Combate à violência contra as mulheres: “Essa luta ainda é urgente”. Entrevista especial com Cristiani Gentil Ricordi

“É fundamental não olharmos apenas para os casos que chocam pela brutalidade, mas também para as violências cotidianas que atingem mulheres e meninas, que muitas vezes são naturalizadas e invisibilizadas”, adverte a assistente social

Foto: Tânia Rego | Agência Brasil

06 Março 2026

Os casos de feminicídio divulgados pela imprensa nos últimos meses confirmam um dado recorrente nos indicadores coletados pelas instituições que monitoram a violência contra as mulheres: “dois terços dos casos acontecem dentro de casa, o que torna a ruptura ainda mais complexa, porque o agressor está inserido no cotidiano da vítima”, pontua Cristiani Gentil Ricordi, pesquisadora do Observatório Nosotras, da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Segundo ela, o feminicídio é recorrente nos relacionamentos afetivos “porque é justamente nesses espaços que a lógica da posse e do controle se manifesta com mais força”. Entretanto, adverte, o assassinato de mulheres não acontece de maneira repentina. “Ele costuma ser o desfecho de um histórico de violências e violações – psicológicas, morais, físicas – que muitas vezes já vinham se acumulando ao longo da relação”. O feminicídio, explica, “é expressão de uma estrutura histórica de desigualdade e dominação de gênero”, que tem sido transmitido de geração em geração.

De acordo com o Observatório Nosotras, somente nos dois primeiros meses deste ano o feminicídio aumentou 53% no Rio Grande do Sul em relação ao mesmo período do ano passado. Em 2025, informa, “o RS registrou 31.558 casos de ameaças, que são os primeiros sinais de violência e controle; 18.455 casos de lesão corporal; 2.354 casos de estupro; 264 casos de feminicídio tentado, quando há tentativa de homicídio pela condição de gênero; e 80 feminicídios consumados, que é quando a violência termina em morte”. O Observatório Nosotras monitora e analisa dados da violência contra as mulheres em 22 municípios da metade sul do RS, a partir dos indicadores divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul.

Neste cenário, o Dia Internacional da Mulher, sublinha a entrevistada, “segue sendo um chamado à organização, à vigilância e à ação coletiva”.

A seguir, a pesquisadora comenta a dinâmica da violência, reflete sobre a estrutura histórica do patriarcado, os processos de culpabilização da vítima, a fragilidade das políticas públicas e os desafios em enfrentar a violência de gênero coletivamente.

Cristiani Gentil Ricordi (Foto: Arquivo Pessoal)

Cristiani Gentil Ricordi é graduada em Serviço Social e em Matemática pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel), mestra e doutoranda em Política Social e Direitos Humanos pela UCPel.

Confira a entrevista.

IHU – Nos dois primeiros meses do ano, o Rio Grande do Sul registrou mais de 20 casos de feminicídio. Mulheres foram assassinadas por companheiros, namorados ou ex-companheiros. Em alguns casos, os crimes ocorreram na frente dos próprios filhos. Por que o feminicídio é recorrente dentro de relacionamentos afetivos e familiares?

Cristiani Gentil Ricordi – É triste perceber que em 2026 ainda precisamos falar sobre feminicídio, que ainda precisamos lutar para nos mantermos vivas.

É importante destacar que o feminicídio não é um fato isolado nem pode ser reduzido a uma discussão de casal ou a um momento de “impulso”. Essas explicações individualizam o problema e ocultam sua dimensão estrutural. Ele é expressão de uma estrutura histórica de desigualdade e dominação de gênero. Muitos homens ainda se sentem autorizados a exercer controle sobre nossos corpos e nossas vidas, especialmente dentro das relações afetivas. Como aponta a antropóloga Rita Segato, a violência contra as mulheres funciona como um mecanismo de reprodução do patriarcado.

Patriarcado

O patriarcado é uma estrutura histórica de hierarquia que define quem manda e quem obedece. Ele organiza as relações sociais a partir de desigualdades de gênero, e isso vai sendo transmitido de geração em geração, muitas vezes como forma de reconhecimento entre os próprios homens, como demonstração de poder e afirmação de masculinidade.

Os feminicídios são recorrentes dentro de relacionamentos porque é justamente nesses espaços que a lógica da posse e do controle se manifesta com mais força. Quando a mulher decide romper, quando afirma sua autonomia, isso pode ser vivido por alguns homens como perda de poder – e, em contextos de masculinidades violentas, essa perda é respondida com agressão extrema.

É importante lembrar que o feminicídio, na maioria das vezes, não acontece de forma repentina. Ele costuma ser o desfecho de um histórico de violências e violações – psicológicas, morais, físicas – que muitas vezes já vinham se acumulando ao longo da relação.

IHU – Os crimes estão mais violentos e cruéis?

Cristiani Gentil Ricordi – Para mim, toda e qualquer forma de violência contra mulheres e meninas já é, por si só, extrema. O que podemos observar é que hoje há maior visibilidade e maior cobertura midiática, o que nos causa mais impacto – e com razão. Mas esses crimes sempre existiram, muitas vezes de forma mais silenciada. Além disso, ainda convivemos com a subnotificação, com casos que não chegam aos órgãos competentes nem à mídia.

Cada feminicídio não é apenas um número. Ele é expressão de uma estrutura que precisa ser enfrentada coletivamente. E, como mulheres, cada caso nos atravessa, dói, nos indigna e nos lembra que essa luta ainda é urgente.

IHU – Além da cultura machista e patriarcal que você mencionou, que outros fatores ajudam a compreender a dinâmica da violência e da brutalidade presentes nesses casos? A violência está relacionada ao desejo de dominação sobre o outro, à dificuldade de controlar emoções e comportamentos?

Cristiani Gentil Ricordi – A dinâmica da violência pode ser compreendida em diferentes níveis. Existe uma dimensão estrutural, que já mencionamos, relacionada à cultura patriarcal e à naturalização do poder masculino. Mas existe também uma dinâmica relacional muito concreta, que costuma seguir um padrão.

Então, o feminicídio, na maioria das vezes, é o desfecho de um ciclo progressivo de violências. A agressão raramente começa com violência física extrema. Ela pode começar de forma silenciosa: controle disfarçado de cuidado, ciúmes justificados como prova de amor, isolamento da rede de apoio, controle ou monitoramento das redes sociais, controle do dinheiro ou das decisões cotidianas.

Com o tempo, essas práticas podem evoluir para humilhações, ameaças, violência psicológica, empurrões, agressões físicas e violência sexual. Quando a mulher tenta romper esse ciclo, o risco pode aumentar, porque a ruptura representa, para alguns homens, a perda do controle que acreditavam ter.

Por isso, é fundamental compreender que o feminicídio não surge do nada. Ele costuma ser o ponto extremo de uma escalada de violência. E reconhecer os sinais iniciais é essencial – tanto para que mulheres possam buscar apoio quanto para que a sociedade deixe de naturalizar comportamentos que já são, em si, formas de violência.

Não se trata de dificuldade de controlar emoções. Trata-se de uma cultura que ensina homens a associarem masculinidade a domínio, posse e poder sobre as mulheres.

IHU – Quais são os principais indicadores de violência contra a mulher e feminicídio reunidos pelo Observatório Nosotras?

Cristiani Gentil Ricordi – O Observatório Nosotras atua em dois eixos principais. O primeiro é o eixo da produção, monitoramento e divulgação de indicadores sobre violência contra mulheres e meninas na metade sul do Rio Grande do Sul. Nós sistematizamos e analisamos dados oficiais divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado, acompanhando incidências criminais relacionadas à violência de gênero.

Entre os principais indicadores que monitoramos estão os casos tipificados na Lei 11.340/2006, a Lei Maria da Penha – ameaças, lesões corporais, estupro, feminicídio tentado e feminicídio consumado.

Nosso trabalho abrange 22 municípios (1. Amaral Ferrador; 2. Arroio do Padre; 3. Arroio Grande; 4. Canguçu; 5. Capão do Leão; 6. Cerrito; 7. Chuí; 8. Herval; 9. Jaguarão; 10. Morro Redondo; 11. Pedras Altas; 12. Pedro Osório; 13. Pelotas; 14. Pinheiro Machado; 15. Piratini; 16. Rio Grande; 17. Santa Vitória do Palmar; 18. Santana da Boa Vista; 19. São José do Norte; 20. São Lourenço do Sul; 21. Tavares; 22. Turuçu) da metade sul do estado, o que nos permite analisar como a violência contra mulheres e meninas se manifesta e se reproduz nesses territórios, identificando padrões regionais que, frequentemente, permanecem invisibilizados nas análises estaduais mais amplas.

O segundo eixo de atuação envolve a promoção de cursos, eventos e atividades formativas voltadas à comunidade acadêmica, agentes de políticas públicas e à sociedade civil. Entendemos que produzir dados, por si só, não é suficiente, é preciso estar nas comunidades, dialogar com os serviços da rede de proteção e atuar nos territórios onde a violência acontece.

Para que isso seja possível, o Observatório Nosotras articula uma rede de parcerias com grupos de pesquisa e extensão da própria Universidade Católica de Pelotas, além de outras universidades, movimentos sociais e órgãos públicos, fortalecendo uma atuação coletiva e comprometida com o enfrentamento da violência contra mulheres e meninas.

IHU – Quais as principais formas de violência sofridas pelas mulheres no RS?

Cristiani Gentil Ricordi – O Observatório Nosotras trabalha com os crimes tipificados na Lei Maria da Penha, por isso é importante olhar para os indicadores da violência contra a mulher divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul. Os números são alarmantes.

Em 2025, o RS registrou 31.558 casos de ameaças, que são os primeiros sinais de violência e controle; 18.455 casos de lesão corporal; 2.354 casos de estupro; 264 casos de feminicídio tentado, quando há tentativa de homicídio pela condição de gênero; e 80 feminicídios consumados, que é quando a violência termina em morte. Nos dois primeiros meses de 2026, já observamos um aumento de 53% nos casos de feminicídio consumado em comparação ao mesmo período de 2025.

Esses dados nos mostram que a violência contra as mulheres no RS se manifesta de formas diversas – desde ameaças e agressões físicas até crimes mais extremos como estupro e feminicídio – e que muitas vezes essas violências estão conectadas em um mesmo ciclo de dominação e controle.

Por isso é fundamental não olharmos apenas para os casos que chocam pela brutalidade, mas também para as violências cotidianas que atingem mulheres e meninas, que muitas vezes são naturalizadas e invisibilizadas.

IHU – A partir dos casos acompanhados pelo Observatório Nosotras, é possível traçar um perfil dos agressores?

Cristiani Gentil Ricordi – Traçar o perfil dos agressores é uma das metas do Observatório Nosotras para 2026. Já iniciamos um levantamento preliminar e, até o momento, o que os dados indicam é que a maioria dos agressores era parceiro ou ex-parceiro das vítimas.

Esse dado reforça algo que a literatura e as estatísticas nacionais já apontam: a violência contra as mulheres ocorre, em grande parte, no contexto das relações íntimas e afetivas, onde a lógica de controle e posse se manifesta com mais intensidade.

IHU – Quais obstáculos e desafios as mulheres enfrentam para romper os ciclos de violência e denunciar as agressões, especialmente no contexto de relacionamentos afetivos e familiares?

Cristiani Gentil Ricordi – Os obstáculos ainda são muitos. Acredito que um dos mais graves é a culpabilização da vítima. Mesmo hoje, muitas mulheres internalizam a ideia de que podem ser responsáveis pela violência que sofreram.

Há também o medo de envolver familiares, de expor os filhos, de sofrer represálias. Sabemos que dois terços dos casos de violência acontecem dentro de casa, o que torna a ruptura ainda mais complexa, porque o agressor está inserido no cotidiano da vítima.

Outro fator decisivo é a dependência econômica. Muitas mulheres permanecem em relações abusivas porque não têm autonomia financeira, acesso à moradia ou políticas públicas que garantam condições reais de recomeçar. Falar em romper o ciclo da violência sem falar em autonomia material é ignorar uma dimensão central do problema.

Também enfrentamos desafios na própria rede de atendimento. Embora existam políticas e serviços importantes, nem sempre as mulheres encontram acolhimento qualificado, informação objetiva sobre como denunciar ou apoio contínuo após a denúncia.

É fundamental destacar que essa violência atinge de forma desproporcional as mulheres negras. No Brasil, elas são maioria entre as vítimas de violência doméstica. Isso revela que a violência de gênero está profundamente atravessada pelo racismo estrutural e pelas desigualdades sociais.

Romper o ciclo da violência exige muito mais do que coragem individual. Exige rede de apoio, políticas públicas efetivas e enfrentamento das desigualdades de classe, gênero e raça.

IHU – Quais são as principais fragilidades das políticas públicas de enfrentamento à violência contra as mulheres no RS?

Cristiani Gentil Ricordi – As fragilidades passam, em primeiro lugar, pelo financiamento público e pela prioridade política dada ao tema. O enfrentamento à violência contra mulheres e meninas exige investimento contínuo, ampliação da rede de proteção e compromisso efetivo do governo estadual com a pauta. Também é um desafio a descontinuidade das ações, muitas vezes dependentes de gestões específicas, o que fragiliza a consolidação de políticas de Estado permanentes.

Hoje, um dos grandes desafios no Rio Grande do Sul é a desigualdade territorial no acesso aos serviços especializados. Se olharmos para a segurança pública, por exemplo, veremos que o estado possui 497 municípios, mas apenas 24 contam com Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher – menos de 5% do total. Essa distribuição desigual evidencia uma cobertura extremamente limitada.

Essa ausência de estrutura especializada dificulta o acesso à denúncia, ao acolhimento qualificado e à investigação adequada dos casos, especialmente para mulheres que vivem em cidades menores ou em áreas rurais. Além disso, mesmo onde há serviços, muitas vezes eles funcionam de forma fragmentada, sem fluxos bem articulados entre segurança pública, assistência social, saúde e sistema de justiça.

É fundamental também investir na qualificação e valorização dos profissionais que atuam na rede de enfrentamento. Sem formação continuada, condições adequadas de trabalho e equipes estruturadas, as políticas acabam não se efetivando na prática.

Por fim, é importante reconhecer que a violência contra mulheres e meninas não é um fenômeno isolado, mas atravessado por desigualdades de classe, raça e território. Enfrentá-la não pode ser uma ação pontual ou simbólica. Trata-se de uma política pública que exige orçamento, estrutura, articulação intersetorial e compromisso permanente do Estado.

IHU – Em que consiste a campanha dos Bancos Vermelhos, representada na Cáritas Arquidiocesana de Pelotas?

Cristiani Gentil Ricordi – A campanha dos Bancos Vermelhos é uma iniciativa de mobilização e conscientização social voltada ao enfrentamento da violência contra as mulheres, especialmente do feminicídio. Os bancos vermelhos são instalados em espaços públicos como símbolos de memória, denúncia e alerta, trazendo mensagens de reflexão e informações sobre canais de denúncia, como o 180 e o 190.

No Brasil, a iniciativa passou a contar com respaldo legal por meio da Lei nº 14.942/2024, que prevê a instalação desses bancos em locais públicos como instrumento de sensibilização e enfrentamento à violência de gênero.

Em Pelotas, diferentes instituições têm aderido à campanha. A Cáritas Arquidiocesana de Pelotas, parceira do Observatório Nosotras, participa das ações como apoiadora, somando-se à luta em defesa das mulheres e meninas vítimas de violência. O Observatório Nosotras, por sua vez, também atua em articulação com essas iniciativas, fortalecendo a incidência política e o debate público sobre o tema.

IHU – Há maior conscientização social sobre os casos de feminicídio? Como trabalhar essa temática com as juventudes?

Cristiani Gentil Ricordi – Embora haja atualmente maior visibilidade dos casos de feminicídio nos meios de comunicação e nas redes sociais, isso não significa necessariamente maior conscientização social. Muitas vezes, o debate permanece restrito aos mesmos grupos já sensibilizados com a pauta. Além disso, os próprios algoritmos das plataformas digitais tendem a segmentar conteúdos, criando bolhas que dificultam que essas discussões alcancem públicos mais amplos e diversos.

Nesse sentido, a educação tem um papel fundamental. Com crianças e adolescentes, é preciso trabalhar o tema da violência de gênero para que reconheçam suas diferentes formas. Isso não significa transferir às meninas qualquer responsabilidade pela violência que sofrem – a responsabilidade é sempre do agressor. Trata-se de garantir que crianças e jovens tenham acesso à educação de gênero e educação sexual que lhes permita identificar situações abusivas, compreender que não são culpadas, romper com o silêncio e saber onde buscar apoio na rede de proteção. Muitas violências permanecem invisíveis justamente por medo, vergonha ou desinformação.

Ao mesmo tempo, é fundamental educar meninos para relações baseadas no respeito, na igualdade e na não violência, questionando padrões de masculinidade que naturalizam o controle e a agressividade.

Por fim, é preciso avançar no trabalho com os autores de violência. A ampliação dos grupos reflexivos com autores de violência deve ser compreendida como política pública estruturante, e não como ação pontual. Enfrentar o feminicídio exige não apenas proteger as mulheres, mas também intervir nas dinâmicas sociais e culturais que sustentam a violência de gênero.

IHU – O que temos para comemorar no Dia Internacional da Mulher deste ano e quais os principais desafios que precisamos enfrentar?

Cristiani Gentil Ricordi – Este ano começou marcado pela dor dos casos de feminicídio, o que nos lembra que ainda há muito a enfrentar. O Dia Internacional da Mulher não é uma data de comemoração no sentido festivo, mas de reflexão, denúncia e mobilização.

Ainda assim, é possível reconhecer avanços. A construção do Pacto Nacional Brasil sem Feminicídio representa um passo importante ao recolocar o enfrentamento à violência contra as mulheres como prioridade na agenda pública nacional. Ele sinaliza compromisso institucional, articulação entre entes federativos e a necessidade de ações integradas.

O grande desafio, no entanto, é transformar esse compromisso em prática concreta: garantir orçamento, estruturar serviços, ampliar a rede de proteção, formar profissionais e assegurar que as políticas cheguem, de fato, aos territórios – especialmente às mulheres mais vulneráveis pelas desigualdades de classe, raça e território.

Temos conquistas acumuladas pela luta histórica das mulheres, mas o cenário atual nos mostra que não há espaço para retrocessos nem para acomodação. O 8 de março segue sendo um chamado à organização, à vigilância e à ação coletiva.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Cristiani Gentil Ricordi – Agradeço pelo espaço de diálogo e pela oportunidade de tratar de um tema tão urgente. O Observatório Nosotras permanece à disposição para contribuir com o debate público e com ações que fortaleçam o enfrentamento à violência contra mulheres e meninas.

É fundamental reafirmar que a culpa nunca é da vítima. A violência de gênero não é um problema individual ou circunstancial, mas uma questão estrutural, atravessada por relações históricas de dominação e poder sobre os corpos e as vidas das mulheres. Enquanto não enfrentarmos essas bases estruturais, seguiremos lidando apenas com os efeitos mais visíveis do problema.

Também é urgente combater os discursos de ódio e misoginia que circulam nas redes sociais, nos espaços institucionais e na vida cotidiana, pois eles alimentam e legitimam práticas violentas. Por fim, é imprescindível que os homens se mobilizem e assumam responsabilidade ativa no enfrentamento à violência de gênero – não como apoiadores externos, mas como sujeitos implicados na transformação dessa realidade. 

Leia mais