-religiosa-criminal tão entranhada na base da sociedade, por onde começamos a tecer essa alternativa sem cair no messianismo punitivo?

Luiz Eduardo Soares – Não sei por onde começamos. Minha intenção era sugerir o diálogo aberto entre gerações de militantes e intelectuais socialistas, porque me parecia, e ainda parece, que parte do contencioso, das divergências e até dos antagonismos derive de mal-entendidos, de preconceitos, da falta de interlocução. Não me referia a diálogos intergeracionais na sociedade, de um modo geral, embora diálogos costumem ser experiências produtivas para todos, havendo disposição para escutar.

Quanto ao punitivismo, é uma tradição lamentável que confunde punição com vingança, lamentável, mas plenamente compreensível em uma sociedade habituada a tantas iniquidades, fundada na violência, estruturada por desigualdades.

O messianismo também costuma grassar no vácuo democrático. Sendo fruto do terreno estéril de nosso autoritarismo, não será um meio eficaz para fertilizar a cidadania.

Nota do entrevistador:

Por uma exigência de ritmo e unidade temática, duas trocas desta conversa foram retiradas do fluxo contínuo da entrevista, com a anuência expressa do Professor Luiz Eduardo Soares e sob a condição — que aqui se cumpre — de que fossem reproduzidas na íntegra, tal qual concedidas. Restituímo-las ao leitor:

Luiz Eduardo Soares — De novo, remeto aos autores que têm estudado o fenômeno.

Luiz Eduardo Soares — Sem dúvida, é disso que se trata.

FONTES PARA VERIFICAÇÃO (Atualização feita em 21 de junho de 2026):

Trajetória, cargo e exoneração de Luiz Eduardo Soares:

REDE Sustentabilidade, Marina Silva e a retirada de 2016:

A megaoperação de outubro de 2025 (Alemão e Penha) — 121 mortos:

As chacinas, em série:

Letalidade — séries oficiais (ISP-RJ) e contexto:

A queda dos governadores:

O nexo entre neopentecostalismo e política fluminense:

Recomendação Indispensável de Leitura do Professor Luiz Eduardo Soares – BVPS (Atualização feita em 21 de junho de 2026):

Autorais (série) — [clique aqui]

Notas sobre a ideologia kardecista (1977) — [clique aqui]

Campesinato e Capitalismo (1981) — [clique aqui]

As bases da desobediência legítima… (1982/1989) — [clique aqui]

Os Impasses da Teoria da Cultura e a Precariedade da Ordem Social (1984) — [clique aqui]

Uma topologia cruel: religiosidade, hermenêutica e finitude (1986/1994) — [clique aqui]

Simpósio internacional Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?[clique aqui]

Notas

[1] Em O Capital (Marx, Karl. El Capital. 3 volumes. México: Fondo de Cultura Económica, 1971) são raras as passagens em que Marx tematiza os conceitos subsunção formal e real do trabalho ao capital. No primeiro volume, aparecem na Quinta Seção, dedicada à “Produção da Mais-Valia Absoluta e Relativa”, e na Sétima Seção, “O Processo de Acumulação do Capital”, especificamente no capítulo “A Chamada Acumulação Primitiva”. No segundo volume, estão nas páginas 216 e 236. volume, não há qualquer alusão. No prólogo ao primeiro volume, Friedrich Engels refere-se aos conceitos na página 40.

[2] Escrevi sobre esforços de traficantes para romper o engajamento com o tráfico, frustrados pelas polícias e pelo sistema de Justiça criminal, em seu conjunto, que os imobilizam, os condenam ao tráfico como se fora um “cativeiro”. Confira em Meu Casaco de General (2000, op.cit), Cabeça de Porco (2005, op.cit.) e Rio de Janeiro; histórias de vida e morte (Cia das Letras, 2015).

[3] A esse tema dediquei a segunda parte do livro Elite da Tropa, intitulada “A cidade beija a lona” (Soares, L.E; Batista, André; Pimentel, Rodrigo. Objetiva, 2005), anos depois adaptada ao teatro sob o título “O Conflito” (de L.E.Soares, Domingos de Oliveira e Marcia Zanelatto).

[4] Bruno Paes Manso e Camila Dias, em sua obra já citada, A Guerra, oferecem uma informação muito interessante: houve esforços de agentes do tráfico paulista no sentido de persuadir seus pares cariocas a mudar seu modelo de organização e forma de atuação. Esforços vãos, como se deduz. Em meu livro, Tudo ou Nada; a história do brasileiro preso em Londres por associação ao tráfico de duas toneladas de cocaína (Nova Fronteira, 2012), relato a visita ao Rio de representantes de cartel colombiano para avaliar o mercado de drogas e a possibilidade de negócios. Divertiram-se bastante na antiga boate Help, travaram contatos, examinaram a situação e, em poucos dias, desistiram. Consideraram o Rio inteiramente inviável.

[5] SOARES, Luiz Eduardo “Crime, Power, and Authoritarian Capitalism: A Dystopian Realism Experiment” in Journal of Illicit Economies and Development. Special Issue: Brazil. Volume 1, Issue 2, June, 2019 (London School of Economics Press), volume organized by Luiz Guilherme Paiva, Gabriel Feltran e Juliana Carlos.

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