África. As guerras e mortes esquecidas. Artigo de Fernando Ayala González

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06 Junho 2026

“Estima-se que o número de mortos desde 2020 se aproxime de meio milhão, seja por combates, fome, massacres ou atos terroristas”. A reflexão é de Fernando Ayala González, em artigo publicado por Estrategia/CLAE, 04-06-2026. A tradução é do Cepat.

Fernando Ayala González é embaixador chileno, economista formado pela Universidade de Zagreb, Croácia, e Mestre em Ciências Políticas pela Universidade Católica do Chile. Ex-Subsecretário de Defesa. Atualmente, é professor adjunto do Instituto de Ciência Política da Universidade do Chile.

Eis o artigo.

O continente africano, com seus 1,55 bilhão de habitantes distribuídos por 54 Estados soberanos, além da República Árabe Saaraui Democrática, que busca sua independência, abrange uma área de 30,3 milhões de quilômetros quadrados e é considerado pelas instituições financeiras internacionais (Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial) o mais pobre do planeta. Cinco países ocupam os piores lugares em termos de renda e indicadores de desenvolvimento humano: Burundi, Sudão do Sul, República Centro-Africana, Malawi e Moçambique.

Este é o paradoxo do continente mais rico em recursos naturais, onde há desde ouro, diamantes, petróleo e cobre até todos os tipos de minerais estratégicos, como terras raras, cobalto e urânio, entre muitos outros. A África tem sido vítima da pilhagem de seus recursos humanos e naturais durante séculos, especialmente pelas potências europeias que a escravizaram, dividiram e exploraram. Hoje, guerras são travadas no Sudão, Congo, Sahel, Somália, Moçambique, Nigéria e Líbia, a maioria delas conflitos civis entre grupos étnicos em alguns casos, grupos religiosos em outros, ou lutas pelo poder e controle de territórios e recursos.

Estima-se que o número de mortos desde 2020 se aproxime de meio milhão, seja por combates, fome, massacres ou atos terroristas.

A chamada “Era dos Descobrimentos”, que começou no século XV com a chegada dos primeiros portugueses à costa africana, moldou tragicamente o destino do continente. A partir do estabelecimento das primeiras colônias nas ilhas da Madeira, Cabo Verde e na costa atlântica, iniciou-se o comércio de ouro, marfim, açúcar e, o mais lucrativo de todos: a caça e a venda de seres humanos. Portugal abriu rotas marítimas para o transporte de escravos e lançou as bases para os impérios coloniais que ali se desenvolveram. Estima-se que os navios portugueses transportaram cerca de cinco milhões de escravos para o Brasil e outros destinos.

O comércio rapidamente se espalhou para a Inglaterra, que transportou pouco mais de três milhões de pessoas para os Estados Unidos e o Caribe. A Espanha seguiu essa estatística macabra, transportando cerca de 1,5 milhão de escravos para a América do Sul, Cuba e outros destinos. A França registrou 1,2 milhão de escravos levados para o Haiti e outras ilhas, assim como os comerciantes holandeses. A maior parte do tráfico humano foi realizada em navios ingleses, especialmente a partir do século XVII, quando a frota britânica controlava os oceanos.

As consequências da escravidão e da exploração dos recursos naturais africanos pelas potências coloniais deixaram marcas profundas. Culturas e línguas foram divididas pelo poder colonial, ávido por suas riquezas, onde os seres humanos eram tratados como meras variáveis comerciais, mera mercadoria. Assim, durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, milhares e milhares de africanos vestiram os uniformes das potências coloniais, e muitos foram morrer em solo europeu sem entender completamente por que estavam lutando. Hoje, a mão das antigas e novas potências neocoloniais não está ausente dos conflitos civis que estão drenando o continente.

Vendas de armas, treinamento militar e interesses geopolíticos estão presentes em praticamente todos eles. No Sudão, o conflito já dura três anos, com uma disputa pelo poder para controlar a economia e os recursos naturais de um país rico em ouro e petróleo. Uma situação semelhante se desenrola no Congo, onde facções rivais se enfrentam há quatro anos para controlar a riqueza de um país rico em ouro, cobalto, outros minerais e a madeira de sua floresta tropical, explorada por empresas europeias. As raízes aqui são mais profundas devido aos persistentes interesses neocoloniais.

O Congo conquistou sua independência da Bélgica em 1960, quando Patrice Lumumba, um líder nacionalista, venceu as eleições e foi nomeado primeiro-ministro. Três meses depois, ele foi preso, torturado e assassinado em uma operação coordenada pelo governo belga e pela CIA, sob a alegação de representar uma ameaça ao tentar assumir o controle de seus recursos naturais. Hoje, interesses estrangeiros, rivalidades étnicas e a luta pelo poder estão todos presentes.

A região do Sahel, que abrange 10 países, tem três deles – Mali, Níger e Burkina Faso – em conflito desde 2012 devido a uma série de fatores, incluindo a presença de jihadistas e a exploração de urânio, lítio e ouro. Esses conflitos são agravados pelo deslocamento forçado causado pela violência, bem como pela seca, pelas mudanças climáticas e pela fome. Na Nigéria, o país mais populoso e multiétnico da África, as forças estadunidenses bombardearam bases do Estado Islâmico no noroeste do país há alguns meses. Os conflitos multiétnicos e o terrorismo aprofundaram as divisões entre cristãos e muçulmanos, deixando mais de 50.000 mortos nos últimos 15 anos.

O mundo real é implacável quando se trata de disseminar informações. Estima-se que as notícias sobre conflitos na África alcancem menos de 5% da imprensa mundial, em comparação com os quase 80% dedicados à guerra dos EUA contra o Irã, à guerra da Rússia contra a Ucrânia e à guerra de Israel contra o povo palestino e o Líbano. Diante dessa situação, é altamente improvável que a realidade na África mude a curto ou médio prazo. As projeções de crescimento populacional das Nações Unidas estimam que, até 2050, a população africana aumentará de 1,55 bilhão para 2,5 bilhões.

Se a crise climática, a insegurança alimentar e os conflitos armados persistirem ou piorarem, a única alternativa que lhes restará para se alimentar e salvar suas vidas, assim como fizeram os primeiros humanos que caminharam eretos naquele continente há mais de dois milhões de anos, será caminhar. Para onde? Para a Europa, que é a mais próxima e, em grande parte, responsável pela situação atual.

O processo de descolonização da década de 1960 não foi acompanhado por uma estrutura semelhante ao Plano Marshall, que teria ajudado a construir bases sólidas, fortalecer os Estados e desenvolver instituições que permitissem o uso racional de seus recursos. Pelo contrário, a exploração desses recursos continuou de outras formas e, hoje, ninguém se sente responsável, nem existe um plano para efetuar uma mudança real na situação, que seria – como todos sabem – o principal freio à imigração.

As agências das Nações Unidas realizam um trabalho essencialmente paliativo, respondendo a emergências, mas isso não basta; apenas atenua os momentos críticos. Por fim, um indicador que reflete a dramática realidade: a taxa de mortalidade infantil (menores de cinco anos) na União Europeia chega hoje a 4 crianças por cada 1.000 nascidos vivos. Na África, segundo a Organização Mundial da Saúde, até 2025, 71,6 em cada mil crianças morreram antes dos cinco anos de idade, principalmente no primeiro mês de vida, representando 58% da mortalidade infantil global, ou seja, mais de 2,8 milhões de crianças.

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