06 Março 2026
"O 8 de março pode, portanto, ser desvinculado tanto da retórica celebrativa quanto da polêmica estéril. Pode se tornar uma lente através da qual é possível reler uma pergunta mais profunda: quem tem o direito de falar quando se trata de Deus e do ser humano? E, antes mesmo disso, quem estamos dispostos a escutar sem nos defender?", escreve Emanuela Buccioni, em artigo publicado na revista Rocca n.º 5, 01-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Emanuela Buccioni é teóloga, consagrada do Ordo Virginum da Diocese de Terni, na Itália, doutora em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, em Roma, e professora do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Arezzo.
Eis o artigo.
Chega todos os anos como uma data ambígua. Pode tornar-se celebração ritual, lista de conquistas ou — inversamente —incômodo a ser rapidamente arquivado, como se falar sobre mulheres fosse um exercício ultrapassado ou ideológico. Mais raramente é recebido como um questionamento: não sobre o que as mulheres fazem, mas sobre o que uma sociedade, uma Igreja, uma comunidade está disposta a escutar e, sobretudo, a deixar ressoar.
Nos últimos dias, uma notícia vinda de uma Igreja irmã oferece um ponto de partida que merece atenção. A posse de Sarah Mullally como Arcebispa de Canterbury, marcada para 25 de março — a primeira mulher a ocupar esse cargo na história da Igreja da Inglaterra — não é meramente um passo simbólico. Não se limita a dizer que "uma mulher também pode", mas obriga a se questionar sobre qual autoridade é hoje reconhecida como credível. Em seu primeiro discurso após a nomeação, Mullally falou diretamente sobre misoginia, sobre vozes ignoradas, sobre uma Igreja chamada a se expor em vez de se proteger. Não uma linguagem celebrativa, mas uma palavra que nasce da escuta de feridas reais. Pouco antes, nos Estados Unidos, outra voz episcopal havia provocado reações contrastantes. Durante uma celebração pública, a bispa da Igreja Episcopal de Washington, Mariann Budde, dirigiu-se diretamente ao presidente Trump, pedindo misericórdia pelas pessoas mais vulneráveis: migrantes, pobres e minorias. Não um gesto de oposição partidária, mas o exercício de uma palavra que nasce do Evangelho e que, precisamente por isso, ousa interpelar o poder.
Dois episódios distintos, mas que convergem em um ponto essencial: a palavra de autoridade não coincide automaticamente com a posição mais elevada, mas com uma fidelidade profunda ao que foi ouvido.
Uma casa, uma escuta, uma transgressão
É nesse contexto que o famoso episódio de Marta e Maria (Lucas 10,38-42) pode ser relido. Os versículos do final do capítulo 10 de Lucas chegam após uma jornada muito densa: o envio dos discípulos, as instruções sobre o estilo missionário, a alegria de Jesus pela revelação aos pequenos, o mandamento do amor narrado na parábola do Samaritano. Não se trata de um parêntese doméstico, mas de uma cena conclusiva que radicaliza a questão do discipulado, e o faz na casa de mulheres.
Jesus está em caminho e é acolhido na casa de Marta. O verbo usado pelo evangelista para descrever a hospitalidade (hupodechomai) indica uma acolhida que envolve quem a oferece, que salva mais o anfitrião do que o acolhido. Marta abre sua casa e, com ela, sua vida. Maria, a irmã, realiza o conhecido gesto inesperado e transgressor: senta-se ao lado de Jesus, a seus pés, ouvindo sua palavra. Sabemos que, na linguagem bíblica e rabínica, estar "aos pés" de alguém significa assumir o lugar do discípulo, de quem recebe uma palavra para guardá-la e, um dia, transmiti-la.
Maria interrompe o serviço porque reconheceu uma prioridade. Aqui, o texto toca numa ferida aberta: Maria ocupa um espaço que não lhe era implicitamente destinado. Mais do que uma escolha espiritual, seu gesto redesenha a ordem das coisas.
Quando o serviço perde seu centro de gravidade
Marta, por outro lado, é descrita como "distraída em muitos serviços". O verbo escolhido (perispao, que ocorre apenas aqui em todo o Novo Testamento) sugere dispersão, perda do centro, quase uma desorientação interior. Sua diaconia é real, múltipla, necessária, buscando o reconhecimento de Jesus, mas algo se rompeu e se tornou fonte de amargura.
A tensão explode na pergunta: "Não te importas que minha irmã me tenha deixado servir sozinha?". Ela ecoa a pergunta dos discípulos na tempestade: "Não te importas que pereçamos?". Demonstra uma fé que exige tanto confirmação quanto reconhecimento. A resposta de Jesus não silencia Marta, não adia seu pedido para tempos mais maduros, mas a abre a uma nova vocação. A questão não é a tipologia ou a quantidade do serviço, mas sim a perda de ponto de equilíbrio central, um lembrete válido para todos.
"Só uma coisa é necessária": a escuta unifica e restitui o sentido à ação de cada um.
A frase que perturba
Aqui aparece a frase mais incômoda da passagem: Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada.
Não porque tenha escolhido a contemplação em detrimento da ação, mas porque reconheceu uma primazia que não pode ser negociada e que deveria ser buscada por toda pessoa batizada.
A "boa parte" não é uma recompensa espiritual, mas uma escolha que redistribui os papéis. A escuta, quando é autêntica, não confirma automaticamente o que “sempre foi feito”, mas abre novas possibilidades, por vezes desestabilizadoras. E aqui reside talvez o aspecto mais controverso do texto: a escuta do Evangelho não é neutra, nem sempre pacífica, não mantém intactos os equilíbrios.
É o que acontece também hoje quando uma palavra, acolhida em profundidade, ganha voz pública.
Quando uma bispa pede misericórdia a um presidente em termos que talvez um homem não teria conseguido encontrar, ou quando uma arcebispa fala abertamente sobre misoginia, ela não está reivindicando um espaço para si: está ocupando um lugar que a própria Palavra lhe tornou disponível. Nesse sentido, pode ressoar até mesmo a voz de quem não pertence ao mundo eclesial. Na recente cerimônia do Grammy, Billie Eilish, premiada pela canção "Wildflower", escolheu usar o palco para dizer: "Ninguém é ilegal numa terra roubada". E acrescentou que as vozes contam, que as pessoas contam, que é necessário continuar a falar e a protestar, tudo isso enquanto usava, como muitos outros artistas presentes, o broche "Ice Out". É um exemplo de como a escuta da realidade pode se tornar palavra que questiona, palavra que busca a verdade em vez do consenso.
O 8 de março como discernimento
O 8 de março pode, portanto, ser desvinculado tanto da retórica celebrativa quanto da polêmica estéril. Pode se tornar uma lente através da qual é possível reler uma pergunta mais profunda: quem tem o direito de falar quando se trata de Deus e do ser humano? E, antes mesmo disso, quem estamos dispostos a escutar sem nos defender?
Marta e Maria não representam duas categorias de pessoas, nem dois modelos opostos. São duas modalidades do discipulado, ambas presentes em toda comunidade e em todo crente, e com um claro impacto na sociedade. Lucas, com grande precisão, indica uma prioridade: sem a escuta dos sinais dos tempos, de uma Palavra inserida na realidade, até o melhor serviço corre o risco de perder o seu sentido; enquanto a verdadeira escuta, mesmo quando parece deslocada, gera uma palavra que perdura.
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