Cada palavra de Leão XIV tem significado político. Sua viagem à Espanha confirma isso. Artigo de Marco Politi

Papa Leão | Foto: Vatican Media

17 Junho 2026

No confronto com o presidente Trump, o Papa das Américas fez ouvir a sua voz e agora, após a viagem à Espanha, ninguém pode fingir ignorar o caminho que Leão está conduzindo a Igreja.

O artigo é de Marco Politi, escritor e especialista em Vaticano, publicado por Il Fatto Quotidiano, 16-06-2026.

Eis o artigo.

A viagem à Espanha confirmou Leão XIV como uma figura de estatura internacional. Foi como se ele finalmente tivesse saído de sua concha. Em retrospectiva, os meses de seu pontificado em 2025 — condicionados pelos eventos do Jubileu — podem ser considerados uma espécie de período de adaptação. Muitos fiéis de diversas nações frequentemente diziam: "Gosto deste papa, mas ele não se faz notar", expressando a necessidade de uma presença mais forte.

Em seu confronto com o presidente Trump, o Papa das Américas fez ouvir a sua voz e, agora, após a sua viagem pela Espanha, ninguém pode ignorar a direção que Leão XIV está dando à Igreja. Ele delineou claramente os pilares do debate: paz e multilateralismo, rejeição da corrida armamentista, respeito absoluto pela dignidade dos migrantes, aliado ao objetivo da integração e à retomada da cooperação internacional para fomentar o desenvolvimento econômico dos países de origem da emigração em massa.

"Antes de lhes dizer qualquer outra coisa, quero me curvar diante da vossa dignidade", exclamou Leão em Gran Canaria, dirigindo-se aos migrantes. Viver a fé — declarou ele na Praça de Cibeles, em Madri, durante a celebração da missa — significa "ajoelhar-se diante de Deus e diante do próximo, porque ninguém pode ajoelhar-se diante do Senhor e desprezar o seu irmão". Estas palavras firmes e claras colocam a Igreja Católica em oposição aos movimentos na Europa e na América que apelam à remigração: contra o MAGA de Trump nos Estados Unidos, contra o Reform UK e o Restore Britain na Grã-Bretanha, contra o Alternative für Deutschland na Alemanha,  contra o Vox na Espanha, contra o Rassemblement National na França, contra o Futuro Nazionale de Vannacci e contra os grupos xenófobos presentes na Liga e nos Irmãos de Itália, na Itália.

É inútil que pessoas aqui e ali rezem o terço ou cantem a Oração do Paraquedista (1): o Papa enfatizou aos bispos espanhóis o risco de subjugar a fé a ideologias. Em todo caso, reiterou, qualquer forma de discriminação étnica, religiosa ou linguística é inaceitável. Somente com base no respeito à dignidade humana é possível desenvolver soluções concretas: desde corredores de acesso legal até iniciativas para concretizar o "direito de permanecer em sua própria terra".

Igualmente claras foram as palavras proferidas para a construção da paz, ditas primeiro perante o corpo diplomático e depois perante as Cortes. Imediatamente, colocaram em causa aqueles que consideram o discurso da paz "ingênuo... (ou) provocativo" e aqueles que se limitam a "ideologias pré-fabricadas". Leão denunciou os políticos que buscam popularidade "alimentando as chamas da polarização". O que se faz necessário hoje, explicou, é coragem diplomática, respeito pela identidade de cada povo e a resolução de conflitos pelos "caminhos pacíficos oferecidos pelo direito internacional".

É evidente que estas não são exortações moralistas. Cada palavra tem uma conotação política. Basta considerar o recente ataque israelense-americano ao Irã para compreender a importância de escolher, ou não, um método de resolução de disputas de acordo com as normas do direito internacional. De um lado, o método da negociação; do outro, a "cultura do poder" e o suposto direito do mais forte, amplamente denunciados na encíclica Magnifica Humanitas.

Esses são conceitos que merecem uma discussão aprofundada nos parlamentos nacionais. E, em todo caso, garantem a Leão o apoio de uma grande parcela da opinião pública europeia e americana, bem como um apoio significativo do Sul Global. Não se deve esquecer que, no início de sua viagem, o pontífice afirmou categoricamente que "os elementos de uma guerra justa não são encontrados no Irã".

O terceiro elemento desta teologia política diz respeito à corrida armamentista. Leão XIV não usa termos genéricos. Em discurso a parlamentares espanhóis, afirmou ser "preocupante que, em várias partes do mundo, incluindo a Europa, o rearme esteja ressurgindo como uma resposta quase inevitável à fragilidade do cenário internacional". A segurança de todos, afirma o Papa com firmeza, provém da justiça, do diálogo paciente e do respeito pelo direito internacional.

Essas são palavras que, em Bruxelas, capital da OTAN e da União Europeia, são descartadas como homilia piedosa. Mas não é o caso. Prevost é um pontífice que considera a Aliança Atlântica um elemento positivo da ordem mundial e vê com bons olhos a União Europeia. Contudo, ao mesmo tempo, ele levanta uma questão fundamental: "A verdadeira segurança surge... de uma política capaz de colocar a vida dos povos acima dos interesses que lucram com a guerra". É evidente que, com sua perspectiva teológica e cultural, sua calma, sua serenidade, sua precisão (sem negligenciar pontos como a defesa da vida dos nascituros ou a proteção do sigilo da confissão), Robert Francis Prevost está desenvolvendo o cerne dos temas impactantes trazidos ao cenário mundial por seu antecessor Bergoglio: migrantes, paz, rejeição da corrida armamentista, justiça social e proteção ambiental.

A extrema-direita eclesiástica, que acusou Francisco de reduzir a Igreja a uma ONG, está atônita por permanecer em silêncio. Isso também se deve ao fato de Leão XIV estar incentivando os bispos do mundo a agirem de forma colegiada. Para o encontro do G7, os presidentes das conferências episcopais dos países participantes já lançaram um apelo intitulado: "Construindo pontes para a paz, a justiça e a dignidade humana". Aqueles que, no último conclave, esperavam o retorno de uma Igreja espiritualizada, perderam.

Nota

1.- A Prece do Paraquedista, também conhecida como Oração do Paraquedista é um poema francês encontrado na posse do autor, Aspirante a oficial paraquedista André Zirnheld, após a sua morte na Líbia, em 27 de julho de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. (Nota do IHU)

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