A inteligência artificial a serviço da guerra. Artigo de Raniero La Valle

Foto: Pexels/Canva

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06 Março 2026

"E desta vez, o freio moral, pelo menos para alguns, funcionou; não funcionou para a bomba atômica que, apesar do arrependimento dos cientistas, foi utilizada sem restrições. E amanhã? Quem poderá se opor ao domínio descontrolado da tecnologia militar "inteligente" mais desumana e destrutiva, que, aliás, já teve seus primeiros testes no genocídio de Gaza?", questiona Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado por il Fatto Quotidiano, 05-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Trump e Netanyahu não são dois loucos improvisando uma guerra contra o Irã, arriscando incendiar todo o Oriente Médio e até mesmo uma guerra mundial. E Netanyahu é naturalmente ainda menos insensato que Trump. Mas enquanto Trump for visto como um bizarro feiticeiro demente que diz qualquer coisa e o seu oposto sem saber de onde vem ou para onde vai, ninguém, muito menos a Europa, encantada pela guerra contra a Rússia via Ucrânia, entenderá qual política deve ser usada para enfrentar o atual momento estadunidense.

Os atores em campo são os Estados Unidos e Israel, com todos os seus aparatos de poder; a decisão de eliminar o Irã já havia sido tomada há tempo e apenas aguardava a consolidação da aliança entre Netanyahu e Trump para ser posta em prática, após repetidas visitas do primeiro-ministro israelense à Casa Branca. Se foi Netanyahu que arrastou Trump para a guerra ou vice-versa, é uma questão para espectadores desavisados. E o programa nuclear iraniano não tem nada a ver com isso. Em vez disso, o que é claro é a premeditação de ambos os lados: Trump, durante seu primeiro mandato, em outubro de 2017, havia descartado o acordo nuclear com o Irã, assinado em julho de 2015, argumentando que era um péssimo acordo e que o Irã o havia violado, e declarando que "o Irã é um regime fanático que apoia o terrorismo", que "Teerã jamais terá armas nucleares" e que "o mundo deve deter Teerã". A atual motivação de que o Irã poderia um dia lançar mísseis nucleares para atingir seus inimigos distantes, embora plausível para o vizinho Israel, é paradoxal e risível para os Estados Unidos, enquanto Trump lançou seu primeiro bombardeio, sem motivo, contra o Irã em junho passado, pouco depois de assumir o cargo e se proclamar digno do Prêmio Nobel da Paz: foi aquela operação que Israel batizou de "Leão ascendente" (rising lion), já em vista da atual denominação "Leão rugindo” (roaring lion).

Netanyahu, por outro lado, comparou-se a Mordecai, que triunfou sobre o rei Assuero, e evocou o rei Ciro, que libertou Israel da escravidão persa. E por duas vezes, em 2023 e 2024 e já cinco anos antes também discursando na Assembleia Geral da ONU, mostrou ao mundo que o Irã estava no mapa da "maldição". A longa premeditação, profissionalmente apoiada pelos serviços secretos, agora se aproveitou do que parecia uma boa oportunidade: os 30.000 manifestantes mortos, segundo a revista Time, pelo regime de Khamenei, prenúncio de uma revolta contra o regime.

Portanto, não se trata de uma loucura comum, mesmo que alguém seja louco por definição quando se arquitetam "indiscriminadamente a destruição de cidades inteiras ou de vastas regiões e seus habitantes, um crime contra Deus e contra a própria humanidade", como afirma o Concílio Vaticano II. Os dois senhores da guerra, portanto, não são aprendizes de feiticeiros dementes, mas estrategistas lúcidos da opressão e da dominação; e não absolve ninguém a comparação ou o paralelo entre os 3.000 ou 30.000 mortos por Khamenei e os 5.000 mortos e 10.000 torturados pela Savak e pelo , cujo filho foi preparado e patrocinado por Netanyahu para a sucessão dos aiatolás.

É claro que não se pode deixar de desejar a queda de regimes impiedosos e opressivos, mas isso não pode ser feito com a subversão vinda do exterior e com uma guerra mais brutal do que tais regimes. E agora há o extraordinário fator agravante da simbiose entre a Inteligência artificial e a guerra, que remove também o último vestígio de um controle humano. Notícias recentes indicam que a Anthropic, uma das principais desenvolvedoras de Inteligência artificial, negou ao Pentágono o direito de usá-la para fins bélicos, enfurecendo Trump, que a vê como um obstáculo "esquerdista" às vitórias de seu "grande exército". E desta vez, o freio moral, pelo menos para alguns, funcionou; não funcionou para a bomba atômica que, apesar do arrependimento dos cientistas, foi utilizada sem restrições. E amanhã? Quem poderá se opor ao domínio descontrolado da tecnologia militar "inteligente" mais desumana e destrutiva, que, aliás, já teve seus primeiros testes no genocídio de Gaza?

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