“Os movimentos populares são considerados pelo magistério pontifício como um sinal dos tempos”. Artigo de Emilce Cuda

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12 Fevereiro 2021

“Os movimentos populares não são corpos à mera disponibilidade. São comunidades organizadas capazes de impedir o momento populista. O sofrimento injusto os movimenta a se unirem para se salvar e dar forma política ao caos como luta por justiça. Por isso, são considerados pelo Pontifício Magistério como um sinal dos tempos, porque são uma experiência comunitária de salvação”, escreve Emilce Cuda, doutora em teologia moral social pela Pontifícia Universidade Católica Argentina, em artigo publicado por Religión Digital, 11-02-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

 

É surpreendente que justamente em 06 de janeiro, dia da Festa de Reis, um rei viking tenha se sentado no trono da democracia. A epifania, festa religiosa cristã, é a manifestação do Deus pessoa, que se encarna, se faz visível e diz: eu sou e aqui estou. Ademais, revela-se ao mundo pagão, não judeu, todo um sinal de pluralidade.

Curiosamente, a irrupção do povo no espaço público também é conhecida como manifestação. É o momento em que o povo, que não tem representação, faz-se visível politicamente, aparece de corpo presente, e diz em linguagem simbólica: aqui estamos. Tal coincidência de maneira algum deve ser considerada como um sinal teológico político, porém dá o que pensar. Nem tudo é loucura ou blasfêmia.

Agora bem, o que significa a exibição dos corpos no espaço público, o espaço do político. Muito simples: quem já não se sente representado pela palavra, expressa-se com o corpo. A manifestação popular do corpo presente emerge como consequência de uma crise de representação política e econômica.

O liberalismo, de esquerda e de direita, governa por mediação. Um corpo parlamentar representa, por um sistema de partidos políticos, aqueles que tem uma parte dos bens comuns. Os movimentos populares, pelo contrário, são a forma política que cresce à margem do sistema, sem partido que os represente. É a forma não partidária que assume a organização dos que não tem parte nos bens comuns.

Os movimentos populares, a falta de representação, saltam a mediação e se manifestam de corpo presente. Não por isso são uma massa inorgânica e saqueadora. Diante da ameaça de morte por exclusão social mobilizam-se e aparecem, por um momento, como um povo. Mobilizam-se por sonhos, não por medos; por isso reivindicam direitos e não seguridade. Conformam-se a partir de uma emoção comunitária, ou amizade social, que os permita pensar, se organizar e fazer juntos. A epifania popular, enquanto manifestação organização dos corpos desprezados – esses que até agora são somente contabilizados como gasto público –, longe de ser obscena, constitui o momento político de reivindicação por participação nos processos de tomada de decisões sobre o destino dos bens comuns.

No entanto, nem todo excesso simbólico dos corpos no espaço público deve ser interpretado como movimento popular organizado a partir da decisão comunitária de se unir para se salvar. O momento político pode também ser o momento do caos, no qual qualquer deus mortalis capitalize o descontentamento popular desarticulado e o organize do seu modo até se sentar no trono da democracia. A organização política dos descartados, por eles mesmos e a partir das suas próprias necessidades, pelo contrário, é uma forma de prevenir o caso; trata-se de converter a paixão dos corpos em ação comunitária.

Compreender a política como forma é pré-moderno; hoje é entendido como relações de força. Porém, os movimentos populares se definem como uma forma de organização comunitária, não partidária, articulada por necessidades e não por interesses. Isso porque a percebem como a única forma de organização possível em um cenário de ampla desigualdade social e alto índice de desemprego, o que impossibilita a organização partidária. Na política como forma, prevalece a harmonia do diferente, não a ideia, e isso facilita a organização das periferias.

Na política, como relações de força, prevalece a tensão. É o sistema partidário como forma de organização liberal – tanto de esquerda quanto de direita – mas isso só é possível em uma sociedade com desenvolvimento industrial avançado e pleno emprego, que permite o diálogo social entre os setores produtivos. A harmonia é mais funcional em um espaço de trabalho socialmente desorganizado. Gere melhor com as diferenças, até tocar a música dodecafônica da democracia com a participação de todos os setores, inclusive os da economia popular.

Os movimentos populares não são corpos à mera disponibilidade. São comunidades organizadas capazes de impedir o momento populista. O sofrimento injusto os movimenta a se unirem para se salvar e dar forma política ao caos como luta por justiça. Por isso, são considerados pelo Pontifício Magistério como um sinal dos tempos, porque são uma experiência comunitária de salvação. Pensá-los como o subsolo do planeta do qual pode emergir uma nova energia moral não é poesia latino-americana. Segundo o magistério conciliar, o sensus fidelium – ou instinto de fé – capacita também o povo como sujeito comunitário de discernimento social.

Voltando à cena do Capitólio, tudo parece indicar que, por enquanto, o liberalismo não é capaz de ordenar o caos se conseguirem profanar seu trono apenas no dia dos reis. No entanto, existem antecedentes. O primeiro movimento popular a reivindicar direitos políticos e econômicos, por aqueles que eram civilmente desconhecidos do liberalismo, surgiu entre os trabalhadores católicos nos Estados Unidos durante o século XIX.

Com sua luta pública, seguindo os princípios evangélicos, deram forma democrática à primeira república moderna. O que foi chamado desdenhosamente de americanismo foi promovido por bispos jesuítas de origem iraniana. Essa forma política foi de Baltimore a Roma, deu origem à primeira encíclica social Rerum Novarum e reaparece no início da Fratelli Tutti: “Venho propor um modo de vida com sabor de Evangelho”.

Alexis de Tocqueville, um pós-católico, fala da democracia na América, e não da república como os americanos a chamavam. Diante de uma desigualdade que surgiria inexoravelmente em decorrência do novo sistema econômico industrial, prioriza o modo de vida democrático enraizado nos costumes religiosos do primeiro Estado laico, à tensão republicana.

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