A guerra é uma catástrofe ambiental

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19 Mai 2022

 

“Durante séculos, conceituamos a guerra como envolvendo apenas seres humanos. Pouco a pouco, estamos aprendendo a não esquecer que toda guerra humana é uma guerra civil que se desenrola na biosfera”. A reflexão é de Alberto Coronel Tarancón, em artigo publicado por El Salto, 13-05-2022. A tradução é do Cepat.

 

Alberto Coronel Tarancón é pesquisador do Instituto de Filosofia CSIC, membro de Ecologistas en Acción e Rebelión Científica.

 

Eis o artigo.

 

O escritor estadunidense Henry Miller disse que toda guerra é uma destruição do espírito humano. Deixando de lado a estranha aritmética da frase, me limitarei a responder: oxalá fosse apenas isso. Porque a guerra é um turbilhão de destruição que, assim como os furacões ou as línguas de lava, não distingue o que é uma floresta do que é uma catedral. Durante séculos, conceituamos a guerra como envolvendo apenas os seres humanos. Pouco a pouco, estamos aprendendo a não esquecer que toda guerra humana é uma guerra civil que se desenrola na biosfera.

 

Porque não é a mesma coisa situar a guerra dentro do ambiente ou situá-la fora dele. De fora, a guerra é uma acrobacia contábil e jornalística: contagens de baixas, gestos eloquentes e fotografias atualizadas da destruição de infraestruturas. Chegam notícias de populações sitiadas. Hospitais e escolas que viraram escombros. Imaginamos a fome, a sede, a vulnerabilidade em carne viva. Recebemos imagens de helicópteros abatidos por lançadores de foguetes e ciclistas abatidos por tanques. A imprensa nos informa mais uma vez sobre o uso do estupro como arma de guerra. Vemos, em cada caso, as fotografias e os vídeos das paisagens destruídas, mas raramente pensamos em todas essas imagens como parte do que poderíamos considerar a destruição do meio ambiente.

 

 

Trata-se de um viés cultural herdado: aprendemos a pensar no meio ambiente como algo fora da sociedade, e isso nos ensinou a diferenciar entre a destruição social, por um lado, e a destruição ambiental, por outro. A pergunta é: o que vemos e o que não vemos quando pensamos a relação entre a guerra e o meio ambiente dessa maneira?

 

Os ambientalistas são frequentemente solicitados para analisar o impacto da guerra na água, no solo e na atmosfera; descrições detalhadas de como a guerra impacta os ecossistemas. No entanto, esta questão ofusca o mais importante da mensagem ecológica: a de que não só aspira a mudar a forma como olhamos para fora, mas também de olharmos para dentro. Por isso, o chamado ao cuidado da vida que o ecofeminismo contemporâneo encarna é aquilo que Michel Foucault chamaria de uma forma de cuidado de si, dentro da qual a maneira como tratamos a nós mesmos define em grande medida a maneira como cuidamos ou descuidamos do meio intersubjetivo no qual nos encontramos imersos.

 

Digamos de uma vez por todas, e vamos puxando o fio até encontrar o verme atrás da seda: não estamos apenas no meio ambiente; nós somos o meio ambiente. A guerra não impacta apenas o meio ambiente; é uma catástrofe ambiental. No entanto, falar dos impactos ambientais da guerra difere substancialmente de falar da guerra como catástrofe ambiental. Vamos confrontar uma com a outra e ver o que acontece.

 

1. O olhar exterior

 

O Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (CEOBS) classifica os impactos da guerra em três categorias: anteriores, simultâneos e posteriores ao conflito armado. Obviamente, todos eles se entrelaçam, se acumulam e se retroalimentam. Antes, durante e depois, a guerra já deixou uma marca indelével na Terra. As mais de 2.000 bombas nucleares detonadas sobre a terra, por exemplo, deixaram uma marca radioativa irreversível na composição da atmosfera. No entanto, tal classificação tem a vantagem inquestionável de não reduzir os impactos ambientais da guerra àqueles produzidos pelo efeito imediato de um conflito. Como os concertos das grandes orquestras, as guerras são preparadas e ensaiadas muito antes de serem executadas.

 

Impactos anteriores

 

O impacto da construção, manutenção e transporte de forças e ativos militares produz enormes quantidades de emissões e dejetos. Também consome enormes quantidades de recursos. O uso permanente do solo para testes militares não é menos extenso. Em Bombing for biodiversity, Rick Zenteiz e David Lindenmayer assinalam algo impactante: 1% da superfície terrestre é usado como áreas de treinamento militar. Em muitos casos, o uso militar ignora ou impede o reconhecimento de um território, rio, vale ou montanha como área ecológica protegida. O treinamento militar gera emissões, perturba as paisagens e os habitats terrestres e marinhos. Os veículos e os explosivos geram contaminação química e sonora pelo uso de armas. Os mares se transformam em depósitos de munição, e os dejetos carregam consigo grandes quantidades de compostos químicos altamente poluentes. As enormes quantidades de combustíveis fósseis consumidos pelos exércitos apenas para seu deslocamento explicam por que o Pentágono é o maior consumidor institucional do mundo. É por isso que muitas vezes se costuma assinalar, entre outras coisas, que a militarização da crise climática é como apagar um incêndio com gasolina. Neste caso, o planetário. Para pensar no volume dos efeitos ligados aos testes militares, os números podem ajudar: o Exército dos Estados Unidos tem 2.363.675 soldados, 13.762 aviões e 5.884 tanques de combate.

 

Impactos dos conflitos. Destruição, danos, vazamentos, emissões, resíduos

 

O impacto ambiental de um conflito varia de acordo com quem luta, onde e como, ou seja, o que ataca e o que não ataca (neste caso, é aconselhável atirar no pianista antes do reator). Conforme assinala o Observatório, “os incidentes graves de poluição podem ocorrer quando as instalações industriais, petrolíferas ou energéticas são deliberadamente atacadas, inadvertidamente danificadas ou interrompidas”. Os conflitos de alta intensidade consomem grandes volumes de combustível, o que causa as emissões de CO2 e os mencionados impactos. A movimentação de veículos em grande escala provoca grandes impactos na paisagem e no território, que é multiplicado pelo uso de explosivos.

 

Os conflitos com bombardeios sistemáticos sobre populações civis geram enormes quantidades de escombros e entulhos, bem como a necessidade de restaurar enormes quantidades de material. Entre as ruínas, o acesso fácil às armas estimula a violência e diminui a probabilidade de cooperação pacífica. Aumenta a insegurança em populações vulneráveis. Promove a caça furtiva como mecanismo de adaptação à destruição dos tecidos econômicos. O desmatamento – como se viu na guerra no Iêmen – está aumentando em consequência da dependência das comunidades da madeira e do carvão para aquecimento. E isso reverte, mais uma vez, no aumento das emissões de gases de efeito estufa. Um mal absolutamente menor comparado a morrer de frio, mas cumulativo.

 

Impactos posteriores

 

A permanência de minas antipessoais nos territórios é o exemplo mais macabro: por causa dessas práticas, jogar futebol em determinados países é um esporte arriscado. As substâncias químicas penetram no solo e poluem a água. Além da perda de vidas e colheitas, isso agrava a fome que se segue às guerras. A crise demográfica, a água contaminada ou os efeitos da radiação podem ter efeitos ambientais décadas após o conflito, a começar pelas gigantescas e abruptas migrações que os conflitos provocam. Os campos de refugiados são, por definição, assentamentos imprevistos, o que repercute na superação da capacidade de suporte dos ecossistemas.

 

2. O olhar interior

 

Após um conflito, a transição da guerra para a paz envolve a estabilização de um regime de autoridades que emerge de ecossistemas sociais danificados. Corrupção, baixo controle estatal, presença de armas espalhadas, ódios e rancores cristalizados dos conflitos, pobreza, sede e fome: tudo isso favorece a existência de comunidades desfeitas e obstrui – como o sal na terra – o crescimento das subjetividades e dos comportamentos capaz de reconstruir as comunidades. Como aponta o CEOBS: “A atenção às questões ambientais em face das muitas prioridades sociais e econômicas concorrentes entre si é muitas vezes limitada”; o que narra a competição social pelos recursos disponíveis e estabelece as bases para os problemas ambientais subsequentes. Ou seja: há um limite para o que podemos fazer com os números.

 

 

Diante da dimensão subjetiva da relação entre a guerra e o meio ambiente, os números tornam-se inúteis. A guerra entristece, mas não sabemos somar tristezas. A própria regra de três nos diz que a perda populacional não é apenas uma perda numérica. Imagine que em uma cidade apenas quatro pessoas morram em consequência de uma única bomba. Alguém poderia dizer: “quase nada”. Mais tarde descobrimos que eram quatro pessoas de uma família de cinco. O sobrevivente não incorreria em nenhuma falha aritmética se dissesse: “Perdi tudo”. Entre esse “nada” dos estadistas e esse “tudo” dos parentes ou amigos, há uma lacuna que os números não podem preencher. E esse abismo é justamente a diferença que não pode ser ignorada para se compreender a dimensão subjetiva do meio ambiente. Não por acaso, falamos de ambientes alegres e festivos, tristes e hostis; essas atmosferas que os cães parecem saber cheirar e acompanhar melhor que os humanos. O impacto ambiental da guerra também é transformar meios e atmosferas alegres em escombros emocionais.

 

Porque, ao contrário dos números, os organismos choram, recordam a dor, retêm a raiva, racionalizam-na, organizam-na e descarregam-na décadas depois dos conflitos armados. As formas beligerantes da subjetividade masculina proliferam, enquanto as pacíficas e compreensivas recuam. A violência patriarcal é reforçada e o ódio é perpetuado. Em base a esse lamaçal, as máfias e os grupos paramilitares tiram proveito e moldam as novas formas de cooperação social. Os soldados derrotados serão humilhados e encontrarão nos outros a razão de sua derrota. Qual ultranacionalismo não nasce de uma nação indignada?

 

Aprendamos com as guerras civis e mundiais do século XX. Na Alemanha, muitos dos militares ultranacionalistas da Primeira Guerra Mundial formaram grupos paramilitares de reserva (contornando assim os limites impostos à remilitarização da Alemanha no Tratado de Versalhes). Essas mesmas reservas foram posteriormente absorvidas, organizadas e mobilizadas pelo Partido Nacional-Socialista. Na Espanha, a humilhação da perda das colônias é a antessala sentimental de um exército revanchista que não desistiu de tentar restaurar glórias perdidas: a sequência de golpes vitoriosos e malsucedidos que levaram à Guerra Civil. Na atual guerra entre a Rússia e a Ucrânia, Putin não luta contra a extrema direita: ele a cultiva. E se ele conseguir vencer essa batalha, se conseguir expandir o ultranacionalismo ucraniano dentro da Ucrânia ultrajada, terá ganhado a guerra, porque a Ucrânia já não terá cabimento entre as democracias da União Europeia.

 

A humilhação militar é a semente “subjetiva” de futuros conflitos. “Latência” é a palavra-chave aqui. Quando olhamos para a história das sociedades, vemos guerras abertas e latentes; guerras que surgem porque já estavam aí, à espera de uma oportunidade para eclodir. Essa promessa de morte e catástrofe ambiental não pode ser capturada pela ciência natural, mas pela história, filosofia e ciência política. Moral da história: parar um soldado sedento de glória pode significar uma queda significativa nas emissões de CO2.

 

3. O grande desafio: entrelaçar o olhar interior e exterior

 

A pergunta é: se não valorizamos a destruição do meio ambiente em tempos de paz, como vamos justificar sua proteção em tempos de guerra? Em tempos de paz, a ciência descreve uma árvore, mas nada na descrição pacífica dessa árvore sugere que ela não deve ser cortada em pedaços. Como diz Robin Wall Kimmerer em Una trenza de hierba sagrada [Uma trança de capim doce], até nossa gramática é cúmplice dessa degradação do meio ambiente esvaziado de valor e dignidade: “Quando um bordo é isso, nada nos impede de pegar a motosserra. Quando é ele, pensamos duas vezes”.

 

Se o meio ambiente não fosse essa “coisa externa que nos cerca”, o impacto ambiental que as sociedades ricas normalizaram como relação normal com a natureza (em tempos de paz capitalista) de repente poderia parecer algo monstruoso.

 

 

A pesca de arrasto que destrói o fundo do mar, a pecuária intensiva que encurrala a biosfera, as monoculturas que destroem sua biodiversidade, os pesticidas que a envenenam, o fraturamento hidráulico que a perfura ou a mineração a céu aberto que a destroça: a paz capitalista, assim como as guerras do capitalismo, não apenas impacta o meio ambiente; é uma catástrofe ambiental. Porque a exterioridade do olhar científico (que objetiva e coisifica a natureza) não é apenas uma ferramenta a serviço do domínio técnico da realidade, mas também um escudo psicológico que inibe, apaga ou neutraliza a carga moral do modo como maltratamos os ecossistemas terrestres. Contra esses maus-tratos, a impotência das espécies ameaçadas de extinção é proporcional à impotência de um orangotango enfrentando uma retroescavadeira.

 

Evidentemente, uma civilização não muda sua gramática da noite para o dia. E já começamos a desmantelar as bases culturais da gramática produtivista e desenvolvimentista que herdamos do século XX. Porque a ética ambiental sem informação científica só pode ser ingênua, e a ciência sem compromissos éticos e subjetivos com seus objetos de estudo nada mais é do que documentação. O biólogo e cientista ambiental Fernando Valladares disse isso claramente na Rebelión Científica, em 06 de abril passado: “Com um relatório de três mil páginas só podemos documentar o que acontece”. Para não se limitar a documentar o que está acontecendo, cientistas de todo o mundo estão deslizando para a desobediência civil. Afinal, nenhuma masmorra é tão assustadora quanto o aumento do nível do mar. E como diz Naomi Klein: o medo só paralisa quem não sabe para onde correr.

 

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