Crescimento populacional e degradação ambiental em Angola. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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20 Julho 2022

 

"A Angola precisa avançar na transição demográfica para aproveitar as vantagens de uma estrutura etária favorável e dar um salto de qualidade de vida. O apoio da comunidade internacional é fundamental, mas o povo de Angola precisa tomar consciência de seus problemas e tomar medidas para evitar o colapso ecológico total", escreve José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e pesquisador em meio ambiente, em artigo publicado por EcoDebate, 18-07-2022.

 

Eis o artigo.

 

Angola está entre os 10 países com maior perda anual líquida de floresta (diferença entre floresta criada e destruída) entre 2010 e 2020, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO.

 

No relatório anual Avaliação Global de Recursos Florestais, a agência da ONU mostra que o Brasil lidera a lista do desmatamento, com 1,5 milhão de hectares perdidos a cada ano na década 2011-20. Angola surge no quarto lugar, perdendo 555 mil hectares em média todos os anos, exatamente o mesmo valor que perdia na década anterior, mas um grande aumento em relação à década de 1990-2000, quando eram destruídos 155 mil hectares todos os anos.

 

Angola (Foto: Geobica e L'Américain | Wikimedia Commons)

 

O aumento do desmatamento decorre da expansão da área dedicada as atividades agropecuárias e do forte crescimento da demanda por carvão. O alto crescimento populacional aumenta a demanda por carvão vegetal, já que o consumo de lenha é mais barato do que o uso de combustíveis fósseis. A expansão das atividades antrópicas ocorre em função da degradação dos ecossistemas.

 

A perda de área verde é uma das grandes responsáveis pela redução do superávit ambiental do país. Angola tinha uma situação ambiental confortável, como mostram os dados da Global Footprint Network. Em 1961, a biocapacidade per capita era de 10,3 hectares globais (gha) para uma pegada ecológica per capita de somente 0,85 gha. Porém, mesmo mantendo uma pegada ecológica muito baixa (de 0,86 gha em 2018) a biocapacidade do país diminuiu radicalmente e atingiu apenas 1,84 gha em 2014. No ritmo dos últimos 50 anos, Angola terá déficit ambiental na atual década.

 

 

 

Como a Pegada Ecológica per capita é muito baixa e ficou estável nos últimos 57 anos, não é possível atribuir a degradação ambiental ao aumento do consumo. Na verdade, a enorme redução da biocapacidade per capita ocorre em função do crescimento populacional.

 

O gráfico abaixo, da Divisão de População da ONU (revisão 2019), mostra que a população de Angola era de 4,5 milhões de habitantes em 1950 e passou para 35 milhões em 2020. Este rápido crescimento demográfico foi o responsável pela redução da biocapacidade per capita do país, pois a Pegada Ecológica ficou estável e a biocapacidade per capita diminuiu de 10,3 gha para 1,84 gha, como vimos no gráfico anterior.

 

Para o final do século XXI, as projeções da ONU indicam uma população de 191 milhões de habitantes em Angola. A biocapacidade total de Angola é de 57 milhões de gha e deve se manter mais ou menos neste mesmo nível até 2100. Assim, a biocapacidade per capita no final do século deve ficar em 0,3 gha (57 milhões de gha dividido por 191 milhões de habitantes). Portanto, mesmo que a Pegada Ecológica continue em nível baixo (em torno de 0,9 gha), Angola terá um grande déficit ambiental no final do atual século.

 

 

 

Neste quadro, a pobreza, a desigualdade social e a degradação ambiental vão continuar sendo o grande desafio de Angola. Somente com a ajuda internacional a situação do povo angolano poderá ser minorada. Mas, com certeza, levará muito tempo para que a nação saia da armadilha da pobreza social e ambiental, sendo que o aquecimento global e os efeitos climáticos extremos podem se tornar frequentes no país.

 

O fato é que Angola precisa avançar na transição demográfica para aproveitar as vantagens de uma estrutura etária favorável e dar um salto de qualidade de vida. O apoio da comunidade internacional é fundamental, mas o povo de Angola precisa tomar consciência de seus problemas e tomar medidas para evitar o colapso ecológico total. A ajuda para se levantar é essencial, mas são os próprios angolanos que devem caminhar de maneira independente e sustentável.

 

Referências

 

ALVES, JED. Os negacionistas da Terra finita, Ecodebate, 22/11/2021. Disponível aqui.

 

FAO, Global Forest Resources Assessment 2020 Main report, Rome, 2020. Disponível aqui.

 

ALVES, JED. Economia Ecológica e dinâmica demográfica global e nacional: cenários para o século XXI, ECOECO, 24/06/2021. Disponível aqui.

 

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