A direita tenta se conectar com as necessidades apresentadas pelas mulheres evangélicas, enquanto o centro e a esquerda têm dificuldade em se aproximarem dessas eleitoras, afirma a socióloga
Os posicionamentos políticos, sociais, culturais e religiosos das mulheres são multifacetados, complexos e difíceis de serem reduzidos a um único conjunto articulado de ideias e valores que moldam a compreensão delas da realidade. Essa complexidade, especialmente na inter-relação de gênero, religião e política, está sendo mapeada por diferentes pesquisas contemporâneas que buscam identificar semelhanças e assimetrias no modo como as mulheres se posicionam no campo político e religioso.
Um desses estudos está sendo conduzido por Jacqueline Moraes Teixeira e Lívia Reis. As pesquisadoras investigam o campo evangélico e constatam que, se um lado, cresce a identificação de mulheres com candidaturas de direita, de outro lado elas esperam que o Estado possa responder às suas necessidades sociais por meio de políticas públicas. “As mulheres evangélicas na faixa dos 40 anos, reconhecidas como chefes de família, estão no centro da função do cuidado porque são responsáveis pelas mais velhas e pelas mais novas. Nesse sentido, existe uma demanda e um interesse muito específico sobre essa temática de políticas públicas de cuidado”, destaca Jacqueline, na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Nesta manhã, 10-03-2026, Jacqueline Moraes Teixeira participa da live “O ‘8 de março’ em meio a feminismos e antifeminismos. O que celebrar”, juntamente com Olívia Bandeira de Melo Carvalho, da Unicamp, e Tabata Tesser, da USP. O evento, promovido pelo IHU, será transmitido às 10h na página eletrônica, nas redes sociais e no canal do YouTube. O evento é gratuito e aberto ao público.
Na entrevista, Jacqueline apresenta alguns estereótipos que perduram em relação às mulheres evangélicas brasileiras. A pesquisadora também comenta pontos de tensão identificados na relação entre gênero, política e religião, como a disputa entre as categorias de feminismo e feminino, as dificuldades do centro e da esquerda política em se aproximarem dessas eleitoras, a compreensão política que as mulheres estão adquirindo nas igrejas e os desafios das eleições presidenciais deste ano em relação a essa parcela do eleitorado. “O PL Mulher ainda não está dentro da candidatura de Flávio Bolsonaro, o que faz com que outras candidaturas de mulheres de direita fiquem numa posição refrataria à candidatura dele”, pontua.
Dando continuidade a essa temática, na próxima quarta-feira, 11-03-2026, começará o “Ciclo de estudos: Gênero, Religião, Política. Mobilização de crenças e afetos nas agendas antigênero da direita cristã”, promovido pelo IHU neste semestre. A videoconferência de abertura tematiza a ideologia de gênero e o discurso antigênero e suas implicações religiosas e políticas. A palestra será ministrada por Rogério Diniz Junqueira, doutor em Sociologia e pesquisador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), às 10h.
Jacqueline Moraes Teixeira (Foto: Casa Sueli Carneiro)
Jacqueline Moraes Teixeira é professora Doutora no Departamento de Saúde e Sociedade da Faculdade de Saúde Pública da USP. Foi professora adjunta no Departamento de Sociologia da UnB (SOL/UNB). Doutora em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP) onde também obteve o título de mestre. Possui graduação em Ciências Sociais (USP/2008) e graduação em Teologia (Universidade Presbiteriana Mackenzie/2012). É pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) realizando pesquisas na área de gênero, raça, sexualidade e religião. Pesquisadora colaboradora do ISER (Instituto de Estudos da Religião). Além de atuar como orientadora plena no Programa de Pós Graduação em Sociologia da UnB, segue como professora colaboradora na área de Educação e Ciências Sociais: Desigualdades e Diferenças do Programa de Pós Graduação em Educação da USP.
IHU – Você pesquisa as relações entre gênero, religião e política. Muitos estereótipos são formulados a partir dessa conexão. Que complexidades evidencia nessa tríade e o que elas revelam sobre as mulheres do Brasil profundo, particularmente as evangélicas, que são objeto da sua investigação? É possível traçar um perfil de quem são essas mulheres e como elas pensam a partir das suas pesquisas?
Jacqueline Moraes Teixeira – Sim. Quando falamos das mulheres evangélicas e, consequentemente, das decisões e escolhas em relação ao cenário político mais geral, ainda precisamos desconstruir vários estereótipos que circundam o imaginário sobre como é esse grupo, como ele pensa, quais as suas questões fundamentais e quais seriam as principais pautas que geram engajamento.
O primeiro imaginário é essa ideia de uma mulher mais velha, com uma vestimenta que remete a um imaginário muito comum sobre as mulheres evangélicas, que é aquele de uma senhora mais idosa, de coque. Ou seja, uma imagem que empurra para uma chave de leitura mais conservadora. Na verdade, o que as pesquisas sempre mostraram – e os dados do Censo 2022 corroboram – é que quando estamos falando desse público, de forma geral, estamos falando de um grupo que reúne, majoritariamente, mulheres entre 14 e 45 anos. Ou seja, um público muito jovem e muito produtivo.
É um público que está presente no mercado de trabalho, vivendo um momento de muitas decisões, disputando questões fundamentais, como acesso a políticas públicas de saúde, educação e desenvolvimento social. É um grupo atravessado por crises e situações econômicas, para quem a família é muito importante – não apenas pensando a família como uma categoria de conservação da crença, mas como um lugar que precisa oferecer, minimamente, uma proteção e um senso de reconhecimento.
Este também é um público majoritariamente negro, ou seja, mulheres pardas e pretas, que vivem nos grandes centros do país, mas que têm uma concentração significativa na região Norte, onde há uma desigualdade acerca da configuração das cidades, que as afeta. Seja pela questão geracional, seja pela questão étnico-racial, de gênero ou territorial, essas mulheres têm noções como mobilidade social e estratégia de vida geracional como algo superimportante.
Outro dado sobre o qual muito pouco se fala é o perfil de consumo deste público, que é muito disputado. Algumas pesquisas mostram como esse grupo é estratégico e fundamental para a circulação de marcas de determinados produtos em espaços com menos estruturas de equipamento urbano, como é o caso das favelas.
Ao contrário do que se espera, quando se pensa de forma mais macro a população evangélica e sua tendência a apoiar uma agenda neoliberal, esse público espera muito do Estado. Considerando que nesse grupo tem um perfil significativo de mulheres que são responsáveis pela manutenção da própria família, espera-se que o Estado, marcado pela corruptibilidade, seja capaz de responder com a produção e a manutenção de políticas públicas. Temas sensíveis são a educação, a saúde pública, a saúde da mulher e a saúde do idoso. Portanto, é um público que não adere com facilidade à ideia do Estado mínimo ou de um Estado que não esteja preocupado com o bem-estar social ou mesmo com questões relacionadas à subsistência de forma geral. É um público que depende muito do Bolsa Família.
Nesse sentido, o grupo tem uma certa abertura para pensar temáticas específicas, voltadas para uma pauta mais geral dos direitos humanos e para uma agenda histórica do feminismo, que, para este público, não aparece como uma agenda feminista, mas é vista como fundamental. Entre as pautas, destacam-se o combate à violência de gênero, especialmente contra à mulher, a equiparação salarial, os direitos iguais entre homens e mulheres e questões relacionadas à necessidade de uma construção de políticas públicas às mulheres.
IHU – A partir desse quadro que você descreve, diria que as mulheres evangélicas se identificam mais com agendas da esquerda ou cresceu entre elas um apoio à direita ou extrema-direita?
Jacqueline Moraes Teixeira – O que estou vendo é a direita caminhando no sentido de visibilizar e se conectar com as necessidades apresentadas por este grupo. Tenho pensado cada vez mais como o centro político precisa aprender a ler essa margem e, ao tentar produzir uma estrutura e uma tecnologia de leitura dessa margem, tentar construir uma linguagem de conexão, que produza minimamente uma conexão com essa margem.
Estamos falando de uma configuração de direita no contexto nacional que não consegue prescindir do debate sobre gênero e raça. Isso porque esse debate, embora não esteja necessariamente vinculado a um repertório feminista, reelabora esse repertório, entendendo que as mulheres precisam de apoio e que existe uma dimensão desigual entre homens e mulheres. Isso tem empurrado a direita para uma aposta específica de candidaturas de mulheres, como também para a construção de um repertório que, no contexto desta aposta, dê conta da expectativa de produção de um Estado que dispute e que dê conta da produção de algumas políticas públicas.
O que estou afirmando é que existe, sim, uma identificação cada vez mais crescente desse público feminino relacionado a candidaturas de direita. Essa identidade política de direita não está pronta. As pessoas, de alguma maneira, ainda estão transitando e definindo os contextos das suas apostas políticas. Mas vejo uma direita muito interessada em engajar esse público, elaborando um conjunto de agendas que consegue responder aos anseios dele e construir um espaço de confiabilidade política.
Há uma aliança política cada vez mais evidente entre mulheres católicas e evangélicas no cenário político mais geral. Partidos como PL e Republicanos construíram plataformas como o PL Mulher ou Republicanas, iniciativas que têm ido em busca de lideranças comunitárias e religiosas. Esses partidos apostam numa plataforma voltada para pensar respostas específicas à violência de gênero, ao abuso e à violência infantil, que são preocupações gigantescas desse público. São políticas voltadas à família – e não tem como não pensar a família como uma categoria essencial para esse público.
As mulheres evangélicas na faixa dos 40 anos, reconhecidas como chefes de família, estão no centro da função do cuidado porque são responsáveis pelas mais velhas e pelas mais novas. Nesse sentido, existe uma demanda e um interesse muito específico sobre essa temática de políticas públicas de cuidado.
Estamos falando de uma direita segmentada, mas, dentro dessa segmentação, uma direita específica está tentando elaborar suas demandas a partir da construção de uma perspectiva de leitura da expectativa desses grupos em relação à ação política.
Jacqueline Moraes Teixeira – Várias dessas pautas são fundamentais dos governos de esquerda e foram importantes no governo Lula. Percebo que existe uma preocupação contundente de conexão com esse grupo. Mas, ao mesmo tempo que isso acontece, há uma dificuldade substancial de acesso a essas mulheres. Isso ocorre por uma série de questões, como a disseminação de fake news, mas também pela dificuldade de se construir uma confiança com as candidaturas de esquerda. É possível afirmar que esse grupo acaba se identificando mais facilmente com figuras que militam e se apresentam como pessoas conservadoras ou mulheres conservadoras.
IHU – A que se deve essa dificuldade de estabelecimento de confiança com a esquerda?
Jacqueline Moraes Teixeira – Essa dificuldade está alicerçada em alguns fatores. Em primeiro lugar, porque, de alguma maneira, as pessoas entendem que as candidaturas da esquerda vêm de pessoas de fora, que não entendem o público evangélico, ou que são tão refratárias à fé que colocam a fé em risco.
Além disso, existem várias dimensões históricas que dificultam a confiabilidade em candidaturas de esquerda, mesmo havendo uma tradição consolidada de militância e configuração de governos de esquerda que apostam em políticas públicas, e na tentativa de produção de uma igualdade de bem-estar social. Entretanto, isso é visto com muita desconfiança, como se fosse uma estratégia para conseguir votos.
De alguma maneira, as lideranças nacionais e regionais ligadas à direita são entendidas como lideranças mais orgânicas. Elas são mais passíveis de confiança. As pessoas de esquerda e suas candidaturas são lidas como outsider. Existe aí uma questão fundamental que não está simplesmente relacionada ao conteúdo das narrativas de direita, mas à construção de uma sensação de que essas pessoas estão mais próximas, teriam mais entendimento das especificidades do grupo e, portanto, teriam mais condições de atender às expectativas políticas dele.
IHU – A fé acaba se constituindo como um elemento central que determina o voto?
Jacqueline Moraes Teixeira – Não. As pessoas não votam apenas em quem é evangélico ou da igreja. Não é que a fé direcione a expectativa e o voto apenas para quem é da igreja, mas, fundamentalmente, a fé aciona uma necessidade de construção da confiança, a qual vem pela rede, no sentido de que é preciso entender de onde está vindo o candidato.
O candidato pode não ser evangélico – como é o caso do Bolsonaro –, mas tem uma rede na qual as pessoas confiam. É essa rede que ajuda a entender o quanto uma pessoa pode ser elegível. A dinâmica da rede é muito forte para entender quem é o candidato, de onde ele vem e por quais caminhos. É por isso que cada vez mais aparece a ideia de voto evangélico. Não gosto dessa formulação porque ela compromete e enfraquece o debate, além da nossa capacidade de pensar as heterogeneidades que atravessam esse grupo.
As igrejas são um lugar significativo de construção de solidariedade e de rede de proteção, a tal ponto que a rede importa. Nesse sentido, as pessoas não votam em alguém que pode colocar a rede em risco. A rede é a prioridade a partir da qual se faz a leitura em quem se pode ou não confiar.
IHU – As igrejas têm suas especificidades, mas, de modo geral, que tipo de compreensão política diria que as mulheres estão adquirindo nas igrejas e, a partir dessa compreensão, que narrativa elaboram sobre a situação social, política e econômica do país?
Jacqueline Moraes Teixeira – Em 2022, 2023 e 2024, coordenei uma pesquisa no Instituto de Estudos da Religião (ISER) com Lívia Reis, em que evidenciamos essas questões. A pesquisa começou em 2022 para produzir uma leitura da conjuntura das eleições. Depois, continuamos o estudo para compreender os níveis de entendimento e as leituras relacionadas ao governo Lula, além das compreensões sobre economia e políticas públicas de educação e saúde.
Percebemos que Bolsonaro não é uma figura nacional exclusiva no sentido de que as pessoas afirmam que votarão nele, mas existe uma dificuldade de conseguir ler determinadas políticas fundamentais, que foram produzidas no governo Lula, como sendo políticas do governo Lula. Por exemplo, as pessoas têm dificuldade de apreender a dimensão do equilíbrio econômico que aumentou a empregabilidade no contexto da vida delas. A sensação econômica de que as coisas estão muito caras sempre aparece como muito evidente, apesar da retirada do imposto de itens fundamentais da cesta básica.
A dificuldade de compreender políticas de bem-estar social como políticas produzidas por um governo de esquerda dificulta muito as leituras relacionadas à confiabilidade, à sensação de que o governo não está sendo corrupto e, consequentemente, às adesões à esquerda. Isso se desdobrou de forma muito forte no contexto das eleições de 2024, quando vários candidatos de direita foram eleitos em prefeituras importantes e em cidades de pequeno porte. Nesse sentido, empurrar todo mundo para a direita e chamar todo mundo de conservador empobrece muito a leitura da conjuntura, como tem sido muito comum.
IHU – Diante desse quadro, quais os principais desafios da esquerda e da direita para a eleição deste ano?
Jacqueline Moraes Teixeira – O desafio substancial neste ano eleitoral, no contexto desta disputa, é entender que, se Bolsonaro não é a principal figura 'engajante', tem um trabalho significativo a ser feito para direcionar os votos para a candidatura de Flávio Bolsonaro. Há um deslocamento aí para o qual pouco nos atentamos, mas que foi fundamental em 2022 e será em 2026. Às vezes, apostamos que os eleitores decidem especificamente pela imagem de quem está se candidatando, mas as figuras de mediação são importantes para a construção da confiabilidade, como foram as figuras de Damares Alves e Michelle Bolsonaro em 2022.
Fiz pesquisas de campo em Brasília naquele período. A estética dos eventos eleitorais não mostrava a imagem do Bolsonaro. As imagens que apareciam eram da Michelle e de outras mulheres, como a Celina Leão (PP), vice-governadora do Distrito Federal. Isso significa que as figuras femininas, mesmo que não estejam no centro do pleito, são centrais na construção da confiabilidade do voto. Logo, essas figuras mediadoras e produtoras da confiabilidade são fundamentais.
IHU – A esquerda também está se aproximando desse grupo e suas demandas?
Nunca imaginei que Michelle seria candidata à Presidência. Não era nem o objetivo dela nem o do partido. Mas ela tem uma imagem. Consegue suscitar uma certa situação de insurgência que gera confiabilidade no processo. Não à toa é tão importante, no contexto atual do PL, ver o que é possível fazer para que Michelle e o PL passem a apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro. A falta de apoio dela pode ser negativa. Mesmo ela se candidatando como senadora, o seu apoio é fundamental para incidir sobre determinados grupos e sobre essa camada específica das mulheres evangélicas.
Quando falamos da esquerda política, aí está o grande desafio. Na atual conjuntura, infelizmente, há uma dificuldade de ter uma figura política de esquerda que possa ancorar essa mediação e a produção de confiabilidade específica nesse grupo, para além do Lula. Falta uma aposta na formação de figuras que se tornem nacionalmente conhecidas, importantes e fundamentais não só para a história da esquerda no Brasil, mas também para os movimentos sociais, como mulheres negras, evangélicas pentecostais, como é o caso de Benedita da Silva e Marina Silva. Infelizmente, no conjunto das questões históricas e por decisões institucionais partidárias, essas figuras não conseguem se capilarizar nacionalmente no sentido de ir para as pontas.
IHU – A primeira-dama, Janja, tentou uma aproximação com as mulheres evangélicas no ano passado. Qual é o significado e a repercussão dessa iniciativa no meio evangélico?
Jacqueline Moraes Teixeira – É uma aproximação importante, que deve continuar, mas chegou tarde porque a visibilidade dessa aproximação está muito colada à construção do pleito e das eleições. Isso acaba corroborando na construção da desconfiança, já que a aproximação não é orgânica.
IHU – Como a imagem da primeira-dama é vista nesse grupo? Destoa muito do perfil das mulheres evangélicas ou se assemelha a ele em alguma medida?
Jacqueline Moraes Teixeira – A figura dela não destoa muito. Estamos falando de uma mulher cis, que é reconhecida publicamente como heterossexual. Além disso, é uma companheira importante do seu marido. A conjuntura política criticou muito o protagonismo da Janja por estar sempre definindo determinadas agendas. Mas o protagonismo dela, ao contrário do que se espera, não é lido como algo ruim pelas mulheres evangélicas porque entra nessa ideia da mulher que está o tempo todo produzindo a cena e atuando como grande fechamento do seu marido. A grande questão é que Janja representa uma aproximação específica, partidária, que, por uma série de questões históricas, soa muito interessada por conta da conjuntura política ou para ganhar votos.
Outra questão é que Janja, de alguma maneira, fez uma aproximação com grupos de mulheres evangélicas progressistas. É muito importante que esse grupo seja visibilizado porque falamos pouco sobre ele. A mídia fala pouco das mulheres que se reconhecem como progressistas políticas, como feministas que enfrentam publicamente questões relacionadas ao aborto e às políticas públicas, que são temas delicados no contexto das igrejas evangélicas brasileiras. É fundamental que essa aproximação aconteça e essas mulheres sejam visibilizadas. Mas, infelizmente, elas representam a minoria do público evangélico e estão mais concentradas em igrejas do protestantismo histórico.
As mulheres que frequentam essas igrejas têm ensino superior completo, com perfil étnico-racial majoritariamente branco, embora existam mulheres negras nesse contexto dos movimentos progressistas de mulheres evangélicas. É importante que essa aproximação alcance as mulheres pentecostais e neopentecostais, que são a maioria das evangélicas. O desafio está em produzir contato e relação de confiabilidade com essas mulheres.
IHU – Outro campo de disputa entre as mulheres é o feminismo. Tem crescido entre elas, evangélicas ou não, uma postura antifeminista ou o feminismo tem sido ressignificado?
Jacqueline Moraes Teixeira – As duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Se, por um lado, existe o crescimento do antifeminismo e do discurso de que o feminismo é contrário aos princípios de fé cristã, por outro lado emerge a noção de feminino. Existe uma construção para que feminismo e feminino sejam categorias contrárias. Nesse sentido, a fé cristã conduziria mais as mulheres na defesa do feminino e não do feminismo.
Apesar de a ideia de feminino ter sido construída em oposição à categoria de feminismo, ela não nega o conteúdo das pautas históricas do feminismo. Ao contrário, traz essas pautas para si, as ressignifica e as purifica, afirmando que elas não seriam propriamente femininas. As pautas centrais são as questões relacionadas à violência doméstica – porque grande parte das mulheres que sofrem violência doméstica é evangélica, segundo pesquisas de Valéria Vilhena.
Visto que a questão da violência passou a ser mais divulgada, as mulheres evangélicas passaram a desenvolver seus primeiros projetos de atendimento a mulheres em situação de violência. Surge então a ideia de que o enfrentamento da violência de gênero, da violência doméstica, a Lei Maria da Penha e a lei do feminicídio seriam pautas de um movimento feminino – e não de um movimento feminista. A pauta do movimento feminista incluiria o aborto e a masculinização das mulheres e não a igualdade.
A ideia de igualdade se desdobra numa concepção de que o feminismo defende que as mulheres devem se parecer mais com os homens. Em contraposição, a ideia de feminino propõe que as mulheres defendam o que é ser mulher e isso tem que ser valorizado. O reconhecimento de que é errado as mulheres ganharem menos que os homens não é visto como uma pauta feminista, mas, sim, como uma pauta feminina. Tem uma estratégia reducionista aí.
A institucionalização de várias políticas de direitos humanos no país e a promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006, foram fundamentais para trazer muitas mulheres evangélicas, que tinham atuação em movimentos sociais, para o cenário político nacional. Foi por conta da promulgação desta lei que várias igrejas evangélicas abriram projetos de atendimento a mulheres em situação de violência.
Minha pesquisa de pós-doutorado, feita entre 2018 e 2021, analisa a candidatura de várias mulheres evangélicas pentecostais, mostrando que a emergência política delas ocorre porque cursaram Direito e Serviço Social e começam a abrir projetos de enfrentamento de mulheres em situação de violência em suas igrejas locais. Esses projetos cresceram, foram para outras igrejas e isso foi importante para que elas passassem a ter reconhecimento político e fossem lançadas como candidatas em 2018 e em 2022.
IHU – A noção de empreendedorismo também tem sido explorada à luz do antagonismo entre feminismo e feminino?
Jacqueline Moraes Teixeira – A noção de empreendedorismo é superexplorada porque, quando falamos dessa população, estamos falando de um grupo que está abaixo da possibilidade de se tornar CLT e que está muito concentrado no setor de serviços. São mulheres que trabalham muito no campo da estética, no oferecimento de serviços de autocuidado, com atividades de enfermagem e cuidado aos idosos, com atividades domésticas e nos setores comerciais das lojas. Estamos falando de grupos que estão fora de algumas políticas do trabalho e que, consequentemente, acabam ficando de fora da nova política de reformulação do imposto de renda.
Com isso, a noção de empreendedorismo é muito forte entre essas mulheres e esse fenômeno não é recente. Estamos falando de pessoas que, majoritariamente, são foco de políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família. As igrejas pentecostais e neopentecostais, que funcionam nas garagens e nas lajes das casas, foram agentes gestores do Bolsa Família no sentido de que foi nessa experiência comunitária e religiosa que as mulheres foram trocando experiências e aprendendo a desenvolver os seus pequenos negócios, como a venda de doces, e foram acionando a ideia de empreendedorismo.
O empreendedorismo estava muito evidente em todo o processo de identificação com a teologia da prosperidade. Quando falamos da agenda do empreendedorismo, falamos também desse movimento feminino que, no caso dos meus estudos, está fazendo uma articulação via PL e via Democratas para apoiar os trabalhos empreendedores e a ideia de que as mulheres precisam ter a própria renda para se tornarem autônomas. Só que isso não é apresentado e concebido como uma agenda feminista, mas, sim, como uma agenda feminina.
IHU – Essas mulheres apoiam ou se opõem à redução da escala 6x1?
Jacqueline Moraes Teixeira – As mulheres apoiam a redução da escala 6x1. Pelo que percebo nas entrevistas, existe um apoio e uma expectativa nesse sentido exatamente pela sensação generalizada de que mulheres têm jornada dupla de trabalho. Elas recebem menos e chegam em casa e têm uma sobrecarga extenuante. A jornada 6x1 é vista como uma questão que compromete ainda mais a mulher e a sua possibilidade de cuidar da família, dos filhos e das pessoas idosas da família.
Entretanto, Damares se coloca contrária à PEC que pretende diminuir a jornada de trabalho. Como justificativa, ela afirma que isso pode gerar redução dos salários e, com isso, prejudicar principalmente as mulheres que ganham menos que os homens. Logo, ela faz questão de dizer que sua pauta não está ligada à diminuição da jornada de trabalho, mas, sim, ao risco de diminuição da remuneração, o que certamente impactaria a vida das mulheres. Então, para seguir em aliança com a oposição, ela precisou construir uma justificativa que sinaliza para o seu principal público eleitor que ela reconhece a jornada dupla de trabalho das mulheres.
IHU – As mulheres empreendedoras também defendem a redução da jornada de trabalho?
Jacqueline Moraes Teixeira – As pesquisas mostram que esse segmento feminino reconhece que as mulheres trabalham muito mais e que reduzir a jornada de trabalho seria um caminho para diminuir a jornada dupla delas. Além disso, para esse grupo, a expectativa da CLT não desaparece. A CLT é vista como algo inalcançável porque, quando ela se torna uma possibilidade, o salário é muito menor. Por exemplo, quando uma mulher que trabalha como diarista recebe o convite para ser contratada como empregada fixa, registrada, o rendimento dela diminui muito. Portanto, o trabalho de carteira assinada é uma expectativa que acaba não se consolidando. Se, por um lado, a CLT dá uma estrutura, por outro lado, ela tira um rendimento que é muito importante.
IHU – Nos últimos anos, as feministas têm enfatizado a discussão sobre a violência de gênero. Quais temas tendem a orientar as próximas ondas do movimento?
Jacqueline Moraes Teixeira – Enquanto feminismo – e me reconheço como feminista – temos uma questão para revisitar, que é o entendimento de por que razão as pautas do feminismo chegam, mas a assinatura feminista, não.
Hoje, existe uma consciência mais plural e capilarizada das desigualdades e da violência contra as mulheres. Mas por que, na ponta, quando essa informação chega e essa sensibilidade acontece, a assinatura da luta feminista não está junto? Esse é um desafio que temos e que estará cada vez mais evidente nos próximos anos. A disputa é muito mais pela assinatura do que pelo conteúdo.
Não gosto de pensar a ideia de feminino como antifeminismo, mas como uma possibilidade de disputar a assinatura de uma agenda que aparece sem direção, sem endereço e sem nome. Precisamos nos perguntar por que esse nome aparece de um jeito e não de outro e por que isso não chega nas pontas e, quando chega, como chega. Precisamos discutir cada vez mais quais pedagogias, dinâmicas e políticas de diálogo podemos construir para diluir mal-entendidos, atravessamentos e avançar na discussão sobre a legalização do aborto, sobre o reconhecimento das múltiplas formas de ser mulher, das populações trans, das travestis e desse conjunto plural e reconhecido de mulheres que compõem esse escopo e toda a nossa luta.
IHU – Estima-se que cerca de 20 mil pessoas participaram do ato bolsonarista na Avenida Paulista no dia primeiro de março, com a presença de parlamentares, do pastor Silas Malafaia e de Flávio Bolsonaro. A senhora mencionou a importância de ter mulheres mediadoras na próxima eleição, mas Michelle Bolsonaro não participou da manifestação. Como interpreta esses sinais, tendo em vista as eleições deste ano?
Jacqueline Moraes Teixeira – Esse ato não pode ser visto, oficialmente, como um ato da candidatura de Flávio Bolsonaro, mas é um ato que, de alguma maneira, tenta colocar um termômetro para entender as possibilidades dessa candidatura.
O fato de Michelle não estar presente representa o quanto o PL Mulher vai se constituindo, nos últimos anos, como uma plataforma que não é uma plataforma política do PL, ou seja, não é uma plataforma que fecha automaticamente com o diretório nacional. É uma plataforma que exige uma negociação o tempo todo. Isso nos ajuda a fazer uma leitura da força política que esse segmento ganhou, considerando que até 2022 ele não tinha tanta força. A eleição expressiva de mulheres alinhadas ao PL no país deu uma certa legitimidade à necessidade dessa negociação no contexto nacional e no próprio contexto do partido.
Como leitura rápida, diria que o PL Mulher ainda não está dentro da candidatura de Flávio Bolsonaro, o que faz com que outras candidaturas de mulheres de direita fiquem numa posição refrataria à candidatura dele.
IHU – A data de 8 de março é um momento para refletirmos sobre quais pautas fundamentais para as mulheres brasileiras?
Jacqueline Moraes Teixeira – O 8 de março é um dia de luta e reconhecimento do quanto a desigualdade ainda permanece de modo muito forte na nossa sociedade. O aumento do feminicídio é assustador em São Paulo e em outros estados do país. Ainda temos uma configuração de muita luta, de muito a ser feito, enquanto estamos lutando pela sobrevivência – e esse é um dado assustador. A igualdade não é somente de condições de subsistência, mas precisa ser uma igualdade da possibilidade de existir.
Sou otimista e, apesar desses quadros ruins, entendo que temos conquistado muitas coisas. Apesar de vários retrocessos no oferecimento de políticas públicas específicas para mulheres, também estamos falando de uma consciência mais generalizada da violência e da necessidade de lutar para existir. Quando olho para o público feminino das igrejas, que, em sua maioria, infelizmente, por questões históricas e étnico-raciais, se encontra distante da universidade, percebo que ele se reconhece como foco de uma violência e tem pensado ressignificações para o seu enfrentamento.
Temos que celebrar a desconstrução da ideia de uma mulher religiosa, evangélica, alienada e oprimida, e pensar como podemos reconhecer e fortalecer os vínculos, as capacidades e as possibilidades de resistência que vêm surgindo nas igrejas por redes de mulheres evangélicas.
IHU – Cresceu muito a escalada do ódio e da violência na sociedade civil. Neste ano eleitoral, essa dinâmica tende a se acentuar. Como rompê-la e restabelecer as relações humanas?
Jacqueline Moraes Teixeira – O nosso principal desafio é, de fato, tentar não dividir, no sentido de amplificar ainda mais a política do “nós e dos outros”, afastando ainda mais as pessoas, como sendo os outros que não compreendem e não dialogam com o que fazemos, como sendo inimigos ou pouco esclarecidos. Temos que seguir discutindo as nossas bases epistemológicas e entendendo, com coragem, que precisamos realmente apostar em espaços e tecnologias de comunicação não violenta e de diálogo. Temos que seguir nos perguntando quem reconhecemos como nós e quem estamos afastando como outros, e o que esse afastamento tem produzido.