O Estado bunker e as resistências de baixo

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05 Setembro 2026

“O Estado bunker (ou fortaleza) é uma mudança estrutural e, portanto, veio para ficar por muito tempo e, sobretudo, não depende de quem ocupa o governo, pois atravessa todos eles. Paralelamente, a adoção de uma nova cultura política pelas e pelos de baixo organizados exige muito tempo, provavelmente décadas, senão mais de um século, como assinalam os zapatistas”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 04-09-2026.

Eis o artigo.

O desenvolvimento de novas ideias é útil para o campo popular em resistência quando consegue iluminar questões que antes pareciam pouco claras, pois, desse modo, nos permite aperfeiçoar os caminhos a seguir. O recente trabalho da pesquisadora Nel Bonilla, especializada em sociologia das migrações e no estudo dos conflitos, pertence a essa categoria, pois consegue lançar luz sobre os projetos em curso entre as classes dominantes do mundo.

Tendo como base a recente Cúpula da OTAN em Ancara, ela revisita os três estágios percorridos pela aliança atlântica desde sua formação até a atualidade, as enormes transformações industriais e o fim das soberanias, para concluir que os poderes globais apontam para a guerra, construindo aquilo que ela chama acertadamente de Estado bunker. Vou me concentrar apenas nesse aspecto porque ele desnuda as insuficiências das organizações de baixo, assim como suas ilusões “democráticas” e de “conquista de direitos”, para poder refletir em profundidade sobre o que estamos fazendo.

O texto que comento intitula-se OTAN 3.0: La jaula transatlántica y el auge del Estado búnker. Ela o define como “uma transformação qualitativa do Estado moderno no núcleo imperial”. O Estado deixa de ser um provedor de bens públicos para se orientar “inteiramente para a securitização e a militarização”. Nesse novo modelo, “a população não é mais considerada cidadã com direitos civis e econômicos, mas principalmente objeto da segurança nacional. Além disso, o país e a região se tornam nós operacionais de uma rede mais ampla, com o propósito de travar uma guerra híbrida multidomínio contra os chamados competidores estratégicos e seus aliados”.

Bonilla chama essa transformação de “O bunker e o vazio”: o primeiro simboliza “a mentalidade de fortaleza e o planejamento securitário (prioridade da segurança em termos militares e pré-bélicos) que reorganiza o Ocidente”. Por sua vez, o vazio “representa a erosão do projeto civil, do bem comum e do espaço democrático”. Esses conceitos buscam constituir um quadro analítico para explicar “o fortalecimento obsessivo de estruturas de segurança, planejamento militar e controle, acompanhado pelo esvaziamento paralelo do espaço civil, democrático e social”.

Nós que vivemos na América Latina sabemos que se trata apenas de uma leitura da realidade que nos oprime e dilacera. Acrescento mais dois elementos para prosseguir: em primeiro lugar, uma separação e um isolamento profundos dos governos e das estruturas de poder em relação às necessidades reais das sociedades ocidentais; em segundo lugar, os confrontos geoestratégicos em curso e a crescente fragilidade do Ocidente, que levam as elites a uma preparação permanente para o conflito militar.

O primeiro é resultado da crescente força do campo popular (indígena, negro, camponês, popular), que explica esse divórcio entre povos e governos. O segundo responde à ascensão da China e da Ásia em geral, que desafiam a hegemonia do Ocidente. A resposta, em ambos os casos, é a guerra, desde as “guerras contra as drogas” até as guerras interestatais, com a ameaça do uso de armas nucleares, como vem sendo ventilado nesses dias a céu aberto, não mais nos bastidores. O povo palestino é a primeira vítima global desse novo militarismo belicista.

A pergunta é: o que vamos fazer nesse mundo dominado por Estados bunker e pela multiplicação de guerras e genocídios?

A primeira coisa a constatar é que a velha caixa de ferramentas dos movimentos (greves, acampamentos, marchas, eleições) tornou-se completamente obsoleta, o que não significa que algumas dessas ferramentas não devam ser utilizadas em determinados casos. O problema é quanta força depositamos nas demandas dirigidas a um Estado que agora é uma fortaleza e que, no fundamental, responde apenas com exclusão e violência, embora mantenha uma fachada “democrática”. Constato que, por inércia, continuamos pensando em termos de “direitos” e acreditando em possíveis respostas positivas das autoridades às nossas demandas.

O segundo ponto é pensar a longo prazo. O Estado bunker (ou fortaleza) é uma mudança estrutural e, portanto, veio para ficar por muito tempo e, sobretudo, não depende de quem ocupa o governo, pois atravessa todos eles. Paralelamente, a adoção de uma nova cultura política pelas e pelos de baixo organizados exige muito tempo, provavelmente décadas, senão mais de um século, como assinalam os zapatistas.

O terceiro ponto, e o central, é que já existem traços dessa nova cultura política que está sendo tecida com base nas autonomias territoriais, em particular pelos povos originários, mas não apenas por eles, que organizam autodefesas e autogovernos para sobreviver como povos. Uma das grandes dificuldades para a expansão das autonomias é que elas permanecem majoritariamente confinadas às áreas rurais, com muito pouca projeção urbana.

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