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01 Dezembro 2021

 

“Temos que dar três passos: um à frente a favor do feminismo, um para trás em nossos privilégios e um passo ao lado para acompanhar as mulheres feministas que há séculos abrem o caminho para a igualdade e nos convidam a percorrê-lo junto com elas”, escreve Miguel Lorente Acosta, médico e professor na Universidade de Granada, em artigo publicado por Rebelión, 27-11-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

Nós, homens, devemos dar três passos: um passo à frente em direção ao feminismo, um passo para trás em nossos privilégios e um passo ao lado para acompanhar as mulheres feministas no caminho para a igualdade.

 

O androcentrismo que nos define como cultura significa que tudo gira em torno do que nós, homens, consideramos adequado para nós e para o resto da sociedade. Essa referência faz com que a nossa zona de conforto não se restrinja a um determinado território ou espaço, e que seja a própria realidade a atuar como tal sob os critérios e decisões que, em cada momento, situaram o masculino como referência universal.

 

Nós, homens, não precisávamos de lugares e nem de habitações próprios porque qualquer lugar era apropriado para exercer a masculinidade, do público ao privado, do particular ao comum, mas também para nos apropriar de tudo o que havia em cada um desses espaços, por um lado, os bens e as coisas e, por outro, as pessoas que os habitavam, especialmente as mulheres por ser a referência de contraste sobre a qual levantamos nossa identidade.

 

Não obstante, cientes da injustiça que tudo isso significava, para evitar qualquer tipo de conflito ou enfrentamento aberto, as mulheres foram apresentadas como livres na hora de decidir o que a cultura previamente lhes havia imposto atendendo à sua condição e capacidades, também classificadas pela própria construção cultural, como de forma muito gráfica apareceu nas palavras do eurodeputado polonês no Parlamento Europeu, Janusz Korwin Mikke, quando disse que elas tinham que receber menos do que os homens porque eram “mais frágeis e menos inteligentes”.

 

Desse modo, durante séculos, as meninas não puderam ir à escola, as jovens não puderam entrar na universidade, as mulheres não puderam trabalhar, depois, começaram a ter esse espaço com a permissão do pai e do marido, e agora são livres nesse sentido, mas com menos oportunidades, mais precariedade, menos salário, e sempre com a sobrecarga do trabalho doméstico e os cuidados e responsabilidades que nós, homens, não incorporamos com igualdade.

 

Tudo isso reflete que enquanto as mulheres, de mãos dadas com o feminismo, foram dando passos em direção à igualdade e os direitos humanos, nós, homens, ficamos girando em torno de nós mesmos para manter os privilégios sobre a injustiça social, projetada a partir da normalidade androcêntrica.

 

Sob essas referências sociais, se as mulheres não trabalham não é porque não possuem as mesmas oportunidades trabalhistas, mas porque é o normal; se não ocupam posições de poder e responsabilidade, não se deve à falta de reconhecimento e confiança, mas porque é o normal; se sofrem a violência dos homens em diferentes contextos e circunstâncias, não é pelo machismo e a cumplicidade repleta de justificações, mitos e estereótipos presentes na sociedade, mas porque é o normal.

 

Por isso, as mulheres avançam decididas com seus passos e nós, homens, giramos em torno de nós mesmos. E por essa razão, quando um homem muda algo dentro do modelo androcêntrico, é dito que “inova”, ao passo que quando é uma mulher que muda algo, é dito que “trai” ou “ataca”. Algo semelhante a quando os homens propõem uma medida e dizem que a fazem em favor de toda a sociedade e, ao contrário, quando as mulheres concebem alguma iniciativa, comenta-se que agem “contra os homens” e em “benefício particular”.

 

A visão tão enviesada e limitada que os homens têm da realidade diz muito pouco da inteligência masculina que presumimos possuir. Tanto no caso em que incapacidade para ter consciência se deve à impossibilidade de integrar os dados objetivos das manifestações mais graves da desigualdade, como quando está relacionada à incapacidade de entender que uma situação sistemática e repetida, ano a ano, não pode ser fruto do azar, nem de alguns poucos homens, e que deve haver um contexto social e elementos comuns que facilitem sua continuidade em diferentes momentos e circunstâncias.

 

Porque a realidade é objetiva com as mais de 50.000 mulheres assassinadas por ano no âmbito das relações entre casais e familiares (ONU, 2019), as 51 milhões de mulheres que sofrem violência física na União Europeia, as 110 milhões que sofrem violência psicológica ou as 33 milhões de mulheres que sofrem violência sexual (FRA, 2014).

 

Uma realidade definida sobre a desigualdade e toda a sua injustiça social nunca pode ser boa para o objetivo de uma sociedade, que é a convivência. Nem sequer para os que possuem privilégios.

 

Por isso, a sociedade avança cada vez mais para a conquista da igualdade e nada e ninguém vai evitá-la, como antes não conseguiram impedir o alcance do atual marco de convivência, apesar de todo o dano e dor infligida. Está em nossas mãos sermos partícipes desse processo transformador da cultura para consolidar e ampliar a democracia, ou ficarmos à margem dele, e acredito que a única opção factível é fazer parte da transformação em favor da igualdade.

 

Por isso, temos que dar três passos: um à frente a favor do feminismo, um para trás em nossos privilégios e um passo ao lado para acompanhar as mulheres feministas que há séculos abrem o caminho para a igualdade e nos convidam a percorrê-lo junto com elas.

 

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