Quem é aquele “povo”? Procurando clareza sobre a participação sinodal. Artigo de Massimo Faggioli

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14 Outubro 2021

 

“O desafio hoje é como moldar as instituições da Igreja e um 'estilo' eclesial de uma forma que não seja monárquica, e não apenas colegial, mas de fato sinodal: todo o povo de Deus em maior comunhão com a única família humana e a criação. Para o desenvolvimento da eclesiologia, o Vaticano II pôde contar com o surgimento de um ethos democrático de uma forma que o catolicismo hoje já não pode”, escreve o historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, EUA, em artigo publicado por Commonweal, 07-10-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

“A Igreja não é uma democracia”, líderes hierárquicos tem nos recordado, mas esse refrão desencorajador tem se intensificado na véspera do processo sinodal. O protagonista mais influente de qualquer reunião sinodal é, claro, o Espírito Santo, mas o mais visível é o povo – o verdadeiro “personagem central” tanto do processo sinodal quanto do pontificado de Francisco. Como as pessoas estão sendo organizadas, consultadas e escutadas para o processo revelará o entendimento institucional e eclesial dos membros da Igreja; mesmo se a sinodalidade não for verdadeiramente democrática, isso tem mais em comum com a democracia que com o clericalismo monárquico.

No Documento Preparatório para o Processo Sinodal, publicado pelo Sínodo dos Bispos em Roma, em 07 de setembro, o termo “povo” é usado 29 vezes. Na sexta página do longo Vademecum para o Sínodo sobre a Sinodalidade publicado no mesmo dia, o termo “povo” é usando uma centena de vezes, e metade dessas em locução a “povo de Deus”. O Vademecum apresenta um entendimento de povo no processo sinodal marcado pela inclusão intencional: “Qual forem as circunstâncias locais, as pessoas das dioceses são encorajadas a focar no máximo de inclusão e participação, indo ao encontro do máximo de pessoas possível, e especialmente aqueles que estão nas periferias, que são frequentemente excluídos e esquecidos”.

Isso vai além dos católicos batizados: “Embora todos os batizados sejam especificamente chamados a participar do Processo Sinodal, ninguém – não importa sua afiliação religiosa – deve ser excluído de compartilhar suas perspectivas e experiências, na medida em que deseja ajudar a Igreja em sua jornada sinodal em busca do que é bom e verdadeiro. Isso é especialmente verdadeiro para aqueles que são mais vulneráveis ou marginalizados”. No entanto, a participação do povo, batizado ou não, se dá em um ambiente institucional e litúrgico. O Documento Preparatório, citando o documento de 2018 da Comissão Teológica Internacional sobre a sinodalidade, deixa isso claro: “Este é um processo eclesial que só pode acontecer no seio de uma comunidade hierarquicamente estruturada”.

Portanto, no contexto da sinodalidade, estamos basicamente de volta ao ponto de partida quando se trata do significado de “pessoas”. Os documentos do Sínodo dos Bispos não oferecem uma definição real. Eles se referem apenas à exortação Evangelii gaudium de Francisco, que conecta o papel do povo à sua infalibilidadein credendo”, e à constituição do Vaticano II, Lumen gentium, onde o conceito da Igreja como “povo de Deus” (capítulo dois) segue a abertura (capítulo um) sobre a Igreja como sacramento de salvação. A Lumen gentium não entende “povo” em um sentido étnico, social ou político, ou como uma massa indiferenciada. Na Lumen gentium, o latim para pessoas é “populus”, que é mais inclusivo do que “natio” ou “gens” e o grego “demos” (étnico). O grego do Novo Testamento adota a distinção entre “laos” (povo de Deus), “ethne” (os não-judeus, as nações, os gentios), “phylē” (pessoas como uma unidade nacional de descendência comum) e “glossa” (o povo como unidade linguística).

Além disso, devemos ter em mente a diferença entre os conceitos gregos e romanos de povo quando se trata de pensar sobre sinodalidade e “democracia”. “Demos” nada tem a ver com o conceito romano de “populus”, que não é uma entidade étnica definida (todos os que viviam no império eram considerados cidadãos, especialmente após o edito de Caracalla em 212 d.C.). Ao mesmo tempo, especialmente nesta era de novos nacionalismos, é perigoso derivar o conceito de filiação à Igreja do conceito de cidadania. O conceito de “povo” para a Igreja também é diferente do conceito de povo em um estado-nação. O fato é que “povo de Deus” é uma metáfora ou uma imagem, sem expressão institucional na Igreja. Mas talvez um agora precise ser encontrado. O processo sinodal precisa de estruturas concretas de mediação para permitir que o povo se expresse.

É reconhecido que a teologia do Vaticano II aceitou a democracia para a política mundial, mas para as relações ad intra da Igreja, a eclesiologia apenas temperou o poder monárquico (papal e episcopal) com um pouco de colegialidade (os bispos junto com o papa, mas mesmo assim sob o Papa). Sinodalidade, teologicamente falando, é muito mais um conceito pós-Vaticano II. A constituição da Igreja, Lumen gentium, fala do povo de Deus no capítulo dois, mas nos capítulos seguintes identifica apenas duas categorias de católicos, clericais e leigos (algo que também moldou o Código de Direito Canônico de 1983). Portanto, o desafio hoje é como moldar as instituições da Igreja e um “estilo” eclesial de uma forma que não seja monárquica, e não apenas colegial, mas de fato sinodal: todo o povo de Deus em maior comunhão com a única família humana e a criação.

Para o desenvolvimento da eclesiologia, o Vaticano II pôde contar com o surgimento de um ethos democrático de uma forma que o catolicismo hoje já não pode. A eclesiologia do Vaticano II foi influenciada pelo "ressourcement" – volta às fontes que precederam a virada imperial da ordem eclesiástica no início do segundo milênio. Mas também foi influenciada pela adoção do autoritarismo e da ditadura em meados do século pelas hierarquias católicas e pela necessidade, duas décadas depois da Segunda Guerra Mundial, de levar em conta essa realidade. Hoje estamos vendo algo parecido com isso. O processo sinodal é também uma tentativa da Igreja Católica de reavivar os mecanismos de diálogo entre o povo e as elites durante uma crise global das instituições, especialmente das instituições políticas democráticas. No entanto, essa crise se reflete na resposta a esse processo, notadamente no desprezo por ele às vezes demonstrado pela direita católica estadunidense.

Ainda assim, a mera repetição de “o povo” é um exercício verbal que não será suficiente para nos mover através do processo sinodal – que é tão espiritual quanto institucional, envolvendo tanto espírito quanto uma espécie de forma. Diferentes formas de representação projetam diferentes imagens de “povo”. A forma como o processo sinodal se desenrola (local e nacionalmente a partir deste ano, depois em Roma em outubro de 2023) dirá muito sobre quais partes da Igreja se sentem chamadas a participar: quais atores específicos, organizações e redes, alianças sociais, classes ou fragmentos de classe? Me se a sinodalidade atacar o problema do clericalismo, que tipo de laicato será representado pelo processo sinodal? Eles se diferenciariam de país para país? Eles virão dos ricos, da classe administrativa profissional, da classe tecno-burocrática, das elites intelectuais? Esse será um local para os jovens, classe trabalhadora, pobres? E as vítimas e sobreviventes de escândalos de abusos sexuais?

Sinodalidade é uma forma de desmistificar o poder clerical através do povo, e o desafio é como fazer isso no mundo onde o poder é virtual, invisível e de formas inomináveis aparece imbricado e absoluto. Quando líderes da hierarquia dizem “a Igreja não é uma democracia”, eles estão certos, mas isso soa como uma defesa, uma velha linguagem reacionária. Isso é condicionado a reflexo típico das vezes quando a principal preocupação eclesiástica era o contraste político entre a reivindicação da autoridade da Igreja de um lado, e a reivindicação de soberania de novos estados-nação democráticos e constitucionais do outro.

A situação agora parece mudar. Hoje, o problema não é o excesso de desejo entre as pessoas para participar; mais que isso, como nosso sentido e valor de pertencimento tem evaporado, muitos que verdadeiramente se preocupam com a Igreja sentem-se desassistidos, desencorajados e desabrigados. A Igreja diz querer que “o povo” participe, mas se ausentando de convidá-lo e de radicalmente o incluir no processo sinodal, é difícil imaginar que participem.

 

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