Rearmamento e guarda-chuva nuclear. A palavra a Francisco

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18 Março 2025

Os ventos de guerra, o rearmamento com o uso de enormes investimentos, as propostas de relançar armas atômicas... É realmente impressionante o modo como a corrida armamentista é apresentada na Europa e em todo o mundo, como se fosse uma perspectiva inexoravelmente necessária, a única viável.

O artigo é de Andrea Tornielli, jornalista e escritor italiano, publicado por L'Osservatore Romano, 15-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Depois de anos em que a diplomacia permaneceu em silêncio e as capacidades de negociação ausentes, parece que o único caminho viável é o do rearmamento. Pais fundadores como Alcide De Gasperi, que apoiaram a criação de um exército europeu comum, estão sendo chamados em causa para justificar iniciativas muito diferentes, que não veem a União Europeia como protagonista, mas os Estados individualmente.

Volta-se a falar de um “guarda-chuva nuclear” e de “dissuasão”, que revive os piores cenários da Guerra Fria, mas em um clima de maior instabilidade e incerteza do que no século passado, com o abismo de uma Terceira Guerra Mundial cada vez mais presente no horizonte.

Nos últimos anos, com lucidez profética, o Papa Francisco viu o perigo se aproximando. Suas palavras são esclarecedoras para entender o momento que estamos vivendo. Vamos dar voz a ele, que, como paciente internado no Hospital Gemelli, oferece seus sofrimentos e suas orações em prol da paz mundial.

“É um fato”, disse Francisco em novembro de 2017, ”que a espiral da corrida armamentista não conhece pausa e que os custos de modernização e desenvolvimento de armas, não apenas nucleares, representam um item considerável de despesas para as nações, a ponto de ter que colocar em segundo plano as verdadeiras prioridades da humanidade sofredora: a luta contra a pobreza, a promoção da paz, a realização de projetos educacionais, ecológicos e de saúde e o desenvolvimento dos direitos humanos... Os armamentos que resultam na destruição da humanidade são até mesmo ilógicos no plano militar”.

Em novembro de 2019, de Nagasaki, a cidade mártir da bomba atômica, o bispo de Roma afirmava: “Um dos desejos mais profundos do coração humano é o desejo de paz e estabilidade. A posse de armas nucleares e outras armas de destruição em massa não é a melhor resposta a esse desejo; pelo contrário, parece colocá-lo à prova continuamente. O nosso mundo vive a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base em uma falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba envenenando as relações entre os povos e impedindo qualquer diálogo possível”.

Ele acrescentava: “A paz e a estabilidade internacionais são incompatíveis com qualquer tentativa de se basear no medo da destruição mútua ou em uma ameaça de aniquilação total; elas só são possíveis a partir de uma ética global de solidariedade e cooperação a serviço de um futuro moldado pela interdependência e corresponsabilidade em toda a família humana de hoje e de amanhã”.

Também em novembro de 2019, de Hiroshima, Francisco lembrava, fazendo suas as palavras do Papa Montini, que a verdadeira paz só pode ser desarmada: “De fato, se realmente quisermos construir uma sociedade mais justa e segura, devemos deixar as armas caírem de nossas mãos: ‘não se pode amar com armas ofensivas em punho’ (São Paulo VI, Discurso às Nações Unidas, 4 de outubro de 1965, 5). Quando nos entregamos à lógica das armas e nos afastamos do exercício do diálogo, esquecemos tragicamente que as armas, mesmo antes de causar vítimas e destruição, têm a capacidade de gerar sonhos ruins, ‘exigem gastos enormes, interrompem projetos de solidariedade e trabalho útil, distorcem a psicologia dos povos’ (ibid., 5). Como podemos propor a paz se usamos continuamente a intimidação bélica nuclear como um recurso legítimo para a resolução de conflitos? Que esse abismo de dor nos lembre dos limites que nunca deveriam ser ultrapassados. A verdadeira paz só pode ser uma paz desarmada”.

A voz do Sucessor de Pedro, continuava ele, é “a voz daqueles cujas vozes nunca são ouvidas e que olham com inquietação e angústia para as crescentes tensões que atravessam nosso tempo, para as inaceitáveis desigualdades e injustiças que ameaçam a coexistência humana, para a grave incapacidade de cuidar de nossa casa comum, para o recurso contínuo e espasmódico às armas, como se elas pudessem garantir um futuro de paz”.

Além disso, a condenação não apenas do uso, mas também da posse de armas nucleares que ainda lotam os arsenais do mundo com tamanha potência que poderiam destruir toda a humanidade dezenas de vezes: “Com convicção, desejo reiterar que o uso da energia atômica para fins de guerra é, hoje mais do que nunca, um crime, não apenas contra o homem e sua dignidade, mas contra qualquer possibilidade de um futuro em nossa casa comum. O uso da energia atômica para fins de guerra é imoral, assim como a posse de armas atômicas é imoral, como já disse há dois anos. Seremos julgados por isso”.

De acordo com a Federação dos Cientistas Americanos, citada no jornal “Domani”, há 290 ogivas atômicas na Europa sob controle francês e 225 ogivas na Grã-Bretanha. Quase todas as ogivas atômicas - 88% - estão nos arsenais dos Estados Unidos e da Rússia, mais de 5.000 ogivas cada um.

Ao todo, nove países têm bombas nucleares, além dos já mencionados, China, Índia, Coreia do Norte, Paquistão e Israel. Atualmente, existem mísseis balísticos capazes de liberar um poder destrutivo mil vezes maior do que as bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945.

Cabe nos perguntar: será que realmente precisamos de ainda mais armas? Essa é realmente a única maneira de nos defendermos?

“A Igreja Católica”, disse o Papa Francisco em Nagasaki há seis anos, “está irrevogavelmente empenhada na decisão de promover a paz entre os povos e as nações: é um dever para o qual se sente obrigada perante Deus e perante todos os homens e mulheres desta terra... Na convicção de que um mundo sem armas nucleares é possível e necessário, peço aos líderes políticos que não se esqueçam de que elas não nos defendem contra as ameaças à segurança nacional e internacional de nosso tempo”.

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