Magnifica Humanitas, a encíclica de Leão XIV, revela-se um evento inédito para um documento papal. Artigo de Marco Politi

Fotos: Ben Sweet/Igor Omilaev | Unsplash

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27 Mai 2026

"Vale ressaltar que a encíclica não se dedica exclusivamente à IA, mas sim às principais questões sociais e geopolíticas da era da inteligência artificial. Temas como migração, pobreza, desigualdade crescente, marginalização, proteção ambiental e a preocupação com a manipulação das comunicações são abordados com o mesmo radicalismo que inspirou papas como Francisco ou João Paulo II", escreve Marco Politi, escritor e especialista em Vaticano, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 26-05-2026.

Eis o artigo.

Não se trata simplesmente da divulgação de um documento, mas de um ato solene e impactante. Em termos de conteúdo, a Igreja busca se colocar no centro dos processos tecnológicos, políticos e sociais em curso.

O Vaticano queria que a primeira encíclica de Leão XIV fosse um "evento". Não a simples divulgação de um documento, mas um evento solene e dramático no novo Salão Sinodal, com o pontífice sentado em seu trono e a cátedra ornamentada do lado de fora, ladeado por três cardeais, duas teólogas — uma inglesa, o outro congolesa — e o cofundador (Christopher Olah) de uma das empresas de IA mais influentes do mundo: a Anthropic, que entrou em conflito direto com o governo Trump por sua recusa em fornecer ao Pentágono os meios para atacar alvos civis sem controle e realizar vigilância em massa indiscriminada.

Acima da longa mesa, um telão exibia trechos de discursos de papas que defenderam a doutrina social da Igreja, a começar por Leão XIII, além de imagens de cenas extremas de guerra e pobreza. Em sua mesa, o Papa Prévost podia se ver em um pequeno telão, discursando ou abraçando fiéis durante sua recente viagem à África. Do outro lado, uma densa plateia de dignitários eclesiásticos e civis se aglomerava.

Um espetáculo sem precedentes para a publicação de um documento papal: algo entre uma conferência e o lançamento de uma nova invenção. Steve Jobs pode até ter estado presente para presidir a tudo, observou um jornalista francês.

Em termos de conteúdo, Magnifica Humanitas coloca a Igreja Católica no centro dos processos tecnológicos, políticos e sociais em curso. Robert Francis Prévost, em estreita ligação com seu antecessor Francisco, que há onze anos publicou sua encíclica verde Laudato si', capta com precisão o momento histórico e, em uma era de caos e brutalidade (geopolítica) e do desejo desenfreado de poder e desregulamentação por parte dos magnatas da tecnologia, estabelece firmemente a importância do respeito absoluto à dignidade humana e do controle estatal e social dos mecanismos tecnológicos que podem levar (e frequentemente levam) à dominação de uma pequena elite e à marginalização de uma massa de "descartados".

Não à dominação das tecnocracias e à manipulação do indivíduo é o conceito fundamental. Essencialmente, a encíclica é um manifesto que se opõe aos desejos onipotentes daqueles que querem travar guerras à vontade e moldar a sociedade de acordo com a prioridade absoluta de seus próprios interesses privados. Nesse sentido, o papa americano, além de se enquadrar perfeitamente nos princípios da doutrina social católica, demonstra um forte compromisso com a cultura europeia do Estado como supremo regulador social, salvaguardando todos os cidadãos. Magnifica Humanitas, desde o título, rejeita qualquer medo paralisante da inovação tecnológica e, ao mesmo tempo, o próprio subtítulo, "Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial", revela que a pedra de toque para o uso de qualquer inovação reside em saber se ela promove ou não o desenvolvimento da pessoa humana e da sociedade como um todo.

A encíclica é extremamente realista. "Pequenos grupos altamente influentes", escreve Leão, "podem influenciar a informação e o consumo, influenciar os processos democráticos e influenciar a dinâmica econômica em seu próprio benefício, contradizendo a justiça social e a solidariedade entre os povos". Questões vitais relativas ao emprego, crédito, acesso a serviços e reputação das pessoas não podem ser totalmente confiadas a sistemas automatizados. Porque os sistemas não são neutros. A corrida por resultados e a simulação da comunicação podem dar a impressão de objetividade, mas não são objetivas de forma alguma, porque refletem os parâmetros daqueles que projetaram o sistema.

Daí a necessidade de verdadeira transparência nos processos e, em última análise, a importância de um nível em que "aqueles que são responsáveis ​​pelas decisões as justifiquem, as monitorem e, quando necessário, as contestem e remediem os danos resultantes". Isso exige, como Francisco já afirmou na reunião do G20 convocada na Puglia pelo primeiro-ministro Meloni em 2024, a intervenção do Estado e dos políticos para estabelecer regras precisas e uma supervisão independente. Caso contrário, o Papa Leão XIV afirma claramente, a mudança será governada por forças tecnocráticas que tendem a apresentar sua dominação como um processo inevitável, "acabando por impor regras ditadas por aqueles que detêm os dados, a infraestrutura e o poder computacional".

Vale ressaltar que a encíclica não se dedica exclusivamente à IA, mas sim às principais questões sociais e geopolíticas da era da inteligência artificial. Temas como migração, pobreza, desigualdade crescente, marginalização, proteção ambiental e a preocupação com a manipulação das comunicações são abordados com o mesmo radicalismo que inspirou papas como Francisco ou João Paulo II. Contudo, o fato de ser um pontífice americano a expressar julgamentos tão incisivos torna impossível acusá-lo de ser antiamericano, alheio à modernidade ou incapaz de compreender o Ocidente.

Com a Magnifica Humanitas, o papado católico apresenta-se mais uma vez como uma entidade espiritual e geopolítica capaz de dialogar com todas as nações, do Hemisfério Norte ao Sul Global. A temática da guerra recebe atenção especial. Leão critica duramente a "política de poder", o fervor ideológico de dividir o mundo entre bons e maus, a corrida armamentista e a tendência de deslizar para a guerra como se fosse uma continuação normal da política. Aqui também, o papel da inteligência artificial deve ser cuidadosamente examinado. Não é possível, declara Leão, confiar decisões letais e irreversíveis a sistemas automatizados que nos privam da responsabilidade.

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