Brasil, uma nova terra prometida para os cubanos

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31 Agosto 2026

As autoridades brasileiras processaram 90 mil pedidos de asilo desde o aumento das chegadas após 2025, devido ao fechamento da fronteira com os EUA.

A reportagem é de Naiara Galarraga Gortázar, publicada por El País, 31-08-2026.

A chegada de cubanos ao Brasil disparou após 2025, em paralelo com a deterioração implacável das condições de vida na ilha caribenha. O que começou como um pequeno fluxo de chegadas por uma rota perigosa através da Amazônia se transformou em um influxo crescente, colocando-os no topo da lista de pedidos de asilo, superando em muito os venezuelanos. As autoridades brasileiras estão processando mais de 90.000 pedidos de asilo de cubanos, incluindo 35.000 apresentados nos primeiros sete meses de 2026.

As causas profundas desse fenômeno residem em diversos países, na situação catastrófica da própria Cuba, mas também nos Estados Unidos, na Nicarágua e na Guiana. Surpreendentemente, o destino preferido dos cubanos nessa nova terra prometida é o sul do país, o Brasil, mais frio, mais branco e menos desigual. Muitos chegam com empregos já garantidos.

Após quase uma década marcada pelo êxodo venezuelano na fronteira amazônica, os cubanos agora representam cerca de 85% dos assistidos pelo Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS). Nesta quarta-feira, 110 cubanos passaram pelo centro de triagem em Boa Vista, capital brasileira mais próxima da fronteira com a Guiana. É lá que representantes da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e da organização jesuíta ouvem suas necessidades, explicam seus direitos e os serviços disponíveis, e oferecem orientação profissional. “Eles chegam perdidos, só sabem que querem obter seus documentos”, explica Luis Hoyos, da equipe do JRS, em entrevista por telefone de Boa Vista.

“Agora, são principalmente empresários, profissionais liberais, contadores e funcionários de empresas estatais”, acrescenta. Mas o perfil está mudando. No início do ano, houve um aumento significativo de profissionais da saúde. Também houve um período em que chegaram principalmente mulheres com filhos e idosos; esposas e pais dos pioneiros, que, já estabelecidos, enviaram-lhes passagens aéreas.

Os cubanos têm se voltado para o Brasil, um país de língua portuguesa, impulsionados pela ofensiva do presidente Trump de transformar os Estados Unidos em um bastião hostil para praticamente qualquer estrangeiro que não seja um sul-africano branco. Mas também pela decisão da Nicarágua, implementada em fevereiro passado, de exigir vistos para cubanos, fechando assim uma das principais rotas da ilha para os EUA. Isso aumentou o interesse na Guiana, que compartilha uma fronteira terrestre com o Brasil e permanece entre os poucos países do mundo que não exigem vistos para cubanos.

A rota mais comum começa com um voo de Havana para Georgetown. Da capital da Guiana, eles viajam por terra através da floresta amazônica até o rio Tacutu, que marca a fronteira. Atravessam o rio de barco e continuam de van até Boa Vista.

Após obterem a documentação inicial brasileira em Boa Vista, os solicitantes de asilo têm praticamente os mesmos direitos que os cidadãos brasileiros, com exceção do direito ao voto e ao serviço militar. “Eles têm acesso a saúde, educação e podem abrir uma conta bancária”, explica Hoyos, oficial de regularização do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) em Boa Vista. Essa ONG planeja ter uma pessoa que fale espanhol no posto da polícia de fronteira a partir de setembro para facilitar a barreira linguística inicial enfrentada pelos recém-chegados.

Os cubanos muitas vezes demonstram inicialmente relutância em buscar refúgio, acreditando erroneamente que isso significa ficar confinado a um abrigo.

A grande maioria deixa Boa Vista assim que pode, rumo a cidades com maior demanda por mão de obra. “Muitos chegam com emprego garantido por algum parente”, destaca Hoyos, acrescentando que são trabalhadores muito requisitados. Além de ser a maior economia da América Latina, o Brasil possui o maior e mais completo sistema público de saúde do mundo. Aqui, ficar doente não representa um risco significativo para as finanças familiares.

O caso de Yumara Bolaños, de 47 anos, é atípico porque ela veio em busca do tratamento médico que o sistema de saúde cubano, em colapso, não oferecia mais à sua filha, que sofre de insuficiência renal crônica. Ela aponta o idioma como o aspecto mais difícil do processo de adaptação. Sua vida e a de sua família passaram por "uma mudança profunda", diz ela ao telefone. "A menina melhorou consideravelmente; ela tem a medicação de que precisa", explica da cidade de Florianópolis, no sul do país, para onde chegaram por ser um hospital de referência para doenças renais.

Depois de muitos anos em casa cuidando da filha, Bolaños conseguiu um emprego como caixa de supermercado. Seu marido trabalha no mesmo estabelecimento, carregando e descarregando mercadorias.

Ela está encantada, apesar do clima e das características locais serem bem diferentes dos de Cuba. "Embora algumas pessoas sejam um pouco reservadas, a recepção tem sido maravilhosa. Não sofri nenhuma discriminação; eles até nos deram sacolas de comida quando precisamos."

Curitiba, cidade do sul conhecida por sua qualidade de vida e sistema de transporte, tornou-se um destino predileto dos cubanos. Ou “a nova Miami”, como a chamam em tom de brincadeira.

O que Bolaños não entende muito bem é por que seu pedido de asilo pode levar anos, enquanto os de seus colegas venezuelanos são processados ​​em meses.

O Brasil está atualmente processando 157 mil pedidos de asilo, dos quais mais de 90 mil são de cubanos. Esses pedidos são tratados pelo processo padrão, ou seja, cada caso é analisado individualmente; o processo acelerado, disponível para aqueles que chegam da Venezuela, Síria ou Afeganistão, não é oferecido. Essa via acelerada se deve à crença do Brasil de que, nesses três países, "as violações dos direitos humanos são graves e generalizadas", explica o representante do Serviço Jesuíta aos Refugiados. Cuba não se enquadra nessa categoria. De qualquer forma, a documentação desses solicitantes permite que comecem a trabalhar desde o primeiro dia.

Os cubanos também precisam organizar suas próprias transferências para outros países, diferentemente dos venezuelanos, cujo governo brasileiro possui um programa de internalização. Esse programa distribui os migrantes para outros países a fim de facilitar o acesso ao emprego e sua integração social.

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