O diálogo entre o Norte e o Sul do mundo, resposta às injustiças e também a Trump. Entrevista com D. Jaime Spengler

Jaime Spengler | Foto: Assessoria de Imprensa da Cúria Metropolitana de Poa

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16 Setembro 2026

"Estou convencido de que, em tempos tão complexos da nossa história, devemos reunir as melhores forças do Norte e do Sul do mundo. Com um objetivo preciso: tornar possível uma vida melhor para todos, não apenas para alguns." O Cardeal Jaime Spengler clama pela amizade social entre os povos", diz Jaime Spengler em entrevista a Giacomo Gambassi, correspondente do Vaticano, publicado por Avvenire, 13-09-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

A começar por aqueles de todo o continente americano. O objetivo é garantir que a "humanidade magnífica enfrente, com senso de responsabilidade, as consequências da crise socioambiental que afeta todo o planeta e que reverbera principalmente sobre os mais pobres", acrescenta o Arcebispo de Porto Alegre, Brasil, que preside o CELAM, o Conselho que reúne as conferências episcopais da América Latina e do Caribe.

A Igreja dá o exemplo. Como testemunha o encontro sinodal "Fratelli Tutti: Diálogo Socioambiental Norte-Sul", realizado em Roma ao longo de três dias e encerrado ontem com uma audiência com o Papa. O CELAM e a Conferência Eclesial da Amazônia uniram-se à Conferência episcopal dos Estados Unidos. Representantes do mundo do trabalho e da sociedade civil da América do Sul juntaram-se aqueles dos EUA. Os representantes das redes universitárias de ambos os hemisférios lado a lado.

O evento faz parte de uma iniciativa de cinco anos nascida na esteira da terceira encíclica do Papa Francisco e que visa servir como um laboratório de fraternidade continental em um momento em que as tensões entre as nações estão aumentando. Seu objetivo: traçar uma agenda comum baseada na cooperação multissetorial. Partindo de questões que afetam a vida cotidiana: o impacto da inteligência artificial, a dignidade humana, a transição energética, a proteção do trabalho e dos territórios.

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Temas caros a Leão XIV. "O Papa Leão", explica o Cardeal, um frade franciscano menor de 66 anos, "lembra-nos, em sua encíclica Magnifica Humanitas, que toda geração herda a tarefa de moldar o seu próprio tempo: de permitir que a história amadureça e se torne lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça seja promovida e a fraternidade seja tornada possível. Onde quer que a humanidade corra o risco de perder o seu rosto, nós, cristãos, somos chamados a um engajamento ativo. Trata-se de reunir as vozes e as vontades de mulheres e homens, bem como de instituições e organismos sociais, dispostos a discernir juntos, com coragem, e a construir caminhos rumo a um futuro digno e justo para todos."

Eis a entrevista

Eminência, a Igreja possibilita o encontro entre a América do Sul e os Estados Unidos em prol do desenvolvimento integral. Uma resposta ao presidente Donald Trump, cuja abordagem neocolonial quer colocar as mãos sobre a América Latina, como demonstra o ataque à Venezuela?

Usando um eufemismo eu descreveria a política dele de ‘estranhante’. Vivemos uma crise das democracias. Como podemos enfrentá-la? Também estamos vivenciando essa transição em nosso continente; é um momento difícil. Por isso, pergunto-me: como podemos promover uma consciência política e um senso de corresponsabilidade para que todos, inclusive nas Américas, possam verdadeiramente desfrutar dos frutos da terra? As ações do governo dos EUA certamente suscitam preocupação, uma vez que não são respeitadas nem as diferenças nem o princípio da justiça. Ao mesmo tempo, porém, pergunto-me se a abordagem do presidente estadunidense decorre de uma escolha pessoal ou se ele age em nome e por conta de outros, como as multinacionais e o grande capital. Inclino-me para esta última hipótese, ou seja, que suas decisões são condicionadas por grupos poderosos que operam nas sombras.

Ao retornar de sua viagem à África, em abril, o Papa conclamou as nações ricas a mudarem suas relações com os países do Sul. A Igreja pretende apontar o caminho?

Certamente. Penso no que tivemos a oportunidade de viver no ano passado durante a COP30 no Brasil, a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, que foi algo extraordinário. A presença da Igreja foi reconhecida como uma força motriz capaz de incidir sobre escolhas reais. Mobilizamos as nossas comunidades e o nosso povo, mas também os atores que compõem a sociedade." Foi uma experiência rica, e acredito que não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar o que conquistamos. Devemos fazer avançar o diálogo com humildade. Ninguém detém as respostas para as urgências contemporâneas. O horizonte da história depende da disposição de se escutar e de dialogar, tendo em vista o bem comum. O desafio reside em construir pontes entre os países, abrir espaços para o Sul Global com o envolvimento do Norte Global e promover uma cultura da convergência.

O Papa tem denunciado repetidamente, inclusive ontem, durante a audiência com vocês, a polarização que atravessa o mundo e as sociedades. O senhor está preocupado?

A palavra ‘polarização’ não me agrada particularmente. No sentido de que as nossas vidas são acompanhadas por dicotomias: falamos, por exemplo, de corpo e alma, de fé e razão, de céu e terra. É certamente verdade que esse termo reflete os tempos em que vivemos. Quando as pessoas não estão mais dispostas a ir ao encontro do outro e talvez ajudá-lo, quando nos fechamos em nossos próprios mundos e a lógica do conflito prevalece, o perigo torna-se tangível. E a única resposta possível é a solidariedade.

Existe polarização também dentro da Igreja?

Certamente. Temos grupos, como ocorreu recentemente, que se recusam a caminhar com Pedro. Isso causa tristeza, pois revela a prevalência do fechamento das mentes e dos corações.

Em novembro, o Papa visitará a Argentina, o Uruguai e o Peru, incluindo a região amazônica. Como o senhor interpreta essa viagem apostólica?

Como um motivo de grande alegria para todos os povos da América Latina. Imagino também a felicidade especial de retornar a Chiclayo, a diocese peruana onde ele atuou como bispo missionário, uma alegria para o próprio Papa, mas também para a população local, uma região marcada por uma situação complexa.

O que esperamos da visita? Imagino que o Pontífice venha para confirmar e apoiar o caminho que a Igreja na América Latina vem trilhando há anos. Ele conhece bem a nossa realidade; está ciente de nossas necessidades e das potencialidades que temos; conhece as esperanças e as dores dos nossos povos. E as nossas Igrejas estão ao seu lado.

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