Papa Leão pede “cultura da negociação” em encontro de líderes das Américas do Norte e do Sul

Foto: CNS

Mais Lidos

  • “A rejeição ao PT e à esquerda surge como elemento central de coesão e mobilização de grande parte da população”, afirma o cientista político

    Crise do STF e eleições: entre a deslegitimação da política e a radicalização da extrema-direita. Entrevista especial com Jorge Chaloub

    LER MAIS
  • A polarização política que se observa no país dias antes das eleições pode ser explicada pelo “ressentimento social” de uma “sociedade já devastada e abandonada pela institucionalidade”, diz o economista

    Esperança de futuro promissor foi cancelada: esquerda é gestora fria e extrema-direita oferece bodes expiatórios. Entrevista especial com Daniel Negreiros Conceição

    LER MAIS
  • 13 motivos para votar em Lula. Artigo de Luis Felipe Miguel

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

17 Setembro 2026

Em um mundo marcado por uma polarização e por conflitos cada vez maiores, o papa Leão XIV defendeu o desenvolvimento do diálogo social por meio de uma “cultura saudável da negociação”, capaz de abrir caminhos onde as diferenças parecem fechar todas as possibilidades de encontro.

A reportagem é de Gerard OConnell, publicada por America, 16-09-2026.

Ele destacou a importância dessa “cultura da negociação” em seu discurso, realizado em 12 de setembro, na Sala do Consistório do Vaticano, durante um fórum multinacional de alto nível que reuniu 60 pessoas de diferentes setores da sociedade da América do Norte e da América do Sul. Entre os participantes estavam líderes religiosos, representantes empresariais, bancos de desenvolvimento regionais, organizações trabalhistas nacionais e internacionais, redes universitárias, movimentos populares e organizações comunitárias das Américas.

Ao comentar a diversidade dos participantes, o papa Leão afirmou que a presença deles expressava o desejo de dar continuidade a um diálogo capaz de levar a modelos de desenvolvimento mais humanos, sustentáveis e baseados na solidariedade, que protejam a dignidade de cada pessoa e deem atenção especial àqueles que correm o risco de serem deixados à margem.

Este foi o quarto encontro em estilo sinodal inspirado na encíclica Fratelli Tutti, publicada pelo papa Francisco em outubro de 2020. Os encontros foram iniciados pelas Igrejas da América Latina e do Caribe, em Bogotá, na Colômbia, em 2022, e ganharam força graças à coordenação da Comissão Pontifícia para a América Latina e de sua secretária, Emilce Cuda, teóloga argentina nomeada para o cargo pelo papa Francisco em fevereiro de 2022.

Entre os líderes religiosos presentes estavam dois cardeais brasileiros: Jaime Spingler, presidente da Conferência Episcopal Latino-Americana, e Leonardo Steiner, presidente da Conferência Eclesial da Amazônia. Também participou o bispo Daniel Flores, vice-presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos.

Em uma coletiva de imprensa realizada no Vaticano no dia anterior, o bispo Flores afirmou que esse tipo de encontro lembra que, do ponto de vista católico, a história não é determinada apenas pelas decisões dos poderosos. Segundo ele, outros elementos também movimentam a história, entre eles a amizade social, o senso de justiça e a percepção do que é correto. Para isso, porém, seria necessário dar espaço para que essas vozes fossem ouvidas.

Ao lado dele na coletiva estava Liz Shuler, presidente da AFL-CIO, a maior federação voluntária de sindicatos dos Estados Unidos. Ela fazia parte da forte representação trabalhista no encontro do Vaticano, que também contou com Bea Bruske, presidente do Congresso do Trabalho do Canadá, além de lideranças sindicais dos dois países mais sindicalizados da América Latina: Argentina e Brasil.

Questionada pela revista America sobre o encontro, Shuler afirmou que considerava impressionante a capacidade da Igreja de reunir pessoas de diferentes setores. Segundo ela, normalmente não seria possível colocar todas essas pessoas em uma mesma sala sem a intervenção pessoal de líderes da Igreja.

Ela também destacou a encíclica Magnifica Humanitas como um importante sinal em defesa da dignidade das pessoas e da necessidade de construir sistemas que coloquem os seres humanos no centro. Para ela, diante dos grandes desafios, é necessário garantir a participação de pessoas que frequentemente não têm voz nos processos de decisão.

A participação dessas pessoas também ocorreu no encontro. Como papa, Francisco e, posteriormente, o cardeal Prevost — hoje Leão XIV — haviam defendido sua presença. Suas preocupações foram representadas por integrantes dos chamados “movimentos populares” e por líderes de organizações comunitárias.

Joe Rubio, da Industrial Areas Foundation, afirmou à America que o encontro abordou temas graves, como as mudanças climáticas, as transformações provocadas pela inteligência artificial e a extrema desigualdade de riqueza. Segundo ele, porém, o principal desafio era construir relações de confiança entre setores que tradicionalmente não trabalham juntos.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

Rubio acrescentou que a continuidade do diálogo social pode estimular a imaginação coletiva para construir uma sociedade mais justa. Para ele, o sucesso desse processo depende fundamentalmente da inclusão daqueles que sofrem diretamente com as grandes transformações sociais, como trabalhadores vulneráveis, imigrantes e comunidades marginalizadas.

Também foi considerada importante a presença de empresários no encontro do Vaticano, entre eles Fred Humphries, da Microsoft; Leandro Gobbo, da PLS, uma das maiores produtoras mundiais de lítio de rocha dura; e Nicolas Mallo Huergo, da Integra Capital. Representantes das Câmaras de Comércio dos Estados Unidos também participaram.

As redes universitárias também estiveram representadas, entre outros, por Anderson Pedroso S.J., presidente da Organização das Universidades Católicas da América Latina e do Caribe.

No terceiro e último dia do encontro, chamado “Fratelli Tutti: diálogo socioambiental Norte-Sul”, o papa Leão encontrou-se individualmente com cada um dos participantes.

Em seu discurso, proferido parcialmente em espanhol e parcialmente em inglês, ele os incentivou a se deixar interpelar pelos sinais dos tempos e a incorporar as contribuições das ciências, das culturas e das experiências humanas para identificar possíveis caminhos. Também destacou que a negociação faz parte desse trabalho e de uma “política melhor”, capaz de buscar o bem comum acima dos interesses particulares.

O quarto encontro teve como objetivo abordar a situação socioambiental da América, marcada, segundo o Global Campus on Human Rights, por grande vulnerabilidade climática, conflitos crescentes relacionados aos recursos naturais e profundas desigualdades socioeconômicas que atingem de maneira desproporcional comunidades marginalizadas e indígenas. Os participantes buscaram formas de responder a esse cenário por meio do diálogo social entre os diferentes setores envolvidos, ouvindo tanto o “clamor dos pobres” quanto o “clamor da terra”.

O papa Leão afirmou que, quando instituições públicas, empresas, trabalhadores, universidades, comunidades e organizações sociais compartilham conhecimentos, habilidades e recursos em favor do bem comum, dão forma concreta a uma convicção que vem amadurecendo na doutrina social da Igreja: os grandes desafios sociais exigem responsabilidade compartilhada, participação e colaboração entre os diferentes setores da sociedade. Ele lembrou que o papa Francisco se referia a isso como “amizade social”.

Emilce Cuda explicou à America que o conceito de “amizade social” é chamado de “diálogo social” no mundo secular. Segundo ela, o diálogo social é uma negociação que resulta em um acordo coletivo e, portanto, exige saber negociar. Ela lembrou ainda que Leão XIV, na encíclica Magnifica Humanitas, fala sobre a necessidade de promover uma cultura da negociação.

Em seu discurso, o primeiro papa americano destacou que uma agenda de responsabilidade compartilhada pode impedir que diferenças legítimas levem à fragmentação. Segundo ele, a experiência sinodal da Igreja demonstrou que ouvir verdadeiramente as diferenças não significa diluí-las, mas aprender a discerni-las e buscar, a partir delas, aquilo que pode contribuir para o bem comum.

Ele ressaltou que esse exercício é especialmente necessário em um momento em que discursos polarizados ganham repercussão imediata e em que o confronto pode facilmente se transformar em instrumento de poder.

Em um momento em que crescem as preocupações sobre uma inteligência artificial que corre o risco de escapar ao controle humano, Leão XIV retomou o que havia afirmado na encíclica Magnifica Humanitas sobre a necessidade de orientar a IA e as novas tecnologias com planejamento e responsabilidade: por instituições capazes de regulamentar sem sufocar e proteger sem assumir o controle; por empresas que reconheçam o trabalho e a dignidade como medidas de sucesso; por organizações intermediárias e comunidades educacionais que reconstruam a confiança e os vínculos; e por cidadãos que cultivem responsabilidade, moderação, discernimento e compromisso com a verdade.

Na encíclica Magnifica Humanitas, o papa Leão havia mencionado o profeta Neemias, que, diante de uma Jerusalém em ruínas, ouviu o sofrimento de seu povo, levou-o a Deus, discerniu o que precisava ser feito, buscou os recursos necessários e organizou um projeto que só poderia ser realizado com a participação de muitas pessoas.

Em seu discurso, ele propôs que os participantes seguissem esse exemplo. Incentivou-os a entrar nos “canteiros de obras da história” — laboratórios de pesquisa, empresas de tecnologia, escolas, meios de comunicação, instituições e comunidades locais — para reconstruir aquilo que desmoronou e proteger aquilo que está ameaçado.

Ele reforçou que a “negociação” faz parte desse trabalho e de uma “política melhor”, capaz de buscar o bem comum acima dos interesses particulares. Também incentivou os participantes a cultivar uma “cultura saudável da negociação”, capaz de abrir caminhos onde as diferenças parecem fechar todas as possibilidades de encontro. Dessa forma, afirmou, eles também poderão contribuir para a diplomacia da paz de que o mundo necessita.

Comentando o encontro no Vaticano, o cardeal Steiner afirmou à America que o mundo vive um período de grande necessidade de diálogo, escuta e busca pelo que é melhor para a humanidade. Para ele, a diversidade não é um problema; o problema surge quando as pessoas se tornam inimigas. O cardeal avaliou que a forma de diálogo promovida pelo encontro pode contribuir para uma reflexão conjunta sobre a humanidade, as comunidades e os países.

Nesse contexto, o cardeal brasileiro afirmou que a Igreja tem algo a dizer a todos e que, como Igreja, deve expressar sua posição. Segundo ele, independentemente de essa posição ser aceita ou não, o que mais chamou sua atenção no encontro foi o desejo de ouvir. Para Steiner, trata-se de um caminho e de um início para uma forma mais harmoniosa e fraterna de convivência.

Este foi o quarto encontro de um ciclo de reuniões em estilo sinodal entre Norte e Sul, iniciado durante o pontificado de Francisco e continuado por Leão XIV. Segundo o texto, esses encontros construíram diversas pontes, mas ainda resta saber quais serão os próximos caminhos desse projeto.

Leia mais