01 Setembro 2026
A Rússia está aterrorizando grande parte do resto da Europa com atos que não podem ser descritos como acidentes, nem como uma resposta a supostos ataques recebidos.
A reportagem é de Jesús A. Núñez Villaverde, publicado por El País, 31-08-2026.
A Rússia que, em julho de 1997, por meio do então primeiro-ministro Viktor Chernomyrdin, expressou abertamente seu interesse em aderir à União Europeia é a mesma Rússia que nos ameaça hoje. Como a Ucrânia bem sabe, está claro que a postura desafiadora de Moscou põe em risco a segurança do restante do continente, seja por meio de drones carregados com explosivos no Aeroporto de Leipzig, ciberataques contra sistemas críticos, incêndios e explosões em centros de logística e fábricas de armamentos, campanhas de desinformação para influenciar eleições, sobrevoos de caças violando o espaço aéreo dos 27 Estados-membros ou incursões de navios de todos os tipos em suas águas territoriais. Esses são, no mínimo, atos hostis característicos de uma estratégia híbrida que busca, simultaneamente, detectar as vulnerabilidades de seus vizinhos e avaliar suas capacidades técnicas e seu nível de vontade política para responder a cada nova provocação.
Foi Vladimir Putin, na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2007, quem sinalizou o fim da reaproximação com Bruxelas, criticando tanto as ambições hegemônicas dos EUA quanto a expansão da OTAN para o leste, que ele interpretou como uma ameaça à segurança russa. Deve-se reconhecer que, sem diminuir a responsabilidade daqueles que violaram o direito internacional ao invadir a Ucrânia, Washington também compartilha a responsabilidade por perturbar perigosamente o equilíbrio de segurança europeu com decisões altamente controversas. Entre elas, sob a perspectiva da invasão da Ucrânia (2022), destacam-se: a retirada do Tratado de Mísseis Antibalísticos (2002), do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (2019) e do Tratado de Céus Abertos (2020); o convite à Geórgia e à Ucrânia para aderirem à OTAN (2008); e a implantação do escudo antimíssil na Romênia (2011) e na Polônia (2016). Tudo isso sem levar em consideração as consequências que poderiam surgir de uma Rússia que de forma alguma permaneceria passiva diante do que definia como um cerco e um desrespeito aos seus legítimos interesses de segurança.
Sem possibilidade de retrocesso ou de se perder em debates sobre o que veio primeiro, o ovo ou a galinha, o que importa é que a ordem de segurança europeia entrou em colapso e mergulhou numa dinâmica de tensão crescente, alimentada, sobretudo, por Moscou. Nem a Ucrânia planejou invadir a Rússia, nem a UE ou qualquer um de seus membros cogitou tal ideia (um pesadelo, na verdade). É a Rússia que demonstra, cada vez mais, uma atitude que apenas a linguagem politicamente correta minimiza como assertiva, quando na realidade é profundamente agressiva. Tudo indica que o objetivo de Putin não é meramente defender a Rússia de agressões externas dentro de suas fronteiras atuais, mas sim recriar o cenário geopolítico da Guerra Fria, assegurando mais uma vez zonas de amortecimento em suas vizinhanças oriental e ocidental (ou seja, submetendo seus vizinhos aos seus ditames).
Com a Ucrânia, ele já demonstrou que não hesita em usar a força bruta. Mas, diante do inegável desastre de sua “operação militar especial” contra um país que ele erroneamente considerava quase derrotado, Putin sabe que fazer algo semelhante contra um país da UE-OTAN não é uma opção realista. Portanto, ele opta por uma guerra híbrida, com ações que tentam evitar uma resposta militar enquanto sonha em expandir sua influência na região e testar a solidariedade dos membros da UE (e da OTAN). Resta saber, em todo caso, se essas ações visam apenas a estrangular aliados e adversários para que cessem o apoio a Kiev, o que, segundo seus cálculos, lhe permitiria forçar Zelensky e seus aliados a se renderem, ou se vão além, buscando ganhos territoriais dentro da própria UE, ou pelo menos trazendo os antigos “estados satélites” de volta ao seu controle. Isso testaria os limites do Artigo 5 da OTAN e do Artigo 42.7 do Tratado da União Europeia em relação à defesa coletiva.
O que fica claro é que a Rússia está aterrorizando grande parte do resto da Europa com atos que não podem ser descartados como acidentes, nem como respostas a supostos ataques (um argumento russo recorrente usado para justificar a punição da Ucrânia). Essas são ações predeterminadas, destinadas a convencer os europeus de que seu apoio a Kiev não só é inútil, como também os torna alvos diretos de ataques russos. Indo além, dar crédito a narrativas fantasiosas sobre uma iminente invasão russa dos Estados Bálticos ou da Polônia é esquecer tanto o fiasco que já está vivenciando na Ucrânia quanto o fato de que nem sua economia, nem sua base industrial, nem suas forças armadas estão em condições de desafiar a UE, por mais que Washington envie sinais que lancem dúvidas sobre a força do vínculo transatlântico.
A questão, portanto, é que tipo de resposta pode ser dada ao desafio apresentado por essa estratégia. Por ora, tendo a OTAN como referência, a maior parte da resposta europeia consiste na aceitação acrítica da imposição, pelos EUA, de um aumento nos gastos com defesa para 5% do PIB. É surpreendente, em primeiro lugar, que essa meta não tenha se originado em Bruxelas, mas em Washington, quando os mais afetados são, sem dúvida, os países europeus. Além disso, considerando que os gastos com defesa combinados da UE e do Reino Unido já são quase quatro vezes maiores que os da Rússia, sem que isso tenha dissuadido Putin de intensificar sua agressão, não há garantia de que ampliar ainda mais essa disparidade seja mais eficaz.
A guerra híbrida se desenrola precisamente abaixo do limiar que desencadeia uma resposta militar; portanto, por mais impressionante que seja o poderio militar dos 27 estados-membros, é ilusão acreditar que isso dissuadirá Putin. Escolher esse caminho pode ser benéfico para a indústria de defesa (especialmente a americana), mas não se traduz em maior segurança do que já temos. A chave, mais uma vez, é reunir recursos combinando as capacidades políticas, orçamentárias, industriais e militares existentes, bem como planejar e executar conjuntamente os projetos necessários para sanar nossas deficiências. Mas, para alcançar isso, não precisamos aumentar substancialmente nossos gastos com defesa.
Chegar a esse ponto, o que exige uma vontade política atualmente inexistente, deve ser acompanhado por um esforço coletivo que abrace a filosofia de “resposta flexível”, estabelecida pela OTAN em 1967. Isso implica em nos equiparmos com meios confiáveis para responder adequadamente a cada nível de ameaça escolhido pelo inimigo. E se agora estamos envolvidos em uma guerra híbrida, devemos nos perguntar se possuímos meios suficientes para neutralizar a agressão russa sem recorrer ao aumento de nossa força militar. Aos olhos de Putin, o envio de tropas suecas para a Finlândia ou a ida do diretor da CIA a Moscou são meras notas de rodapé. Seria muito mais eficaz nos concentrarmos em projetar uma imagem de unidade e prontidão operacional com o que já temos e em fortalecer os mecanismos de dissuasão (mais por meio de decisões políticas para compartilhar recursos do que por meio de novos programas de armamento).
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