08 Agosto 2026
“Algo muito profundo está acontecendo em nossas sociedades, que vai além do medo paralisante. As sociedades foram dilaceradas, destruídas enquanto tais, o que impede reconhecer o vizinho, o amigo ou até mesmo o familiar como aliado na resistência ao modelo que nos é imposto”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 07-08-2026.
Eis o artigo.
Ao longo da história, os poderosos sempre legitimaram sua dominação vinculando-a a deuses, a invasores reais ou imaginários e ao combate a inimigos apresentados como ameaças terríveis, desde outras religiões até o comunismo e o tráfico de drogas. Mais recentemente, porém, passaram a justificar-se apelando ao desenvolvimento e ao crescimento econômico, que permitiriam superar a pobreza e o atraso. Os argumentos vão mudando segundo os lugares e os tempos, adequando-se às crenças e aos problemas reais enfrentados pelas sociedades. Esse é o caminho para estabilizar regimes e minimizar as resistências e rebeliões dos povos.
Segundo o economista e analista geopolítico José Luis Fiori, isso mudou radicalmente neste momento de crise global. Embora a intervenção dos Estados Unidos na América Latina seja evidente sob o governo Trump, não se trata de algo novo. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos promoveram 72 intervenções diretas e mudanças de regime no mundo e participaram de 18 golpes de Estado, em nossa região, entre 1952 e 1973.
O que é realmente novo, analisa Fiori, é o apoio à extrema direita “sem propor ou oferecer qualquer tipo de projeto, estratégia ou utopia de desenvolvimento nacional em caso de vitória de seus candidatos” (aterraeredonda.com.br, 16-07-2026). Em contraste, durante o período do “combate ao comunismo”, os governos militares promoveram o desenvolvimento, como testemunham as obras de infraestrutura e o impulso industrial sob as ditaduras do Brasil e da Argentina, entre outras.
Anos depois, nas décadas de 1980 e 1990, a proposta dos centros de poder do Norte foi a globalização, as reformas neoliberais e a guerra contra o terrorismo. Agora, prossegue Fiori, “o único projeto proposto pela administração de Donald Trump a seus seguidores é o da caça aos traficantes de drogas e aos imigrantes ilegais e, sempre que possível, seu confinamento em campos de concentração ao estilo de Nayib Bukele, em El Salvador”.
Ele sustenta que essa ausência de projeto, sustentada apenas pela repressão e pelo desmonte dos estados, sem sequer contar com a ajuda não militar ou policial de Washington, exceto no caso da Argentina, estaria provocando rupturas internas e “convulsão social”. Mais ainda, os novos estados vassalos também foram penalizados com tarifas alfandegárias e, no caso da Venezuela, nem sequer chegou ajuda humanitária após o terremoto.
O objetivo parece ser criar pequenos estados irrelevantes no cenário global e regional, isolados, com economias primário-exportadoras, incapazes de desempenhar um papel significativo para além de suas fronteiras.
A análise de Fiori é inteiramente correta. A dominação apresenta-se agora de forma desnuda, apoiada no medo dos fuzis, dos desaparecimentos e das torturas, somando-se ao fato de que o mal denominado tráfico de drogas é um mecanismo de controle das sociedades, que já se encontram paralisadas pelos mais diversos mecanismos de coerção. No entanto, penso que há um ponto que precisa ser abordado de maneira mais profunda: por que não existem levantes populares à altura da gravidade da situação? Vemos apenas resistências locais, valiosas, mas insuficientes para deter Milei, Bukele, Noboa, De la Espriella, a leva de ditadores surgidos das urnas.
Algo muito profundo está acontecendo em nossas sociedades, que vai além do medo paralisante. As sociedades foram dilaceradas, destruídas enquanto tais, o que impede reconhecer o vizinho, o amigo ou até mesmo o familiar como aliado na resistência ao modelo que nos é imposto. Os dados são alarmantes. Em um país onde predominaram as classes médias, como a Argentina, “metade dos jovens entre 18 e 29 anos vive em situação de vulnerabilidade social, o que demonstra claramente que a educação e o trabalho deixaram de ser os instrumentos históricos de promoção e ascensão social, em um país marcado por divisões dolorosas e profundas” (Pelota de Trapo, 31-07-2026).
Esses jovens são os que flertam com a ideia do suicídio, além de serem aqueles que “não conseguiram concluir o ensino médio, que não têm acesso a um emprego digno e que já não sabem qual é o caminho para essa busca”. São também atraídos pelo tráfico de drogas, porque ninguém lhes oferece um futuro melhor.
Minha hipótese é que sociedades dilaceradas e desorientadas não conseguem resistir às agressões que sofrem, o que desenha um panorama desolador, ao menos no curto prazo. Seria muito longo detalhar como chegamos a esse ponto, mas certamente se trata de uma extensa lista que vai do consumismo como “mutação antropológica” (Pasolini) às guerras contra as drogas, aos massacres e genocídios como formas de disciplinamento e às políticas sociais estatais. E mais, muito mais, entre os quais se destacam a crise da saúde, da educação e do emprego.
Por isso, trata-se de erguer o olhar, perscrutar o horizonte para compreender que estamos apenas no início de um ciclo terrível para os povos. Nada de importante conseguiremos se nos limitarmos aos calendários eleitorais.
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