Uma outra agenda (mundial): libertemos a vida ou um outro paradigma civilizatório? Artigo de Leonardo Boff

Foto: Pixabay

10 Mai 2022

 

Nota prévia

Organizou-se um grupo internacional que se propunha “uma outra agenda mundial para libertar a vida”. Realizou-se a primeira sessão no dia 5/5/2022. Cada participante (ao todo, uns 20, mas nem todos participaram) tinha 10-15 minutos para apresentar sua visão do tema. O articulador era o conhecido economista italiano, trabalhando na Comunidade Europeia, em Bruxelas. O propósito básico é como democratizar os conhecimentos científicos que reforçam a busca de uma agenda que tenha por objetivo libertar a vida. Apresento aqui minha curta apresentação, feita em francês, com as ideias que tenho proposto e defendido em outros escritos. Até agora, pelo visto, a nova agenda se situa ainda dentro do velho paradigma (a bolha dominante), não se colocando a questão da profunda crise que este paradigma, o da modernidade tecnocientífica, provocou e que está pondo em risco o futuro de nossa vida e de nossa civilização. Daí a oportunidade de expor claramente minha posição crítica e totalmente descrente das virtualidades deste paradigma de libertar a vida, que antes a está celeremente destruindo.

 

"Esse paradigma entende a Terra como mera res extensa e sem propósito, transformada num baú de recursos, tidos como infinitos, que permitem um crescimento/desenvolvimento também infinito. Ocorre que hoje sabemos cientificamente que um planeta finito não suporta um projeto infinito", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.

 

Eis o artigo.

 

Vou direto ao ponto: dentro do atual paradigma civilizatório, da modernidade, é possível outra Agenda, ou tocamos nos seus limites intransponíveis e temos que buscar um outro paradigma civilizatório se quisermos continuar ainda viver sobre este planeta?

 

Minha resposta se inspira em três afirmações de grande autoridade.

 

A primeira é da Carta da Terra, assumida pela UNESCO em 2003. Sua frase de abertura assume tons apocalípticos: “Estamos diante de um momento crítico da história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro... A nossa escolha é: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida” (Preâmbulo).

 

A segunda afirmação severa é do Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti (2020): “estamos no mesmo barco, ninguém se salva por si mesmo, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (n. 32).

 

A terceira afirmação é do grande historiador Eric Hobsbawn em sua conhecida obra A era dos extremos (1994), em sua frase final: "Não sabemos para onde estamos indo. Contudo, uma coisa é certa. Se a humanidade quer ter um futuro aceitável, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão” (p.562).

 

 

Em outras palavras: o nosso modo de habitar a Terra, que inegáveis vantagens nos trouxe, chegou ao seu esgotamento. Todos os semáforos entraram no vermelho. Construímos o princípio da autodestruição, podendo exterminar toda a vida com armas químicas, biológicas e nucleares por múltiplas formas diferentes. A tecnociência que nos fez chegar aos limites extremos de suportabilidade do planeta Terra (The Earth Overshoot) não tem condições, por si só, como mostrou a Covid-19, de nos salvar. Podemos limar os dentes do lobo pensando que lhe tiramos, ilusoriamente, sua voracidade. Mas esta não reside nos dentes, mas em sua natureza.

 

Portanto, temos que abandonar o nosso barco e ir além de uma nova agenda mundial. Chegamos ao fim do caminho. Temos que abrir um outro diferente. Caso contrário, como disse em sua última entrevista antes de morrer Zygmunt Bauman: “vamos engrossar o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”. Somos forçados, se quisermos viver, a nos recriar e reinventar um novo paradigma de civilização.

 

 

Dois paradigmas: do dominus e do frater

 

Vejo nesse momento o confronto entre dois paradigmas: o paradigma do dominus e o paradigma do frater. Em outra formulação: o paradigma da conquista, expressão da vontade de poder como dominação, formulada pelos pais fundadores da modernidade com Descartes, Newton, Francis Bacon, dominação de tudo, de povos, como nas Américas, na África e na Ásia, dominação das classes, da natureza, da vida e dominação da matéria até em sua última expressão energética pelo Bóson de Higgs.

 

O ser humano (maître et possesseur de Descartes) não se sente parte da natureza, mas seu senhor e dono (dominus), que, nas palavras de Francis Bacon, “deve torturar a natureza como o torturador faz com sua vítima até que ela entregue todos os seus segredos”. Ele é o fundador do método científico moderno, prevalente até os dias de hoje.

 

Esse paradigma entende a Terra como mera res extensa e sem propósito, transformada num baú de recursos, tidos como infinitos que permitem um crescimento/desenvolvimento também infinito. Ocorre que hoje sabemos cientificamente que um planeta finito não suporta um projeto infinito. Essa é a grande crise do sistema do capital como modo de produção e do neoliberalismo como sua expressão política.

 

O outro paradigma é o do frater: o irmão e a irmã de todos os seres humanos entre si e os irmãos e as irmãs de todos os demais seres da natureza. Todos os seres vivos possuem, como Dawson e Crick mostraram nos anos de 1950, os mesmos 20 aminoácidos e as 4 bases nitrogenadas, a partir da célula mais originária que surgiu há 3,8 bilhões de anos, passando pelos dinossauros e chegando até nós humanos. Por isso, diz a Carta da Terra e o enfatiza fortemente o Papa Francisco em suas duas encíclicas ecológicas, Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) e a Fratelli tutti (2020): um laço de fraternidade nos une a todos, ”ao irmão Sol, a irmã Lua, o irmão rio e a Mãe Terra” (LS n.92; CT preâmbulo). O ser humano se sente parte da natureza e possui a mesma origem que todos os demais seres, “o humus” (a terra fértil) de onde se deriva o homo, como masculino e feminino, homem e mulher.

 

 

Se no primeiro paradigma vigora a conquista e a dominação (paradigma Alexandre Magno e Hernán Cortés), no segundo se mostra o cuidado e a corresponsabilidade de todos com todos (o paradigma Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá).

 

Figurativamente representando podemos dizer: o paradigma do dominus é o punho cerrado que submete e domina. O paradigma do frater é a mão estendida que se entrelaça com outras mãos para a carícia essencial e o cuidado de todas as coisas.

 

O paradigma do dominus é dominante e está na origem de nossas muitas crises e em todas as áreas. O paradigma do frater é nascente e representa o anseio maior da humanidade, especialmente aquelas grandes maiorias impiedosamente dominadas, marginalizadas e condenas a morrer antes do tempo. Mas ele possui a força de uma semente. Como em toda semente, nela estão presentes as raízes, o tronco, os ramos, as folhas, as flores e os frutos. Por isso por ele passa a esperança, como princípio mais que com virtudes, como aquela energia indomável que sempre projeta novos sonhos, novas utopias e novos mundos, vale dizer, nos fazem caminhar na direção de novas formas de habitar a Terra, de produzir, de distribuir os frutos da natureza e do trabalho, de consumir e de organizar relações fraternais e sororais entre os humanos e com os demais seres da natureza.

 

 

A travessia de um paradigma do dominus para o paradigma do frater

 

Sei que aqui se põe o espinhoso problema da transição de um paradigma ao outro. Ele se fará processualmente, tendo um pé no velho paradigma do dominus/conquista pois devemos garantir nossa subsistência e outro pé no novo paradigma do frater/cuidado para inaugurá-lo a partir de baixo. Aqui vários pressupostos devem ser discutidos, mas não é o momento de fazer isso. Mas uma coisa podemos avançar: trabalhando o território, o biorregionalismo, se poderá implantar regionalmente o novo paradigma do frater/cuidado de forma sustentável, pois tem a capacidade de incluir a todos e criar mais igualdade social e equilíbrio ambiental.

 

 

Nosso grande desafio é este: como passar de uma sociedade capitalista de superprodução de bens materiais para uma sociedade de sustentação de toda a vida, com valores humano-espirituais intangíveis como o amor, a solidariedade, a compaixão, a justa medida, o respeito e o cuidado especialmente dos mais vulneráveis.

 

O advento de uma biocivilização

 

Essa nova civilização possui um nome: é uma biocivilização, na qual a centralidade é ocupada pela vida em toda a sua diversidade, mas especialmente a vida humana pessoal e coletiva. A economia, a política e a cultura estão a serviço da manutenção e da expansão das virtualidades presentes em todas as formas de vida.

 

O futuro da vida na Terra e o destino de nossa civilização está em nossas mãos. Temos pouco tempo para fazer as transformações necessárias, pois já entramos na nova fase da Terra, seu aquecimento crescente. Falta a suficiente consciência nos chefes de estado sobre as emergências ecológicas e é muito rara ainda no conjunto da humanidade.

 

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